Na atual pandemia, a “Laudato Si” apela a todos, crentes ou não, para agirmos de forma diferente, apresentando muitas das respostas que são necessárias aos tempos de hoje
POR JOSÉ VARELA

Numa altura em que a vida quotidiana e o espaço mediático são dominados pela crise multidimensional provocada pelo novo coronavírus, muitos poder-se-ão interrogar sobre que importância tem assinalar o aniversário da encíclica “Laudato Si”, (LS) um documento do Papa Francisco publicado no aparentemente já distante e tão diferente ano de 2015.

Na verdade, para além da necessidade de acudir às graves questões sanitárias e aos problemas económicos imediatos que a pandemia tem vindo a causar, surgem diversas vozes que se interrogam sobre que mundo queremos que saia desta crise, ou seja, para que “normalidade” pretendemos regressar ou avançar. Mal comparado, é quase como quando alguém ultrapassa uma situação de doença aguda causada por um determinado estilo de vida e pondera se muda radicalmente os seus hábitos prejudiciais ou volta à mesma rotina de sempre.

Neste sentido, o relatório da ONU “Shared Responsability, Global Solidarity”, reconhecendo que os efeitos da pandemia poderão ser piores do que a crise global de 2008, apela a governos, organizações da sociedade civil, empresas, indivíduos e outros atores a agirem de forma inovadora, criativa e orientada para o bem comum, num renascimento que leve a uma sociedade que proteja as gerações presentes e futuras. Também em Portugal, diversas organizações e personalidades assinaram recentemente o “Manifesto por uma Recuperação Económica Justa e Sustentável”, defendendo que “voltar ao ‘business as usual’ não é uma opção”.

A atual pandemia constitui um penoso mas muito concreto exemplo de como, de facto, tudo está interligado e de que a necessidade de salvaguardar o bem comum não é uma abstração bem intencionada.

Face a este contexto, a carta encíclica “Laudato Si”, onde o Papa Francisco pretende “entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum” (LS 3), católicos ou não, constitui não só um apelo a que este “business as usual” seja interrompido mas também a agirmos de forma diferente, apresentando muitas das respostas que são necessárias para os tempos de hoje.

De toda a riqueza de pontos de reflexão que a “Laudato Si” oferece, a proposta de uma “ecologia integral” é talvez um dos seus mais distintivos contributos. Partindo da constatação de que tudo está interligado, esta ecologia está focada em muito mais do que as relações dos seres vivos com a natureza, mas também na relação entre a natureza e sociedade. Assim, estão em causa não só as questões ambientais mas também as vertentes humanas, sociais, económicas e culturais, num caminho que pretende cuidar da natureza mas também “combater a pobreza” e “devolver a dignidade aos excluídos” (LS 139).

A atual pandemia constitui um penoso mas muito concreto exemplo de como, de facto, tudo está interligado e de que a necessidade de salvaguardar o bem comum não é uma abstração bem intencionada. A forma de relacionamento com o ambiente e outras espécies, as condições dos sistemas de saúde para fazer face à propagação da doença, os impactos na economia e os consequentes efeitos sociais e políticos são diferentes dimensões, mas que fazem parte de um todo complexo que urge trabalhar.

Numa realidade em que novamente os mais pobres são aqueles que mais sofrem, o bem de todos e de cada um tornou-se sem dúvida crítico para ultrapassar esta emergência, quanto mais não seja porque, ainda que numa perspetiva egoísta, se o meu vizinho estiver doente, também eu posso rapidamente ficar.

Na “Laudato Si” são apresentadas linhas de orientação e ação sobre as quais vale a pena nesta altura as organizações dos mais diversos setores refletirem, tal como cada pessoa enquanto habitante desta casa comum.

São linhas baseadas no diálogo e na procura de soluções ao nível local, nacional e global, insistindo na necessidade de decisões políticas à altura dos desafios e que tenham efetivas consequências práticas. São também rejeitados o consumismo, o princípio da maximização do lucro e a redução da responsabilidade social e ambiental das empresas a meras ações de publicidade.

As condições em que tem sido necessário enfrentar a pandemia podem ser catalisadoras desta mudança, por exemplo levando-nos a perceber que o que ontem parecia indispensável hoje deixou de o ser ou que é preciso pensar mais em quem nos rodeia

No entanto, “antes de tudo é a humanidade que precisa de mudar” (LS 202). Quer isto dizer que a mudança não depende somente da ação de instituições mas também do percurso e contributo pessoal de cada um. As condições em que tem sido necessário enfrentar a pandemia podem ser catalisadoras desta mudança, por exemplo levando-nos a perceber que o que ontem parecia indispensável hoje deixou de o ser ou que é preciso pensar mais em quem nos rodeia.

Em especial para os cristãos, a “Laudato Si” desafia a uma conversão espiritual ecológica que alimente “uma paixão pelo cuidado do mundo” (LS 216) radicada na fé. Num tempo em que a realidade nos empurra para a mudança, esta é porventura uma das propostas da encíclica que mais impacto duradouro poderá ter, pois não se trata apenas de desenvolver grandes ideias e projetos, mas, ao mesmo tempo, de cada pessoa iniciar um caminho de exame, de reconhecimento dos próprios erros e de mudança convicta, atuando não de forma isolada mas em comunidade.

Mesmo para quem não é crente, é evidente que um empenho pessoal consciente, comprometido e em relação com os outros terá um maior e melhor efeito na evolução e mudança das estruturas e instituições.

No dia 24 de maio, dia da Oração Comum pela Terra e a Humanidade, encerrou-se a Semana “Laudato Si”, durante a qual se assinalou numa multiplicidade de países o aniversário da encíclica, com eventos em diversos formatos que tiveram como propósito a reflexão, a oração e a preparação do futuro. O fim desta semana é também o início de um Ano Especial dedicado à “Laudato Si”, no âmbito do qual diversas entidades se irão comprometer num caminho rumo à sustentabilidade total inspirada pela ecologia integral.

De facto, é tempo de agir. Sem a ilusão de que será fácil fazer realmente diferente, de que conhecemos todas as soluções ou de que a mudança acontece de um dia para o outro, mas sabendo que esta inquietação é partilhada por muitos, crentes ou não. Viver a “Laudato Si” é uma proposta muito concreta que pode ser sintetizada conforme é feito na campanha do Compromisso “Laudato Si”: “rezar pela e com a criação, viver com simplicidade, advogar pela proteção da casa comum”. E porque não começar hoje?

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

Artigo “Laudato Si: uma resposta para o nosso tempo”, republicado com permissão. © www.pontosj.pt .Todos os direitos reservados