Micro ventures de trabalho voluntário para capacitação de desempregados, aldeias eco-sustentáveis para combate ao envelhecimento e à desertificação, um Banco do Trabalhador com ofertas de ocupação ocasional. Estas são algumas das 25 Ideias de Origem Portuguesa já submetidas na plataforma de incubação de projectos de inovação e empreendedorismo, lançada pelas Fundações Gulbenkian e Talento. A iniciativa, que convoca a diáspora portuguesa a dar respostas aos desafios sociais que o País enfrenta, recebe ideias criativas até ao dia 25 de Março
POR GABRIELA COSTA

Soluções de eficiência energética chave na mão, moradias auto-sustentáveis com fins culturais e artísticos, micro ventures de trabalho voluntário para capacitação de desempregados, revisão da definição da idade de velhice (tida hoje a partir dos sessenta anos), criação de aldeias eco-sustentáveis para combate ao envelhecimento e à desertificação, melhoria do impacto das organizações sociais através de redes partilhadas de contactos e serviços de apoio empresarial; angariação de fundos para o Terceiro Sector a partir de desafios radicais como escaladas ao Kilimanjaro ou expedições à Antárctida; ou a criação de um Banco do Trabalhador para intercâmbio de ofertas de serviços ocasionais, como jardinagem ou pequenas reparações. Estas são algumas das 25 Ideias de Origem Portuguesa já submetidas na plataforma de incubação de projectos de inovação e empreendedorismo social que convoca a diáspora portuguesa a pensar “novas e melhores respostas para os desafios que o nosso País enfrenta”.

O concurso, lançado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação Talento (que visa a prossecução de acções de carácter cultural, científico e social que promovam o talento português e bebam do talento estrangeiro), visa dinamizar as ideias dos portugueses residentes no estrangeiro para que, em conjunto com portugueses residentes no País, as transformem em projectos inovadores nas áreas do Ambiente e Sustentabilidade, Inclusão Social, Diálogo Intercultural e Envelhecimento.

Em entrevista ao VER, a directora do Programa Gulbenkian de Desenvolvimento Humano (no âmbito do qual foi criado o FAZ – Ideias de Origem Portuguesa), Luísa Valle, defende que as ideias “de quem vê a nossa realidade a partir de fora, com o distanciamento que lhe permite uma maior racionalidade, mas com a motivação de quem cá deixou o coração, são de certeza um grande contributo para melhorarmos”. E assim se coloca um movimento da sociedade civil a promover “a responsabilidade individual e o exercício de uma cidadania activa, envolvente e participativa”, através de práticas de inovação social, finalidade da iniciativa.

Incentivar a formulação e a implementação de novas respostas às necessidades sociais mais prementes, numa lógica de inclusão e de justiça sociais, nas quatro áreas referidas – Ambiente e Sustentabilidade, Diálogo Intercultural; Envelhecimento; Inclusão social -, todas elas temáticas que marcarão de uma forma muito profunda as nossas sociedades no século XXI”, segundo Luísa valle, é um dos objectivos do FAZ-IOP. Outros são aumentar a participação da sociedade civil na resolução de problemas sociais; promover o desenvolvimento de uma cultura de responsabilidade cívica e de cidadania solidária; fomentar a ligação, o diálogo e a colaboração entre os portugueses da diáspora e os que residem no território nacional; capacitar os cidadãos para o desenvolvimento e implementação de projectos na área social; e, concretamente, financiar um projecto de empreendedorismo ou de inovação social seleccionado no âmbito de um concurso.

“Lá se pensam, cá se fazem”
As incrições para o FAZ-IOP estão abertas desde o dia 4 de Janeiro e prolongam-se até 31 de Março. Até à data de fecho desta edição, foram submetidos 25 projectos, e efectuados mais de 150 registos no site do concurso. Contudo, a larga maioria das ideias apresentadas foram submetidas por portugueses residentes em Portugal, não obedecendo ao critério do regulamento que especifica que apenas poderão submeter projectos os emigrantes portugueses e luso-descendentes.

“O grande objectivo é passarmos do paradigma dos 10 milhões de Portugueses para o dos 15 milhões”Luísa Valle, directora do Programa de Desenvolvimento Humano da Fundação Gulbenkian .
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Questionada sobre a opção de o projecto se direccionar exclusivamente à Diáspora portuguesa, e não (também) a projectos de portugueses residentes em Portugal, a directora do Programa Gulbenkian de Desenvolvimento Humano esclarece: “o FAZ é um programa que, admitimos, terá mais componentes, e esta é só uma delas. O grande objectivo é passarmos do paradigma dos dez milhões de portugueses para o dos quinze milhões, e esta iniciativa é um contributo para esse movimento e para o estreitamento de ‘relações’ entre todos”.

No âmbito do FAZ-IOP, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação Talento lançarão um concurso com o objectivo de financiar a execução de um projecto de empreendedorismo e/ou de inovação social nas quatro grandes áreas escolhidas. O concurso decorrerá em duas fases: a primeira fase corresponde à apresentação e pré-selecção de ideias, enquanto a segunda corresponde à apresentação e selecção do projecto com base nas ideias pré-seleccionadas.

O projecto a implementar deverá necessariamente ser apresentado por emigrantes portugueses ou luso-descendentes que, para este efeito, deverão constituir uma equipa de projecto em que, pelo menos, um elemento deverá ser um cidadão português a residir em Portugal. Todas as informações para as candidaturas, incluindo os formulários de submissão, estão disponíveis online. O período de candidaturas à primeira fase do concurso decorre, como referido, até ao dia 31 de Março, sendo as ideias pré-seleccionadas anunciadas até ao dia 15 de Abril. A segunda fase do Concurso decorrerá entre os dias 24 de Abril e 30 de Junho de 2011, data em que se anunciará a candidatura vencedora.

A decisão de selecção das candidaturas é da responsabilidade do Conselho de Administração da Gulbenkian, com base numa proposta de um júri independente “composto por personalidades de reconhecido mérito”.

Os critérios de selecção centram-se na prossecução dos objectivos que presidiram à instituição do FAZ-IOP e do concurso, bem como o impacto, a originalidade, o carácter inovador e sustentabilidade da contribuição do projecto para a resolução das necessidades sociais nas quatro áreas escolhidas. A candidatura seleccionada será objecto de financiamento até cinquenta mil euros, pela Fundação Calouste Gulbenkian, para a sua implementação no terreno. Às ideias pré-seleccionadas na primeira fase do concurso será facultada uma verba de mil euros, destinadas aos trabalhos e despesas preparatórias da segunda fase do concurso.

Os vencedores dos melhores projectos formarão equipa com portugueses residentes no País, para implementar as ideias apresentadas, a partir da “imaginação e capacidade de iniciativa dos concorrentes”, sublinha Luísa Valle, sugerindo que “as redes sociais podem ter aqui um papel importante”.

A possibilidade de concretização de um dos projectos, através do financiamento previsto, traduz-se não só numa estratégia de cidadania efectivamente activa, como “no desafio à responsabilidade e à capacidade de concretização”, conclui.

As 1ªs Ideias de Origem Portuguesa:
Eficiência energética para todos de maneira fácil e rápida – Bélgica
Criação dum consórcio nacional ou empresa capaz de entregar a cada edifício publico, cidadão, instituição ou empresa em Portugal uma solução chave-na-mão para melhorar a eficiência energética dos edifícios. Objectivos: Entregar propostas rápidas de orçamentos e instalações e realizar as obras “em rotina”; integrar o mais possível materiais nacionais e desenvolver soluções originais e adequadas; informar sobre todas as possibilidades disponíveis de integração de energias renováveis nos edifícios.Plataforma “Micro Venture Capitalist” – Reino Unido
A ideia-projecto visa a criação de uma plataforma “Micro Venture Capitalist”, alavancada no conhecimento e experiência de profissionais voluntários que cedam algumas horas semanais para formar “turmas” de desempregados. Objectivos: Proporcionar capacidades técnicas e cursos de formação para determinadas áreas de conhecimento; fornecer capital para iniciar um negócio onde o projecto agiria como um capitalista de micro risco; garantir que a formação dada prepara os desempregados para encontrarem um emprego ou abrirem a sua própria microempresa.Globocult – Brasil
O projecto pressupõe uma parceria entre instituições internacionais artísticas e culturais (como centros culturais e museus) que forneceriam obras integradas na cultura de cada país. Objectivos: expor a uma só vista vários panoramas culturais diferentes; disponibilizar ao público aprendizagem, diversão e entretenimento.

Jail_Mo – Dinamarca
Os Fab Labs representam uma revolução de um novo tipo de ensino e acesso a informação, que tem gerado o interesse de inúmeras comunidades, sendo um caso de sucesso inquestionável. Portugal tem agora a oportunidade de colaborar e abraçar esta iniciativa. Objectivos:  aplicar o conceito de FabLab de forma directa num contexto prisional, dentro de estabelecimentos nacionais, a partir da experiência deste português residente na Dinamarca no Estabelecimento Prisional de tires, em 2005.

Apoio a Empreendimentos Sociais – Reino Unido
Melhorar a eficácia e o impacto de um empreendimento social, para que a mesma ajuda chegue a mais pessoas, de uma forma mais efectiva, é o que se propõe com este projecto que propõe a implementação de uma plataforma para alavancar conhecimentos de gestão de projectos. Objectivos: Partilhar espacos de escritórios de qualidade para o funcionamento de organizações e de parcerias; partilhar uma gama de serviços de apoio empresarial; coordenar redes de contactos empresariais; apoiar organizações que procuram expandir o seu raio de accão ou melhorar a eficiência na sua acção social.

Desafio de Caridade – Reino Unido
Partindo do desafio do fundraising, o projecto propõe-se organizar experiências internacionais, como passeios de bicicleta de Lisboa a Madrid ou pelos Andes no Chile, escaladas de montanhas ou do Monte Kilimanjaro, actividades de rafting; pára-quedismo, viagens à Antárctida ou ao Árctico. Objectivo: Angariar fundos para instituições de caridade. Envolver os participantes na atribuição de um donativo, a ser atribuído a uma instituição social da sua escolha.

Banco Social – Reino Unido
Criar um Banco Social que financie instituições de caridade e organizações sociais com o apoio dos depositantes e investidores que apostem no incentivo à mudança social. Objectivos: tornar o retorno social tão ou mais importante que o retorno financeiro de um investimento; aplicar os apoios com impacto e nas necessidades reais da sociedade; maximizar o impacto social das acções desenvolvidas.

Banco do Trabalhador – Estados Unidos
Criar um Banco do Trabalhador que funcione como uma base de dados de serviços ocasionais, como jardinagem, apoio escolar ou pequenas reparações, destinado à ocupação de pessoas desempregadas. Objectivos: Promover a oferta e procura de trabalho; promover a ocupação de pessoas em situação de desemprego; garantir um processo de avaliação das tarefas realizadas, quer por parte do empregador, quer por parte do empregado.

Gabriela Costa

Jornalista