A CIP quer revisitar alguns clusters e adaptá-los à nova realidade, afirmou António Saraiva, o primeiro presidente da nova estrutura dos patrões portugueses. O objectivo passa por trazer Michael Porter até o final deste semestre para redefinir as alterações necessárias aos clusters dos anos 90. Entre as ideias de António Saraiva, destaca-se a utilização das companhias nacionais que estão bem implantadas no exterior e que poderão funcionar como “porta-aviões” capazes de levarem PME atrás delas
POR HELENA OLIVEIRA e VÍTOR NORINHA (OJE)*

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© Bernardo S. Lobo
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O processo de fusão institucional que deu origem à nova CIP – Confederação Empresarial de Portugal – é a resposta à sua afirmação recente de que o mundo empresarial português não fala a uma só voz?
É seguramente uma tentativa de resposta ao facto de eu sentir essa lacuna no movimento associativo empresarial português. E, mais do que não termos uma voz única, não temos uma voz coesa. Na verdade, temos especificidades próprias nos sectores de actividade – turismo, agricultura, serviços e indústria – e eu dificilmente saberei falar, defender interesses de uma agricultura, que é uma actividade muito própria e ter uma voz única que consiga respondera todos os anseios.

E porquê a voz coesa?
Há um conjunto de temas que são transversais a todas as actividades económicas: a justiça, a educação, a formação profissional, taxas municipais, fiscalidade, parafiscalidade, questões da UE, “simplex”, burocracia. Nesses problemas que são comuns deveremos ter uma voz coesa onde possamos, a uma só voz e por essa coesão, defender os nossos interesses e pugnar por políticas púbicas de acordo com essa transversalidade dos problemas. A opinião pública não percebe como é que os patrões não estão de acordo nesta ou naquela matéria. Por isso, uma voz coesa é desejável e vamos consegui-la, não tenho dúvidas.

Para além dessa causa prioritária e de uma maneira muito geral, que outras causas prioritárias vai a CIP apresentar e defender?
Resultam do nosso programa de candidatura três grandes objectivos para este primeiro ano de mandato. Desde logo falamos de um Acordo Social para o Desenvolvimento, que queremos celebrar com os restantes parceiros sociais e sindicais e envolvendo o Governo como regulador. Dentro deste ponto defendo que os acordos que são necessários devem ser concretizados, prioritariamente, entre as partes, entre os empregadores e os trabalhadores, através das suas associações respectivas, quer as patronais quer as sindicais. Defendo, por isso, um acordo social para o desenvolvimento onde se coloquem muitos destes temas que estão hoje em concertação social, caso de uma política activa de emprego. O drama do desemprego, a dimensão e o volume de pessoas desempregadas é socialmente insustentável e vai gerar, se nada for feito, conflitualidade social complicada. Tem de ser atalhado rapidamente.

Por outro lado, importa definir politicas salariais que, de acordo com os crescimentos económicos, afectando-lhes indicadores de produtividade, para que façamos depender os salários de acréscimos de produtividade. É insustentável discutirem-se aumentos salariais sem criar uma relação directa com os ganhos de produtividade.

E no que respeita à formação profissional?
É um ponto crítico. É preciso adaptar a qualificação dos nossos recursos humanos à necessidade da nova economia, porque o paradigma de desenvolvimento português alterou-se.

Assentámos, durante demasiado tempo, o nosso modelo de desenvolvimento em mão-de-obra barata, produtos pouco inovadores, com pouco valor acrescentado e esse mundo mudou, e aconteceu muito rapidamente. Devo dizer que a globalização foi mal acautelada pela EU pois, de repente, ficámos numa economia global mas mantivemo-nos com regras regionais: o modelo social europeu ou o modelo ambiental. Temos regras regionais que são incomparavelmente diferentes do que são os outros modelos deste fenómeno do mundo global em que vivemos e a UE não acautelou, não induziu nos Estados-membros novas práticas, novas regras para reequilibrar estes desequilíbrios que entretanto se estabeleceram. Por isso, temos hoje um mundo novo, com um modelo de desenvolvimento diferente. A nova economia são empresas de conhecimento, de produtos inovadores, de informação e este novo mundo dificilmente vai absorver a mão-de-obra que a velha economia libertou.

Friso que temos que ter uma política de requalificação dos nossos recursos humanos que os vai habilitar mais rapidamente a encontrar trabalho.

Só de trabalhadores, mas também dos patrões?
Falo em formação profissional dos nossos RH quer para os activos que estão empregados, quer para os que estão desempregados, elevando as suas competências para que tenham novas e diferentes armas para estarem mais habilitados a esta nova economia.

Relativamente aos nossos empresários – e como já disse em várias ocasiões – temos de ter a humildade de reconhecer que o nosso tecido empresarial é composto por microempresas. Cerca de 97% da nossa realidade empresarial é composta por empresas até 10 trabalhadores e apenas 800, num universo de 370 mil, é que são grandes companhias. Esta micro-realidade empresarial tem deficiências estruturais, modelos de gestão ultrapassados, um know-how empresarial deficitário. Muitos dos nossos empresários não lêem um balanço, não têm um plano de negócio, não sabem o que significam expressões como “cash-flow”, “goodwill” e outras. Friso: não é crime não saber. Têm, do seu lado, a arte de terem sido empreendedores, dominam muito bem o seu negócio, mas esta nova realidade que temos pela frente exige grandes competências e grande formação. E despertar os nossos empresários, aqueles que ainda não o fizeram, é necessário. Por isso, têm que receber acções de formação e, nessa óptica, contratualizámos com o Governo um programa de formação para empresários. O objectivo é dotar o tecido empresarial de novas habilitações e qualificações.

A qualificação pode ajudar ao período difícil onde estamos envolvidos?
Exactamente. Os nossos empresários terão de acompanhar as alterações e, com orçamentos recessivos, é assumido que o mercado interno venha a contrair. Perante este cenário, todas as empresas, independentemente da actividade que desenvolvem, da dimensão que tenham, têm de ter uma perspectiva de internacionalização.

Temos que “sair da casca” e ir para o mundo. Temos de tentar manter e fidelizar os actuais clientes do mercado interno, mas também tentar encontrar novos clientes no mercado externo. Dentro desse objectivo, o Governo tem-se mostrado muito apostado em fazer crescer as nossas exportações dos actuais 32% de peso no PIB para 40% em 2020. No entanto, as exportações portuguesas nunca tiveram um peso de 40% de peso no PIB, nunca na nossa história e, para atingir este objectivo ambicioso é preciso trabalho, abnegação e muito esforço por parte de todos nós.

E como podem os poderes públicos ajudar?
O esforço deve começar na preparação das condições e no ambiente económico em que as nossas empresas desenvolvem a sua actividade. Temos que exigir dos poderes públicos, do Governo, um ambiente económico mais favorável para que as nossas empresas possam agarrar e vencer este desafio da exportação, dotando-as de meios comerciais, de gabinetes e/ou departamentos comerciais, que muitas delas não têm.

Por isso, também definimos com o Governo – deverá ser contratualizado nos próximos dois meses – um programa a que se chamou InovExport, colocando 500 jovens em empresas que serão devidamente referenciadas. Estas vão ser seleccionadas de acordo com determinados critérios, nomeadamente ao nível das oportunidades de exportação, de terem produtos em condições para venda mas que não tenham departamentos comerciais optimizados. Estas empresas receberão jovens licenciados para criarem ou optimizarem gabinetes comerciais para vencer essa batalha.

Esta medida tem dois méritos: habilitar a empresa, dando-lhe uma nova e melhor ferramenta para enfrentar e vencer este desafio; e responder ao problema dos 150 mil jovens licenciado que o país tem à procura do primeiro emprego. Não vamos resolver o problema dos 150 mil, mas vamos de fatia a fatia e nesta fase serão 500. Independentemente deste projecto, teremos que desenvolver outras políticas para absorver outros jovens desempregados à procura do primeiro emprego.

Para respondermos a muitos destes problemas, temos previsto lançar um grande congresso das actividades económicas e das empresas. O evento deverá acontecer em Outubro ou Novembro.
Friso que há 25 anos que não se faz um congresso das actividades económicas onde se possam discutir os nossos problemas e os novos desafios. Vamos encontrar soluções e caminhos, para depois exigirmos do Governo um conjunto de ajudas nesse sentido.

A CIP assinou recentemente um protocolo com a ACEGE com vista ao cumprimento do pagamento pontual aos fornecedores. O laxismo no prazo dos pagamentos é um dos grandes problemas das nossas empresas (sendo que o pior exemplo provém do Estado) e continua a existir uma enorme dependência do Estado por parte das empresas. O que vos levou a assumir esse compromisso?
Um dos grandes problemas que sentimos na actividade económica é o dos prazos de pagamento. Uma das causas que coloca as nossas tesourarias em situações dramáticas é o incumprimento dos prazos de pagamento. Contratualizamos prazos de pagamento na relação comercial, a 30, 60 ou 90 dias, o que for, e a sistemática falta de cumprimento desses acordos leva a que as tesourarias das empresas fiquem exauridas. Isto acontece quando temos de pagar aos nossos colaboradores, aos fornecedores de matérias-primas, a energia ou as comunicações, sempre a horas, porque eles têm a “faca e o queijo na mão”: cortam-nos o fornecimento se não cumprirmos. Nós, se cortarmos o fornecimento aos nossos clientes, perigamos a relação comercial, pois muitas vezes perdemos o cliente porque o nosso produto tem alternativas. Temos, por isso, de ter um jogo de equilíbrios entre o recebimento e o novo fornecimento, mas a verdade é que este é um drama no nosso país, sendo que o Estado é desde logo o principal indutor desta má prática, não pagando a horas, mas sim a perder de vista, e é responsável por ter induzido está má prática na economia portuguesa.

Mas o que esperam atingir com este acordo?
Em boa hora subscrevemos este acordo com a ACEGE, porque se nós moralizarmos, se cada uma das partes cumprir e fizer cumprir, se a CIP induzir a bondade do protocolo nas nossas associações e elas, por sua vez, o induzirem nas nossas empresas, torna-se um círculo que não pode ser quebrado. Porque elas também, as nossas empresas, também são credoras do cumprimento dos seus clientes. Eu, enquanto cliente, tenho que pagar o serviço que me prestaram a tempo e horas, mas não posso não esperar idêntica atitude da parte do meu cliente, porque a cadeia quebra-se.

Existe aqui uma pedagogia que apela ao funcionamento desta cadeia. Do lado da ACEGE sei que vão induzir esta prática, assim como do lado da CIP. Mas sabemos que não basta carregar no botão e o efeito é imediato. Temos aqui um caminho a percorrer, mas tínhamos de começar de alguma maneira e este é um ponto de partida desta longa caminhada que será muito eficaz, aí sim, se o Estado participar como regulador. O Estado não tem que interferir na relação de privados nos prazos contratualizados. Mas se for o próprio Estado a moralizar, se ele próprio for um bom exemplo e se as normas comunitárias que foram tardiamente aplicadas em Portugal em termos dos prazos de pagamento e se o Estado regular com legislação, uma vez que a sociedade sozinha não regula a boa prática, teremos soluções.

Há aqui esta espada de Dâmocles sobre a cabeça. Porque se pensamos que somos beneficiários desta má prática, poderá acontecer que mais tarde venhamos a ser vítimas, porque também não receberemos a tempo e horas. É bom que tenhamos esta lucidez, mas se o Estado não for parte activa desta prática, as medidas pontuais, por bondosas e meritórias que sejam, como é esta, não terão um efeito tão imediato quanto seria desejável.

Reabilitação urbana
Enquadra-se nesta estratégia o projecto ligado à reabilitação urbana?
Esse foi um projecto que desenvolvemos no final do ano passado e que foi apresentado ao Governo. Entretanto, foi nomeado um grupo de trabalho, liderado pelo ministro Vieira da Silva, e que inclui o Ministério das Obras Públicas, a secretário de Estado da Presidência e o Ministério das Finanças.
A reabilitação urbana é um edifício complexo. Tem questões fiscais, tem a lei das rendas, precisa de acções de despejo mais ágeis e tem políticas camarárias que precisam de ser reequacionadas e redefinidas. Nesse sentido, a Associação dos Municípios está também a interagir com este grupo de trabalho. Queremos “fazer acontecer a reabilitação urbana”. Sublinho que, tal como em outras coisas neste país, os diagnósticos estão todos feitos e, por isso, mais do que fazer diagnóstico, é “fazer acontecer” aqueles que já estão feitos.

De que volume de projectos está a falar?
Temos que ser ambiciosos. Se tivermos 20 projectos será óptimo mas, que se executem dois, e depois executamos mais dois. Este país tem a pecha de criar comissões. Quando há um problema, cria-se uma comissão e adia-se o problema, ou vamos estudar, ou vamos rever…. Os diagnósticos estão feitos. Executem-se as soluções.

É por causa disto que chamámos ao programa  “Fazer Acontecer a Reabilitação Urbana”.O objectivo é criar 500 mil postos de trabalho, é fazer crescer o PIB anualmente em 900 milhões de euros, é reabilitar as cidades e promover a condição de habitação daqueles que moram hoje em casas degradadas. Por exemplo, a cidade de Lisboa ainda tem, em 2011, cerca de 1700 habitações sem casa de banho. O projecto também significa evitar que entrem por dia em Lisboa cerca de 480 mil carros, com tudo o que isso tem de perdas de produtividade, de CO2 na atmosfera ou na mobilidade humana.
O emprego, a criação de riqueza, a atractividade das cidades ou condições mais dignas para aqueles que vivem hoje em casas degradadas são medidas públicas que podem interagir com privados, em parcerias público-privadas. Falo em criar um fundo próprio (que está a ser estudado) para a reabilitação urbana.
Considero que, desde que os senhorios tenham a garantia de que caso os inquilinos entrem em incumprimento conseguem, de uma forma célere, colocar outra vez aquele activo no mercado, haverá boa receptividade. Por outro lado, as rendas antigas – e são cerca de 400 mil, em sete milhões de fogos – têm de ser mexidas. É sabido que, para muitos senhorios, a única fonte de receita é a renda que estão a cobrar e, têm rendas de 15/20 euros e com necessidades de obras de milhões de euros. Ou seja, nunca mais se vai reabilitar aquele prédio. Sejamos sensatos: há que fazer diferente, há que interagir com as câmaras, com fundos privados, para fazer acontecer a reabilitação. É um edifício que não é fácil, mas só porque não é fácil não lhe mexermos? Não! É difícil, mas por isso exige corajosas medidas de correcção.

Salários, produtividade e competitividade
Há dias participou num fórum e fez uma afirmação polémica: “Os salários penalizam a competitividade das empresas”. A questão é: os salários dos portugueses são altos, baixos ou deveriam incluir uma componente variável?
Começo pelo fim. Deveriam conter uma componente variável. Um salário mínimo de 485 euros é baixíssimo, sendo que o salário médio da economia portuguesa é 900 euros e, recordo, somos país-membro da EU. Em síntese e em termos de valor relativo, os nossos salários são baixos.
O problema é que a nossa produtividade é paupérrima e o peso dos nossos salários no PIB é de 50%. Ou seja, temos um peso excessivo dos salários na produtividade, sendo certo que não podemos baixar um salário que já é baixo.

Assim, só nos resta um caminho: aumentar a produtividade e aumentar os critérios de produtividade. Mas a produtividade não é uma coisa abstracta. A produtividade de uma economia e de uma empresa – no sentido que a economia é o somatório das várias empresas – é transversal a tudo o que já referi anteriormente: a formação profissional, a qualificação dos nossos recursos humanos e dos nossos empresários, novos modelos empresariais, eficiências empresariais e custos de contexto diferentes. Eu não posso ter uma produtividade elevada, quando depois tenho perdas de funcionalidade comparativamente com os meus parceiros. Qual é a avaliação que se faz da justiça, da nossa logística, da rede ferroviária, da livre circulação das nossas mercadorias, dos custos de energia, de comunicações ou da forma como se está nas empresas?

Mas deve falar-se em rentabilidade de mão-de-obra ou rentabilidade do capital investido, tendo em conta o impacto da inovação na criação de competitividade?
Uma coisa sem a outra não subsiste. Eu tenho de rentabilizar e melhorar o capital humano para que daí resulte uma melhor rentabilidade do meu capital.

Mas o denominador ou é investimento ou é mão-de-obra, porque as empresas do norte a Europa têm salários muito mais elevados e a produtividade é muito superior. E isso tem a ver ou com o investimento ou com a inovação…
Mas as empresas ou têm mão-de-obra intensiva ou capital intensivo; ou têm um parque de máquinas ultra-moderno e poucas pessoas, ou têm um parque de máquinas que não é da última geração e precisa de mais mão-de-obra. A tal nova economia que temos vindo a falar – e para transformarmos o velho modelo de desenvolvimento num novo modelo -, vai acarretar desemprego.

Por isso, para termos capital intensivo vamos sair de um modelo de mão-de-obra intensiva. E – pegando nesta analogia – é certo que por cada robô que eu coloco, passando para a empresa mais capital intensivo, vou condenar postos de trabalho. Isto obriga a balancear estas matérias. Quando penso em evoluir para capital intensivo, penso em optimizar a produção e vou ter critérios de produtividade melhores porque esta máquina não fuma e não pára. Vou melhorar, mas vou condenar socialmente os colaboradores porque vou criar desemprego.

Estamos numa “travessia do deserto” complicada. Desde a EFTA que assentámos o nosso modelo de desenvolvimento em mão-de-obra intensiva, barata, com pouca inovação, com pouco valor acrescentado, mas isso acabou, ou seja, esse modelo está na Ásia. Mas as empresas portuguesas ainda não deram o salto e não saíram desse modelo. Hoje, estamos a concorrer, no mesmo momento, com estas duas realidades: os asiáticos que, comparativamente, nos liquidam mas, por outro lado, ainda não nos diferenciámos. Ou seja, não nos distinguimos para passarmos a ter valor acrescentado, inovação e capital intensivo.

Um dos nossos constrangimentos da nossa economia – no que respeita à questão de  melhor produtividade e melhores salários – está no facto de as empresas não saírem deste lodo em que estão. Estão longe de chegarem ao patamar de um modelo de desenvolvimento diferente, com novos produtos e novos conceitos, para nos podermos diferenciar dos nossos concorrentes, remunerar melhor os nossos trabalhadores, que podem ser menos, mas a ganharem mais.

E, nesta “travessia do deserto” é preciso tomar decisões. Temos de fazer correr, em paralelo, politicas públicas para manter ou até absorver esta mão-de-obra que vai ficando dispensada desta nova economia, e promovermos condições para as novas empresas da nova economia para incorporar a nova eficiência.

Para colocar o robô, tenho de o comprar, para implementar novas tecnologias, modelos sofisticados de informação, tenho que investir. Mas estou sem possibilidade de investimento. A maior parte das empresas está descapitalizada, os empresários não têm capitais próprios para promoverem o investimento necessário e não conseguem capitais alheios porque a banca não empresta e o que empresta é a juros proibitivos.

Mas voltando à questão das componentes dos salários…
Considero que se deve ter as duas componentes, uma fixa e outra variável, e a variável tem de depender dos ganhos de produtividade. O termo é infeliz, mas é a questão da cenoura. O senhor sabe que se contribuir mais, a empresa ganha, mas o senhor também é melhor remunerado. Tem de haver aqui uma reacção causa-efeito entre salários e ganhos de produtividade. É um novo paradigma da política salarial, mas sem estarmos disponíveis para nos sentarmos à mesma mesa e discutirmos estas questões, dificilmente vamos melhorar o que quer que seja. Os patrões vão ficar à espera de um sinal dos sindicatos e estes – e porque a nossa sociedade está actualmente muito crispada – enquanto não se quebrar esta animosidade, não avançarão. É nesse sentido que não me canso de pedir para que, de uma forma leal e honesta, as duas partes se entendam.

Que impacto é que o absentismo tem realmente nas empresas nacionais? É possível quantificar – em percentagem –, numa empresa industrial média, quantas pessoas a mais teria de contratar para colmatar esse absentismo?
Não é possível, porque existe uma enorme heterogeneidade nos nossos sectores de actividade. Temos empresas com um nível de absentismo quase nulo e temos outras com elevados níveis. Ainda há dias ouvia o meu colega Fortunato Frederico, presidente da Associação do Calçado, referir que tinha índices de absentismo muito elevados e que isso obrigava a contratar mais gente.

E mais uma vez concorrem para esta questão “n” factores: condições sociais envolventes, apoios familiares envolventes, questões de mobilidade – uma pessoa que para ir trabalhar tem de apanhar um autocarro que sai as cinco da manhã – enfim, existe aqui um conjunto de factores que me impede de dizer que é o “calinas” o trabalhador que quer ficar em casa, porque ele também sabe que se ficar em casa não recebe ao final do mês e o dinheiro faz-lhe, seguramente, falta.

Temos, talvez, um conjunto de regras que têm de ser optimizadas. O próprio valor do salário – o tal salário baixo ou mínimo – está muito colado ao subsídio de desemprego, e as pessoas fazem as contas. Entre receber um subsídio, que é menos qualquer coisa mas em que não paga transportes, não paga alimentação e aquilo que lhe fica no bolso se for trabalhar é, às vezes, por ridículo que pareça, menos do que o que recebe do subsídio de desemprego.

© Bernardo S. Lobo

O que também é perverso, porque depois todos nós estamos a pagar a manutenção de subsídios de desemprego porque as pessoas não aceitam o emprego que lhes é oferecido.
Também é verdade que o absentismo em alguns sectores poderá ser devido ao factor do salário baixo, porque não motiva o trabalhador, outros serão custos associados a redes de transporte, à assistência à família, e houve aqui um conjunto de alterações sociais que hoje concorrem para que a estrutura familiar não absorva alguma desta necessidade: as escolas, os infantários, os lares. Isto leva a que o trabalhador, em desespero de solução, fique em casa, não vá trabalhar, porque não tem solução para aquele problema que é criado, correndo daí o risco do salário ainda mais baixo que vai receber e prejudicando a empresa, gerando problemas de encomendas que não são entregues no prazo, etc.

Por isso, falar de absentismo é falar de uma reforma que tem de ser feita num conjunto de vectores que concorrem para este mesmo absentismo. Como em tudo na vida, também temos pessoas que se aproveitam do sistema e o penalizam. Tenho dito, e os sindicatos não gostam de ouvir, mas é verdade que há pessoas que preferem estar a viver do subsídio de desemprego do que ir trabalhar, os chamados “caça-carimbos”, que nem sequer querem saber das condições, nem do ordenado. Mas, isso não nos dá o direito de dizermos que os desempregados estão todos a viver à “sombra” do subsídio.

Já referiu igualmente a qualificação da mão-de-obra, que é um atraso para o país. Nesta óptica, devem ser reabilitadas as antigas escolas industriais e comerciais? Fazem falta?
As escolas industriais e comerciais já fizeram muita falta, e o desaparecimento das mesmas terá sido responsável por muita perda de eficiência de parte da nossa indústria. Os mestres e os encarregados gerais que daí saiam, muito jovens e habilitados, desapareceram. Mas, como tudo, a vida encarrega-se de compensar e hoje os centros de formação que as associações empresariais gerem, ou seja, as empresas, através das suas associações, acabaram por responder a esse fenómeno, criando centros protocolares para colmatar esta deficiência.

Hoje, a necessidade não é tão premente quanto foi quando elas desapareceram. Agora, se me perguntar se numa reforma de ensino eu advogaria que esse tipo de ensino deveria voltar a existir, eu respondo afirmativamente.

E no que respeita ao problema da qualificação dos empregadores e dos empresários. Esta última é pior do que a dos colaboradores ou acaba por ser superior?
Vou responder “à la palisse” e perceberá a resposta. Sendo certo que há mais trabalhadores que patrões, há mais necessidade nestes do que nos patrões, pois o universo é maior.

Mas, mais uma vez depende de que sectores estamos a falar. Temos sectores onde a necessidade de formação dos empresários é grande, temos outros em que não há necessidade alguma. À medida que descemos na escala de valor da actividade empresarial, mais gritante se torna a necessidade de qualificação dos recursos humanos, quer de trabalhadores quer de empresários.

Agora, respondendo à questão, como a massa dos empregados é maior, diria sempre que é mais premente nos trabalhadores e o salto qualitativo dai resultante é mais visível. Porque um patrão, mesmo que não tenha as habilitações tem, muitas vezes, o bom senso de comprar essas competências e contrata um director geral ou um director financeiro. Dependendo da estrutura da empresa, acaba por adquirir essa competência para a sua organização, apesar da sua insuficiência. A melhoria da qualificação do próprio empresário é que se ele tivesse essas competências, se calhar optimizava o resultado da sua empresa, em vez de pagar essa competência, rentabilizava-a e ficava com mais valor, mas depois também não criava postos de trabalho, enfim, mais uma perversão.

Mas eu sinto que temos de qualificar mais os trabalhadores do que os empresários, não deixando de reconhecer que em algumas empresas e actividades, temos empresários, patrões, que só tinham a ganhar se percebessem que têm essa necessidade.

O que afecta mais o investimento em Portugal? Salários, absentismo ou qualificação dos RH?
Voltamos à mesma questão: os salários em Portugal têm um grande valor no PIB, mas são baixos. Portanto, o investimento ganha-se com ganhos substantivos de produtividade e redução de algumas franjas de absentismo.

Modelo económico, banca e exportações
A situação dos juros na actualidade é sustentável quando repassada pela banca para o sector produtivo?
Não, não é sustentável, mas é verdade que eu condeno a banca nalgumas práticas que tem. Considero que a banca, como parceiro de negócio – porque é um fornecedor de capital – deveria ter outra filosofia, outra lógica de comportamento de acordo com as dificuldades que a economia e as empresas enfrentam hoje.

E, nesse sentido, temos promovido reuniões do chamado Grupo de Contacto, entre o ministério da Economia, as associações patronais e a banca, para tentarmos encontrar soluções novas práticas, mas não posso deixar de reconhecer que a própria banca é ela hoje vítima do sistema interbancário. A banca portuguesa também está hoje a ser vítima de taxas de juro altas e, ao comprar dinheiro a 7 %/7,5%, não pode vender a 3%.

O problema vem pela banca mas não é da banca. Sobre esse assunto tenho dito que a UE tem que ser repensada, reformulada, porque a União Económica que esteve na génese da UE, tem que ser uma união política, tem que existir coesão social. A união dos 27 membros tem de ser federal, ter políticas comuns – politicas fiscais e outras – ou seja, tem de haver uma harmonização na União, porque a concorrência desleal que a própria União gera dentro de si, com taxas de juro diferenciadas para as empresas alemãs comparativamente às empresas portuguesas, por exemplo, é perversa.

Não faz sentido que uma empresa alemã exerça a sua actividade com taxas de juro com as quais eu não posso concorrer em Portugal. E isto é concorrência desleal. Se me pergunta se eu reconheço que a banca tem práticas que deveria rever e ser um parceiro diferente, mais solidário – obviamente sempre com a sua lógica de negócio que não pode deixar de ter, pois tem que acautelar os accionistas que a compõem –, eu diria que esta tem de perceber que a “galinha de ovos de ouro-empresa” já não tem “ovos de ouro”. E, se continuam com esta terapia, matam a própria “galinha”.

Em termos genéricos, que novo modelo deve assumir a economia portuguesa? É preciso um novo relatório Porter ou os sectores identificados há 15 anos continuam válidos?
O mundo em 15 anos mudou muito. Por isso, admito que o relatório Porter ainda tenha muito de actualidade, ou seja, muitos dos clusters mantêm-se actuais, mas necessitávamos de revisitar o relatório Porter para o adaptar a alguma realidade nova que o mundo hoje nos coloca. Sendo certo que a economia portuguesa não se alterou assim tanto, mas a nossa envolvente, o mundo, mudou muito.
Como hoje estamos numa economia global – e há 15 anos não estávamos – esta exige-nos respostas diferentes daquelas que teríamos dado há 15 anos, porque nem Porter adivinharia algumas das realidades que vieram a ocorrer.

Por isso, o que eu aconselharia – e estamos a trabalhar nesse sentido – seria trazer cá o Porter para revisitar o relatório e redefinir e reapontar alterações necessárias, tanto mais que há problemas que hoje, sozinhos, não conseguimos resolver.

Arrumando a nossa casa, os investidores, os mercados, olharão para nós de forma diferente e provavelmente ajudarão com outros olhos e diferentes.

Fomos obrigados, de acordo com uma política comunitária, a fazer algumas coisas pelas quais hoje somos penalizados. A Politica Agrícola Comum obrigou a desinvestirmos em áreas de actividade – o leite, o olival – por interesses, por vezes, de duvidosa razoabilidade. Consumimos anualmente qualquer coisa como seis mil milhões de euros em produtos agro-alimentares e produzimos três mil milhões de euros. Quer queiramos quer não, em Janeiro de cada de ano temos que ter na gaveta três mil milhões de euros para mantermos os supermercados como eles estão e a nossa qualidade de vida alimentar como nos habituámos. Temos de ter esses valores e temos de os criar ou, então, teremos de os pedir emprestados. Em termos energéticos, não temos lamentavelmente petróleo no Beato, temos que o comprar e as energias alternativas ainda não chegam.

Quando virá a Portugal o Michael Porter?
A ideia é trazê-lo ainda neste primeiro semestre.

No actual modelo, é possível crescer muito mais em termos de exportações?
Temos o ambicioso objectivo de chegarmos, em 2020, a 40% do PIB. Hoje estamos nos 32% e, claro, que é complicado, mas temos de ter ambição na vida.

Mas poderá funcionar com o actual modelo de produção?
Não. Dificilmente funcionará se não forem corrigidas algumas das práticas e assimetrias que estão instaladas. Temos de habilitar as nossas empresas – sejam as de bens ou serviços – apesar de, por uma questão de ADN, eu gostasse mais dos bens, porque temos de ter mais indústria, mais bens de equipamentos, mais calçado, mais produtos.

Temos 24 mil empresas que exportam, mas três mil concentram 95% dessas exportações. Ou seja, temos três mil empresas que exportam, mas somos 360 mil. Concluo que temos aqui uma grande oportunidade. Se só três mil em 360 mil é que exportam, as restantes também podem vir a exportar. Obviamente, e por muitas razões, muitas há que nunca virão a fazê-lo. Mas se definirmos aqui um conjunto de novas práticas por exemplo, as “empresas porta-aviões”, as Cimpor, as Efacec, que levem em cima delas os “aviões”, poderemos gerar emprego, criar riqueza e aumentar a nossa base exportadora. Mais uma vez Porter!

Mas também temos outras realidades que não precisam dos “porta-aviões”. Precisamos que a justiça funcione, que os prazos de pagamento sejam cumpridos, que não existam taxas municipais ao gosto ou à necessidade dos orçamentos dos municípios. O exemplo que tenho dado é o da Solvay. Fez o atravessamento de pipeline para trazer água salgada de Torres até Alhandra. O município de Alenquer, em 2009, resolveu passar a taxa municipal de atravessamento de pipeline de 4700 euros/ano para 570 mil euros. Isto é não ter ideia alguma do que representa numa estrutura de custos de uma empresa. Mas esta é a realidade do nosso país.

Temos ouvido vários presidentes de bancos a dizerem que vão “desalavancar” e que vão dar menos crédito. Esta “desalavancagem” da economia vai provocar o fecho de empresas?
Penso que sim, que seguramente vai provocar o fecho de empresas. E a CIP está com vários bancos a tentar criar um fundo de apoio às PME. Algumas delas têm bons negócios, apesar de dimensões pequenas, têm bons modelos de negócio, são sustentáveis, mas as tais tesourarias, os tais capitais próprios não existem e precisam de alguma ajuda. E enquanto este edifício não for reequilibrado, enquanto a justiça não funcionar e se se conseguir, na justiça, cobrar a tempo e horas, aquilo que se deve, enquanto os prazos de pagamento não forem corrigidos e funcionar uma fluidez em cadeia diferente da que temos agora, será tudo difícil.

A banca deve fazer uma selecção rigorosa nas empresas, evidentemente nas que tenham vida, nas que sejam saudáveis e, não posso deixar de reconhecer que há empresas que já estão “mortas” e não deram conta. Estas, lamentavelmente, estão no buraco e continuam a cavar e a desperdiçar recursos. Para isso, não há banca que ajude. A banca é um parceiro do negócio e não um parceiro de um funeral.
O “tsunami subprime” levou a que o medo se instalasse e o medo é mau conselheiro. Passou-se do 80 ao 8. A banca, quando estávamos nos 80, emprestava facilmente a empresas e particulares e esta dívida que temos deve-se ao facto de ter havido dinheiro muito fácil e muito barato. Friso que nada na vida dever ser 8 ou 80. Passar de 80 para 50 é razoável, passar de 80 para 8 é suicídio. Por isso, a “desalavancagem” vai provocar cegueira de nível 8 e não pode ser. Não sejam tão radicais na medida porque essa não é solução. E se não houver empresas, a actividade bancária vive do quê?

Já tem afirmado que “o homem que não muda por inteligência, muda por necessidade”. Supostamente, já estamos afogados em necessidades. É agora que vamos mudar?
Tem de ser. Cidadania mais activa, população mais exigente. Há fenómenos que estão a eclodir no mundo árabe e independentemente de algumas lógicas que poderão levar a esta eclosão social, a verdade é que as pessoas não aguentam demasiado tempo regimes daquela natureza. As revoluções fazem-se geralmente através dos jovens e agora é pelas redes sociais, pois esta revolução social seria impossível se o Facebook não existisse. Mas esta nova realidade, estas novas tecnologias, esta nova forma como nos posicionamos no mundo gera novos fenómenos. E aquela juventude revolta-se e faz diferente. Dito isto, reconheço, hoje, que na sociedade portuguesa temos que fracturar algumas coisas.

Mas há um grande cansaço na sociedade portuguesa…
Sim. A falta de cidadania, esta demissão de todos nós, levou a que a sociedade portuguesa esteja doente em alguns aspectos. Vamos precisar de provocar fracturas, sob pena de não promovermos alterações e, eu, português, tenho uma responsabilidade, independentemente se sou patrão, politico, empregado, cidadão. Portugal tem uma responsabilidade acrescida hoje de resolver o grave problema do seu desemprego. Não nos podemos dar ao luxo de termos 700 mil pessoas desempregadas. Não criam riqueza, não fazem parte da solução, mas do problema e, socialmente, o contexto poderá vir a gerar conflitualidade social de difícil antevisão. Temos de encontrar, a tempo, formas e soluções, e antes que essa fractura ocorra. No entanto, está instalada a falta de liderança no mundo, na Europa e em Portugal. Os nossos políticos têm, lamentavelmente, pouco rasgo, pouca visão e um grande divórcio da realidade. Não conheço nenhum político que esteja hoje no activo e que possua experiência empresarial – não digo que isso seja condição sine qua non  para ser dirigente político – mas é condição desejável. Seria bom terem essa competência para saberem encontrarem soluções, novos caminhos para o país. Isto de ter o emprego garantido e o ordenado garantido é perverso.

De sindicalista a patrão dos patrões
António Saraiva considera-se um fazedor de pontes e afirma ter o associativismo impresso no seu ADN. A presente entrevista serviu igualmente para sabermos um pouco mais da história deste homem que ainda hoje sonha com a Lisnave, um dos grandes amores da sua vida, e que actualmente tenta estabelecer também a difícil ponte entre sindicatos e patrões

Já travou lutas sindicais e chegou a estar à frente da comissão de trabalhadores da Lisnave nos anos 80 e, neste momento, é presidente dos denominados “patrões da indústria”. Que mais-valias lhe traz o facto de já ter estado do outro lado da barricada?
Tenho 57 anos e o “bichinho” do associativo está comigo desde os 20 anos. Coincidências fizeram com que entrasse para a tropa a 22 de Abril e, três dias depois dava-se o 25 de Abril, e uma semana depois estava eleito delegado ao MFA na minha companhia de milicianos. No meu ADN tenho, talvez, um espírito de missão associativa.

E, antes de responder à sua pergunta concretamente, sublinho que temos um défice de cidadania. O português é pouco associativo, está no nosso ADN, somos muito individualistas. Queremos que alguém, regra geral o Estado, resolva os nossos problemas, temos sempre um paizinho ou uma mãezinha, mas isso cada vez mais no mundo não pode ser assim. O ser humano é um ser em transformação e, por isso mesmo não nos podemos demitir de ser agentes dessa transformação. Considero que essa é uma obrigação de cada um de nós. E estamos obrigados a exercer cidadania, a dar um pouco de nós às transformações da sociedade onde vivemos. E não ficarmos comodamente no sofá à espera que ocorram os fenómenos.

E dentro deste espírito que é o que eu penso enquanto cidadão, eu considero-me um lutador de causas e um fazedor de pontes.

Mas voltando ao seu percurso de sindicalista…
Entrei para a Lisnave com 17 anos, contra a vontade dos meus pais que queriam que eu continuasse a estudar, e sempre tive esta sede de participar e contribuir, quis casar cedo, tive filhos cedo, casei com 21 anos, fui pai aos 22, tudo isto para dizer que fiz as coisas sempre muito novo, e quando entrei para a Lisnave, em 1970, era a maior empresa deste país. Era uma fonte de novos mundos, porque cada navio que entrava naquele estaleiro era uma experiência nova, era oriundo de um país diferente, e cada navio que atracava ali era um novo mundo que chegava ao nosso mundo fechado de 1970, e a Lisnave era, de facto, uma grande empresa. Ainda é, mas comparativamente, na altura era muito mais. Tínhamos escola de formação, tínhamos infantários, uma assistência social impar, tínhamos 15ª e 16º mês, porque a saudável situação da empresa permitia que na pascoa recebêssemos…

Quando regresso do serviço militar, tinha-se dado a revolução, e a Lisnave era a maior empresa política deste país. Porque era uma empresa com 10 mil pessoas, 99% sindicalizadas – a UDP nasceu lá dentro – e o sindicato afecto á UGT tinha lá dentro mil pessoas.

Além da comissão de trabalhadores que era composta por 11 elementos, a comissão tinha delegados nas múltiplas divisões da Lisnave, cada divisão tinha um ou dois representantes á comissão de trabalhadores. Havia uma comissão de trabalhadores que era a comissão executiva, 11 elementos – e depois existia um conselho consultivo, em cada divisão do estaleiro, com um ou dois elementos, que escutavam e faziam o report da situação daquela divisão. E eu fui sendo membro desse conselho consultivo, mas nunca me candidatei, apesar de todos os anos se convidado a fazer parte da comissão de trabalhadores. E em 1980, porque o estaleiro ia fechar, ia falir – e onde houvesse greve ou manifestação a Lisnave estava, e os armadores começaram a abandonar o estaleiro.

E foi essa situação que o convenceu a candidatar-se?
A Lisnave deixou de reparar 200 navios por ano e começou a reparar 50. E a fechar e a falir. E aquela era a minha casa, eu tinha nascido ali dentro. Nunca tive outro patrão, nunca tive outra actividade, que adorava e ainda hoje, curiosamente, os meus sonhos profissionais são na Lisnave, quando sonho ainda estou no planeamento, nas docas, … um trabalho duro que me deu garra – e resolvi aceder a fazer parte da comissão de trabalhadores, e entrámos dois, a Elisa Damião. O Torres Couto chama a Elisa Damião para a UGT nesse ano, e ela é substituída por um colega meu da mecânica e ficamos os dois. E fico sozinho entregue às feras. Iniciei um trabalho de sensibilização e fiz, e digo-o sem falsa modéstia, o primeiro contrato social deste país. Fala-se muito na Autoeuropa, mas o primeiro contrato social foi feito em 1983 na Lisnave. E salvou-se aquele estaleiro. E fazer aprovar um contrato social na Lisnave, maioritariamente dominada pelos sindicatos da CGTP intersindical, contrato social que não era aceite, que não era querido pois não havia greves, nem paralisações e a CGTP amarrar-se a um acordo desses era difícil de engolir. E fazer aprovar isto de braço no ar numa assembleia geral de trabalhadores foi giro. Não consegui na primeira assembleia, porque foi hostil, disse que ia fazer um refendo, quase que fui linchado, e 3 dias antes da data que tinha marcado para o referendo, a célula do PC pede-me uma reunião de urgência, para negociarmos o acordo social, que acabámos depois por fazer. Fez-se o acordo social e salvou-se o estaleiro. O capital social da Lisnave na altura – 1983 – era dois milhões de contos, e nos dois anos seguintes pagámos os salários em atraso – e só de salários em atraso devia-se dois milhões e 200 mil contos. Dois anos depois os salários estavam pagos, aumentámos em 21% os salários, parece uma enormidade mas as inflações da altura também era desta ordem de grandeza, e salvou-se o estaleiro e isso é que importa.

Respondendo agora à sua pergunta, entendi que tinha ali um desafio, que não podia ficar quieto à morte da empresa onde eu tinha nascido profissionalmente. E eu amava aquele estaleiro e ainda mantenho muitos relacionamentos lá. E tive ali um apelo para participar nas soluções e foi isso que me levou a líder da comissão de trabalhadores e em 1985 ganhei a comissão de trabalhadores, liderando-a durante dois anos. Entretanto era muito novo e tinha subido politicamente muito rápido, o que gera inveja e intrigas, e bati com a porta. Negociei com um homem que seria famoso mais tarde, o António Guterres, que era responsável do trabalho no PS da altura, anunciei-lhe e ao Torres Couto que já não me candidatava no ano seguinte e fui o único sindicalista da Lisnave que regressou ao seu posto de trabalho. Todos os outros seguiram carreiras políticas, sindicais, deputados e eu regressei ao meu posto de trabalho, em 1987, apresentando-me no planeamento de cargas que era o meu posto de trabalho.

Mas entretanto há um outro volte-face…
Sim, é verdade. Seis meses depois a administração chama-me para me convidar para director comercial da Luso-italiana, que era uma empresa do grupo, e que é a fabricante das torneiras Zenith e da qual sou dono hoje. Em Agosto apresentei-me na Luso-italiana não como director comercial, porque eu não percebia nada de torneiras, e fiz um acordo com a administração: não me nomeiem director comercial, deixem-me acabar este ano de 87, e em Janeiro de 88 se sentir que tenho unhas para aquela guitarra, então aceito. E até hoje estou na Luso-italiana. Em Janeiro 88, fui nomeado director-geral, três anos depois administrador, presidente do CA e em 1997, o Dr. Salvador de Melo – que é o grande responsável da saúde no Grupo Mello – anuncia-me que vão vender a empresa, porque o Grupo Mello começou a alienar a parte industrial de uma maneira, a parte financeira de outra, e o core business ficou na Brisa e na saúde onde estão hoje. Eu então disse que estava interessado em comprar, fiz o chamado MBO, negociei a compra da empresa, que ainda hoje estou a pagar.

E em Novembro de 1997 passei de empregado a patrão. E sou convidado para vice-presidente da Associação dos Metalúrgicos, depois estive seis anos como presidente e nos últimos três anos destes, o engenheiro Francisco Van Zeller convida-me para vice-presidente da CIP – porque eu estava como presidente da Associação dos Metalúrgicos que era a segunda maior desta casa [a primeira é a Apifarma] – venho a vice-presidente da CIP e por limitação de mandatos, o Francisco Van Zeller termina o tempo e os colegas acham que eu é que devia ser o presidente da CIP.

E esta é a razão por que um sindicalista faz este percurso e é hoje presidente da CIP.

*A entrevista a António Saraiva foi originalmente publicada no jornal OJE de 25 de Fevereiro de 2011.