Num ‘guia de emoções’ que leva o leitor a viajar pelos quatro cantos do mundo, para que construa então o seu próprio kit SOS contra os desequilíbrios da modernidade, a psicóloga e consultora de programas de impacto social, Maria Palha, defende a construção de uma cultura emocional nas empresas. Em entrevista, sublinha que se estas se focarem “em promover autoconhecimento, capacidade de comunicação e linguagem emocional”, estarão “a implementar um programa com impacto social, sustentável e com grande escalabilidade”
POR GABRIELA COSTA

“Será que estou a ficar louco? Se eu começar a sentir, talvez questione toda a minha participação nesta guerra” – líder de um grupo armado na região de Alepo, Síria

Na guerra, “como em qualquer momento de mudança da nossa vida, é assim mesmo. Primeiro lutamos para sobreviver e só depois começamos a sentir”. E, nesse processo de mudança, só quando já nos sentimos em segurança é que avançamos da reacção por instinto para o nível das emoções, como explica Maria Palha no livro “Uma caixa de primeiros socorros das emoções”, recentemente lançado pela Manuscrito, a propósito desta sua experiência de intervenção junto de uma comunidade que integrava um grupo armado sírio, ao serviço dos Médicos Sem Fronteiras.

Este é apenas um de muitos exemplos de “histórias dos quatro cantos do mundo” que a psicóloga especializada em Terapia pela Arte e em Empreendedorismo Social, e que na última década viajou por cerca de uma dezena de países para implementar programas de saúde mental, incluindo em contextos de crise humanitária provocados por guerras e catástrofes naturais – de Moçambique, em 2006/07, como psicóloga clínica, ao Zimbabué, em 2009, onde trabalhou com pacientes com HIV-sida, passando por contextos de guerra como a Líbia (2011), a Síria (2013), a Ucrânia (2014) e o Sudão do Sul (2014), e pelo apoio no terramoto da Turquia (2011), nas cheias do Brasil (2010), no pós-guerra  em Caxemira (2012) e no Cambodja (2015) – compila nesta obra, a qual reflecte também a sua experiência como consultora de programas de impacto social, e formadora, no meio empresarial, de gestão de emoções e inteligência emocional.

Maria Palha numa missão no Cambodja, em 2015, para definir uma nova ferramenta de prevenção ao trauma na população
Maria Palha numa missão no Cambodja, em 2015, para definir uma nova ferramenta de prevenção ao trauma na população

Em entrevista, Maria Palha, explica que, no contexto empresarial, os líderes identificam e combatem o stress e o burnout “acima de tudo através do desenvolvimento da sua capacidade distintiva”, considerando que actualmente a promoção “da espiritualidade e do propósito nas equipas” é o que mais “compromete as pessoas com os seus locais de trabalho”.

Enquanto psicóloga, com larga experiência na intervenção de crises humanitárias através de programas de saúde mental em inúmeros países em cenário de catástrofes naturais e conflitos armados, que significado atribui à educação emocional?

Maria Palha, psicóloga, consultora de programas de impacto social e autora do livro “Uma caixa de primeiros socorros das emoções”
Maria Palha, psicóloga, consultora de programas de impacto social e autora do livro “Uma caixa de primeiros socorros das emoções”

Ao longo das várias missões em contexto de crise, como guerras e catástrofes naturais em que participei, mas também nas consultas que dou no meu consultório em Lisboa, fui-me apercebendo que, efectivamente, as pessoas que se conheciam melhor, que tinham mais ABC Emocional, conseguiam superar com mais facilidade as situações adversas, em contextos até desumanos. Ter ABC emocional é ter quatro pilares alicerçados: identificar o que se sente e quando, quer sejam emoções prazerosas ou dolorosas – as suas, as que surgem na sua relação com os outros e as que surgem na sua interacção com o mundo e no contexto onde se inserem; identificar e regular sinais de alertas – que demonstram as fragilidades e quando se deve parar, inovar ou transformar; regular quando a pessoa se sente mal – identificar as emoções dolorosas e decidir quando se devem reforçar ‘curativos às feridas emocionais’ ou, pelo contrário, quando se deve procurar ajuda especializada; e identificar as fontes de bem-estar – em relação ao dia a dia, e à relação com os outros e com o mundo.

Estes quatro pilares são, por sua vez, o que nos permite ir juntando uma conta poupança de emoções prazerosas, facto que nos ajudará a adaptar melhor em casos de situações adversas. Para que sejam possíveis, é importante que haja autoconhecimento, pois somos únicos e o que me incomoda a mim, não incomoda ao outro.

Que importância tem a gestão das emoções na actual sociedade globalizada, dominada pelo frenético mundo digital e onde se privilegia a racionalidade a ponto de muitos de nós não sabermos, “sequer, identificar e compreender as emoções”, quanto mais lidar com elas?

As emoções neste nosso mundo “à rapidez de um clique” são essenciais, pois também elas nos distinguem de outras espécies, permitindo-nos adaptar melhor às situações. São as emoções que nos distinguem como pessoas, que nos permitem empatizar com o colega que não entrega atempadamente o relatório de trabalho, sentir receio de não ser aceite no grupo e por isso fazer mais esforços para agradar aos outros, ter maior ou menor capacidade de cuidarmos de nós, sermos mais honestos, corajosos e leais, ou até mesmo mais resilientes após uma crise em que fomos injustiçados, por exemplo.

As emoções são a massa de que somos feitos, que nos tornam únicos e especiais, e formam o carácter. São também elas que nos permitem aceder honestamente aos nossos desejos mais íntimos, que servem como uma bússola que nos oriente rumo ao mais honesto dos caminhos, o nosso. Acredito que a expressão “mundo de cão” vem mesmo de um mundo árido de emoções.

De que modo é que o seu novo livro desconstrói emoções para funcionar como “uma caixa de primeiros socorros, pessoal e intransmissível”, com técnicas e conselhos práticos para ajudar a compreender e lidar com emoções como a culpa, a solidão ou o medo, e aumentar os níveis de bem-estar emocional e de felicidade?

11022016_InvestirNa3O livro leva o leitor a viajar pelos quatro cantos do mundo, pois tem histórias de vida real de lugares por onde passei, incluindo de Portugal. E, paralelamente, a ideia é que o leitor vá construindo, à medida que o lê, o seu próprio kit SOS das emoções, já que inclui um guia que o ajuda a fazer esse processo. Nesta viagem (interna e externa) o leitor recebe muita informação sobre as emoções: o que são, qual a sua função e que contra indicações têm.

Mas também vivencia emoções, tanto difíceis, como a tristeza ou a zanga, como prazerosas, como a compaixão ou a generosidade. Ao tocarmos nestas emoções dolorosas, é fornecido aquilo a que chamo um ‘penso-rápido’ emocional, isto é, uma dica que ajuda o leitor a identificá-las e a regulá-las, evitando que se instalem como uma condição. Face às emoções prazerosas segue-se a mesma linha, ou seja, é dada uma dica para as reconhecer e potenciar (curiosamente conheço poucas pessoas que falem de emoções prazerosas, muitas vezes focam-se apenas na felicidade e alegria, descurando outras que exploro no livro).

Num segundo momento o que defendo no livro é que devemos identificar também as nossas fontes de bem e de mal-estar, que não são emoções, mas que muitas vezes nos levam a sentir desta ou daquela forma, sem que tenhamos consciência disso.

Como é que se processa essa desconstrução no ‘mundo das crianças’, e nomeadamente em crianças traumatizadas por situações de guerra e de catástrofe?

As crianças têm uma capacidade incrível de se ajustar às situações e, por isso mesmo, é fundamental que o adulto use uma linguagem emocional, para lhes ir traduzindo o que se passa, mas também para permitir que desenvolvam a sua própria bússola interna, ou seja, o seu ABC emocional.

[pull_quote_left]As emoções servem como uma bússola que nos orienta rumo ao mais honesto dos caminhos, o nosso[/pull_quote_left]

Neste sentido, a ideia é que todos nós consigamos transmitir aos nossos filhos, de forma independente e neutra, a importância de termos empatia, de respeitarmos o que sentimos, de pedirmos “desculpa”, de delinearmos um objectivo e conseguirmos levá-lo a bom porto, etc.. E tudo isto começa em casa, quando o educador/cuidador substitui a expressão “não estás nada com vergonha, vai mas é brincar com os outros meninos”, por um “eu sei que parece difícil chegar e entrar no grupo, mas experimenta, eu estou aqui”. Esta simples troca de expressões valida uma emoção da criança, em vez de a levar a acreditar que sentir vergonha ou ser tímido é desajustado.

Quais são os principais sinais de alerta de desequilíbrios emocionais e que conselhos dá neste livro para que cada pessoa os possa reconhecer, tornando-se num “guardião” da sua saúde mental? Que função assume o “reiniciar o sistema” na regulação desses desequilíbrios?

Os sinais de alerta variam de pessoa para pessoa. O importante é que cada um de nós consiga prestar atenção às alterações que surgem em relação a si, à sua relação com os outros e ao mundo.

O nosso corpo é um excelente ‘sinaleiro’, e por isso podemos começar por olhar para as suas manifestações: alterações de sono (insónias, por exemplo) de apetite e de peso (perder ou aumentar muito peso), memória e concentração, aumento de batimentos cardíacos ou ataques de pânico.

[pull_quote_left]O carácter é composto por valores, virtudes e competências, e são estes que levam os líderes a inspirar as suas equipas e a promoverem o propósito[/pull_quote_left]

Depois, temos os sinais de alerta na nossa relação com os outros, como as irritabilidades, emoções dolorosas, como o ciúme, a zanga ou a frustração, que nos trazem uma mensagem sobre necessidades nossas, que possivelmente não estão a ser satisfeitas em determinada relação (e convém não ignorar, pois quanto mais tempo ignoramos ou disfarçamos estas emoções, mais tempo vamos demorar a reequilibrar-nos). E por fim, sinais de alerta na nossa relação com o mundo, sensação de que já nada tem interesse e que deixámos de gostar de fazer o que fazíamos, desesperança e isolamento total.

O guardião de saúde emocional podemos ser todos nós, no fundo trata-se de termos conhecimento destes sinais de alerta, na sua tridimensionalidade. E de conseguirmos também adoptar um papel cuidador de quem nos rodeia: se alguém não está bem, conseguirmos mostrar preocupação e sugerir que procure ajuda.

O guardião de saúde emocional é aquela pessoa que conhece os sinais de alerta emocional e consegue de certa forma promover bem-estar às pessoas que o rodeiam, através da sua generosidade e apoio, sinalizando e contribuindo para um ambiente mais humano.

No meio empresarial, como podem (e devem) os líderes identificar e combater os sinais de alerta que prejudicam a produtividade, do stress ao burnout?

Acima de tudo através do desenvolvimento da sua capacidade distintiva. Ou seja, quando uma empresa opta por se reger por boas práticas, com ética, deve promover uma série de acções e linguagens associadas, nos líderes, na cultura empresarial e nos seus colaboradores. Em relação ao líder, acredito que é muito benéfico investir numa cultura humana nas empresas (há muitas formas de o fazer) e em seguida promover e desenvolver esta capacidade distintiva, que mais não é do que carácter.

[pull_quote_left]As pessoas que se conhecem melhor emocionalmente superam com mais facilidade as situações adversas[/pull_quote_left]

O carácter é composto por valores, virtudes e competências, e são estes que levam os líderes a inspirar as suas equipas, a terem pessoas leais nas suas equipas, a tomarem decisões que respeitem o processo (mas, paralelamente, que façam sentido para todos os envolvidos), e a promoverem a espiritualidade e o propósito nas equipas, já que é isto que hoje compromete as pessoas com os seus locais de trabalho, e não tanto a sua remuneração.

Ao entrar neste caminho, o líder acaba por se transformar num verdadeiro guardião de saúde emocional, pois claramente ficará mais humano (um valor de carácter) e começará também a preocupar-se com o bem-estar físico e emocional das suas equipas. Passará a ser alguém que conhece os sinais de alerta das suas equipas, que sabe quando estas precisam de medidas e bem-estar para continuarem a produzir bem e de forma sustentável.

Como se promove uma “cultura emocional” e que benefícios traz esta para a própria cultura organizacional? Com que objectivos é necessário “incluir urgentemente a linguagem emocional no mundo das empresas”, como defende?

A cultura emocional promove-se através de acções que incluam a colaboração, a generosidade e a entreajuda das equipas, em detrimento da competição, da linguagem sarcástica e da castração da diferença. Acima de tudo fomentando momentos de apoio mútuo, formação de guardiões de saúde emocional, e com muito, muito compromisso por parte das chefias/líderes.

Face à sua experiência como consultora de programas de impacto social, que competências devem as empresas desenvolver junto dos seus colaboradores, com vista à implementação de projectos com impacto social? Para além das vantagens para a comunidade que beneficiam, que mais-valias trazem estes projectos à própria empresa, incluindo a nível motivacional dos seus colaboradores?  

Formar guardiões de saúde emocional seria o início da intervenção, promovendo depois o espírito de colaboração e entreajuda, já que por vezes o grupo de trabalho é muitas vezes o único ambiente que o adulto tem para se sentir em comunidade, a pertencer. É por vezes o seu único grupo. Neste sentido, se a empresa se focar em promover um bom espírito de equipa, com pessoas com características distintivas, com autoconhecimento, capacidade de comunicação e linguagem emocional, está sem duvida a implementar um programa com impacto social, sustentável no tempo, com grande escalabilidade e replicável na sua empresa.

Gabriela Costa

Jornalista