Vivemos num mundo onde nos habituámos a querer sempre mais, a ser mais e a fazer mais. Muito do nosso tempo e energia é gasto a perseguir coisas que não temos. Procuramos a felicidade no exterior de nós mesmos, com uma ênfase em factores externos. E nunca estamos satisfeitos. Por entre os dias que correm céleres, pedimos muito e agradecemos pouco. E a verdade é que expressar gratidão pode inverter as nossas prioridades e ajudar-nos a apreciar mais as pessoas e o que já temos nas nossas vidas
POR HELENA OLIVEIRA

Nesta época especial em que devotamos alguns momentos a pensar um bocadinho mais nos outros – em particular nos que nada ou pouco têm – o tema da gratidão – pelo que temos e por quem temos – afigura-se como um bom exercício de reflexão. O que é exactamente a gratidão? Uma emoção? Uma virtude? Um comportamento? E por que motivo algumas pessoas parecem naturalmente mais gratas do que outras? Existem formas de estimular mais sentimentos e expressões de gratidão?

A palavra gratidão deriva do latim ‘gratia’, e pode traduzir-se como graça, bondade ou agradecimento (dependendo do contexto) ou, em alguns casos, como os três significados em simultâneo. A gratidão pode assim ser traduzida por uma apreciação grata por algo que um individuo recebe, seja esse algo tangível ou intangível. E a partir da gratidão, as pessoas reconhecem também a bondade existente nas suas vidas. Ao longo do processo, reconhece-se geralmente que a fonte de bondade reside, pelo menos em parte, no exterior de nós mesmos. E, como resultado, a gratidão ajuda igualmente as pessoas a conectarem-se com algo “maior” do que si próprias enquanto indivíduos – seja com outras pessoas, com a natureza ou com um “poder superior”.

Na investigação da psicologia positiva, a gratidão é forte e consistentemente associada a uma maior felicidade. A gratidão ajuda a que se tenha emoções mais positivas, a apreciar experiências boas, a melhorar a saúde, a lidar com a adversidade e a construir relacionamentos mais sólidos.

As pessoas sentem e expressam gratidão de múltiplas formas. Podem aplicá-la ao passado (resgatando memórias positivas e sentindo-se agradecidas por elementos da infância ou por dádivas passadas, ao presente (não dando como dado adquirido a boa sorte quando esta chega) e ao futuro (mantendo uma atitude de esperança e optimismo).

Na verdade, a gratidão pode significar diferentes coisas para pessoas diferentes em contextos diversos. E não são apenas os líderes religiosos ou os filósofos que a têm louvado e tentado compreender. Para a ciência, a gratidão é igualmente objecto de interesse e são muitos os estudos que a colocaram no centro das suas pesquisas.

E algumas pesquisas sugerem que a gratidão não é simplesmente uma construção cultural, mas sim que a mesma está profundamente incorporada na nossa história evolucionária, no nosso cérebro e ADN, sendo particularmente importante no desenvolvimento infantil.

De acordo com um interessante paper exactamente intitulado “The Science of Gratitude”, publicado pelo Greater Good Science Center, animais tão diversos como os peixes, os pássaros ou os morcegos envolvem-se em actividades de “altruísmo recíproco”, ou seja, em comportamentos com vista a ajudar um outro membro da mesma espécie, mesmo com custos para si mesmos, presumivelmente porque estes reconhecem, com a ajuda do instinto, que o outro animal poderá “pagar” o favor mais tarde. E muitos cientistas consideram este desejo de retribuir a generosidade como uma expressão de gratidão. Na verdade, alguns cientistas sugerem que a gratidão pode ter evoluído como um mecanismo que impulsiona este altruísmo recíproco, transformando assim estranhos em amigos e aliados, os quais têm maiores probabilidades de se ajudarem entre si.

Adicionalmente, estudos da neurociência identificaram áreas do cérebro que muito provavelmente estão envolvidas na experimentação e expressão da gratidão, fornecendo evidências para a ideia de que esta constitui um componente intrínseco da experiência humana, e com alguns deles a identificaramem genes específicos que podem explicar a nossa capacidade para a expressar.

Uma pesquisa do Mindfulness Awareness Research Center da UCLA descobriu que uma atitude de gratidão altera a estrutura molecular do cérebro, mantendo a matéria cinzenta a funcionar e tornando-nos mais saudáveis e felizes. Quando se sente felicidade, o sistema nervoso central é afectado, aumentando a sensação de paz, tornando-nos menos reactivos e menos resistentes, o que promove um maior sentimento de bem-estar. Por outro lado, investigadores da Universidade de Berkeley identificaram de que forma a gratidão pode realmente afectar a nossa mente e o nosso corpo. Os principais resultados demonstraram que a gratidão ajuda-nos a ter menos emoções tóxicas e, apesar de os seus benefícios não serem imediatos, são contudo duradouros em termos de bem-estar.

Outros estudos analisaram as conexões possíveis entre a gratidão e vários elementos do bem-estar psicológico. No geral, as pessoas mais gratas são mais felizes, mais satisfeitas com as suas vidas, menos materialistas e menos propensas a sofrer de burnout. E pode igualmente beneficiar pessoas que tenham de enfrentar desafios clínicos e psicológicos. Por exemplo, um estudo demonstrou que os pacientes cardíacos que são mais gratos reportaram melhores níveis de sono, menos fadiga e níveis mais reduzidos de inflamação celular, enquanto outro confirmou que maiores níveis de gratidão são equivalentes a menos traços depressivos e a uma maior resiliência depois de eventos traumáticos.

Outros estudos sugerem ainda que a gratidão pode realmente ser “a mãe de todas as virtudes” na medida em que encoraja o desenvolvimento de outros comportamentos virtuosos como a paciência, a humildade e a sensatez.

O efeito cascata da gratidão

Definida também como a “cola social”, não é de todo surpreendente que as evidências apontem para diversos benefícios sociais decorrentes da gratidão. As pesquisas sugerem que esta inspira as pessoas a serem mais generosas, bondosas e “amigas de ajudar os outros”, ou seja, “pró-sociais”, fortalecendo os relacionamentos e inclusivamente melhorando os ambientes de trabalho. Diversos estudos defendem também que a gratidão é igualmente importante para formar e cimentar relacionamentos sociais, com os investigadores a referirem-se à sua função de “encontrar, recordar e ligar”. Ao harmonizar as pessoas com o cuidado com os outros, a gratidão ajuda a “encontrar” pessoas que são bons candidatos para relacionamentos futuros de qualidade; ajuda também a “recordar” as pessoas da bondade existente nos seus demais relacionamentos e “liga-as” a companheiros e amigos fazendo-os sentirem-se apreciados e encorajando-os a envolverem-se em comportamentos que os ajudarão a prolongar essas mesmas relações.

Surpreendente é o facto de existirem várias pesquisas que nos dizem que as pessoas são menos propensas a expressar gratidão no local do trabalho do que em qualquer outro sítio, mesmo que desejem ser reconhecidas e apreciadas no mesmo. Mas a verdade é que expressar gratidão no trabalho tem um impacto significativo na cultura laboral e no bem-estar dos trabalhadores. Desde uma maior satisfação com a actividade, a maiores níveis de felicidade, sem esquecer o sentimento de pertença a uma comunidade, em conjunto com a redução do stress, o impacto da gratidão nos ambientes laborais é de grande alcance.

O desejo de significado no trabalho faz parte de uma mudança organizacional e psicológica no sentido de um ambiente laboral mais humanizado, enraizado na gratidão e onde os trabalhadores se sentem apreciados, valorizados, respeitados e com o empowerment necessário para atingirem o seu pleno potencial.

“A gratidão é absolutamente vital no local de trabalho”, afirma o professor de psicologia Robert Emmons, autor de “The Little Book of Gratitude: Creating a Life of Happiness and Wellbeing Giving Thanks”e um investigador reconhecido nesta temática. E, ao invés, a ausência de gratidão é um dos principais factores para causar a insatisfação com o trabalho, o turnover, o absentismo e, muitas vezes, o burnout, afirma também Emmons. “Em muitas organizações a cultura de trabalho é tóxica”, afirma, o que gera sentimentos como a “exploração, as queixas, os mexericos e a negatividade”,sendo que expressar gratidão funciona como um antídoto para esta toxicidade.

Por outro lado, a gratidão anda de mãos dados com o acto de reconhecer o que os outros fazem por nós. E quando fazemos esse reconhecimento, isso torna-nos mais gratos e inspira a pessoa a quem agradecemos a “partilhar” esse sentimento com outrem, o que causa um aumento nos níveis de felicidade, bem-estar, energia e compromisso – ou todos os factores que influenciam a performance, a produtividade e a retenção.

E este é o chamado “efeito da gratidão”: uma “onda” de reconhecimento e apreciação que “explode” em novas vagas, transformando-nos e inspirando-nos e melhorando os resultados da organização. Quanto mais gratidão existir num local de trabalho, mais conexões humanas são estabelecidas, o que estimula a colaboração, o envolvimento e a inovação nas empresas.

Apesar de termos a tendência a pensar no reconhecimento a partir da perspectiva do trabalhador que recebe um reforço positivo, é tão ou mais importante considerar esse momento de reconhecimento através da lente de quem o oferece. “As pesquisas sugerem que as pessoas subestimam muitas vezes o impacto de demonstrarem a sua gratidão aos outros”, escreve, num artigo da Forbes, Suzanne Vickberg, psicóloga social e da personalidade e co-autora do livro “Business Chemistry: Practical Magic for Crafting Powerful Work Relationships”.

O acto de se expressar gratidão torna-nos vulneráveis e autênticos, criando uma afinidade humana poderosa entre quem dá e quem recebe. Afirmar “aquilo que fez por mim teve um impacto positivo” é uma mensagem profunda para se transmitir a um outro ser humano, e serve para deixar ambos num estado de espírito mais gratificante.

No Relatório de Felicidade e Bem-Estar Global de 2019, publicado pelo Global Happiness Council estima-se que “um aumento significativo no bem-estar” traduz-se, em média, em 10% de aumento de produtividade. E no livro “The Future of Happiness: 5 Modern Strategies to Wire Your World for Greater Productivity and Well Being”, a autora e membro do mesmo Global Happiness Council, Amy Blankson, afirma que “ao rastrearmos o mundo em busca do que é positivo, podemos começar a transformar os nossos fracassos, dores, e medos passados numa fonte de crescimento potencial, um processo que abre caminho para a felicidade de longo prazo”.

O acto de oferecer reconhecimento pode ser uma experiência ainda mais transformadora do que o acto de o receber. Mais uma vez, o já citado Robert Emmons, caracteriza a gratidão como “o mais importante ponto de contacto da existência humana”. Quando se agradece a alguém, está-se a criar o que o autor Dan Heath denomina de “momento definidor”. O best-seller do The New York Times, “The Power of Moments: Why Certain Experiences Have Extraordinary Impact”, escrito em co-autoria com o seu irmão, Chris, encoraja os leitores não só a escreverem cartas de gratidão a pessoas que tenham feito uma diferença positiva nas suas vidas como a lê-las em alta voz em visitas face a face. De acordo com Dan Heath, as pesquisas demonstram que este acto pode aumentar os níveis de felicidade e fazê-los perdurar ao longo de cerca de um mês.

No livro “A Whole New Mind: Why Right-Brainers Will Rule the Future”, o reconhecido autor Daniel H. Pink explica como uma visita de agradecimento pode gerar momentos de enorme positivismo. Ou seja, quando se agradece a alguém, tal faz com que a outra pessoa se recorde de pessoas a quem nunca se mostrou gratidão. “Desta forma, estas fazem a sua própria ‘peregrinação’, tal como possivelmente farão também os receptores dos seus agradecimentos, resultando numa cadeia de gratidão e contentamento”, escreve.

Shawn Anchor, co-fundador e CEO da GoodThink, uma organização que junta investigadores académicos, oradores reconhecidos e consultores para mudar os hábitos organizacionais através do positivismo e do optimismo, discute também no seu livro “Big Potential: How Transforming the Pursuit of Success Raises our Achievement, Happiness and Well-Being” o impacto positivo do efeito cascata de se expressar a gratidão e apreciação. “O ‘dar graças’ cria aquilo que denomino como um ‘ciclo virtuoso’ – quanto mais se dá, mais rico fica o nosso próprio ‘abastecimento’ de gratidão”, escreve. E, quando feito adequadamente, o acto de agradecer prepara o cérebro para um nível mais elevado de performance, o que significa que quanto mais o fazemos, mais sucesso criamos. “E quantos mais sucessos existem, mais motivos existem para darmos graças. A pesquisa que tenho vindo a fazer demonstra que quanto mais gratidão autêntica expressamos no interior do nosso ecossistema, mais potencial, individual e colectivo, se origina”.

As pesquisas de Anchor viram-se reforçadas no Relatório de Felicidade e Bem-Estar Global de 2019, o qual incluiu um estudo de caso sobre o impacto nas empresas do programa de reconhecimento social do LinkedIn no que respeita à retenção e performance dos empregados. Para além de demonstrar correlações entre o reconhecimento, maiores taxas de retenção e aumento de performance ano após ano, “em particular para os empregados de elevada performance que receberam reconhecimento com mais frequência”, os dados do LinkedIn revelaram igualmente um impacto significativo da prática da gratidão naqueles que a concederam. “Quanto mais os empregados deram louvores aos colegas, mais louvores receberam em troca, criando-se um ciclo virtuoso de positivismo e sucesso”.

Assim, e aproveitando o curto interregno da época natalícia e a maior predisposição para agradecermos o bem que nos fazem os que nos rodeiam, talvez esteja também na altura de, no local de trabalho, onde passamos pelo menos um terço das nossas vidas diárias, sermos mais gratos e praticarmos o efeito cascata acima enunciado. E não custa nada dizer “obrigado”.