Um líder será tanto mais forte na sua liderança quanto mais livre for, isto é, quando menos estiver condicionado por interesses pessoais, particulares ou de grupo. Porque se tem claro o fim, também está disposto a suportar o peso de procurar os meios e de deixar os meios alcançar esse fim
POR P. JOSÉ FRAZÃO

Gostava de conversar sobre algo que nos toca a todos: o nosso compromisso, que resulta da fé, da transformação do mundo em algo melhor, na construção do Reino.

Não sei se me vou desviar da proposta que me fizeram, mas gostaria de falar de alguns ingredientes, condições ou disposições de esta liderança para a transformação, partindo de Santo Inácio de Loyola, dos seus exercícios espirituais, trazendo-vos algo que é próprio da Companhia, e que de alguma maneira tem sido testado ao longo de 500 anos, na liderança de muitos projectos em inúmeros âmbitos.

Primeiro algumas notas de espiritualidade inaciana para vos recordar um texto que muita gente aqui presente conhece, depois recordar quatro pólos, entre os quais se desenhará algo sem o qual não há transformação: a liberdade interior, ou para usar uma linguagem também inaciana, a indiferença. E finalmente uma nota que hoje me ocorreu ao olhar para Jesus como líder. Como é que Jesus lidera para a transformação?

Começo por ler um texto que é muito importante nos exercícios de Santo Inácio, ao que ele chama “Princípio e Fundamento”.

“O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor e, assim salvar-se. As outras coisas sobre a face da terra são criadas para o ajudarem a atingir o fim para o qual foi criado. Daí se segue que ele deve usar das coisas tanto quanto o ajudar para atingir o seu fim, e deve privar-se delas tanto quanto o impedem. Por isso, é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é permitido à nossa livre vontade e não lhe é proibido. De tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que enfermidade, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida breve, e assim por diante em tudo o mais, desejando e escolhendo somente aquilo que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados.” (Exercícios Espirituais n. 23)

Este é um texto extraordinário. E, declinando o que Santo Inácio diz de uma maneira muito simples, sublinho quatro grandes pontos.

Primeiro, é importante ter clareza em relação ao fim. E creio que já não é pouco o que diz Santo Inácio: quando afirma que o ser humano é criado para uma justa relação com Deus, para uma justa relação com os outros, uma justa relação com a sua própria existência. Portanto, interessa ter certeza em relação aos fins.

Depois, em segundo lugar, interessa saber escolher os meios que ajudam a alcançar o fim. É a consequência. Porque todas as coisas criadas, o Senhor põe à nossa disposição para nos ajudar a alcançar este fim.

Terceiro, é fundamental preservar a liberdade em relação a estes meios, não os confundindo com um fim.

Quarto, eleger e optar de forma clara, estando disposto a assumir e pagar o custo pelas escolhas efectuadas.

Qual é o fim? É um fim legítimo, ilegítimo, é um fim ético, não ético, é um fim bom, é um fim mau. É um fim neutro? O que é que nos move?

Santo Inácio diz que o homem e a mulher são criados para um determinado fim. Todas as coisas têm o seu fim, a realidade tem um fim que nos atrai e que nos move e que justifica a nossa existência. É evidente que hoje, como no passado, nem todos estarão de acordo com isto, mas claramente a compreensão das coisas de Santo Inácio é a de que tudo tem o seu fim e esta finalidade tem uma relação com Deus. Portanto, o Princípio e Fundamento recorda-nos – eu penso que isto vale para uma vida, vale para uma empresa, vale para uma família, vale para uma igreja – que há que ter clareza em relação ao fim. O que é que nos move? O que é que move uma empresa? O que é que move uma paróquia? O que é que move uma congregação? O que é que move uma família? O que é que move um país? Qual é o fim? Estamos todos de acordo sobre o que é que move o nosso país? Qual é o fim? É um fim legítimo, ilegítimo, é um fim ético, não ético, é um fim bom, é um fim mau. É um fim neutro? O que é que nos move?

Há que ter clareza em relação ao fim, ao fim que orienta, ao fim que ordena, ao fim que organiza os meios

Creio que a liderança para a transformação pede, desde logo, uma clareza em relação aos fins. Este é o primeiro ponto: transformar para quê, em que sentido, em que direcção? Santo Inácio recorda, através deste texto, que este é o elemento fundamental: há que ter clareza em relação ao fim, ao fim que orienta, ao fim que ordena, ao fim que organiza os meios.

E este é o segundo ponto. Se nós temos claro qual é o fim, se nós sabemos para onde vamos, também sabemos mais facilmente identificar os meios que nos ajudam a alcançar esse fim, para aderir a eles, e afastarmo-nos dos meios que não nos ajudam a alcançar o fim. E aqui parece-me fácil que os meios se transformem em fins e que se substituam ao fim. E então, ao deixarmo-nos orientar por um fim que nos atrai e que nos move, começamo-nos a perder no enredo dos meios. E esta é uma dificuldade em que facilmente caímos.

Por isso há que trabalhar os meios, há que perceber de que maneira é que eles nos ajudam a alcançar o fim e há que perceber que ontem havia um meio que nos ajudava a alcançar o fim, e que hoje esse meio já não nos ajuda a alcançar o fim. Porque as circunstâncias mudaram, porque as pessoas mudaram, porque os tempos mudaram. Portanto o que determina, o que dá uma ordem aos meios não é o meio em si mesmo, mas sim o fim que eles servem.

O que dá uma ordem aos meios não é o meio em si mesmo, mas sim o fim que eles servem

Daí o terceiro ponto: interessa-nos ter clareza, e uma avaliação contínua, acerca da nossa liberdade [indiferença para Santo Inácio]. A indiferença para Santo Inácio não é relativismo, não é o “tanto se me dá como se me deu”. Indiferença, tendo claro o fim, significa que estou indiferente em relação aos meios, isto é, estou livre em relação aos meios, portanto adiro aos que melhor me ajudam a alcançar o fim e afasto-me daqueles que não me ajudam ou até que me impedem de alcançar o fim. Não chega ter clareza racional em relação ao fim e aos meios. É preciso testar a adesão pessoal ao fim e, ao, mesmo tempo, o desprendimento em relação aos meios.

E para isto vem a parte final. Indiferente para que eu somente deseje e queira aquilo que mais me ajude a alcançar o fim para que sou criado e, portanto, um compromisso efectivo com os meios que me ajudam a alcançar os fins.

É preciso testar a adesão pessoal ao fim e, ao, mesmo tempo, o desprendimento em relação aos meios

Tendo claro estes elementos – clareza quanto ao fim, clareza quanto aos meios, clareza quanto à liberdade e clareza quanto ao que, de alguma maneira, se aceita suportar fruto dessa mesma liberdade -, então sim, creio que temos as condições para uma liderança, que seja transformadora, que seja capaz de transformar a realidade a partir, no nosso caso, de critérios evangélicos. A transformação da realidade a partir do Evangelho pede-nos sobretudo esta liberdade, esta indiferença, na linguagem de Santo Inácio.

Este é o ponto crítico da liderança. Se a liderança não tiver na sua base uma indiferença mínima, uma liberdade mínima, os frutos que dai decorrem não parecem ser transformadores de acordo com o Evangelho, porque no fundo o que estamos a procurar são os nossos próprios amores, quereres ou interesses, como diria também Santo Inácio. No fundo, o teste, a avaliação da liberdade em função do Evangelho, em função do Espírito Santo, em função daquilo que nos move a partir da nossa adesão a Cristo, é o grande teste da verdade da liderança. Porque é essa mesma liberdade que me ajuda a ter claro o fim, me ajuda a eleger os meios e que me ajuda a suportar o peso que decorre da minha escolha, da minha eleição.

Se a liderança não tiver na sua base uma indiferença mínima, uma liberdade mínima, os frutos que dai decorrem não parecem ser transformadores de acordo com o Evangelho, porque no fundo o que estamos a procurar são os nossos próprios amores, quereres, interesses, como diria também Santo Inácio

E penso que um líder será tanto mais forte na sua liderança quanto mais livre for, isto é, quando menos estiver condicionado por interesses pessoais, particulares, de grupo, deste ou daquele. Porque se tem claro o fim, também está disposto a suportar o peso de procurar os meios e de deixar os meios alcançar esse fim. Também creio que na Igreja este é um elemento fundamental, quando percebemos que o tempo muda radicalmente, ou que está a mudar radicalmente o contexto social europeu, e que as estruturas da Igreja, muitas delas são do século passado ou de há dois ou três séculos. Qual é a nossa liberdade hoje para adaptar estes meios em função de um fim que é sempre o mesmo, mas que se realiza num contexto diferente?

Assim, eu creio que numa empresa, numa instituição religiosa, numa congregação ou numa Ordem como a minha, na família ou a nível individual, este é o grande teste, a disponibilidade para avaliar a própria liberdade em relação ao fim que nos move e em relação aos meios que nos ajudam a alcançar esse fim.

É que a nossa liberdade humana, mas também a nossa liberdade cristã e individual e também societária, grupal, familiar, será tanto maior, mais perfeita, mais conseguida, quanto mais conseguir articular estes quatro pontos cardeais: a origem, o horizonte, o alto e o baixo

Creio que entre as muitas coisas que poderíamos dizer, esta mesma liberdade oscila, ou realiza-se entre quatro grandes coordenadas. Simplificando muito, entre o passado e o futuro, entre o alto e o baixo. É que a nossa liberdade humana, mas também a nossa liberdade cristã e individual e também societária, grupal, familiar, será tanto maior, mais perfeita, mais conseguida, quanto mais conseguir articular estes quatro pontos cardeais.

O primeiro é o da origem. Ninguém começa nada radicalmente do zero. Todos nós somos herdeiros de alguma coisa. Todos nós fomos gerados à vida pelos nossos pais, por um país, língua, cultura, por uma Igreja e, portanto, creio que a nossa liberdade será tanto mais conseguida quanto mais tivermos uma relação serena, fecunda e grata com o nosso passado.

Também as famílias precisam de ter uma relação justa com o seu passado. Também as empresas, as congregações e os países. Por isso a importância da história, a importância de saber bem a língua, a importância de ter uma memória agradecida e reconciliada com o próprio passado. Assim, este pólo da origem é extremamente importante para o pólo da liberdade. Dessa liberdade inferior, dessa indiferença. E nós sabemos que quem não está reconciliado com o seu passado, dificilmente enfrenta correctamente o futuro.

A nossa liberdade será tanto mais conseguida quanto mais tivermos uma relação serena, fecunda e grata com o nosso passado

O segundo pólo é o horizonte. Ninguém gere a própria liberdade simplesmente olhando para o passado. A liberdade, se é feita desse pólo, que é a origem, que é o passado, também é feita de um horizonte que nos mobiliza. Nós fomos dados à vida para fazer alguma coisa, para realizar alguma coisa, para pôr algo de nós próprios. E portanto a nossa liberdade realiza-se também nesse horizonte, na capacidade de nos mobilizarmos, pela transformação de alguma coisa boa, na criação de algo de novo, na inventividade, na criatividade. Por isso diria que a liberdade será tanto maior e mais conseguida, quando conseguir uma justa relação neste pêndulo entre a origem e o horizonte, entre aquilo que nos precede e que nos permite ser o que somos hoje e aquilo que nos excede, e nos atrai, a partir do futuro. Mas estes dois horizontes também não chegam. Precisamos de mais dois, o alto e o baixo.

A nossa liberdade realiza-se também nesse horizonte, na capacidade de nos mobilizarmos, pela transformação de alguma coisa boa, na criação de algo de novo, na inventividade, na criatividade

E no alto poria as nossas qualidades, as nossas possibilidades, a nossa responsabilidade, aquilo de que somos capazes, no fundo o cume da nossa existência. Mas esse cume também se reflecte num baixo. Nas nossas fragilidades, no nosso lado obscuro, nas nossas feridas e, por isso é que a liberdade se conjuga entre estes quatro pólos: origem, horizonte, o alto e o baixo.

Também se poderia avaliar a partir destes quatro pontos uma empresa – qual a sua história, qual o seu horizonte, quais são as suas possibilidades, quais são os seus limites. Este último aspecto é mais difícil de gerir, há quase uma incapacidade pessoal e colectiva de reconhecer os nossos baixios, as nossas fragilidades, os nossos erros. Portanto, esta indiferença da qual fala Santo Inácio, esta liberdade interior, e que esteja ao serviço de um movimento transformador, parece-me que pode desenhar-se entre estes quatro pontos cardeais, que se forem absolutizados, se tornam destrutivos.

A origem torna-nos saudosistas, o horizonte torna-nos solitários, o alto torna-nos um bocadinho alucinados, e o baixo torna-nos deprimidos e tristes. Portanto estes quatro pontos precisam de estar em tensão para serem fecundos.

Jesus tinha claramente claro o seu fim. E tinha claro quais os meios que serviam esse fim

E como se situa Jesus no meio disto tudo? Jesus tinha claramente claro o seu fim. E tinha claro quais os meios que serviam esse fim. E claro que em Jesus nós vemos um homem profundamente livre. Simplesmente porque era o filho de Deus e portanto claramente que era livre, porque realiza esta liberdade, esta indiferença, entre estes quatro pontos cardeais. Profundamente reconciliado com a origem, profundamente focado num horizonte – a construção do Reino – claramente consciente do que é, da sua altura e da sua fragilidade, que não é uma fragilidade moral como a nossa, mas a de um homem que também tem sede, que sente medo, que também sofre com o afastamento dos amigos etc..

Ao  pensar neste ponto em concreto, veio-me uma imagem que é muito forte. Jesus diz aos discípulos que é preciso que ele vá, para que o Paráclito venha. Eu creio que aqui temos de encontrar uma imagem clara de como é que Jesus é líder. E como é que a liderança de Jesus é para a transformação. Como é que a liderança de Jesus transforma, de facto, as vidas e a realidade.

Porque Jesus tem consciência que é preciso que ele desapareça, que ele vá, para que um outro venha. E quem vem é o Espírito. É o espírito do próprio Senhor, que permitirá que todas as coisas sejam realizadas. É preciso que Jesus vá e que o Espírito Santo venha e permita todas as coisas. Por isso Jesus não cria um movimento, Jesus não funda uma empresa, Jesus não cria uma congregação religiosa. Jesus cria uma possibilidade. Jesus oferece a possibilidade para que o Espírito crie tantas coisas quantas as necessárias para continuar a realizar o Reino no tempo e no espaço. Por exemplo, nos tempos e nos espaços que serão diferentes.

É preciso que Jesus vá e que o Espírito Santo venha e permita todas as coisas. Por isso Jesus não cria um movimento, Jesus não funda uma empresa, Jesus não cria uma congregação religiosa. Jesus cria uma possibilidade

Então se olharmos para 2000 anos da história da Igreja, temos o resultado transformador desta promessa, do Espírito que realizou, que transformou tantas coisas, tantas vidas, tantas obras de arte, tanta música, tantas formas de vida, tanta fecundidade. Por isso creio que encontramos a força transformadora da liderança de Jesus na sua capacidade de se retirar, para que, retirando-se, permita que os seus discípulos movidos pelo Espírito façam acontecer as coisas. É um líder que não ocupa o espaço, mas que abre o espaço, para que tanta coisa aconteça. E como vai acontecer? Vai acontecer segundo a capacidade de discernimento que os seus discípulos tiverem, de lerem a realidade em que estiverem e de perceberem como é que o Espírito Santo se move nessa mesma realidade. Então vemos aquilo que o papa Francisco tem recordado à Igreja, que não foi ele que inventou, mas que é algo de sempre, que é o discernimento. Este palavrão que entrou na vida regular da Igreja, mas que por vezes não sabemos muito bem o que é.

Jesus é um líder que não ocupa o espaço, mas que abre o espaço, para que tanta coisa aconteça

No fundo, o discernimento é uma forma de liderança para a transformação. O discernimento é o desejo activo implicado de procurar e encontrar a vontade de Deus presente num momento da nossa história. Para este tempo e para este lugar. No fundo, é continuar a fazer o que Jesus faz com os seus discípulos, é criar espaço de possibilidade para que neste tempo e neste lugar o Espírito continue a dizer-nos como é que quer continuar a realizar a presença do Senhor.

É curioso que Jesus fique presente através da sua ausência. É preciso que ele vá para que o Espírito Santo venha. Portanto a presença de Jesus entre nós é uma ausência, é um espaço de possibilidade. Ou, dito de outro modo, é a presença do seu espírito que nos faz permitir que algo aconteça, de acordo, obviamente, com o Evangelho de Jesus, mas ao mesmo tempo com o estarmos situados no espaço e no tempo, porque é no espaço e no tempo que nos cabe continuar a realizar a missão que nos é confiada, continuar a realizar o Evangelho, tal como Jesus o realizou.

O discernimento é uma forma de liderança para a transformação. O discernimento é o desejo activo implicado de procurar e encontrar a vontade de Deus presente num momento da nossa história. Para este tempo e para este lugar

Só que realizá-lo na Palestina do ano zero não é a mesma coisa que realizá-lo no século XXI, num contexto cada vez mais secularizado, mas a missão é exactamente a mesma: continuar a realizar o Evangelho, de maneira a que este possa continuar a ser uma graça que salva as pessoas, as famílias, a sociedade no seu conjunto.

Creio que através da vossa missão enquanto gestores e empresários, naquilo que vos é próprio, têm de dar o vosso contributo para esta transformação e para a construção do Reino.

Nota: Transcrição e adaptação da intervenção do P. José Frazão no almoço-debate da ACEGE