Denomina o Papa como o “empreendedor da esperança” e não tem dúvidas que Francisco será reconhecido como “o grande reformador da educação”. E é por isso que há mais de 20 anos, José Maria del Corral se juntou ao amigo Bergoglio, na altura arcebispo de Buenos Aires, para dar início a um projecto que visava “dar voz aos jovens”e que iria revolucionar o sistema educativo numa Argentina profundamente perturbada. O projecto transformou-se na actual Fundação Pontifícia Scholas Ocorrentes – que, em latim, significa “escolas para o encontro” – e está presente em todo o mundo, tendo já tocado as vidas de mais de um milhão de jovens. E enquanto director mundial do mesmo, José Maria continua a acreditar que “é a sociedade, a rua, e a vida que educam”
POR HELENA OLIVEIRA

O mais recente orador do ciclo “Construir a Esperança” promovido pela ACEGE foi José Maria del Corral, co-fundador e actualmente director mundial da Fundação Pontifícia Scholas Ocorrentes – que, em latim, significa “escolas para o encontro” – e cujas origens remontam há mais de 20 anos. Amigo de Jorge Bergoglio, na altura arcebispo de Buenos Aires, e longe de imaginar que este viria a ser, um dia, Papa, José Maria dedicou toda a sua vida ao ensino, tendo sido professor e director em todos os níveis educativos. Conhecido por ter sido um aluno rebelde e indisciplinado, demonstrando uma insatisfação própria dos jovens, talvez tenha sido essa uma das razões que levaram Bergoglio (e é assim que continua a tratar o Papa, seu amigo pessoal) a escolhê-lo para edificar e disseminar o projecto Scholas, hoje presente em todo o mundo. Com o objectivo de dar voz aos jovens e às suas necessidades, o Scholas assume-se como uma “escola da vida”, aberta a todas as culturas e religiões, e cuja aprendizagem privilegia os testemunhos, inquietações e sonhos dos seus alunos. Este programa educativo – uma enorme “sala de aula global” – assenta na arte, no desporto e na tecnologia, sem perder de vista o seu objectivo inicial: o de construir uma educação que “cultive pontes e promova a cultura do encontro e do diálogo”.

Com presença em 190 países e tendo já “tocado” as vidas de mais de um milhão de jovens e crianças, o Scholas está agora a dar os primeiros passos em Portugal, com uma sede em Cascais e apoiado pela respectiva Câmara. À plateia de gestores e empresários que assistiram à sua intervenção – seguidamente relatada na primeira pessoa – José Maria del Corral convidou-os a unirem-se ao Pacto Educativo Global, lançado em 2019 pelo Papa e “relançado” o ano passado, já em tempos de pandemia, o qual tem como objectivo e nas palavras de Francisco, “promover um encontro para reavivar o compromisso em prol e com as gerações jovens, renovando a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão”.

O VER traduziu a história das origens do Scholas, anteriormente denominado como “Escola de Vizinhos”, a qual se mistura também com a época conturbada vivida na Argentina no início deste século, contada por José Maria no evento da ACEGE, à qual acrescentou, de seguida, as suas respostas a algumas questões colocadas pelos gestores presentes e que contribuem para uma ideia mais substanciada do que significa, realmente, esta “cultura do encontro”.


“Costumo dizer que não compreendo como é que o Papa escolheu um director mundial de uma organização internacional que só sabe falar argentino e um pouco de espanhol. Mas, na verdade, o que ele sempre disse é que o importante era que eu falasse a língua dos jovens, e foi assim que começámos há mais de 20 anos.

Quando Jorge Bergoglio começou a exercer funções como Arcebispo de Buenos Aires, encontrou um país em chamas. A Argentina estava fracturada, e não apenas por causa da economia e cujo expoente seria o famoso “el corralito” de 2001 [o corralito – que em português significa cercadinho – foi estabelecido para evitar e interromper a retirada de depósitos em contas correntes e poupanças, que seriam trocados por dólares ou transferidos directamente para o exterior, o que deu origem a uma violenta revolta popular] e tudo o que se lhe seguiu. Mas algo muito mais profundo do que a economia tinha sido quebrado: a confiança. As pessoas saíram para as ruas com panelas, batendo nelas e gritando “todos eles devem ir-se embora”. Não acreditavam nos políticos nem nos líderes. A Argentina estava em chamas: sirenes; jovens a morrer na Praça de Maio; vizinhos a atacar vizinhos para roubar comida; pilhagens; famílias a tirar comida do lixo num país tão rico em todos os sentidos como é a Argentina. Era assim o meu país quando Jorge Bergoglio, agora Papa Francisco, se tornou bispo em Buenos Aires.

[Bergoglio] podia ter ficado calmamente na cúria, podia ter-se dedicado apenas ao muito trabalho que havia para fazer dentro da própria Igreja de Buenos Aires. Mas o que ele me disse foi: “Se não começarmos pela educação, este país nunca terá um futuro. Se não mudarmos a educação, a Argentina não vai mudar”.

E foi por isso, e conhecendo o meu trabalho com jovens, que me chamou há mais de 20 anos, para me perguntar o que estava a acontecer com os jovens e o que poderia ser feito.

Ele, Jorge Bergoglio, não acreditava que os jovens estivessem “noutro mundo”, que não se preocupassem com o que estava a acontecer no país, ou com o que os media muitas vezes retratavam: que eram indiferentes, frívolos… E eu propus, então, que em vez de lhe dizer o que estava a acontecer aos jovens, que seriai melhor ouvi-los. E resolvi reuni-los.

Este foi o nosso primeiro acordo. E achei interessante que naquele país, totalmente estilhaçado e fragmentado, fosse possível reunir um grupo de crianças, jovens, adolescentes, que vinham de escolas judaicas, muçulmanas, evangélicas, católicas, públicas e privadas. E assim reunimos o primeiro grupo de jovens, num total de 60: 15 muçulmanos; 15 judeus; 15 católicos; e 15 evangélicos. E foi criado o primeiro conselho, a primeira mesa.

Poderão imaginar a forma como se olhavam no primeiro dia, uns vestidos de uma maneira e outros de outra. E com essa frescura própria dos 15, 16 anos, começaram a conhecer-se ou, como se diz na Argentina “a sacarse la ficha”, não sei como se traduz em português [o termo mais próximo em português será “tirar as medidas”]. E logo surgiram perguntas como: “como podes não beber cerveja?”, “como consegues jejuar durante um mês sem morrer à fome?” ou “como é possível não fazeres nada aos sábados”…  Ou seja, coisas normais entre os jovens.

Mas, e a partir dessas reuniões semanais de trabalho, que inicialmente iriam durar um mês, mas que acabaram por ser prolongadas por seis meses, fizeram uma análise, um diagnóstico da realidade argentina tão profundo, e do ponto de vista dos jovens, que criaram um protótipo, um modelo para transformar o país. Que loucura, não é? Estes jovens empreendedores, de diferentes religiões, tinham 15 anos de idade. Ainda nem sequer tinham chegado ao primeiro ano da faculdade. Mas como estavam a sofrer na pele o que estava a acontecer, ninguém melhor do que eles para expressar o que necessitavam.

E ficaram tão entusiasmados que elaboraram um projecto de lei como parte do modelo. E não só elaboraram o projecto de lei, como se inscreveram na Comissão de Educação da Legislatura da Cidade de Buenos Aires, simplesmente como cidadãos e foram ouvir os deputados.

A título de referência, o presidente da Comissão da Educação na Argentina foi o deputado mais jovem que o país teve na cidade, Marcos Peña, que viria a ocupar mais o cargo de Chefe do Gabinete de Ministros durante a presidência de Mauricio Macri [que foi presidente da Argentina de 2015 a 2019]. E, para além de Marcos, que teria 25 ou 26 anos, havia outros deputados de diferentes partidos políticos como Delia Beatriz Bisutti ou María Juliana Marino, entre muitos outros, que ficaram surpreendidos quando viram chegar este grupo de adolescentes, com uma proposta para mudar a educação na Argentina.

E mais surpreendidos ficaram quando perceberam que a proposta em causa não era um discurso vazio, com os jovens a dizerem “queremos uma educação que tenha a ver com as nossas vidas e estamos fartos e cansados de estudar para termos um diploma oco”.

E atentem aos exemplos que estes jovens deram quando Bergoglio, o Papa Francisco, começou o seu trabalho pastoral em Buenos Aires e eles lhe disseram: “quando o meu pai põe uma nota de 100 na carta de condução mostrada ao polícia para este não lhe passar uma multa por infracção, isso educa-nos”; “quando vamos comprar um par de calças ou uma saia da moda, e porque tenho mais 5 quilos ou 10, e não há um modelo para mim, isso educa-nos”; “quando a minha mãe está na rua e me diz que algum homem é bonito, não se dando conta que não é minha amiga, mas minha mãe, e que mesmo estando separados, eu tenho um pai, isso educa-me”.

Estes jovens argentinos da década da crise ensinaram-nos, a nós, educadores, que a educação não era um assunto para ministros, mas que se tratava, ao invés, de tornar presentes as suas vozes e iniciativas.

Este projecto, caros irmãos, foi aprovado em 30 dias na legislatura da cidade de Buenos Aires, por unanimidade de todos os partidos políticos. E, no dia seguinte, os jornais La Nación, Clarín e outros exibiam nas suas primeiras páginas o título “a primeira lei feita pelos jovens foi aprovada na Argentina”.

O Papa Francisco, nessa altura Jorge Bergoglio, viu que o que nós, adultos, não tínhamos sido capazes de fazer sentados a uma mesa, tinha sido conquistado pelos próprios jovens. E confiou-me, na qualidade de seu presidente para a educação, a tarefa de reunir escolas públicas e privadas de diferentes áreas. E assim começaram as Escolas de Vizinhos, as quais procuravam, nessa altura, a cultura do encontro. E dessas Escolas saíram: a lei nacional dos tamanhos, para evitar a morte de jovens de bulimia e anorexia, obrigando à regulação da venda de roupas e à existência de vários tamanhos; a auditoria cidadã, para que os jovens ajudassem as empresas saudáveis a terem mais transparência; a lei dos “vícios”, e do álcool à noite, por causa dos abusos cometidos por aqueles que tomavam conta das discotecas, as patovicas, como são chamadas na Argentina. E tantas outras iniciativas por parte destes jovens para enriquecer a vida democrática e o bem comum na sociedade argentina.

Se recordarmos a homilia de Jorge Bergoglio, centrada na educação, na última missa antes de se tornar Papa, ele diz textualmente (está na Internet): “É uma mentira que os jovens não se preocupam com o que acontece no país. Eu, como arcebispo, vi-o, e o testemunho do que vi está na lei 2169 [“Buenos Aires, Cidade Educativa”], feita por eles, e na Escola dos Vizinhos”. No ano seguinte, Jorge iria votar como qualquer outra pessoa. E no dia 13 (estamos praticamente neste momento a viver este novo aniversário), Jorge torna-se Francisco [o Papa foi eleito a 13 de Março de 2013]. Ele entrou de preto e saiu de branco, e eu pensei que esta história negra tinha sido esquecida.

No entanto, nessa mesma semana, e mesmo com tudo o que tinha de fazer, convidou-me a mim e à minha mulher para partilharmos a manhã de 19 de Março, ao seu lado e no lugar da sua família. Eu estava vestido com a minha bata branca de professor, como usamos na Argentina, e na missa que inaugurou o seu pontificado, disse-me: “José, esta crise que vivemos na Argentina é mundial. Vamos ter de implementar esta experiência noutros lugares”. Pensei que não, mas a 13 de Agosto desse ano, ele chamou-me a mim e ao Quique, um outro professor, e disse-nos: “lancemos esta proposta ao mundo”. Digo sempre que disse que sim porque nunca tinha saído da Argentina, nem sequer tinha passaporte, não conhecia outra língua, só fui com o meu cartão de crédito pago em 48 vezes para poder viajar para Roma e assistir a uma missa. Mas claro, como poderia dizer não ao Papa Francisco, a este empreendedor da esperança? E é por isso que, no lugar da Escola dos Vizinhos, nasceram as Scholas Ocurrentes, o que em latim significa “escolas para o encontro”.

Esta é a nossa história, esta é a história de um Papa que, em conjunto com dois empresários loucos, iniciou esta transformação económica e social através da educação”.


 “As empresas e os empresários foram e são chamados a voltar a ser educadores na sociedade”

Sendo várias as questões colocadas pela audiência no final da intervenção de José Maria del Corral, foram escolhidas duas em particular para figurarem neste texto. A primeira relacionada com as formas mediante as quais os empresários podem contribuir para este “pacto global da educação” e a outra, mais ao jeito de um “pedido de sugestões” ou de inspiração para a construção de uma “economia do encontro”, a qual possa ser “oferecida” ao Papa Francisco, aquando da sua visita a Portugal, agendada para 2023 e no âmbito das Jornadas Mundiais da Juventude. As respostas espelham a simbiose existente entre os desejos do Papa para a educação e o trabalho feito pelo director mundial do Scholas. Afinal, ambos trilham este caminho em conjunto há mais de duas décadas

O que se pode dizer aos empresários para que eles próprios se tornem educadores de valores, promotores da diversidade, o que significa uma maior igualdade de oportunidades mas também o trabalho conjunto de diferentes gerações dando oportunidades aos jovens e sem medo de o fazer?

O Papa diz que a educação tem de recuperar as três linguagens antropológicas, não só a da cabeça, mas também a do coração e a das mãos. E afirma também que o Scholas une o pensar, o sentir e o fazer nos jovens, ou seja, que estes possam pensar o que sentem e o que fazem, possam sentir o que pensam e o que fazem, e possam fazer o que pensam e o que sentem. E isto gera harmonia não só na pessoa jovem, como também na sociedade. Da mesma forma, o Papa convoca os empresários a construírem juntos este empreendimento fundamental sem o qual nenhum negócio se pode sustentar a longo prazo.

O Scholas faz parte da missão 4.7 da ONU e dos ODS. E posso-vos falar do trabalho de emergência que tivemos de fazer durante a pandemia. Parece-me que existem elementos concretos dos quais podemos falar: um deles é conferir um novo significado à responsabilidade social das empresas. A nossa experiência em todo o mundo mostra-nos que muitas vezes estamos a fazer um mau investimento no que a este aspecto diz respeito. E o Papa convoca também a responsabilidade social na educação. E foi por isso que apelou a um pacto global de educação. As empresas e os empresários foram e são chamados a voltar a ser educadores na sociedade. Pensar que a educação é apenas a tarefa do professor e na sala de aula é a primeira irresponsabilidade. Pensar que os meus filhos serão educados porque os pais pagam por uma boa escola, desculpem-me, é irresponsável. É a sociedade, é a rua, é a vida que educa.

O mundo é um só e não o é só por causa do mercado. É por isso que precisamos de um pacto educacional global, do qual os empresários façam parte. Sendo que o governo não é o proprietário deste pacto, apesar de fazer parte do mesmo. Também a Igreja, em conjunto com outras confissões religiosas, faz parte deste grande pacto educativo estimulado por Francisco em tempos de pandemia.

O segundo aspecto assenta no facto de, a 5 de Julho e no meio da pandemia, o Papa Francisco ter pedido ao Scholas para criar uma nova instituição educacional a nível global chamada Universidade do Sentido. E nesta Universidade do Sentido não se ensina a ser-se engenheiro, médico, ou advogado, mas sim a ser-se “pessoa”. O Papa diz: “a Universidade do Sentido terá como objectivo, não ensinar coisas, mas a própria vida, criando uma sala de aula virtual global onde todos podem partilhar este conhecimento básico que parece estar esquecido”. Poderíamos chamar-lhe uma rocha firme sobre a qual nos podemos apoiar e terá um programa gratuito para empresários.

A ESADE, a escola de negócios jesuíta de Barcelona, já aderiu, juntamente com muitas outras escolas de negócios e universidades em todo o mundo, para fazer parte desta Universidade do Sentido. E será obrigatório que certos graus de ensino e mestrados passem por estas experiências de significado. Que loucura, não é? E que interessante! Passar um mês em Tofo [uma pequena cidade no sudeste de Moçambique], para rapazes e raparigas de Harvard. Para trazer à tona a criança interior que todos temos, para trazer à tona o original, a origem. E do Tofo ao Impenetrável na Argentina [parque nacional na região do Gran Chaco, no norte da Argentina], para ver como podemos responder às necessidades da comunidade, mas ouvindo a realidade que nos toca. E não com receitas ideológicas, como acontece em muitos governos, onde os ministros da educação vêm com uma lei que nada tem a ver com as necessidades nem com os jovens, e pensam que isso vai mudar alguma coisa. Como diz o Papa: “as mudanças são culturais, e de baixo para cima”. É por isso que não esperamos resultados imediatos. O Papa trabalha não para uma reeleição, mas para uma responsabilidade. E este Papa, não tenho dúvidas, será o Papa da educação, o grande reformador da educação.

Assim, integrarmos numa só as linguagens de que o Papa fala, para que os empresários possam pensar, sentir e fazer, conferir uma responsabilidade educativa no âmbito de um novo pacto para a educação e integrar um programa de formação para funcionários e líderes são decisões muito concretas que, em conjunto, podemos tomar.

A propósito da vinda do Papa Francisco a Portugal, em 2023, para as Jornadas Mundiais da Juventude, a ideia era oferecer-lhe uma “economia do encontro”. Enquanto empresários, estamos empenhados em viver esta realidade para proporcionar novas oportunidades aos jovens e promover um sistema educativo que nos leve nesta direcção. E gostaríamos que o Papa pudesse ver não só as sementes, mas também os frutos desta realidade, ou seja, o seu impacto e resultados. Assim, e com base na sua experiência, como é possível tornar isto possível no sistema educativo? Com quem devemos falar? Com o Presidente? Com o ministro da Educação? Com os Professores? Qual a melhor forma de avançar?

Terão de me desculpar caso esteja a ser politicamente incorrecto, mas há que começar pelo mais importante: falar com os jovens. Caso contrário, poderão ser apanhados nas redes da demagogia ou de comportamentos fanáticos radicalizados. Acompanhámos o Papa na sua visita recente ao Iraque e foi muito duro o que encontrámos. Crianças com medo, em pânico. Crianças que cresceram no ódio. Mas também crianças do Scholas. E um deles, um rapaz muçulmano, chamado Mustafa, ofereceu ao Papa uma bandeira iraquiana manchada pelo sangue de um seu companheiro, católico, que tinha sido morto. Mas também posso dizer-vos que jogámos futebol no Iraque, antes da chegada do Papa. E que foi inaugurada, por Francisco, uma escola de futebol [Escola de Desportos pela Paz] que, para além dos valores partilhados pelo Scholas, conta também com o apoio da Liga Profissional de Futebol Espanhola e do ministério do Desporto.

Acredito, por isso, que esta economia do encontro que querem promover é uma excelente iniciativa, mas que terá uma taxa de retorno muito maior e mais produtiva se for centrada nos jovens. Porque é nesse encontro que os jovens reafirmam a sua identidade. O encontro não é a perda de identidade, pelo contrário, a identidade é construída no encontro.

É por isso que quando fomos a Jerusalém a convite da Universidade Hebraica, propusemos um encontro entre jovens palestinianos e israelitas. O Papa recebeu-os com cinco projectos e dois protótipos que estão hoje a ser implementados. São oficinas móveis de pintura e de música em Jerusalém, que reúnem jovens palestinianos e israelitas. E agora fomos convidados a fazer um segundo encontro de jovens em Marrocos, com jovens empreendedores inter-religiosos, para a paz.

Mas e voltando à pergunta, o que pode ser feito? Reunir jovens de diferentes escolas, de diferentes partes de Portugal e, com a permissão das autoridades, a partilharem uma semana de aulas e não mais. Proponho também a escolha de alguns lugares em Portugal para fazer um projecto-piloto. Durante uma semana de aulas, para que durante o mesmo tempo em que as crianças vão às aulas seja possível criar uma sala de aula a que chamamos “Sem Muros”, onde as crianças trabalham naquilo a que chamamos Scholas Cidadania. Aí, poderão apresentar as coisas que mais os preocupam e, com base nestas preocupações, na segunda fase da semana, procurarem soluções concretas para os problemas identificados. Para isso, podemos formar previamente um grupo de jovens estudantes universitários, com certos valores, nesta metodologia, para que nos possam acompanhar na realização desta experiência nas escolas secundárias.

E vou dar-vos apenas dois exemplos do que já no aconteceu em outros lugares. No Paraguai, existia uma enorme pressão para se implementar um dia escolar mais alargado nas escolas públicas de zonas muito pobres, um projecto que contava com a ajuda do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Quando o Scholas chegou ao Paraguai, e antes da chegada do Papa, fizemos uma experiência num lugar chamado Bañado Norte, muito perto de Assunção, um lugar muito pobre, muito precário. E os próprios directores foram os primeiros a admitir que não queriam ter um dia de escola prolongado e que apenas tinham aceitado a ideia porque receberiam um pouco mais de salário, mas que nas estavam convencidos. E explicaram: “se não conseguimos aguentar estes jovens durante quatro horas, muito menos conseguiremos prendê-los ou contê-los durante 6 ou 7 horas”. Ou seja, não era uma jornada educativa prolongada, era antes um armazém.

Quando vimos e analisámos esta realidade, perguntámos às pessoas do BID e do Ministério da Educação do Paraguai se poderíamos fazer uma contraproposta, a qual foi aceite após um longo debate. Formámos um grupo de adolescentes do último ano do ensino secundário em desporto, arte e tecnologia para serem formadores. E vindos de diferentes escolas e no seu tempo livre, a ideia era darem aulas de desporto, arte e tecnologia nestas escolas primárias, supervisionadas, claro, pelos professores das escolas e por pessoas do ministério.

Muito sinteticamente e em resumo, não só o dia escolar prolongado foi implementado com este modelo, como também a curva de abandono escolar e a sua elasticidade mudou completamente: deste (gesto de mão descendente) para este (gesto de mão horizontal). As competências transversais (também chamadas competências essenciais) foram todas modificadas, recuperando-se a visão do futuro, não só no que respeita ao abandono escolar, mas também no compromisso de se empreender algo.

O BID partilhou o relatório de avaliação de impacto que tinha sido feito com os ministros da Educação da região. E o ministro das Finanças disse-me alegremente: “este dia escolar prolongado, professor, é ainda mais barato do que aquele que me propunham antes”. E tudo porque o mesmo foi feito directamente em prol dos próprios jovens.

Leia também: A escola da paz