O economista e professor Luis Cabral esteve na AESE Business School para uma sessão de continuidade subordinada ao tema “A Economia de Francisco: explicada a economistas”. Em entrevista ao VER, Luis Cabral partilhou as suas expectativas face ao Encontro de Assis, o convite feito pelo Papa a jovens economistas e empreendedores para “mudarem a economia de hoje e conferirem uma alma à economia do amanhã”, bem como a sua visão face à realidade económica da actualidade
POR HELENA OLIVEIRA

No passado dia 1 de Maio de 2019, o Papa Francisco endereçou um convite aos jovens economistas e empreendedores de todo o mundo. O motivo? Um evento, a ter lugar de 26 a 28 de Março de 2020, na cidade de Assis, que lhe permitirá encontrar-se com jovens interessados num tipo diferente de economia: “uma que traga vida e não morte, que seja inclusiva e não exclusiva, humana e não desumanizadora, que se preocupe com o ambiente em vez de o espoliar”. Este encontro está a ser aguardado com uma enorme expectativa um pouco por todo o mundo e a ser devidamente preparado com cursos e palestras. Em Portugal, e no âmbito de uma parceria entre a ACEGE-NexT, a Nova SBE, a UCP e a AESE Business School, a semana agora a terminar foi palco de algumas iniciativas dedicadas a este encontro e a esta “economia alternativa”, de que é exemplo a palestra de Luis Cabral, economista conceituado e professor da NYU Stern e da AESE.

Criar uma economia que coloque no seu centro a pessoa e o ambiente é, de uma forma muito geral, um dos desígnios do Papa Francisco. Quão longe está esta visão do actual modelo económico?

Há sinais de que as pessoas, os media, as autoridades, etc., estão alertadas para estes desígnios. No entanto, a realidade — nomeadamente a realidade da política económica — fica ainda aquém do que seria desejável, nomeadamente os aspectos da política ambiental que têm natureza global (especificamente, problemas de alterações climáticas).

Recordando a publicação de duas das suas encíclicas, a Evangelii gaudium  e, mais tarde, a Laudato si’ , nas quais “denuncia vigorosamente o estado patológico de uma grande parte da economia global, referindo-se à mesma como uma ‘economia que mata’, e demonstrando que “ao matar tanto as pessoas como o ambiente, está também a matar o futuro”, o Papa acolheu a ideia da organização deste encontro em Assis com entusiasmo. O que poderá resultar deste encontro particularmente dedicado aos jovens, mas que conta com a presença de alguns economistas e empreendedores de renome mundial como Amartya Sen, Jeffrey Sachs, Stefano Zamagni ou Muhammad Yunus?

O resultado que mais gostaria de ver é um influxo de jovens talentos para o estudo da Economia segundo a perspectiva apontada pelo Papa. É notório que 75 por cento dos prémios Nobel da Economia tenham sido atribuídos a economista baseados nos Estados Unidos. A realidade económica transcende a de um país específico, por maior que esse país seja. É bom que haja mais diversidade de perspectivas no estudo da realidade económica.

Esta “Economia de Francisco” pretende lançar a semente para um novo modelo económico que explore alternativas ao sistema capitalista de mercado livre, mesmo que este último tenha ajudado a retirar milhões de pessoas da pobreza. O que está, a seu ver, mais errado, com o actual sistema capitalista?

A crença na liberdade económica como objectivo último e como garantia da justiça social.

Proferiu uma palestra intitulada “A Economia de Francisco: explicada a economistas”. No geral, e tendo em conta as diferentes escolas de pensamento económico, como sintetizaria esta “explicação”?

O Teorema Fundamental da Microeconomia — que o equilíbrio dos mercados concorrenciais leva à maximização do valor económico — é um resultado importante mas não é o resultado final. A justiça social vai muito para além da criação de valor.

Quando, em 1970, o economista Milton Friedman escrevia que a única responsabilidade social das empresas era a de gerar lucro e maximizá-lo para os accionistas, talvez não se tivesse a noção de que a sua doutrina iria prevalecer nos 50 anos seguintes. Mas foi o que aconteceu. Actualmente, começam a existir propostas alternativas, falando-se muito do denominado capitalismo dos stakeholders. Até que ponto é que é possível desenraizar uma doutrina tão arraigada e substitui-la por uma outra que em vez de maximizar o lucro pretende, ao invés, maximizar o propósito da empresa?

Muitos economistas, incluindo economistas da Universidade de Chicago, pensam que é possível — e até natural — interpretar as ideias de Friedman como referidas aos interesses dos accionistas, o que é mais vasto que os lucros dos accionistas. Ora quando eu compro acções da empresa X, eu estou a aderir à missão, ao propósito, da empresa X. Nesse sentido, quando um gestor age segundo o propósito da empresa, ele segue os interesses do accionista (o acto de justiça por que Friedman clama). E o propósito explícito da maioria das empresas, reflectido nos seus textos de visão e missão, inclui explicitamente os interesses dos vários stakeholders.

No mesmo sentido, temos vindo a assistir, em particular nos últimos meses, a uma “morte anunciada do primado do accionista”. O Business Roundtable publicou em Agosto a sua Declaração sobre o Propósito da Empresa, o Fórum Económico Mundial lançou também recentemente um manifesto intitulado “O propósito universal da empresa na Quarta Revolução Industrial” e é cada vez maior o número de investidores que procura novas formas de unir os benefícios sociais e ambientais ao retorno financeiro. Considera que estamos mesmo perante “novos ventos económicos” empurrados por uma consciência social alargada, mais próximos da própria “Economia de Francisco”, ou tudo isto não passa apenas de retórica bem-intencionada?

Nota-se claramente uma mudança de propósito. O problema é que a prática fica muito frequentemente aquém da teoria.

Tem vindo a expressar-se, em várias ocasiões, sobre o tão falado futuro do trabalho. A noção que nos acompanha, pelo menos desde a Revolução Industrial, de que os progressos tecnológicos destroem alguns tipos de trabalho, mas que criam, em simultâneo, outros tantos, tem servido para acalmar as hostes. Mas, e desta vez, as evidências parecem demonstrar que a tecnologia está a destruir empregos, a criar novos e melhores, mas também em menor quantidade. Como antevê o impacto de uma economia “automatizada”?

Ao longo dos últimos dois séculos, a evolução económica e tecnológica tem vindo a diminuir as necessidades de trabalho, medidas em horas de trabalho. Isso em si é bom: é muito melhor ter uma semana de 35 horas (2020) do que uma semana de 85 horas (1820). Os dois desafios da revolução tecnológica em curso são, em primeiro lugar, o ajustamento inerente à destruição e criação de empregos e, em segundo lugar, a “estrutura de desigualdade” criada pela nova economia.

Defende que a confluência da globalização e das novas tecnologias implica uma revisão do modelo de solidariedade das sociedades ocidentais. Que premissas deverão estar impressas nesse novo modelo?

Há sinais de que a economia do Século XXI se caracteriza por “estruturas de desigualdade” mais marcadas que a economia do Século XX: os novos empregos requerem ou muito alta qualificação ou muito baixa qualificação, isto é, contribuem para o esvaziamento da classe média. Isto torna ainda mais claro que o mercado livre, por si só, não é garante de justiça social. Para tornar as coisas ainda piores, o Estado Social do Século XX — em Portugal e em muitos outros países — encontra-se em situação de ruptura. Tudo isto aponta para a necessidade urgente de um novo modelo de solidariedade.

Na minha opinião, os pilares do novo modelo de solidariedade deveriam incluir (a) uma reforma do sistema de segurança social, desligando-o do contrato de trabalho e tornando-o tendencialmente num modelo de contas individuais; (b) uma reforma fiscal que diminua drasticamente os encargos laborais das empresas e inclua um imposto altamente progressivo sobre o consumo; (c) um Estado Social baseado principalmente na provisão de rendimento mínimo, seguro de desemprego, seguro de saúde e pensões de reforma — e menos na provisão directa de bens e serviços.

NOTA: A palestra de Luis Cabral poderá ser ouvida aqui na íntegra