Cinquenta anos depois de a primeira mensagem por correio electrónico ter sido enviada – mesmo com uma falha pelo meio – e já poucos se recordam como era a vida sem Internet. Mas o que nos reserva a nossa futura vida digital? Serão os avanços tecnológicos usados para o bem ou para o mal? O Pew Research Center pediu a centenas de especialistas tecnológicos que partilhassem a sua visão para as próximas cinco décadas e o futuro afigura-se mais optimista do que pessimista. Com algumas excepções, é claro
POR HELENA OLIVEIRA

29 de Outubro de 1969. Há 50 anos, um grupo de estudantes da UCLA, liderado por Leonard Kleinrock, ligaria um computador a outro computador instalado no Stanford Research Institute e enviaria o primeiro email da História. Este foi enviado a Douglas Engelbart – inventor do “rato” – e a ideia era escrever LOG IN. Todavia, o computador crashou durante a composição do texto e a mensagem dizia apenas “LO”.

Cinquenta anos depois, é difícil imaginar a nossa vida sem correio electrónico e, é claro, sem Internet. E foi a pensar neste marco decisivo que o Pew Research Center, em conjunto com o Imagining the Internet Center da Elon University, questionou centenas de especialistas da tecnologia sobre o que antevêem para a Internet e para a vida digital no próximo meio século. No geral, e entre as respostas de pioneiros tecnológicos, inovadores, programadores, líderes empresariais e políticos, investigadores e activistas, 72% dos respondentes esperam que as mudanças sejam para melhor, 25% demonstram o seu pessimismo e consideram que estas sejam para pior e apenas 3% acreditam que não existirão alterações significativas.

Os optimistas manifestaram a esperança de que os próximos 50 anos de avanços digitais venham testemunhar ciclos de vida mais longos, mais tempo para o lazer, uma distribuição mais equitativa da riqueza e do poder e um conjunto de novas possibilidades para melhorar o bem-estar humano. Ao mesmo tempo, a quase maioria destes especialistas alerta para a possibilidade de uma vigilância significativamente superior face à que ocorre nos nossos dias, práticas de abuso de dados por parte de empresas e governos, uma segurança mais permeável para os sistemas digitalmente conectados e a probabilidade de uma maior desigualdade económica e divisões digitais a não ser que as políticas seguidas “empurrem” a sociedade para diferentes direcções. O VER partilha as antevisões de alguns dos especialistas inquiridos.

Erik Brynjolfosson, director da MIT Iniative on the Digital Economy e autor do livro “Machine, Platform, Crowd: Harnessing Our Digital Future”

Brynjolfosson não concorda que o enquadramento para esta questão se divida entre “bons ou maus resultados”, mas antes “de que forma é que iremos configurar o resultado, o qual é indeterminado na actualidade”. Apesar de se sentir esperançado de que as escolhas serão as certas, o autor alerta que tal só acontecerá se mantivermos a noção de que estes “bons resultados” não são assim tão inevitáveis.

E foram vários os especialistas que fizeram eco das suas palavras.

David Bray, director executivo da People-Centered Internet Coalition comentou: “existirá um conjunto de disrupções que afectarão a nossa actual forma de viver, sendo uma incógnita saber se os humanos conseguirão navegá-los de forma bem-sucedida e para o benefício de todos. O que estamos a testemunhar é um acesso e disponibilidade crescentes a tecnologias que apenas estavam disponíveis para os estados-nação há 20 anos. O sector comercial suplanta agora o desenvolvimento tecnológico dos estados-nação, o que significa que vários grupos podem aceder a tecnologias avançadas e disruptivas que podem ser usadas para bons ou maus fins e que podem ter um impacto massivo nos eventos globais. Esta tendência irá continuar e irá desafiar a capacidade de absorção das sociedades no sentido de se manterem a par deste tipo de desenvolvimentos tecnológicos. Já não temos cinco ou 10 anos para avaliar o impacto de uma tecnologia para podermos incorporar leis ou normas que sejam adequadas. Temos, sim, que operar num um horizonte de três ou seis meses (…).”

Esther Dyson, empreendedora, fundadora do ICANN e do Wellville

“O impacto da Internet não é inteiramente inerente à tecnologia, pois depende do que fizermos com a mesma. Esta é tão poderosa que nos deu a oportunidade para satisfazer muitos dos nossos desejos de curto prazo instantaneamente, mas temos agora de pensar a longo prazo. E, até agora, fizemos um péssimo trabalho nessa área: os indivíduos estão viciados em ‘prazeres de curto prazo’ de que são exemplo os likes e em encontrarem amigos em vez de construírem amizades (e casamentos); as empresas pretendem apenas aumentar os seus lucros trimestrais e recrutar ‘estrelas’ em vez de investirem nas suas próprias pessoas; as organizações não lucrativas estão preocupadas apenas com os seus programas em vez de construírem instituições e os políticos só se interessam por votos e poder. Teremos nós a sabedoria colectiva para educar a próxima geração para fazer melhor apesar do nosso mau exemplo?”

Susan Etlinger, analista e especialista em dados, analytics e estratégia digital

“Em 50 anos, o que sabemos é que a nossa Internet será largamente obsoleta. Em vez de a informação ser organizada sob a forma de URLs, apps e websites, as nossas interacções digitais serão conversacionais, tácteis e incorporadas no mundo em que vivermos (e em alguns casos, até em nós mesmos). Como resultado, a distinção entre mundo físico e digital irá esbater-se continuamente. As próteses, a imagiologia, as doenças e a detecção de patogéneos, em conjunto com a ciência do cérebro (identificar, compreender e talvez até modificar o funcionamento do cérebro) serão alvo de avanços muito além do que conseguimos imaginar na actualidade. A nossa capacidade para percebermos o clima e o mundo natural à escala será imensa, graças aos avanços nas máquinas inteligentes e no networking. Todavia, todas estas inovações significarão muito pouco se os algoritmos e a tecnologia utilizada para os desenvolver não forem aplicados com as mesmas intenções para as consequências humanas como o são para as inovações. Mesmo hoje em dia, a noção do “Relatório Minoritário” do pré-crime é possível utilizando-se tecnologia de policiamento preditiva, o que é apenas um exemplo de como os preconceitos estão incorporados na mesma e que podem perpetuar e até intensificar as injustiças. Isto é igualmente verdade na educação, nos cuidados de saúde, no sistema financeiro, na política e em qualquer sistema que utilize dados para gerar previsões sobre o mundo e sobre o futuro. Mas não significa que devemos recuar, mas sim abraçar a oportunidade que as máquinas inteligentes nos oferecem para melhor compreendermos os nossos preconceitos e optimizar o mundo que queremos, em vez de optarmos por uma versão mais eficiente do mundo que já temos. As decisões que tomarmos agora estabelecerão um precedente no sentido de sabermos se seremos capazes de utilizar as tecnologias inteligentes de forma justa e ética, ou se daqui a 50 anos estaremos entregues a um estado literal e permanente de guerra de informação”.

Lindsey Andersen, activista da Freedom House e da Internews

“Os benefícios para as pessoas, no acesso aos serviços governamentais, à informação e à qualidade de vida, irão ultrapassar as perdas. E, como acontece com qualquer grande avanço, existirão vencedores e perdedores. As perdas virão sob a forma e empregos, autonomia e até liberdades. Mas, e talvez pela primeira vez, estamos numa posição de mitigarmos essas mesmas perdas porque as conseguimos antecipar. E se começarmos a resolver os problemas que temos com a tecnologia na actualidade, tal ajudará a abordar os problemas do futuro”.

Joly MacFie, presidente da Internet Society’s New Chapter

“Estamos ainda na adolescência da sociedade digital. A maturidade trazer-nos-á ubiquidade, compreensão, utilidade, segurança e robustez”.

Randy Marchany, director do Virginia Tech’s IT Security Laboratory

“O interface humano-máquina será a área onde, julgo, assistiremos à maior mudança. No início, os dispositivos com teclado constituíam a forma principal para comunicarmos com um computador. Hoje em dia, os dispositivos baseados em linguagem natural (Alexa, Siri, Watson) estão a tornar-se a norma. As gerações mais jovens estão a utilizar crescentemente métodos conversacionais para comunicarem com outros dispositivos. E os descendentes dos dispositivos estilo Google Glass, que exibem a informação utilizando a realidade aumentada, irão transformar-se no meio normal de aceder à informação. Suspeito também que os governos ver-se-ão em apuros com as empresas que recolherão estes dados. Por exemplo, se o Facebook pode influenciar uma eleição, será que os governos o vão recear, fazer uma parceria com ele ou simplesmente irão assumi-la? A tecnologia irá criar disrupções societais tal como aconteceu em revoluções anteriores e à medida que as velhas tecnologias e os empregos começarem a desaparecer. Por outro lado, a força de trabalho precisa de ser treinada para usar as novas tecnologias. Esta disrupção irá causar mudanças fundamentais nos governos, nas atitudes e nos estilos de vida. Existirá uma polarização de visões entre a nova tecnologia e os mundos tecnológicos anteriores. A forma como lidarmos com esta polarização irá determinar se a transição será pacífica ou não”.

John McNutt, professor de políticas públicas na Universidade de Delaware

“Nem todas as tecnologias são uma boa ideia e qualquer que seja o avanço deverá ser cuidadosamente considerado no que respeita às suas consequências. No geral, a tecnologia permitiu que muitos progressos humanos fossem possíveis, o que é algo que deverá continuar a acontecer. E teremos sempre partidas falsas e más ideias. As pessoas irão utilizar a tecnologia para maus fins. Mas a ideia é que o progresso humano seja baseado na criação de um futuro assente em conhecimento e não em ignorância”.

A vida não será melhor para a maioria dos indivíduos se as tendências actuais se mantiverem

Um conjunto de respondentes expressou também as suas preocupações no que respeita ao poder das grandes tecnológicas, à ascensão de plataformas que oferecem serviços em troca de dados e de ‘dinheiro do marketing’, à potencial ausência de autoridade dos humanos na era dos algoritmos, à potencial perda de postos de trabalho, a par de outros problemas relacionados com as consequências negativas da vida digital.

Anita Salem, investigadora de sistemas na SalemSystems

“Sem um esforço concertado para desenhar estes novos sistemas de forma ética e responsável com o objectivo de melhorar a condição humana, assistiremos a um mundo com disparidades crescentes ao nível do poder e com o capitalismo e as grandes empresas no topo. Um pouco por todo o mundo, estamos já a assistir a um aumento do autoritarismo, ao enfraquecimento da democracia e ao domínio por parte de corporações transnacionais. Nos Estados Unidos, estamos igualmente a testemunhar a uma mudança em termos demográficos e económicos que está a contribuir para enfraquecer os ideais democráticos da liberdade, identidade (uma empresa tem direitos humanos) e da liberdade de expressão (os jornalistas são os inimigos do povo)”.

Mauro D. Rios, conselheiro da eGovernment Agency do Uruguai

“A internet irá atingir um desenvolvimento tecnológico muito avançado mas perderá liberdade graças aos interesses económicos e políticos que giram em seu torno. É possível que a comunidade internacional desenvolva uma rede paralela ou que estabeleça ambientes técnicos na internet que estarão para além do controlo dos governos e das organizações”.

Ramon Lopez de Mantaras, director do Artificial Intelligence Research Institute pertencente ao Spanish National Research Council

“Infelizmente, com a chegada da Internet não nos limitámos a abrir uma caixa com coisas boas e más. Abrimos uma caixa que está a causar inúmeros problemas. Estamos a viver num ritmo acelerado que, de forma crescente, nos retira tempo para reflectirmos. Estamos num comboio de alta velocidade que nos está a levar para caminhos desconhecidos. Somos mais felizes agora do que há 30 anos? Penso que não. E basta pensarmos no sistema de créditos sociais na China para temermos o que pode acontecer. Em suma, existirá mais pressão graças a uma vida mais acelerada e a verdadeiras ameaças à nossa liberdade e privacidade”.

Mike O’Connor, especialista em tecnologia e antigo funcionário do ICANN

“Estou profundamente pessimista sobre o futuro do planeta no geral e a vida digital no particular. Acredito que em 2050 estaremos num pesadelo ambiental distópico, no qual a Internet que eu tanto prezo se terá transformado numa ferramenta devastadora de supressão e controlo da mente. Os próximos 50 anos assistirão ao fim do Iluminismo e da Renascença e iremos cair numa era muito mais autoritária. Técnicas que estão a ser testadas em versão beta na política actual (por exemplo, a interferência russa, o Brexit, Trump) serão vistas como ensaios não sofisticados de tecnologias de controlo desenvolvidas por mentes brilhantes – pessoas que serão bem recompensadas pelos seus esforços. Não acredito que as forças do bem tenham alguma hipótese contra a escuridão intelectual e ética”.

Um especialista em algoritmos e professor de Inteligência Artificial de uma grande universidade europeia

“A questão de quem controla os algoritmos será fulcral para a humanidade e no momento em que estes se tornarem incontroláveis por parte dos humanos, novas questões surgirão. Mas a verdade é que esta tendência de os algoritmos substituírem/controlarem qualquer interacção entre os humanos e o mundo (e outros humanos) é indiscutível e já está a acontecer. O Facebook controla uma grande parte da nossa comunicação social, o Google gere as nossas vidas e consumo de informação, o Twitter é o mediador nas nossas conversas e a ascensão dos smartphones modernos que controlam a informação visual (por exemplo, as Google Lens) está a chegar. E isto é só o início. Os algoritmos exercerão cada vez mais controlo sobre as nossas vidas (saúde, preferências musicais, escolhas de trabalho, satisfação, etc.) e sobre o mundo (mercados, cidades, utilização de recursos, entre várias outras coisas) ”.

Um professor de ciências computacionais e especialista em sistemas de uma grande universidade tecnológica dos Estados Unidos

“Por um lado, as futuras alterações tecnológicas irão provocar mudanças societais positivas se o poder político no controlo do conhecimento for benevolente e progressista. Por outro, se o poder político for repressivo (tal como a visão Orwelliana descrita no livro ‘1984’), estas mudanças tecnológicas resultarão em alterações negativas, dando origem a uma possível sociedade distópica. Ou e por outras palavras, as mudanças tecnológicas constituem facilitadores que podem ser usados para o bem ou para o mal. A questão se tal irá melhorar ou piorar a vida dos indivíduos não é tecnológica, mas política. A minha esperança é que as forças políticas saibam evoluir de forma a melhorar a vida das pessoas”.

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