Contra os argumentos dos que não prevêem um apocalipse laboral pois outras revoluções tecnológicas já existiram e “o pior” não aconteceu, Martin Ford, um dos mais reconhecidos analistas das implicações da Inteligência Artificial no emprego e na igualdade, esteve em Lisboa para explicar os principais motivos que o fazem acreditar que “desta vez, será diferente”. Para tal, basta pensarmos nos milhões de postos de trabalho já automatizados, tendência que, com o crescente poder das tecnologias avançadas, contagiará novos sectores, mesmo os que dependem de elevadas competências. Um futuro pouco promissor caso não se tomem medidas adequadas, se bem que extremamente complexas
POR HELENA OLIVEIRA

Martin Ford é uma das vozes mais sonantes no panorama actual da Inteligência Artificial, em particular no que respeita às implicações que esta terá em termos de desemprego estrutural e aumento dramático das desigualdades num futuro não muito longínquo. O autor de “The Rise of Robots:Technology and the Threat of a Jobless Future”, um dos três livros que já escreveu sobre a temática, esteve em Lisboa como orador no ciclo de conferências, dividido em três momentos e promovido pela Fidelidade e pela Culturgest, denominado “Inteligência Artificial: aplicações, implicações e especulações”, o qual tem vindo a reunir especialistas da área, num formato “duplo”, que inclui um debate com vários oradores do meio académico e empresarial e uma grande conferência. E foi exactamente neste segundo momento do ciclo que Ford discorreu, de forma exemplar, sobre os impactos sociais, e sobretudo económicos, da IA.

Tendo em mente uma das questões mais debatidas relativamente ao novo e crescente ambiente da automação, dos algoritmos inteligentes, das máquinas e robots – ou seja, se esta nova revolução será como as anteriores e destruirá empregos, ao mesmo tempo que criará outros novos – Martin Ford não é propriamente optimista, apesar de medir muito cuidadosamente as palavras que profere.

Para a escrita do seu mais recente livroArchitects of Intelligence: The truth about AI from the people building it”, Ford entrevistou 23 “dos mais inteligentes especialistas em IA” e a sua principal mensagem é a de que existe um consenso alargado de que a disrupção provocada pela substituição dos humanos pelas máquinas no mundo laboral será gigantesca, com muitos dos entrevistados a acreditarem que estamos mesmo a entrar numa era inteiramente nova, na qual tudo será operacionalizado de acordo com regras completamente diferentes das que estamos habituados.

Existe um consenso alargado de que a disrupção provocada pela substituição dos humanos pelas máquinas no mundo laboral será gigantesca

Ford acredita que “as máquinas, os algoritmos inteligentes e os robots estão crescentemente a substituir o trabalho que é feito pelas pessoas”, apesar de afirmar que também são muitos os cépticos que não acreditam que a disrupção será assim tão esmagadora, entre os quais os próprios economistas. Este cepticismo tem como base os registos históricos e o medo que sempre existiu de que a tecnologia iria deslocalizar muitos trabalhadores, apesar de “o pior” nunca ter acontecido. Ou seja, existem alguns motivos para este cepticismo, mas Ford tem também fortes razões para acreditar que, pelo menos, algo de muito diferente irá acontecer com os avanços tecnológicos que estamos já a testemunhar.

Através de gráficos relacionados com várias questões económicas, o especialista em IA traça o caminho da sua convicção, deixando-nos com poucas dúvidas que, desta vez, os novos empregos que poderão ser criados não irão, de todo, compensar os perdidos e que o desemprego massificado poderá mesmo fazer parte desta nova era. Para Ford, a forma como os negócios irão operar e competir colocará uma esmagadora pressão tanto na sociedade como na economia.

Começando com um gráfico que exibe o número de horas trabalhadas no sector empresarial dos Estados Unidos em 1998 – e que se traduzia em 194 mil milhões de horas – e em 2013, e tendo em conta que ao longo deste período a população dos Estados Unidos aumentou em 40%, bem como a criação de milhares de negócios, Ford mostra que o número de horas trabalhadas foi exactamente o mesmo 15 anos depois, mesmo que a produção tenha aumentado em 42% ou cerca de 3,5 biliões de dólares. Para o autor, este valor é importantíssimo – e preocupante – pois mostra que apesar do aumento elevado da produção e do número de pessoas que entraram, entretanto, para a força de trabalho, não existiu uma única nova oportunidade para as mesmas. Ou seja, mesmo sem contar ainda com os extraordinários avanços da IA, a verdade é que estes valores mostram que os negócios estão já, e de forma crescente, a contar com a “alavanca digital” e, com este processo a acelerar, tudo será muito difícil para a sociedade.

Os novos empregos que poderão ser criados não irão, muito possivelmente, compensar os perdidos e o desemprego massificado poderá mesmo fazer parte desta nova era

Mas o que faz com que esta disrupção causada pelos avanços tecnológicos seja diferente das anteriores revoluções? Para o autor, existem três causas por excelência que ajudam a explicar esta distinção.

A primeira está relacionada com a exponencial aceleração nas TI, a qual já dura há décadas, mas está a atingir valores recordistas, com o poder e a rapidez dos computadores a serem responsáveis por “coisas incríveis para as quais não estamos preparados” nas próximas décadas, devido ao que denomina como “acumulação de aceleração”.

A segunda tem a ver com a capacidade cognitiva, ou seja com o facto de “as máquinas estarem a começar a pensar”. Não chegando tão longe quanto as promessas da ficção científica, a verdade é que as máquinas e os algoritmos inteligentes estão a ganhar capacidades cognitivas – o machine learning é uma das mais importantes áreas em expansão -, estão a resolver problemas e a desempenhar tarefas e, mais importante que tudo, estão a aprender. Tal como já é habitual quando é necessário ilustrar o poder cognitivo das máquinas, o autor deu o exemplo do complexo jogo Go, e do AlphaGo, o primeiro computador a derrotar o campeão “humano”deste jogo, desenvolvido pela empresa de IA DeepMind, e que constitui “um feito notável”. Mais sofisticado do que o xadrez – é considerado o jogo mais difícil do mundo – é particularmente intuitivo – uma característica profundamente humana – e para Ford o facto de a Google ter conseguido desenvolver um sistema que aprendeu, ele mesmo, a jogar e a ganhar, transformando-se num “super-humano” é “surpreendente”, sendo que “a tecnologia irá continuar a surpreender-nos cada vez mais”.

A terceira e última razão prende-se com o facto de estas tecnologias serem de “propósito geral”, ou seja, estarão em todo o lado e terão impacto em todos os aspectos da economia e do trabalho. Por comparação, Ford relembrou a revolução agrícola, que destruiu milhões de empregos, mas recorda que tal só afectou o sector agrícola. Algumas pessoas, diz, comparam a IA com a electricidade – na medida em que tudo depende dela – mas para Ford será ainda uma disrupção maior, com impacto social, económico e cultural, em todos os sectores e em todos os domínios da nossa sociedade.

Sim, novos empregos serão criados, mas serão suficientes?

© DR

Uma outra realidade já amplamente debatida no que respeita ao futuro do trabalho na era da IA diz respeito à criação de funções completamente novas, as quais nem imaginamos que poderão vir a existir. Mas a verdade é que já estamos a testemunhar essa tendência – há alguns anos imaginar que teríamos profissionais especializados em media sociais, designers de websites ou cientistas de dados não era propriamente comum – e o que concluímos é que estes novos tipos de funções existem, sim, mas não estão a criar emprego de forma significativa.

De acordo com Martin Ford, cerca de 90% da força laboral nos Estados Unidos está envolvida em funções que existem há mais de 100 anos, sendo que, e ao mesmo tempo, uma grande parte destas mesmas ocupações irá desaparecer, de que são exemplo os empregos relacionados com a preparação e o servir de comida, os trabalhos nas fábricas e armazéns, os condutores de táxis e camiões, em conjunto com muitas funções de “colarinho branco”, como as administrativas. Todos estes tipos de trabalho serão automatizados e terão impacto em milhões de trabalhadores. Assim, a primeira pergunta que se impõe é “será que as novas ocupações criadas serão suficientes?”, sendo que a segunda é “serão estas novas ocupações passíveis de ser executadas pelas mesmas pessoas envolvidas nas actividades tradicionais da actualidade?”. Para Ford, a resposta parece óbvia: a disrupção em termos de emprego será substancial e serão muitas as pessoas sem as competências necessárias para abraçar as possíveis novas funções que serão criadas, na medida em que estas exigirão níveis elevados de competências.

Serão as futuras novas ocupações passíveis de ser executadas pelas mesmas pessoas envolvidas nas actividades tradicionais da actualidade?

Mostrando um gráfico que acompanha a evolução da produtividade e das compensações, e sublinhando que ambas as linhas “se moviam de forma ascendente em conjunto” até meados dos anos de 1970, desde então assistimos a uma ascensão da linha da produtividade – pois os trabalhadores podem agora produzir mais com a ajuda da tecnologia – e a um declínio da linha de compensações, por causa da estagnação de ordenados. Ou seja, num determinado ponto as máquinas eram meras ferramentas operadas pelos trabalhadores, mas agora estão a ficar tão poderosas que estão a substituir os trabalhadores. O trabalho está a ser crescentemente “desqualificado”, daí a estagnação das compensações e esta dissociação entre ambas as linhas, a qual só terá tendência para piorar.

Este fenómeno dá origem a um outro problema adicional: os que estão no topo estão a dar-se muito bem e os restantes muito mal. A desigualdade crescente é, para Martin Ford, uma consequência indubitável da era da IA. Como afirma, “o que estamos a ver é que todos estes benefícios do progresso tecnológico estão a ser somente capturados pelas pessoas que estão no topo – sejam proprietários de negócios, executivos, investidores, etc.”, diz, acrescentando que os trabalhadores “normais” estão literalmente a beneficiar “nada”. O autor sublinha o problema afirmando que “as pessoas estão mesmo a ser deixadas para trás”.

Uma outra consequência dos avanços tecnológicos prende-se com o aumento da quota de capital – beneficiando as empresas – e com o declínio da quota de rendimentos, prejudicando os trabalhadores, fenómeno que está já a acontecer não só nos Estados Unidos, mas no Japão, no Canadá, na Alemanha, na China, ou seja, é uma força global, com todos os países a sofrerem do mesmo problema, afirma o orador.

A cada década que passa, cada vez menos postos de trabalho estão a ser criados, o que já pode ser considerada uma mudança estrutural que se manterá, e agudizará, no futuro

Exibindo um gráfico com a evolução do emprego criado ao longo das últimas cinco décadas, é imediata a noção de que, a cada década que passa, cada vez menos e menos postos de trabalho estão a ser criados, o que já pode ser considerada uma mudança estrutural que se manterá, e agudizará, no futuro. Um outro dado apresentado pelo autor diz respeito à recuperação do emprego em tempo de recessão. O que está a acontecer é que a taxa de recuperação é cada vez menor e que os primeiros empregos a desaparecer são “os bons da classe média” e aqueles que “recuperam”, fazem-no com menos benefícios e condições mais precárias. Os únicos que estão a “aparecer” são os que tem subjacentes competências técnicas muito elevadas e, graças à tecnologia, que está a automatizar e a substituir muitas tarefas, também esta realidade se agravará.

Oferecendo o exemplo de várias start-ups de Silicon Valley que estão já a automatizar os serviços de fast food – com robots a fazerem e a servirem hambúrgueres e pizzas – ou os robots que estão já a trabalhar nos armazéns da gigantesca Amazon, Ford alerta para que nos próximos cinco, dez ou 15 anos, as pessoas serão cada vez menos e menos necessárias. A robótica também surge como exemplo, com um braço robótico que move uma caixa por segundo (os humanos conseguem fazê-lo em seis segundos) e que tem já visão em 3D e destreza (até agora a destreza manual e a precisão visual eram traços comuns só aos humanos) e que nunca adoece, nunca se cansa, não precisa de férias e trabalha continuamente, o que significa que a tecnologia se torna muito mais confiável, menos dispendiosa e muito mais útil para os empregadores. Assim, se os trabalhos repetitivos desta natureza já estão a desaparecer em grande escala, não é difícil imaginar o que tal vai significar para milhões e milhões de trabalhadores em todo o mundo.

Se, até agora, era apenas certo que a automação atingia, na esmagadora maioria das vezes, as profissões rotineiras e repetitivas, o seu contágio a trabalho com maiores competências começa a ser já uma realidade testemunhável

Se, até agora, era apenas certo que a automação atingia, na esmagadora maioria das vezes, as profissões rotineiras e repetitivas, o seu contágio a trabalho com maiores competências começa a ser já uma realidade testemunhável. Com mais um gráfico que mostra que o número de empregados de uma firma de serviços financeiros desceu de 120 mil em 2004 para 71 mil em 2014 – e apenas devido a software inteligente, mas não muito sofisticado e que não tem a ver com o que a IA pode fazer -, Ford “avisa” que os avanços na IA terão igualmente um dramático impacto em profissões de elevadas competências. O jornalismo é um bom exemplo desta tendência, com algumas grandes cadeias a terem já sistemas que, num conjunto de dados, “sabem” reconhecer os mais importantes e construir uma notícia, não sendo possível saber se quem a escreveu foi uma máquina ou um jornalista. O mesmo está a acontecer com o sector jurídico, onde a avaliação de documentos legais, a pesquisa para casos que devem ser defendidos em tribunal e outro tipo de trabalho que esteja relacionado essencialmente com dados está a ser também crescentemente automatizado. Em Wall Street, e com o trading algorítmico, existem já peças de informação que são apenas reconhecidas pelas máquinas (a Bloomberg tem vindo a testá-las) e a tendência é que mais profissões que exigem actualmente níveis elevados de competências entrem no rol das que vão desaparecer. Todos estes sistemas crescerão em sofisticação e irão causar uma dramática disrupção.

O último gráfico apresentado está relacionado com os rendimentos dos licenciados entre os 25 e os 34 anos, os quais são cada vez mais baixos. Se as oportunidades para quem tem um diploma universitário serão cada vez menores, o que dizer dos que não têm educação superior? Na verdade, Ford assegura que para este segmento populacional as oportunidades de emprego estão já a colapsar. Recordando que nas revoluções anteriores quando as competências deixavam de ser suficientes voltava-se a estudar para ganhar novas capacidades, Ford diz que já nem isso serve para esta revolução, na medida em que a tecnologia está também a impactar os empregos mais qualificados.

Se a economia depende dos consumidores, e não existir crescimento económico, as empresas terão de baixar os seus preços, o que levará a uma espiral deflacionaria, algo que já está a acontecer em alguns países

E qual o impacto na procura dos consumidores? Um enorme problema social e económico, responde Martin Ford. Vejamos o seu raciocínio: as máquinas não consomem; só as pessoas e os governos contribuem para a procura final da economia; as empresas não terão clientes suficientes, porque as pessoas não terão dinheiro visto que não terão emprego ou, na melhor das hipóteses, contarão com salários estagnados. Se a economia depende dos consumidores, e não existir crescimento económico, as empresas terão de baixar os seus preços, o que levará a uma espiral deflacionaria, algo que já está a acontecer em alguns países. Adicionalmente, e porque a riqueza já se encontra concentrada nas mãos dos mais ricos, se não existirem pessoas suficientes para estimularem uma economia vibrante, este é um problema verdadeiramente sério, garante Martin Ford.

E podemos fazer alguma coisa?

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As respostas a esta disrupção gigantesca não são, como seria de prever, fáceis, com o orador a falar em dois níveis distintos. Um deles, e que tem a ver com a nossa perspectiva pessoal, tendo em conta os nossos filhos ou netos, é ter em mente o quão importante é estes saberem o que vão estudar para estarem preparados para este tipo de futuro. Como já citado anteriormente, qualquer que seja o trabalho que assente em rotina ou em repetições será automatizado, não valendo a pena sequer pensar neste tipo de tarefas. Martin Ford aconselha a que se foquem, ao invés, em empregos que não sejam tão “previsíveis”. E, a seu ver, existem pelo menos três áreas que podem ser consideradas como relativamente “seguras”. A primeira tem a ver com funções que exijam criatividade e a segunda com aquelas que dependem de relacionamentos “sofisticados” com os outros, sendo a empatia a “característica de ouro” desta nova era. Por último, electricistas e canalizadores continuarão a ser necessários e tornar estes empregos “mais respeitáveis” é igualmente sugerido.

É necessário que se melhore ou se implemente uma rede de segurança para todos, pois existirão muitos cidadãos que terão de se confrontar com uma realidade inteiramente nova onde os empregos não existirão ou os salários serão demasiado baixos

O segundo nível divide-se, também, em dois “tempos” distintos: a curto prazo, é necessário que se melhore ou se implemente uma rede de segurança para todos, pois existirão muitos cidadãos que terão de se confrontar com uma realidade inteiramente nova onde os empregos não existirão ou os salários serão demasiado baixos.

Para tal, Martin Ford acredita, mesmo sabendo que tal exigirá um esforço gigantesco por parte dos governos, que só com um mecanismo como o Rendimento Básico Incondicional, ou similar, a sociedade poderá lutar contra esta inevitabilidade, a qual  passa por dissociar o emprego do rendimento. Citando exemplos recentes de países que estão a testar esta polémica iniciativa, como a Finlândia, a Holanda ou o Canadá, o autor diz que só com um rendimento incondicional, independentemente das condições de cada um, as pessoas se sentirão estimuladas a fazer mais, como por exemplo dar início a um negócio ou voltar a estudar ou a apostar na sua formação. “Não existe nenhum governo que esteja preparado para isto, mas todos eles terão que começar a pensar seriamente no assunto”, assegura. A incorporação de incentivos, em particular para a educação, será outra tarefa hercúlea que governos e empresas terão de assumir.

Não existe nenhum governo que esteja preparado para isto, mas todos eles terão que começar a pensar seriamente no assunto

Assim, e a terminar a sua intervenção, Ford deixa-nos igualmente com uma pergunta para a qual, e para já, não existe resposta: com as tecnologias a ganharem um poder desmesurado, com apenas as elites a poderem retirar vantagens das mesmas, como se constrói uma economia, e uma sociedade, que funcione para o bem de todos?

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