São várias e auspiciosas as iniciativas que estão a promover o desenvolvimento económico em várias regiões do planeta, aproveitando aquela que já é considerada como a mais promissora revolução tecnológica desde o advento da própria Internet
© Stanford Social Innovation Review
Adaptado por 
HELENA OLIVEIRA

Uma nova força para o crescimento está a emergir em algumas das regiões mais pobres do planeta com origem na mais avançada tecnologia do mundo. A Internet das Coisas (definida pelo acrónimo, em inglês, IoT – Internet of Things) – o modelo que utiliza redes de dispositivos ligados à Internet e que, na maioria das vezes, opera sem a intervenção humana – pode parecer, à primeira vista, possuir uma aplicabilidade limitada às economias menos desenvolvidas do mundo. Todavia, muitos elementos que a compõem, como sensores de baixo custo e tecnologias sem fios, estão significativamente bem preparados para funcionarem em determinadas condições nos países menos desenvolvidos. Organizações de todas as espécies estão a criar e a usar redes de IoT, oferecendo novas soluções que melhoram os padrões de vida destas populações e, mais importante que tudo, estão a fazê-lo sem a necessidade de grandes investimentos financeiros ou do envolvimento “pesado” das burocracias.

Com base em entrevistas, relatórios já publicados e outro tipo de fontes, os autores deste artigo, que faz parte da edição de Outono da Stanford Social Innovation Review, – Ladan Davrazani, investigador no Accenture Institute for High Performance em Londres e Mark Purdy, director de pesquisa e economista-chefe do mesmo Instituto, ambos co-autores do relatório “The Growth Game Changer: How the Industrial Internet of Things Can Drive Progress and Prosperity”, identificaram três formas por excelência mediante as quais as capacidades da IoT estão a ser responsáveis pela promoção do crescimento económico.

Compensar as infra-estruturas pobres

A ausência de infra-estruturas consiste numa barreira significativa ao crescimento económico em muitos países pobres. Mas a tecnologia IoT oferece uma forma relativamente barata para ultrapassar este défice.

Os sistemas de IoT, por exemplo, oferecem uma alternativa às infra-estruturas de telecomunicações tradicionais, sendo que este tipo de solução é particularmente eficaz na monitorização das alterações meteorológicas. “Os países em desenvolvimento não têm a infra-estrutura necessária para previsão do estado do tempo que já é comum nos Estados Unidos ou na Europa”, afirma Bob Marshall, CEO da Earth Networks. Todos os anos, afirma, fenómenos climáticos severos matam mais de 20 mil pessoas em áreas em desenvolvimento – desde pescadores que se encontram nos seus barcos a agricultores que estão a trabalhar nas suas colheitas. A monitorização meteorológica convencional confia em sistemas de radar que medem a cobertura das nuvens e a pluviosidade. Todavia, essa abordagem é difícil de aplicar em muitas partes do mundo. “Os radares são caros e demoram a ser implementados, ao mesmo tempo que exigem uma formação avançada, bem como recursos para os manter”, acrescenta Marshall.

15102015_InternetDasCoisasHá muito que os meteorologistas sabem que certos padrões de relâmpagos intra-nuvens oferecem um alerta antecipado de condições climatéricas severas. A Earth Network tem vindo a usar este conhecimento para desenhar um sistema de monitorização climatérico, equipado com IoT, barato e seguro. Este sistema, que está a ser usado em países como a Guiné ou o Haiti, instala sensores de detecção de relâmpagos para prever condições meteorológicas extremas – como chuvas fortes ou relâmpagos nuvem-solo – avisando automaticamente as pessoas sobre estas mesmas condições através de mensagens de texto para telemóveis. O sistema pode fazer soar o alarme cerca de 30 minutos antes de um evento climatérico extremo ocorrer.

Uma outra fraqueza comum em termos de infra-estruturas nos países pobres prende-se com a escassez de redes de electricidade. Especialmente nas zonas rurais de muitos destes países, as pessoas não tem outra opção senão a de instalarem geradores a gasóleo, extremamente dispendiosos no que respeita à sua instalação e muito prejudiciais ao ambiente. A Bboxx, uma empresa sedeada em Londres, tem uma solução para este problema: hardware que utiliza kits de células solares para gerar electricidade. O Nepal, o Ruanda e o Uganda são já clientes dos produtos da Bboxx.

A tecnologia dos kits solares não é nova. O que consiste uma novidade na abordagem da Bboxx é a prática de monitorizar, remotamente, as condições destes kits. As baterias constituem uma parte importante, mas também são extremamente susceptíveis a falhar. Mas ao conectar cada kit solar à Internet, o sistema Bboxx consegue detectar falhas na bateria que podem não ser óbvias para o utilizador do mesmo. Christopher Baker-Brian, tecnologista-chefe da empresa explica como é que o sistema funciona: “gravamos dados como a voltagem da bateria, a corrente e a temperatura, sendo que esses dados são enviados para nós a cada quatro horas”. E sempre o que o sistema identifica um problema, a BBoxx retransmite essa informação ou para o cliente ou para o técnico local. A utilização das capacidades da IoT desta forma em particular permitiu à empresa desenvolver objectivos ambiciosos. “Queremos fornecer electricidade a 20 milhões de pessoas até 2020”, afirma Baker-Brian, acrescentando que, até ao final de 2015, a empresa chegará aos 400 mil clientes.

O transporte coloca ainda um outro desafio crucial em muitos países pouco desenvolvidos. A Matternet, uma empresa sedeada em Palo Alto, na Califórnia, está a testar uma rede de entregas através de drones, no Butão, com o objectivo de “driblar” a fraqueza do seu sistema de transporte convencional. O Butão tem apenas três médicos para cada 10 mil pessoas e muitos butaneses vivem em áreas montanhosas onde é extremamente difícil obter os cuidados médicos necessários. A Matternet está a usar drones quadricópteros para abastecer as populações de aldeias remotas que precisam de material médico e de medicamentos. Os drones transmitem a sua localização em tempo real, e cada um deles consegue transportar cerca de quatro quilos de medicamentos e/ou material médico, conseguindo viajar mais de 16 quilómetros. Para aumentar o alcance dos seus drones, a Matternet planeia construir estações nas quais estes possam aterrar e recarregar as suas baterias.

Servir mercados difíceis de alcançar

As empresas que usam a tecnologia IoT estão também a encontrar formas radicalmente novas de levar bens e serviços a mercados “mal servidos”. Tomemos como exemplo os seguros. Muitos agricultores nos países pobres não têm qualquer protecção financeira contra acidentes ou fenómenos climatéricos extremos. E, devido ao facto de, muitas vezes, trabalharem a terra em áreas muito difíceis de alcançar, as seguradoras não conseguem, de forma simples, validar as queixas através dos meios convencionais – ou seja, empregando inspectores que façam as visitas normais para a avaliação dos danos. Como consequência, as seguradoras não se mostram dispostas a assumir os custos e os riscos inerentes à aceitação deste tipo de clientes.

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Um projecto chamado Kilimo Salama (que significa “agricultura segura” em suaíli) tem como objectivo resolver este intricado problema. O projecto – que funciona em parceria entre a Syngenta Foundation for Sustainable Agriculture, a UAP Insurance, e a  Safaricom começou no Quénia em 2009, expandindo-se depois para o Ruanda. O projecto oferece seguros de colheitas a agricultores que, de outra forma, não seriam capazes de os pagar. O sistema Kilimo Salama usa uma rede de sensores meteorológicos que se ligam a uma base de dados através da tecnologia móvel e de satélite. Os sensores registam os dados climáticos de 15 em 15 minutos, sendo que o sistema faz corresponder essa informação a outros dados meteorológicos.

Se os dados indicam que uma colheita específica foi sujeita a condições adversas, como uma seca ou chuvas excessivas – o agricultor em causa recebe, automaticamente, o seu pagamento. O sistema baseia ainda esse pagamento de acordo com variáveis como a diferença entre a chuva que realmente caiu e a quantidade de chuva sazonal necessária para uma dada colheita. Ou seja, não existe necessidade de um funcionário da seguradora se deslocar ao local para determinar o valor das perdas.

As plataformas de IoT contribuem também e de forma significativa para aumentar o acesso a serviços essenciais como os cuidados de saúde. Muitos países pobres sofrem de uma escassez severa de profissionais da saúde qualificados. Mas através de tecnologias que permitem a monitorização remota de pacientes, até as pessoas que vivem em zonas rurais podem ter acesso a tratamentos médicos especializados.

O projecto Supporting Life – um consórcio de especialistas em cuidados de saúde que reúne oito países – está a tentar reduzir a taxa de mortalidade infantil no Malawi (a qual, para menores de cinco anos, se encontra em 133 por cada 1000 nascimentos). A iniciativa dá apoio a trabalhadores da área dos cuidados da saúde que têm uma formação limitada no que respeita ao diagnóstico e tratamento de crianças que sofrem de doenças como a malária, a diarreia infantil ou a pneumonia. Através da combinação da tecnologia existente num smartphone e de sensores sem fios em várias partes do corpo, os profissionais locais introduzem os dados do paciente numa aplicação móvel e, de imediato, recebem aconselhamento sobre como detectar e gerir condições específicas. Os mesmos fornecedores podem também enviar a informação dos pacientes para uma base de dados central, o que contribui para ajudar a gerar estatísticas precisas e em tempo real sobre uma determinada doença que esteja a afectar uma área em particular.

Aumentar a produtividade 

Os países menos desenvolvidos são, na maioria das vezes, pobres em recursos. E também neste desafio em particular a IoT está já a ajudar. Redes de sensores inteligentes, por exemplo, ajudam os agricultores a retirar o máximo de colheitas das terras que trabalham. A Crop Performance, sedeada em Cambridge, Inglaterra, instala este tipo de redes para registar a temperatura do ar e do solo, a precipitação, a humidade relativa e a velocidade do vento, entre outras variáveis. Estes dados são depois enviados via redes sem fios aos agricultores para que estes consigam gerir as suas culturas de forma remota.

“Os agricultores podem ainda usar as redes de IoT para receberem informações com recomendações específicas em termos de irrigação, nutrientes e protecção das colheitas”, afirma Stephanie Race, CEO da Crop Performance. Ao permitir que os agricultores possam monitorizar a utilização da irrigação e os fertilizantes específicos ao longo de toda a estação de cultivo, o sistema tem como resultado um aumento significativo da quantidade e qualidade dos produtos agrícolas.

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As tecnologias IoT servem também para tornar o transporte de bens mais eficaz. Nos países em desenvolvimento, as empresas de entregas e de logística são obrigadas a lidar com um conjunto variado de perigos: roubos, ineficiência dos condutores, erros na entrada de dados, avarias, entre outros. Uma empresa sedeada em Atlanta, a Roamworks está a introduzir a IoT na gestão de frotas na Tanzânia. Através de tecnologia móvel ou por satélite, os clientes conseguem localizar as suas frotas mesmo nas zonas mais remotas do país. A Roamworks desenvolveu uma aplicação para telemóveis que permite aos gestores reagendarem as remessas, monitorizarem o comportamento dos seus condutores em tempo real e, até, imobilizar um veículo em caso de roubo.

Apesar dos enormes desafios enfrentados pelas nações mais pobres do mundo, a Internet das Coisas está já a estimular o desenvolvimento económico em vários destes países. Mas, para replicar estes sucessos iniciais, os empreendedores deverão manter em mente três aspectos por excelência.

Em primeiro lugar, têm que analisar as necessidades de um mercado potencial e evitar a tentação de se concentrarem em produtos e serviços que outras empresas já negoceiem de forma confortável. Em segundo, para que seja possível desbloquear capital e outros recursos, deverão fazer parte de redes que liguem os negócios às organizações locais, às agências de desenvolvimento e aos governos. E, por último, deverão abraçar esta inovação – tanto no que diz respeito às tecnologias que pretendem utilizar, como também aos modelos de negócio que querem adoptar – como forma de prosperarem em ambientes complexos.

Adaptado, com permissão, de “The Internet of Things is Now a Thing”. © Stanford Social innovation Review.