Portugal é o quarto país mais envelhecido da União Europeia. Todavia, o que é considerado como um enorme desafio – o do envelhecimento demográfico – pode ser encarado a partir de uma perspectiva mais positiva e promissora: a de que seria mais útil alterar o modelo de organização social vigente, desadequado da realidade em que vivemos, e conferir aos mais idosos a possibilidade de gozarem a sua longevidade de forma mais activa e útil. Exemplo disso é Manoel de Oliveira, o qual personifica, melhor do que ninguém, a ideia de que “não parar é não morrer”
POR
MÁRIA POMBO

Portugal atravessa, actualmente, um período delicado, marcado não só pela falta de oportunidades de trabalho e pela crise económica, como também pelo seu preocupante envelhecimento populacional. Este fenómeno é, geralmente, encarado como potencialmente negativo, no sentido em que acentua os níveis de dependência e de vulnerabilidade a determinadas patologias. No entanto, o mesmo indica que estão a ser feitos progressos, originários do aumento da esperança de vida, nomeadamente ao nível da saúde, os quais permitem manter uma vida com melhor qualidade durante muito mais anos, comparativamente ao que acontecia há algumas décadas.

Ora, é precisamente com esta questão que Maria João Valente Rosa, directora da PORDATA, se tem debatido nos últimos tempos: se hoje em dia uma pessoa de 66 anos tem, em princípio, as mesmas capacidades de trabalho que teria com 60, por que motivo há-de ser afastada do seu emprego, passando a ser vista como incapaz e quase inútil para a sociedade?

Para a responsável da PORDATA, a vida é contínua e não tem marcos, e por esse motivo não deve ser a idade a impor-se às capacidades das pessoas. Assim, a seu ver, o grande problema não está no envelhecimento demográfico, mas antes no facto de o modelo de organização social estar desadequado da realidade, considerando que o mesmo foi criado numa época em que as pessoas viviam menos anos. Desta forma, a especialista em demografia defende que o envelhecimento deve ser encarado “pela positiva” e com optimismo, tendo em conta que os idosos não “esmagam” os jovens nem lhes tiram emprego e que, pelo contrário, a reforma de um trabalhador não dá (como seria o justo, num mundo perfeito) lugar à contratação de um jovem.

Maria João Valente Rosa defende, então, que “a capacidade produtiva, em conjunto com o conhecimento, não tem idade”, e que o ideal será combinar a reforma com o trabalho parcial, a partir de uma certa idade, evitando assim o afastamento total e drástico dos trabalhadores relativamente às empresas onde exercem ou exerciam funções.

Estes factores potenciam a solidariedade entre gerações e a transmissão de conhecimento e experiência, ao mesmo tempo que privilegiam o mérito e não a idade. Os mesmos impulsionam o crescimento da economia, tendo em conta que não são desperdiçados recursos humanos, nem são pagas reformas a pessoas com plenas capacidades para laborar. Adicionalmente, diminuem o isolamento social e a “desvinculação dos mais idosos em relação à participação na vida social e familiar”, segundo o estudo Envelhecimento Activo em Portugal – trabalho, reforma, lazer e redes sociais, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS).

Assim, o envelhecimento pode ser visto com orgulho e como sinónimo de longevidade, de algo benéfico para a comunidade e digno para os indivíduos, afastando-se dos conceitos de incapacidade e inutilidade. Para isso, é necessário que a sociedade, em geral, se una na procura e promoção de iniciativas que motivem a actividade dos nossos seniores e o sentimento de que podem ainda ser úteis e necessários. É de todos nós (Estado, empresas, instituições e a própria população) o ónus de promover o envelhecimento activo e feliz, adaptando as políticas a uma sociedade que não é pior, mas diferente da que eventualmente tínhamos imaginado.

© DR
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Não parar é não morrer

Exemplo de alguém que pode ser “estudado” do ponto de vista histórico, mas que também pode relatar diversos momentos da História, porque os viveu, é o centenário Manoel de Oliveira. Esta é, aliás uma das mais curiosas capacidades que, enquanto seres humanos, desfrutamos: que é podermos ser o historiador e a História, o investigador e o objecto de investigação, em simultâneo.

Com um vasto currículo, o realizador em actividade mais antigo do mundo nasceu no Porto, quando Portugal vivia ainda sob o regime monárquico. Aos 20 anos, estreou-se como actor e desde então nunca mais parou de trabalhar. Depressa começou a criar as suas próprias curtas-metragens, que tantas vezes dividiram opiniões e nem sempre foram apoiadas pelos portugueses.

Uma curta fase da sua vida foi passada entre uvas e cestos, às quais se dedicou por não ter conseguido patrocínios para os filmes que tinha em mente. Mas não se resignou, e viajou para a Alemanha com o intuito de receber formação intensiva sobre técnicas usadas no cinema a cores. Com mais apoiantes estrangeiros que nacionais, na década de 60 Manoel de Oliveira foi consagrado como cineasta, em países como França e Itália, e duas décadas depois começaram a surgir os primeiros prémios, nesta categoria.

Nunca se deixou levar pela fama nem tão pouco pelas críticas negativas, e mostrou sempre, como ainda hoje, um certo atrevimento e originalidade, quer em ficção, quer em documentários, quer ainda no seu dia-a-dia e na forma de encarar a vida. Adepto de literatura portuguesa, tem criado vários filmes baseados em obras de autores, de que são exemplo Agostina Bessa-Luís ou Camilo Castelo Branco. E nem o 25 de Abril de 1974 (após o qual Portugal assistiu a um boom de obras de cariz político) veio alterar as suas convicções e as ideias que já tinha em mente, como prova a longa-metragem Benilde ou a Virgem Mãe, adaptada de uma peça de teatro que teria estado em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em 1947.

A reforma podia ter sido pedida há mais de 40 anos, mas se o tivesse feito, Oliveira provavelmente já se teria perdido do mundo e rendido à quietude dos dias iguais, e a humanidade teria “perdido” um império de cultura e arte. Inquieto e irrequieto, nunca permitiu que a idade se impusesse à audácia, à lucidez e à energia que ainda hoje tem. Por iniciativa própria, continua a trabalhar e a fazer aquilo que o deixa feliz, que é precisamente realizar filmes e trazer para a tela o mundo que observa e sente. A prova disso é a sua mais recente curta-metragem (O Velho do Restelo), apresentada no dia do seu 106º aniversário, e descrita pelo próprio como “uma reflexão acerca da humanidade”.

A vida de Oliveira dava um filme. E já deu, na realidade, feito pelo próprio em 1982 e que, por sua vontade, apenas será apresentado ao público após a sua morte.

O exemplo de Manoel de Oliveira não pretende criar a ideia de que é necessário trabalhar até ao último dia de vida, mas antes que não deve ser a idade a determinar o momento em que os cidadãos se tornam “menos importantes”, principalmente se estes se sentirem confortáveis a exercer uma profissão.

Um “inverno” mais quente e próximo

O já citado estudo da FFMS sobre o trabalho e o lazer da população sénior revela que 40% das pessoas com idades compreendidas entre os 50 e os 64 anos são activas, descendo esta percentagem para pouco mais de metade, no segmento entre os 65 e os 74 anos; com mais de 75 anos, a percentagem de idosos “em actividade” é de apenas 9%. Verifica-se, como seria previsível, uma correlação negativa entre a idade e a adesão ao envelhecimento activo, considerando que à medida que a primeira aumenta, a segunda diminui. Idealmente, e perante estes números, a verdade é que o ser humano deveria “desvincular-se” da sociedade de forma natural e gradual, e não abrupta (como a reforma, tal como a temos, dá a entender que deve ser).

O Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações (2012) foi de extrema importância para esta temática, na medida em que trouxe a debate a questão do isolamento dos idosos e a urgência da promoção da dignidade humana, também para este grupo demográfico. Mas o trabalho iniciado tem que continuar a ser feito. Na realidade, a sociedade parece estar mais atenta ao chamado “inverno da vida”, o qual não tem que ser negro, frio e chuvoso. Pode ser, ao invés, um tempo de aproximação e de reunião, em que se descobrem novas formas de ver e viver o mundo, mesmo quando o corpo já não tem a agilidade que teve outrora.

© Companhia Maior
© Companhia Maior

Considerando que nem todas as pessoas têm hipótese (nem obrigação) de continuar, por iniciativa própria, a trabalhar após cumprirem os requisitos para terem uma (cada vez mais longa e menos descansada) reforma, o VER apresenta alguns (poucos) exemplos de projectos que promovem o envelhecimento activo e a solidariedade entre gerações.

A Companhia Maior consiste num grupo de teatro, com sede no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, composto exclusivamente por artistas com mais de 60 anos. Oriundos das mais variadas áreas, como a música, o teatro ou a dança, estes performers profissionais juntam-se, desde 2010, com o objectivo de criar e apresentar espectáculos, mas também de promover workshops, residências artísticas e seminários, onde mostram aquilo que (ainda) sabem fazer melhor. Para Luísa Taveira, membro da Direcção da Companhia, a ideia passa por “valorizar a maturidade, os saberes forjados e aperfeiçoados ao longo do tempo e o intenso desejo de comunicar desta fase da vida”.

Ainda no plano das artes, o VER destaca o CINAGE, um projecto apoiado pela Comissão Europeia que pretende, a partir do cinema, “reforçar as oportunidades de aprendizagem ao longo da vida, para a população mais idosa”. O projecto está a ser desenvolvido em Portugal, Itália, Inglaterra e na Eslovénia. A partir da realização e análise de filmes, a equipa multidimensional que compõe este projecto pretende estimular competências que considera vitais para uma velhice saudável.

Em Setúbal, foi criada a associação Envelhecer com Prazer, com o objectivo exclusivo de promover o bem-estar da população sénior e a sua participação na sociedade. Assim, a equipa promotora desta iniciativa, tem desenvolvido diversos programas que pretendem acompanhar os idosos daquela região e promover a sua inclusão (ou reinclusão, em vários casos). A Academia da Memória é um dos programas que esta iniciativa oferece, o qual pretende estimular a postura activa na sociedade, em grupo ou de forma individual.

Para aqueles que têm dificuldades motoras, a mesma associação promove reuniões em grupo, onde os utilizadores podem debater temas diversos, ou simplesmente conversar, a partir do telefone; o serviço é gratuito e diário e pode ser feito a partir de um telefone normal. Na época natalícia que se aproxima, a associação estimula, ainda, a partilha de histórias por parte dos mais velhos e de mantas por parte dos mais novos: a ideia é que no último Sábado antes do Natal, um jovem visite um idoso para que este lhe conte uma história da sua vida, em troca de uma manta.

Já no Porto, o Programa Aconchego pretende promover a solidariedade entre gerações, através do alojamento de jovens universitários em habitações de pessoas com mais de 65 anos. A renda é simbólica e pode ser paga em géneros e em companhia aos idosos, combatendo assim o isolamento social e a solidão, ao mesmo tempo que se evita o pagamento de rendas dispendiosas em quartos de estudantes ou residências universitárias.

A estes exemplos poderíamos juntar muitos outros. De norte a sul do País, é já elevado o número de autarquias que se sente responsável pelos seus idosos e que cria mecanismos de apoio aos mesmos, diminuindo a solidão e o isolamento.

Os exemplos apresentados mostram que, por todo o País e além-fronteiras, está a crescer a consciência de que “os velhos não são trapos” e que é urgente repensar a sociedade, de forma a estimular um envelhecimento activo e feliz, e na qual os cidadãos são convidados a participar, como sempre fizeram. O “inverno da vida” não tem, de facto, que ser “frio” e afastado de tudo e de todos. Pelo contrário, a promoção de uma velhice digna e activa é benéfica para todos, principalmente se considerarmos que a esperança média de vida está a aumentar e que o número de jovens está a diminuir. Assim, o apoio aos seniores não deve ser encarado apenas como um direito dos mesmos, mas também como um dever da sociedade.