As férias estão aí e, perante a afluência dos portugueses aos cada vez mais Festivais de Verão, é bom saber que ao sol, à música e à diversão se juntam este ano, como já vem sendo habitual, estratégias básicas de sustentabilidade em praticamente todos os eventos que decorrem de Julho a Setembro. Mas é necessário dizer que a maioria são mesmo básicas, isto é, limitam-se a pouco mais do que compensar as emissões de carbono produzidas nos recintos ou realizar acções de sensibilização a nível ambiental
POR GABRIELA COSTA

É já no próximo dia 29 que o NoSolo Água, em Portimão, acolhe a festa de encerramento do HEINEKEN MADE.OUT Green Energy. O evento leva, pela primeira vez em Portugal, alguns dos mais aclamados DJ’s internacionais a actuarem num palco montado sobre o mar. Inspirado num conceito “agregador de valores e atitudes” (Music And Dance Events. OUTdoor), o MADE.OUT privilegia a consciência ambiental e social, a par dos factores inovação e tecnologia.

O evento utiliza alternativas “limpas” e naturais para a decoração e comunicação da festa – noventa por cento da divulgação está a ser realizada em meios digitais (outdoor gigante digital, mupis digitais, circuito de televisão regional, online e  rádio) e vai sensibilizar o público em geral para as questões ambientais, através da distribuição, nas praias algarvias, de sacos de lixo em papel reciclado e pulseiras que dão acesso a descontos para a festa de Portimão. Já a decoração do espaço é feita em materiais reciclados e, no programa dedicado à animação sustentável, os prémios Heineken distinguem-se por ser dirigidos a quem produzir mais energia em trinta segundos, numa bicicleta, a bike power. Para diminuir o consumo de energia, toda a iluminação do evento é feita em LED.

À semelhança do que aconteceu nas festas de Lisboa e Alcobaça, o HEINEKEN MADE.OUT Green Energy em Portimão vai ainda minimizar a poluição sonora, fará a reciclagem dos materiais utilizados durante o evento e a compensação de todas as emissões de CO2 (através da CarbonoZero). Na festa de Lisboa, realizada a 2 de Junho, foram compensadas 5,51 toneladas de CO2 (equivalente, por exemplo, às emissões geradas numa viagem Lisboa-Pequim-Lisboa, divulga a organização).

Com um investimento global de cerca de meio milhão de Euros. Este é um projecto da MADE.BETTER, empresa especializada na organização e promoção de eventos e festas, e constitui uma alternativa aos cada vez mais, e mais sustentáveis, festivais de Verão que animam os portugueses com muito mais do que música.

Com maior ou menor orçamento, os jovens, principalmente, incluem nos seus destinos de férias pelo menos um festival de música numa qualquer praia, rio ou montanha do país. Entre Julho e Setembro, da Serra da Estrela ao Algarve, no interior ou no litoral, hoje a oferta é tanta que as promotoras de eventos tentam torná-la diferenciada.

As iniciativas que promovem consciência ambiental são um factor de sucesso crescente nas programações, que se esmeram a anunciar medidas como a reciclagem dos resíduos produzidos ou a redução de ruído nos recintos dos eventos. Matérias que, por terem certificação, recolhem a preferência das empresas que se associam às promotoras que investem em boas práticas, como é o caso da certificação 100R-Reciclagem 100% garantida, da Sociedade Ponto Verde, ou a Carbono Zero, da E.value.
Entre as empresas que promovem mais acções, a EDP continua na liderança, desenvolvendo inúmeras iniciativas sustentáveis, para além de compensar as emissões de CO2 da energia consumida em festivais como o Delta Tejo, Optimus Alive, Super Bock Surf Fest, Super Bock Super Rock e SW tmn.

Cascais CoolJazzFest
A oitava edição do Cascais CoolJazzFest compensa, até ao dia 29 de Julho, a totalidade de CO2 emitido durante a sua organização e implementação (cerca de 346 toneladas). A compensação dá-se com a compra de créditos de carbono que serão convertidos, posteriormente, em apoio à construção de uma pequena central hidroeléctrica nas Honduras. A iniciativa, patrocinada pela EDP, envolve a emissão de certificados e)mission neutral, que atestam que a pegada de CO2 correspondente à coordenação e logística do evento, mobilidade dos espectadores e das bandas, voos, veículos, geradores, alojamento, brindes e materiais e resíduos, entre outros, é neutralizada através de créditos de carbono provenientes de projectos que reduzem emissões enquanto contribuem para a sustentabilidade.

O certame, preenchido com espectáculos individuais de artistas de Jazz que se realizam ao ar livre, desde o início de Julho, em três paisagens históricas e naturais do concelho de Cascais, alarga assim o conceito “história, natureza e Verão” a uma atitude ambientalmente responsável: contribuir directamente e sensibilizar o grande público para o uso eficiente de energia e para a sustentabilidade.

SW tmn
O SWtmn 2011, agendado para os dias 3 a 7 de Agosto, na Herdade da Casa Branca, Zambujeira do Mar, é um dos maiores e mais consagrados festivais de música nacionais, incluindo, pois, na sua programação, as preocupações ambientais que já vão atraindo público. Este ano, para contribuir para a conservação do meio-ambiente, os festivaleiros poderão novamente recolher lixo e angariar fichas ‘eco tmn’, uma moeda de troca que premeia os mais ecológicos e pode ser trocada por brindes TMN e animações. Numa parceria com a Good Mood, algumas estruturas do festival serão transformadas em verdadeiras experiências sustentáveis e, simultaneamente, em obras de arte.

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Andanças
O Andanças, que tem lugar entre 1 e 7 de Agosto, em São Pedro do Sul, é por tradição um festival ambientalmente sustentável: este ano, as águas dos duches (leia-se duches solares portáteis) são reutilizadas nos autoclismos, mas só depois do consumo ser monitorizado; uma cozinha solar instalada no recinto serve o apetite do público; os copos e os pratos de plástico são, mais uma vez, uma miragem da cidade de onde se saiu; e, em substituição, quem quiser beber terá de se agarrar à já famosa caneca reutilizável do festival, que poderá ser devolvida no final da sua utilização, sendo devolvido o valor da sua compra ou guardada como recordação.

Neste festival que, desde 1996, propõe aos entusiastas da world música e das danças populares a aprendizagem de mais de meia centena de estilos de dança, a organização dedica à sustentabilidade outras medidas, como uma parceria com a Rede Expressos para promover a mobilidade, e o Menu Km Zero: uma refeição que recorre unicamente a produtos locais, reduzindo-se a distância de transporte e promovendo o desenvolvimento local.

O que já aconteceu
Retrocedendo na agenda de Verão, é bom saber que à diversão, ao sol e à praia, se juntaram este ano, como já vem sendo habitual, estratégias básicas de sustentabilidade em praticamente todos os festivais de música que já decorreram no País. Mas é necessário dizer que a maioria são mesmo as básicas, isto é, limitam-se a pouco mais do que a compensação das emissões de carbono produzidas nos eventos e a acções de sensibilização a nível ambiental.

A animação arrancou no primeiro dia deste mês no Alto da Ajuda, em Monsanto, com o Delta Tejo, que este ano apostou na solidariedade: a Delta Cafés desafiou três artistas (Yuri da Cunha, Aurea e Maria Gadú) a apoiarem os projectos da Associação Abraço, da Associação reKlusa e da Fundação do Gil, instituições que estiveram associadas a cada um dos três dias do evento. De sublinhar que a Reklusa cumpriu a missão de promover a reciclagem de copos usados no recinto, oferecendo a todos os festivaleiros que reciclaram objectos criados a partir de materiais reciclados.

Nas quatro edições anteriores, o Delta Tejo realizou várias campanhas ambientais, desde a compensação da pegada ecológica à separação de resíduos, passando pela distribuição de saquetas de açúcar amigas do ambiente e pelo apoio ao “Projecto Cegonha Negra”, da Quercus.

Já o Super Bock Super Rock, que juntou na praia do Meco cerca de trinta mil pessoas a cada dia de espectáculos, reforçou entre 14 e 16 de Julho a aposta nos transportes colectivos, disponibilizando autocarros de ligação à praia.

No mesmo fim-de-semana, mas mais a Norte, em Vila Nova de Gaia, o Festival Marés Vivas dava mostras de merecer a distinção com a certificação 100R – Reciclagem 100% Garantida, selo que tem como objectivo certificar eventos, espectáculos ou espaços comerciais, garantindo que os resíduos de embalagens gerados nesses locais são, posteriormente, encaminhados correctamente para reciclagem.

Tal como em 2010, a organização voltou a comprometer-se com o destino das embalagens produzidas, instalando no recinto os equipamentos necessários para a recolha de todos os resíduos gerados. Depois de separados no local, o processo de triagem e reciclagem foi assegurado pela Suldouro, responsável pelo tratamento e valorização dos resíduos urbanos do sistema Multimunicipal do Sul do Douro. No espaço da Sociedade Ponto Verde, detentora do 100R, tentou-se a sorte numa slotmachine adaptada à realidade da reciclagem. “O teu Ponto Verde dá com o meu?” foi outra acção em destaque na promoção da reciclagem no festival.

No passado fim de semana, foi vez de fazer “refresh” na segunda edição do festival da praia fluvial de caldas de S. Paulo, onde ao ambiente natural rodeado de paisagens verdes (numa área que integra as encostas da reserva natural da Serra da Estrela), se alia a importância ambiental, histórica e cultural da região, como mote para o conceito do festival.

A sensibilização ambiental fez-se com o Eco-Refresh, um programa “verde” dentro do programa oficial que visou refrescar a mentalidade do público, aumentando o respeito pela natureza e consciencializando para os problemas ambientais através de iniciativas como workshops e palestras sobre temas relacionados com o ambiente, aulas de yoga e massagens e mercados de produtos biológicos e de artigos reciclados. Das acções já habituais nos festivas de Verão, o Refresh reuniu a promoção de boleias e incentivo à utilização de transportes públicos, a separação e reciclagem dos resíduos, a utilização de lâmpadas de LED, a instalação de painéis solares, a sensibilização para o uso racional de água, a divulgação através de materiais ecológicos e a tradicional contabilização e compensação das emissões de CO2.

O “Boom” da sustentabilidade
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Em 2012, durante a lua cheia de Agosto, a estrela dos festivais sustentáveis volta a brilhar em Portugal. O Boom Festival é a maior referência nacional no que concerne estratégias de sustentabilidade bem planeadas já que, desde 2004, alia o seu conceito de evento musical transgeracional e intercultural a uma visão auto-sustentável em prol da consciência ecológica.

Casas de banho compostáveis, tratamento de águas com biotecnologia, reciclagem, distribuição de kits com cinzeiros de bolso e sacos de lixo, ou alimentação dos geradores a biodiesel através do programa “O seu óleo é música”, são práticas ambientais a que se juntam, na próxima edição, módulos de energia solar, bioconstrução em bambu e o Boom Lab, laboratório que irá desenvolver tecnologia sustentável para eventos.

De sublinhar que este é um dos eventos de música mais reconhecidos a nível ambiental, tendo arrecadado em 2010 o Greener Festival Award (pela segunda vez consecutiva) e, já em Janeiro deste ano, o Green ‘N’ Clean Festival Of The Year”, a nível europeu. Também no ano passado, o Boom Fest foi convidado pela ONU a integrar o United Nations Environmental and Music Stakeholder Initiative, que promove a consciência ambiental junto do grande público.

 

Gabriela Costa

Jornalista