O lema episcopal de Bento XVI sintetiza admiravelmente a sua trajectória vital e intelectual: um cooperador da verdade


Por RAUL DINIZ

Na cátedra de Pedro, sentou-se um Padre da Igreja. De algum modo a sua vida, nas diferentes etapas que a marcam, permitiu-lhe uma grande fidelidade à sua vocação humana: ensinar. Foi sempre, ao lado do seu sacerdócio, um universitário que exerceu incansavelmente, até ao nível magistral supremo, o munus docendi. Ficará na história como Papa teólogo.

Como todo o professor cuja paixão é a busca da verdade, manifestou uma grande liberdade de espírito. Sempre disse o que tinha de dizer, quando tinha de dizer e do modo que lhe pareceu mais adequado, independentemente do politicamente correcto intra-eclesial ou extra-eclesial. Pela sua delicadeza natural fê-lo, isso sim, suaviter in modo, fortiter in re.

O seu lema episcopal sintetiza admiravelmente a sua trajectória vital e intelectual: um cooperador da verdade. Esta paixão, repito, que é apanágio do universitário, marca a sua vida. Como a Verdade é Cristo, acabou por traduzir-se numa grande trajectória de fidelidade e liberdade, porque a verdade liberta.

A sua renúncia é ainda um acto manifestativo da sua liberdade interior e do seu livre diálogo com a sua consciência. (Não em vão é um grande admirador do beato cardeal Newman.) É também um precedente libertador para os sucessores, quando a esperança de vida é hoje muito superior ao passado.

Se ser papa fosse, apenas, um trabalho de gabinete, discreto e reflexivo, talvez Bento XVI continuasse com o seu pesado serviço, mas João Paulo II globalizou fisicamente o papado requerendo dos sucessores exigências acrescentadas de vigor físico.

Paulo VI que criou a norma da resignação episcopal, peregrinou ao túmulo do papa S. Pedro Celestino que renunciara. Comentou-se que o próprio Paulo VI o faria, mas acabou por não o fazer. João Paulo II também considerou essa hipótese, por razões manifestas, mas acabou por não a concretizar. São diálogos de oração que tiveram resultados, penso, contrários aos desejos dos dois papas.

Como o apóstolo evangelista João, Bento XVI falou-nos muito de amor, recuperou até o eros, inscrevendo-o no percurso amoroso que tem a Deus por termo. Falou-nos, luminosamente, da razão no coração da fé. Deu orientações claras sobre todos os problemas morais do nosso tempo com valentes determinações. Nunca se deixou levar pelo populismo, sem medo às reacções, sem fugir aos problemas e dificuldades, obediente sempre e unicamente à voz da sua consciência, esse «santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus». (G.S. 16)

Do seu vasto magistério, aos empresários dirá mais a sua introdução da caridade e gratuidade na empresa e a exigência de uma clareza total, e observância das melhores práticas internacionais, nas finanças do Vaticano. Ainda o amor, ainda a transparência, ainda a verdade.

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