O Grupo de Reflexão para a Avaliação do Impacto Social (GRAIS) apresentou, esta semana, no Museu da Electricidade, as “Linhas de Orientação para Investidores e Financiadores Socialmente Responsáveis”. Este documento tem como principal objectivo fornecer um conjunto de conceitos e princípios que permitem avaliar o impacto social em Portugal, para que os agentes tomem melhores decisões e aproveitem melhor os recursos disponíveis
POR
MÁRIA POMBO

Portugal vive, actualmente e desde há algum tempo, uma época que combina o crescimento das necessidades sociais com a escassez de recursos, motivada pela tão falada e debatida crise financeira. Esta realidade resultou, ano após ano, numa “complexificação dos problemas sociais”, a qual criou uma necessidade acrescida de “formação de recursos humanos e capacitação dos dirigentes e voluntários” que antes não se sentia.

Por este motivo, aumentou a preocupação com o impacto que os apoios das empresas terão, em particular nas instituições que financiam e na sociedade em geral. Os investidores pretendem, hoje em dia, garantir a maximização do valor investido e apoiar projectos que realmente tenham utilidade e ofereçam reais benefícios a quem usufrui dos mesmos. É, por isso, urgente criar ferramentas que permitam às empresas avaliar esse impacto, definindo parâmetros de actuação para que estas possam escolher, de forma mais consciente e informada, as iniciativas que “apadrinham”, o tipo de apoio que prestam, bem como a forma como o fazem, antecipando adequadamente o seu resultado final.

Foi com o objectivo de reflectir sobre a problemática da avaliação de impacto social que, há cerca de um ano e após vários meses de reuniões e workshops, se formou o Grupo de Reflexão para a Avaliação do Impacto Social (GRAIS). Composto por várias entidades de diversos sectores da sociedade (Estado, empresas, fundações, universidades e organizações da economia social), o GRAIS apresentou, a 27 de Janeiro último, as “Linhas de Orientação para Investidores e Financiadores Socialmente Responsáveis”, resultado dessa reflexão.

O evento de apresentação, que teve lugar no Museu da Electricidade, em Lisboa, contou com a presença dos representantes de algumas organizações que compõem o grupo, nomeadamente a AESE – Escola de Direcção e Negócios, a CASES (Cooperativa António Sérgio para a Economia Social), a Comunidade Vida e Paz, o GRACE – Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial, em conjunto com a Fundação Montepio, a Fundação EDP, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e a everis (principal mentora deste projecto).

O documento pretende criar uma linguagem comum aos investidores sociais, definindo princípios de actuação, para que os mesmos possam criar uma rede coerente de “instrumentos”, e validando e analisando a sustentabilidade dos projectos que apoiam com fim à criação de valor partilhado. Desta forma, é possível promover a avaliação do impacto social, com recurso à comparação entre os procedimentos e recursos alocados pelos diversos investidores, e definir melhores estratégias de acção e de obtenção de resultados.

Tiago Cardoso, da everis, explicou a importância da medição e da comparação como forma de “melhorar o que se faz mal, replicar o que se faz bem e, no fundo, inovar”. Já Margarida Pinto Correia, directora de inovação social da Fundação EDP, garantiu que “não podemos dizer que estamos a fazer bem se não nos estivermos constantemente a comparar e a avaliar, e é por isso que o diálogo é tão importante”. É este, afinal, o mecanismo que permite “passar ao passo seguinte”, pois é a partir de um meio de comparação e análise que se avalia se um determinado montante tem ou não o impacto desejado num determinado projecto.

Avaliação é um investimento e não um custo

29012015_MelhorarOqueSeFazMalReplicarOqueSeFazBemEinovarSão diversos os desafios que a promoção da avaliação do impacto enfrenta. Criar uma cultura de medição é o primeiro dos desafios, tendo em conta que se pretende motivar o público e envolver o Estado, de forma a ganhar notoriedade. Assegurar a uniformização e a coerência, quer da metodologia, quer das métricas, é igualmente importante para que se crie uma referência e um conjunto de critérios que possam ser adaptados a Portugal e utilizados pelas organizações nacionais. Esta avaliação implica recursos e necessita de financiamento, mas importa que seja vista como um investimento e não como um custo, sendo por isso indispensável demonstrar a fiabilidade dos resultados e a credibilidade das metodologias e métricas utilizadas.

No evento, o Grupo apresentou os princípios que acredita serem fundamentais para os investidores e financiadores socialmente responsáveis. Segundo o princípio da transparência, a comunicação e a informação devem estar na base da relação entre o investidor e os promotores dos projectos apoiados. Desta forma, devem ser claras as condições e as etapas do investimento, bem como quaisquer alterações que se verifiquem ao longo de todo o processo. Cumprido este princípio, é notória a facilidade em certificar, de forma rigorosa, a realização de um outro – o da avaliação – o qual pressupõe a análise do envolvimento dos stakeholders, que só é possível se forem reconhecidas as condições do acordo.

[pull_quote_left]“A avaliação do impacto é uma ferramenta, numa óptica de sustentabilidade, que permite aproveitar melhor os recursos” – Fátima Carioca, AESE[/pull_quote_left]

Os pressupostos de entendimento entre as partes (como calendarização, momentos de avaliação, indicadores de medição do impacto, etc.) devem ficar registados num protocolo de cooperação, para que o investimento seja assegurado, em conjunto com a obtenção dos resultados que se pretende. É este o motivo pelo qual o princípio da contratualização é tão relevante. Adicionalmente, e com o objectivo de assegurar uma acção mais eficiente, foi criado o princípio da capacitação. Segundo este, o investidor fica comprometido a partilhar conhecimentos e boas práticas, nomeadamente sobre gestão, para que a organização que apoia faça um melhor uso do montante disponível.

A assunção de uma visão realista, que prevê o conhecimento acerca da natureza do problema/projecto, da sua duração e dos recursos disponíveis é o pressuposto do princípio da proporcionalidade. Para que possa ser maximizado o valor social, o investidor deve estudar os prós e os contras do seu investimento num determinado projecto: deve estar consciente relativamente à mais-valia que aquele apoio vai gerar, face às exigências do mesmo, para que o impacto seja positivo e crie valor.

Os princípios da capacitação, da proporcionalidade e da transparência foram apontados como os mais relevantes, pelos oradores em geral. Para Paula Guimarães, presidente do GRACE, de acordo com estes princípios, “o investidor pode exigir, mas tem a responsabilidade de melhorar a instituição a quem exige resultados”. Já para Alexandra Rebelo, representante da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, são estes que “permitem dar resposta a muitos problemas”.

Medir, validar e valorar

29012015_MelhorarOqueSeFazMalReplicarOqueSeFazBemEinovar2Para os investidores, contudo, estes princípios não funcionam como instrumentos práticos, mas antes como orientadores de acção. Para a avaliação do impacto social (definido, no documento, como “o conjunto das mudanças, positivas e negativas, resultantes de uma determinada intervenção”) os elementos do GRAIS criaram um conjunto de ferramentas ou metodologias que podem ser adaptadas às organizações e seguidas pelos investidores. Desta forma, é possível uniformizar a avaliação do impacto social, considerando que, nesta forma, existe um modelo (ou uma “regra”) comum, utilizado pelos financiadores, em Portugal.

Apesar da inexistência de uma legislação na União Europeia para a avaliação de impacto, são reconhecidas várias etapas que deverão, tendencialmente, servir como “guia” aos investidores sociais: identificar os stakeholders estabelecer objectivos, definir um conjunto de métricas e indicadores relevantes, medir, validar e valorar, assim como comunicar, aprender e melhorar. Este processo deve ser implementado em Portugal, de forma evolutiva e, obviamente, adaptado à realidade das organizações sociais.

Neste sentido, as instituições de ensino em geral, e as escolas de negócios, em particular, assumem um protagonismo importante, considerando que “têm a objectividade e o rigor científico”, estando-lhes reservado “o papel de ensino, e todos os actores essenciais à proliferação do conhecimento”. Para além disso, assumem-se como “os guardiões, os mentores e os visionários das tendências e metodologias do impacto”, como comentou Fátima Carioca, dean da AESE.

[pull_quote_left]“Não podemos dizer que estamos a fazer bem se não nos estivermos constantemente a comparar e a avaliar” – Margarida Pinto Correia, Fundação EDP[/pull_quote_left]

A responsável por esta reconhecida escola de negócios reforçou ainda a importância desta avaliação como “uma ferramenta, numa óptica de sustentabilidade, que permite aproveitar melhor os recursos” e sublinhou o papel desta na criação de um entendimento e de uma linguagem comuns. Esta questão revela-se, assim, um importante benefício para os investidores, pois permite criar sinergias, comunicar o seu impacto, melhorar a sua reputação e alavancar outros recursos. Através da mesma, é ainda possível planear e determinar a mudança que se pretende, e identificar, ao longo do processo, o que melhor produz, ou não, os efeitos desejados.

No fundo, a avaliação do impacto social permite aos investidores, e também aos beneficiários do investimento, a criação de um olhar crítico, o qual é útil para o desenvolvimento do terceiro sector e para a “descoberta” de novos processos, produtos e serviços.

Enquanto representante da Comunidade Vida e Paz, Isabel Oliveira identificou duas grandes vantagens da avaliação do impacto: a primeira consiste numa vantagem externa, que permite mostrar aos investidores o impacto do apoio e/ou, idealmente, captar outros potenciais financiadores; a segunda vantagem, com um carácter mais interno, confere uma melhor percepção dos projectos em que determinado apoio pode ser mais útil e relevante. A título de exemplo, e na medida em que este processo de avaliação está já a ser implementado nesta instituição, Isabel Oliveira sublinhou que o investimento em relações é mais importante, para os utentes, comparativamente a um prato de comida.

A avaliação é, assim, uma ferramenta que permite aumentar o sucesso de determinado apoio. Por este motivo, e como já foi explicado, não deve ser visto como um custo mas sim como um investimento, pois permite aproveitar os recursos de forma mais sustentável, aumentando o impacto social e potenciando, mesmo que indirectamente, o retorno (social e financeiro).

29012015_MelhorarOqueSeFazMalReplicarOqueSeFazBemEinovar3
“Mais importante do que criar medidas é não perder o comboio”

Os próximos passos prendem-se com a criação de uma agenda transversal à sociedade portuguesa, que englobe todos os sectores e capte a atenção de todas as pessoas. Margarida Pinto Correia referiu que “o fundamental é partilhar” e que “a ideia é progredir”. Importa não esquecer que este “documento leve”, como referiu, representa um começo de algo e que há ainda “muito por fazer”. A directora de inovação social da Fundação EDP salientou a importância de o próprio grupo se propor a ser avaliado, sendo fundamental que as ideias apresentadas sejam difundidas, explorando diversas formas de divulgação e analisando aquelas que são mais eficazes.

Foi notória a consciência generalizada, por parte dos membros do grupo, de que este foi apenas um passo e de que Portugal vive a várias velocidades. Por isso, “mais importante do que criar medidas é não perder o comboio”, como comentou Carla Pinto, vice-presidente da CASES. A representante desta organização mencionou que “o terceiro sector está a crescer” e que “há uma evolução que tem de ser feita”, sendo esta plataforma “uma forma de nos alinharmos com outras organizações europeias”.

A encerrar o debate, Paula Guimarães enumerou os quatro Cs que simbolizam a etapa inicial deste projecto: Compromisso, Cooperação, Convergência e Coerência.

Estar “de corpo e alma” foi como descreveu o compromisso assumido pelos membros do Grupo para implementar este processo nas suas organizações. Referindo que todo o trabalho realizado é voluntário, os membros devem continuar a sentir-se comprometidos, para que o projecto não seja apenas isso mesmo: um projecto.

A cooperação, de forma a evitar a “canibalização dos esforços já feitos” tem, igualmente, de ser tida em conta, pois é esta que vai impedir a competição entre os membros do grupo, assim como a criação de agendas paralelas. Aliada a esta, está a convergência, relacionada com “a obrigação de articular esforços”.

Por fim, mas não menos importante, Paula Guimarães referiu a coerência, em forma de apelo, para que continue a existir uma “relação entre aquilo que se faz e aquilo que se produz”.

Comments are closed.