Como já é tradição e em tempo de férias, o VER sugere aos seus leitores um conjunto de livros que não têm como objectivo fazê-los adormecer, mas antes despertá-los para a reflexão das várias realidades que nos rodeiam. Com um ano fértil em novos fenómenos, as escolhas para o Verão de 2022 misturam temas como a necessidade de um novo contrato social que vá ao encontro das mais prementes expectativas dos cidadãos, o complexo mundo do trabalho, uma nova guerra a travar para combater a crise climática e o debate sempre actual sobre o papel da meritocracia num mundo governado por líderes que, na sua maioria, nasceram em berços dourados. E porque é preciso não esquecer que o mundo se alterou profundamente depois da chegada da pandemia, recordamos ainda as lições a retirar do passado e do presente para estarmos mais bem apetrechados para viver o futuro. Boas férias com boas leituras
POR HELENA OLIVEIRA 

What We Owe Each Other: A New Social Contract for a Better Society

Minouche Shafik

Apesar de nunca ou raramente pensarmos no assunto, todos nós participamos, diariamente, nos contratos sociais, os quais moldam todos os domínios das nossas vidas. Sejam as nossas instituições políticas, os sistemas legais ou as condições materiais, seja a forma como organizamos a nossa família ou comunidade, o que esperamos dos nossos empregadores, como nos empenhamos na educação dos nossos filhos, como vivemos a doença e a velhice, a par do nosso bem-estar, dos nossos relacionamentos e da maneira como perspectivamos as nossas vidas. Todas estas “actividades” exigem que cooperemos uns com os outros para benefício mútuo e os termos dessa cooperação definem o contrato social na nossa sociedade.

Como sabemos também, são as leis e as normas sustentam estas interacções diárias. Em algumas sociedades o contrato social depende mais de famílias e comunidades para apoio mútuo, sendo que em outras é o mercado e o Estado que desempenham um papel mais importante. Mas em todas as sociedades espera-se que as pessoas contribuam para o bem comum quando são adultas, em troca de serem cuidadas quando são crianças, jovens, idosas, ou incapazes de zelar por si próprias.

Todavia basta olharmos em nosso redor para percebermos que o mundo em que vivemos está a sofrer mudanças sem precedentes, as quais passam pelas mudanças aceleradas na tecnologia, pelas tendências demográficas, pelas alterações climáticas, entre outros desafios globais que se apresentam como gigantescos. E, para muitos, esse contrato social que nos deveria servir mutuamente está simplesmente a fracassar.

Como a própria autora deste livro afirma, a maior parte deste malogro deriva do fracasso dos contratos sociais existentes em satisfazer as expectativas das pessoas, tanto em termos de segurança como de oportunidades. Velhas disposições foram quebradas por forças variadas, incluindo aquelas cujo impacto global na sociedade tem sido positivo. Estas incluem, entre outras, a mudança tecnológica que está a revolucionar o mundo do trabalho; a entrada de mulheres com cada vez mais formação no mercado de trabalho e que está a interferir com a sua disponibilidade “tradicional” para cuidar das crianças e dos idosos de forma gratuita; o envelhecimento da população que significa que teremos de encontrar novas formas de apoiar dignamente os idosos e, por último mas não menos importante, o maior desafio de todos: a crise climática, a qual nos obriga a encontrar soluções para tornar o mundo ambientalmente sustentável.

Mas nem tudo parecem ser más notícias. Como também escreve a directora da London School of Economics, é possível a criação de um novo contrato social que pode satisfazer a necessidade de segurança e de oportunidades das pessoas, ao mesmo tempo que luta para solucionar, ou pelo menos mitigar, os grandes desafios que afectam a sociedade como um todo. Este novo contrato social depende de três pilares: segurança, risco partilhado e oportunidade. E é sobre estes pilares que versa o livro da também economista e antiga vice-governante do Banco de Inglaterra, um dos finalistas do FT Business Book of the Year 2022.

Remote Work Revolution: Succeeding from Anywhere

Tsedal Neely

Não poderia faltar. Um dos temas mais falados ao longo da última década e, em particular, desde que a pandemia nos ensinou a todos que existem formas distintas e eficazes para se trabalhar e manter a produtividade, o mundo laboral encontra-se numa profunda revolução que constará, decerto, nos manuais de História de um futuro não muito distante (aliás, é já tema de inúmeros livros, artigos e afins). Tsedal Neely é professora na Harvard Business School, especialista no universo global e virtual do trabalho e ocupa a 4ª posição no ranking mundial dos “grandes pensadores”, o famoso Thinkers50. Assim, não é de estranhar que o seu livro mais recente tenha como tema central o trabalho remoto, dedicado particularmente aos trabalhadores que estão a executar as suas funções a partir de qualquer sítio e aos seus respectivos líderes. Tsedal Neely debruça-se igualmente sobre a implementação e consequente execução das melhores práticas para se retirar o maior proveito do tão falado teletrabalho, remoto, à distância, não-presencial, digital, que goza já da sigla WFH (WorkFromHome), a par de todos os epítetos que lhe têm sido atribuídos à medida que se torna cada vez mais popular e desejado.

Tendo em conta os benefícios do trabalho remoto – incluindo os tempos de deslocação inexistentes, os custos operacionais mais baixos e um maior número de candidatos a emprego globais os quais podem ser realizados a partir de qualquer canto do mundo – muitas empresas, incluindo por exemplo o Twitter e a Google, planeiam incorporar na sua cultura organizacional, e de forma permanente, alguns dias remotos semanais ou oferecer aos empregados a opção de trabalhar a tempo inteiro a partir de casa. Mas, e como todos nós também já o experienciámos, o trabalho virtual encerra complexos desafios. Os empregados, que tanto têm lutado por esta nova forma de trabalhar, podem também sentir-se perdidos, isolados, fora de “sincronia” e “longe da vista”, sendo várias as dúvidas que os assaltam. Por exemplo, pretendem saber como construir e garantir a confiança entre colegas e superiores hierárquicos, qual a melhor forma para manter ligações sem interacções presenciais, como gerir o equilíbrio adequado entre trabalho e vida pessoal, que ganhos e perdas este regime implica e o que a empresa está a pensar decidir sobre todos estes assuntos. Por seu turno, os gestores querem saber como liderar virtualmente – pois são muitos os que confessam sentir uma enorme dificuldade em fazê-lo -, como manter as suas equipas motivadas, quais as melhores ferramentas digitais para assegurar um bom acompanhamento e comunicação com os seus trabalhadores e, é claro, como manter a produtividade das suas empresas depois desta tomada de decisão.

O livro da reputada especialista responde a muitas destas dúvidas, tendo em conta cinco ideias por excelência: a de que a autonomia impulsiona a produtividade; a de que existem dois tipos de confiança, cognitiva e emocional, os quais os líderes -mas também os trabalhadores – devem saber distinguir e estimular mediante formas distintas; o saber seleccionar as ferramentas digitais certas, em particular as que melhor ajudem os funcionários a partilhar informações de ordem variada, bem como reuniões dedicadas à discussão e interpretação dessas mesmas informações. Para os trabalhadores é também regra comunicar adequada e eficazmente o que estão a fazer, que tarefas estão a desempenhar, para não correrem o risco de colegas ou superiores hierárquicos poderem presumir que não estão a trabalhar. Por último, a capacidade de os líderes conseguirem motivar as suas pessoas mesmo quando parecem invisíveis, fornecendo e insistindo numa declaração de visão sintética mas assertiva, em torno da qual os empregados se deverão reunir, com o intuito de lhes transmitir a desejada transparência, ainda mais imprescindível no actual contexto. Extremamente útil para líderes, gestores, equipas e trabalhadores remotos. Vivamente aconselhado.

The New Climate War: The Fight to Take Back Our Planet  

 Michael E. Mann 

De acordo com Michael E Mann, as tácticas exercidas pela indústria dos combustíveis fósseis e por outros tantos aliados negacionistas das alterações climáticas (que mesmo que nelas acreditem, é o imediatismo do dinheiro que os faz assobiar para o lado) estão a perder a sua eficácia e a ser substituídas por um plano de batalha muito mais subtil e ardiloso. E o climatologista e geofísico americano costuma saber do que fala, tendo sido ele mesmo a conferir um enorme contributo à compreensão científica do fenómeno histórico das mutações no clima com base na avaliação dos recordes de temperatura dos últimos mil anos. E, na sua mais recente obra – The New Climate War [outro livro na lista de finalistas do FT Business Book of the Year 2022] – aquele que é considerado como um dos cientistas climáticos mais reconhecidos do mundo, acusa cada um de nós de uma cumplicidade vergonhosa com as novas forças de inactivismo que em muito contribuem para retardar os esforços de combate às alterações climáticas.

Como se pode ler no Finantial Times, em finas da década de 1990 e com pouco mais de 30 anos, Mann e dois colegas publicaram o que tem sido denominado como o gráfico mais controverso da ciência: o stick de hóquei. Como afirmou “Numa época de negação generalizada sobre as alterações climáticas, este gráfico simples demonstrou que as temperaturas globais tinham variado pouco durante séculos, mas que dispararam após a queima de combustíveis fósseis ter arrancado durante a Revolução Industrial”. Por outras palavras, “o mundo estava a aquecer a um ritmo nunca visto na história moderna e a responsabilidade recaía nos seres humanos”. Devido a esta afirmação inconveniente, Mann não só foi profundamente desacreditado no mundo da ciência, como até recebeu ameaças de morte. “Nos EUA, os Republicanos no Congresso, muitos deles receptores de doações da indústria de combustíveis fósseis, acusaram-no de imprecisão, fraude e pior”, como é relatado no seu livro de 2012, The Hockey Stick and the Climate Wars.

Na sua nova obra, Mann conta as histórias das muitas campanhas de desinformação que envolvem as alterações climáticas, em conjunto com uma visão cautelosa q.b. no que respeita ao nosso futuro e ao do planeta. Basicamente, para além de todo o seu lúcido e deveras interessante conteúdo, o livro sublinha que os desafios principais que hoje enfrentamos e que muito provavelmente, se nada mudar, continuaremos a enfrentar, só que de forma pior, nada têm a ver com a falta de competências tecnológicas ou intelectuais. É só mesmo uma questão de vontade política para os solucionar. E é mesmo aí que continua a residir o problema.

The Aristocracy of Talent: How Meritocracy Made the Modern World

Adrian Wooldridge

Os três últimos primeiros-ministros britânicos formaram-se em Oxford. E destes, apenas Theresa Mae não frequentou o elitista e famoso Eton College que, 600 anos depois da sua fundação por Henrique V, continua a ser reservado apenas para rapazes. Já David Cameron e Boris Johnson, ambos nascidos em “boas famílias” ali andaram entre os 13 e os 18 anos.

Nos Estados Unidos, George W. Bush filho sempre estudou em escolas de elite, tendo mais tarde concluído os seus estudos primeiro em Yale e depois na Harvard Business School. Barack Obama, e apesar de poder ser considerado uma excepção na medida em que foi educado pelos avós, primeiro na Indonésia e mais tarde em Honolulu haveria de entrar na Universidade de Columbia e depois em Harvard, onde se formou em Direito com distinção. O resto todos nós sabemos.

Também na Europa, o primeiro-ministro demissionário Mario Draghi fez a sua formação no famoso MIT e a ex-chanceler da Alemanha, Angela Merkel, bem como o presidente francês Emmanuel Macron usufruíram igualmente de carreiras académicas brilhantes sempre em universidades de prestígio. Sorte ou meritocracia?

Para Adrian Wooldridge, editor de longa data da aclamada revista The Economist e autor desta obra, a meritocracia é descrita da seguinte forma: “a definição da palavra dá-nos uma noção do porquê da meritocracia ser tão popular. Uma sociedade meritocrática combina quatro qualidades admiráveis. Em primeiro lugar, a noção de que as pessoas podem avançar na vida com base nos seus talentos naturais; em segundo lugar, porque tenta assegurar a igualdade de oportunidades, proporcionando educação para todos; em terceiro, porque ‘proíbe’ a discriminação com base na raça e no sexo e outras características irrelevantes. E, por fim, porque atribui empregos e cargos através de uma competição ‘aberta’ em vez das vias dos apadrinhamentos e do nepotismo. A mobilidade social e a meritocracia são os morangos e o chantilly do pensamento político moderno, e os políticos podem sempre ganhar aplausos denunciando privilégios não conquistados. O sucesso da meritocracia em atravessar fronteiras – ideológicas e culturais, geográficas e políticas – é impressionante. […]”

Sem desmerecimento para os políticos acima mencionados a verdade é que, e porque é cada vez menos valorizada, a meritocracia não tem hoje em dia muitos amigos, com os defensores da justiça social a encararem-na como uma fraude, sublinhando que são as elites que continuam a acumular os seus privilégios, deixando apenas migalhas às minorias. E numa perspectiva histórica e transcultural, o autor mostra, de forma clara e bem esclarecedora, o quão crítico tem sido o julgamento das pessoas que conseguem subir os degraus da mobilidade social devido aos talentos que exibem e não pelas suas douradas linhagens. Na pesquisa que fez para este longo trabalho e que abrange vários cantos do mundo, Wooldridge recorda porém que a meritocracia pode e deve ser um bilhete de ouro para a prosperidade, dando o exemplo de vários países e regiões onde está presente esta realidade. Como exemplifica no livro, “Singapura pode ser considerada como ‘o´ exemplo de uma sociedade especialmente meritocrática, tendo-se transformado de um pântano subdesenvolvido em um dos países mais prósperos do mundo, com um nível de vida mais elevado e uma esperança de vida mais longa do que a do seu velho mestre colonial [a Inglaterra] ”. O autor elege igualmente os países escandinavos, sempre no topo dos rankings internacionais da prosperidade e da produtividade, em grande parte devido ao seu empenho legítimo na educação, na boa governação e na competição saudável. E, pelo contrário, na sua visão, os países que continuam a resistir à meritocracia ou estagnaram ou atingiram os seus limites de crescimento. Um livro singular e que nos obriga a reflectir e a debater o mundo estranho de quem nos lidera e a forma como somos liderados.

Ten Lessons for a Post-Pandemic World

Fareed Zakaria

“Há décadas em que nada acontece e semanas em que décadas acontecem”. Supostamente atribuída a Lenine, a frase escolhida para apresentar o livro do coleccionador de best-sellers, Fareed Zakaria, constituí uma boa introdução à sua mais recente incursão na escrita. Sendo a pandemia um excelente exemplo de como o mundo pode mudar de um dia para o outro, é através da análise de algumas questões óbvias e de outras mais sombrias que o autor expõe como e por que é que o mundo mudou para sempre, sublinhando a chocante velocidade com que o vírus Covid-19 se espalhou globalmente e todos os embates que provocou. Como escreve, “pode muito bem acontecer que esta mancha viral cause o maior dano económico, político e social à humanidade desde a Segunda Guerra Mundial”.

Zakaad alerta também para o facto de os líderes americanos terem perdido meses a negar a seriedade da Covid-19, bem como a ignorar os conselhos dos peritos médicos, ao passo que outros países – como por exemplo a Coreia do Sul, a Nova Zelândia e o Taiwan – actuaram rápida e decisivamente, sublinhando a segunda lição das dez que elege para o seu livro: “O que importa não é a quantidade do governo, mas a qualidade”. Defendendo que “os mercados não são suficientes”, o autor desfaz igualmente o mito de que basta injectar dinheiro nos problemas para que estes problemas sejam resolvidos, prevendo assim uma oscilação no sentido de políticas mais favoráveis aos socialistas. Temas como os riscos naturais e biológicos, o significado da economia digital, a resiliência das cidades (com o sucesso de Hong Kong, Singapura e Taipé na supressão do vírus), o aprofundamento das desigualdades económicas em todo o mundo, o exacerbamento do fosso entre a China e os EUA são alguns dos fenómenos e respectivas lições retratadas no livro. Como afirma também “as pessoas devem ouvir os peritos – e os peritos devem ouvir o povo”.

Estas Dez Lições para um Mundo Pós-Pandemia (já disponível em português) remetem-nos para o passado, o presente e o futuro e constituirão decerto uma reflexão duradoura sobre a vida no início do século XXI. Para não nos esquecermos e continuarmos alerta.

Helena Oliveira

Editora Executiva

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