Um programa de literacia financeira criado em parceria pela Charles Schwab Foundation e pelo Boys and Girls Clubs of America já chegou a cerca de meio milhão de miúdos norte-americanos. E, de acordo com uma avaliação de impacto do mesmo realizada em 2012, destes, 50% já se habituaram a colocar de lado 10% dos seus rendimentos num fundo de poupança para a universidade
Traduzido e adaptado por HELENA OLIVEIRA
© Stanford Social Innovation Review

Brad Bartick encontra-se numa sala repleta de adolescentes, esparramados em sofás e cadeiras, sentindo-se cansado depois de um dia passado na “escola”. O responsável da Charles Schwab Corp. foi convidado para o Boys & Girls Club, em Vancouver, Washington, para ensinar aos jovens noções básicas de finanças. Ao contrário dos seus clientes, que têm trabalho e são financeiramente bem-sucedidos, a maioria das famílias de origem destes estudantes nunca teve sequer a oportunidade de poupar algum dinheiro. Bartick convida os miúdos a imaginarem “o que querem ser quando forem grandes”. Professor, engenheiro, polícia… e as profissões começam a tomar forma no quadro branco. “Ok, assumindo que cada um de vocês terá a profissão com que sonha, o dinheiro começará a fazer parte das vossas vidas e existem algumas decisões que precisarão de ser tomadas”.

Bartick aplica algumas dicas bem ilustradas sobre finanças, especialmente concebidas para jovens de tenra idade, utilizando um currículo de educação financeira criado pelo Boys & Girls Clubs of America (BGCA) e pela Charles Schwab Fundation. E ensina aos seus alunos o que são orçamentos, taxas de juro ou dívidas, utilizando exemplos com os quais os jovens se conseguem facilmente identificar, como por exemplo gastar 500 dólares para comprar uma PlayStation da Sony. “Quanto é que essa Playstation irá valer daqui a três anos?”, pergunta. “E o que aconteceria se tivessem poupado esse dinheiro, em vez de o gastar na PlayStation, e tivessem ganho sete por cento em juros?”.

Bartick considera esta experiência como muito recompensadora. Não é justo, afirma, que existam tantas pessoas a quem nunca foram ensinados os mais básicos conceitos financeiros, incluindo a noção de que o dinheiro pode trabalhar “a nosso favor”. “Como é possível beneficiar de algo que nem sequer sabemos que existe?, questiona.

O currículo de educação financeira Money Matters: Make It Count foi desenvolvido em 2002 e é aplicado, em programas extracurriculares, com o objectivo de incutir nos mais novos o significado de conceitos financeiros simples, mas úteis, como orçamentos, empréstimos, investimentos, empreendedorismo e planos de poupança para a universidade de uma forma que é relevante para os miúdos. “Na medida em que somos uma pequena organização, decidimos que teríamos de nos concentrar num público-alvo muito concreto”, afirma Carrie Schwab-Pomerantz, presidente da Charles Schwab Foundation. “E considerámos que se o enfoque fosse feito na juventude, poderíamos levar a cabo mudanças geracionais”, acrescenta.

Este programa extracurricular, de uma hora semanal, ao longo de um período que varia entre as seis e as dez semanas, tem vindo a ser desenvolvido por membros do Boys & Girls Club e por voluntários da Schwab Corp., e teve a sua estreia nacional em 2004. Mais de uma década depois, os conteúdos educativos do Money Matters são os mais amplamente adoptados pelo programa juvenil do BGCA e ensinado em mais de 1700 clubes da organização. Cerca de meio milhão de adolescentes completaram o programa desde o seu início e são cerca de 84 mil, por ano, que se inscrevem no mesmo.

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O lançamento do Money Matters

Quando Carrie Schwab-Pomerantz se tornou presidente da fundação, em 2002, ela e a sua equipa “vasculharam” o país em busca de um parceiro que pudesse trazer para o interior da sua organização recursos e conhecimentos que esta não tinha, como complemento às competências já existentes. E, uma década depois da parceria com o BGCA – a maior instituição de apoio à juventude dos Estados Unidos, que “serve” cerca de quatro milhões de jovens em mais de 4 mil clubes – a fundação sabe que apostou na parceria certa.

Schwab-Pomerantz says the organizations share a similar mission and culture. “It’s a true partnership where we could give each other feedback that we would hear and we would implement based on the feedback.” BGCA President Jim Clark agrees that the financial literacy program aligns the missions of both organizations. “In our case, when kids and teens become more financially literate in society, they become successful adults and citizens in our country.”

The close connection between the Money Matters mission and the Charles Schwab Corp.’s mission has also fueled the partnership’s sustainability.

A presidente da fundação afirma que ambas [as organizações] partilham uma missão e cultura comuns. E Jim Clark, presidente do BGCA, concorda que o programa de literacia financeira em curso está em linha, também, com os propósitos das duas organizações. “No nosso caso, quando as crianças e os jovens se tornam mais financeiramente despertos na sociedade, sentimos que poderão vir a ser, também, adultos e cidadãos bem-sucedidos no nosso país”, acrescenta. E esta relação estreita entre a missão da Money Matters e a da Charles Schwab Corp. permitiu, de igual forma, estimular a sustentabilidade da parceria em causa.

A empresa foi fundada em torno da ideia de ajudar as pessoas a ajudarem-se a si mesmas no que respeita à gestão das suas finanças, com o objectivo de aumentar a participação dos indivíduos nos mercados financeiros. “Sem essa ligação à missão, o que resultaria seria apenas filantropia corporativa, sem qualquer ‘longevidade’ ou impacto futuro”, comenta Karen Aidem, fundadora da empresa de consultoria Sage Partners e que presta aconselhamento relacionado com o desenvolvimento da relação existente entre o BCGA e o programa Money Matters.

No geral, as empresas escolhem uma causa “do momento”, afirma Aidem. E em vez de se concentrar numa iniciativa pela qual estava apaixonada na altura, a paridade económica entre géneros, Schwab-Pomerantz optou pela literacia financeira, certa de que era algo com que todos os colegas se identificariam facilmente. “A Schwab foi capaz de alargar a sua missão para além do que já estava a fazer e isso ajudou-nos a manter a parceria”, declara Aiden.

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O impacto da literacia financeira

Antes de ter frequentado o programa Money Matters em 2011, enquanto finalista do ensino secundário, Aisha Borrows sentia-se um pouco receosa relativamente ao facto de se candidatar à universidade e pagar as respectivas propinas. Desde então, subscreveu um plano de poupança para o ensino superior no qual coloca 50% do seu ordenado mensal, ao mesmo tempo que partilha dicas de poupança num programa de uma rádio local, intitulado “The Melting Pot”. Agora, e sempre que algum jovem lhe diz que não terá dinheiro para seguir os seus estudos superiores, ela consegue demovê-lo de tal ideia, falando-lhes do Money Matters e de todas as oportunidades que lhe foram oferecidas.

Em 2014, Barrows foi uma entre 15 jovens do Boys & Girls Club a receber uma bolsa universitária, cujo valor varia entre os 1000 e os 5000 dólares, oferecida pela Charles Schwab Foundation. A Fundação já apoiou 237 jovens, num total de 485,000 dólares, que completaram o programa Money Matters e que demonstraram ter capacidade de gestão e liderança no que respeita às suas finanças pessoais. Adicionalmente, os benefícios do programa vão muito além da oferta de bolsas universitárias. Alguns jovens optaram por seguir carreiras na indústria financeira e outros utilizaram o que aprenderam para ajudar as suas famílias a gerir um orçamento.

Para avaliar o impacto do Money Matters, a Schwab e o BCGA realizaram três avaliações do seu programa. E os resultados demonstraram que os jovens não só apreenderam os conceitos relacionados com a “arte de poupar”, como também abriram contas de poupança.

Os resultados provenientes de uma avaliação nacional, ao longo do ano de 2012, demonstraram ainda que os jovens que participaram no programa aumentaram, em 45%, a compreensão de problemas relacionados com as lojas que descontam cheques a troco de uma comissão; 29% melhoraram a sua capacidade de gerir as despesas mensais e 50% “aprenderam” a colocar de lado 10% dos seus rendimentos para um “fundo” de poupança. No total, 33 das variáveis avaliadas demonstraram melhorias significativas como resultado do programa Money Matters.

“A Schwab foi muito paciente a convencer-nos de que iríamos ser parceiros de uma organização [o BCGA] que tem contacto com miúdos todos os dias e que sabe exactamente o que estes querem, do que precisam, do estilo de comunicação que com eles funciona, entre outras coisas”, afirma Aidem. “E são mais do que pacientes para testarem algumas coisas, de forma a assegurar que estas funcionam, e a fazer correcções sempre que necessário”.

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Melhorar o programa

Apesar do seu sucesso, nem a Charles Schwab Foundation nem o BCGA colocam o programa em velocidade de cruzeiro. “Ambas as organizações sentem que a sua missão é algo orgânico, vivo e que é sempre possível educarem mais jovens e oferecerem-lhes uma educação mais aprofundada capaz de realmente alterar as suas vidas em tudo o que envolva dinheiro”, assegura Aidem. Clark acrescenta ainda que as equipas da Schwab e do BCGA se reúnem regularmente para falar do programa, e refiná-lo, para que o mesmo se mantenha contemporâneo e relevante”, e isto porque estão a falar com um segmento no qual “manter a atenção” é uma tarefa difícil.

A equipa continua a criar novas formas para atrair e envolver estes miúdos. Em 2011, o famoso produtor discográfico de hip-hop, Kevin “Khao” Cates, ajudou a desenvolver o Money Matters Music Mogul, um concurso de rap para os miúdos que estavam a fazer o programa nesse ano. Os jovens submeteram letras para músicas rap, as quais reflectiam as temáticas estudadas no currículo do Money Matters, e produziram as suas canções com os arranjos musicais criados por este produtor vencedor de vários Grammys. “Este foi um caso em que conceitos curriculares ganharam vida de uma forma jamais conseguida por um professor numa sala de aula”, afirma Aidem. Os cinco finalistas ganharam 500 dólares em bolsas escolares e o vencedor voou para Atlanta, onde Khao tem a sua produtora. Um dos finalistas do concurso trabalha actualmente para Khao, escrevendo músicas educativas enquanto frequenta uma universidade em Atlanta.

A Charles Schwab Foundation e o BGCA estão actualmente a fazer pesquisa e a planear criar um programa de educação financeira para os colaboradores do próprio BCGA. A ideia é ajudarem os seus 55 mil colaboradores espalhados por todo o país, muitos deles antigos membros dos clubes, que trabalham em regime part-time e que têm dívidas de propinas. O programa deverá estar disponível para os empregados de todos os clubes no final deste ano.

A presidente da Schwab Foundation espera que esta mais recente parceria possa ajudar os empregados do BCGA não só a ganharem alguma segurança financeira nas suas vidas, mas também a torná-los melhores professores. “Basta pensar que quando os programas são bem-sucedidos e se tem empregados que estão concentrados em serem melhores professores e que não estão preocupados com as suas finanças, a organização sem fins lucrativos fica muito mais forte”, acrescenta Schwab-Pomerantz.

Ainda este ano, o Money Matters irá lançar um jogo de simulação online, a partir do qual grupos de miúdos poderão imaginar as vidas que pretendem ter no futuro, explorar diferentes tipos de profissões, ganhar um salário mensal virtual, criar um orçamento e planear os seus ‘eventos’ da vida.

O objectivo é, como tem sido sempre, manter os miúdos interessados no programa. “Continuaremos a trabalhar para que o programa continue a ser relevante para os miúdos e que tenha um crescimento o mais acelerado possível”, garante a presidente da Schwab Foundation.

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