O que espera ou exige a sociedade da ciência? Muito. Que impacto têm a investigação científica e o conhecimento tecnológico no progresso económico e político do País? Enorme. O que interessam estas questões aos portugueses, no seu dia-a-dia? Nada. Para contrariar esta realidade, a Fundação Francisco Manuel dos Santos realiza em Novembro um programa de actividades – que inclui duas grandes conferências, a apresentação de um estudo e uma exposição interactiva – dedicado a esta grande área do conhecimento. O objectivo é promover a cultura científica, inscrevendo a ciência na sociedade
POR GABRIELA COSTA

Novembro é o mês da Ciência na Fundação Francisco Manuel dos Santos. A FFMS dedica a esta temática do conhecimento, uma das suas áreas-chave de actuação, um programa de actividades com quatro grandes momentos, a realizar em Lisboa, Coimbra e Braga, e que integrará o seu 5º Encontro Nacional, sob o mote “A Ciência em 3 actos: Sociedade, prosperidade e política”.

A conferência, que terá lugar a 19 de Novembro, encena no Theatro Circo, em Braga, uma reflexão sobre a sociedade do conhecimento, projectando a relevância da ciência para os meios social e político, num debate que acontece em plena Semana Nacional da Ciência e Tecnologia de 2015.

Ao palco sobem Geoff Mulgan, o primeiro director executivo da Young Foundation (hoje um centro de referência na inovação social), actual director executivo do Nesta e consultor governamental; Martin Bauer, psicólogo social, académico e investigador; Lars Montelius, director geral do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia; e Kenneth Prewitt, professor na Universidade de Columbia. Mas também Jorge Calado, professor catedrático no IST e na Universidade de Cornell e especialista em ciências e artes; Carlos Fiolhais, físico na Universidade de Coimbra e coordenador do programa de Educação, Ciência e Inovação da FFMS; Aurora Teixeira, docente na Faculdade de Economia da Universidade do Porto e investigadora do CEF-UP, INESC-Porto, OBEGEF e University Technology Enterprise Network, da Universidade do Texas; Francisco Veloso, Dean da Católica- Lisbon School of Business and Economics; Isabel Braga da Cruz, co-fundadora da WEDOTECH – Companhia de Ideias e Tecnologias; Tiago Santos Pereira, investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) e especialista em Ciência e Tecnologia; e Pedro Pita Barros, professor catedrático na Faculdade de Economia / Nova School of Business and Economics.

Em cena estarão “um primeiro acto provocatório”, como sugeriu, na apresentação do Mês da Ciência, realizada a 30 de Setembro no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, o comissário do encontro e director científico da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Pedro Magalhães – “A ciência é para todos?”, painel que irá avaliar o significado e promoção da “literacia científica”. E dois outros ‘actos’, também eles encarregues de questionar o alcance desta disciplina: Em “Mais ciência, mais prosperidade?” a discussão estará centrada na relação entre investigação científica e o crescimento social e económico. Já em «A ciência é uma boa política?» será analisada a relação entre investigação e políticas públicas, quer do ponto de vista do benefício em apoiar políticas em investigação empírica, quer do ponto de vista dos riscos associados de “tecnocratização da política” ou de “politização da ciência”.

[pull_quote_left]‘A Ciência em três actos’ encena uma reflexão sobre a sociedade do conhecimento, projectando a relevância da ciência para os meios social e político[/pull_quote_left]

Num evento aberto a todos (e a todos acessível, com bilhetes a três euros para estudantes e a 15 euros para o público em geral, até ao dia 25), espera-se, em “A Ciência em 3 Actos”, “um debate sem filtro entre quem fala e quem ouve”, sublinhou David Lopes, presidente da Comissão Executiva do encontro e director-geral da FFMS.

A opção de realizar o evento em Braga não é aleatória, antes reflecte que a cidade “está no roteiro internacional da ciência e da investigação, e que tem já muitos projectos de interligação entre os vários centros de investigação existentes na Universidade do Minho”, uma das mais dinâmicas do país, como explicou Ricardo Rio, presidente da Câmara Municipal de Braga.

Este é o segundo encontro que a FFMS dedica à ciência em 2015, depois do “Admirável Mundo Novo”, o qual reuniu em Abril, no Porto, especialistas nacionais e internacionais numa reflexão inédita sobre o impacto social da inovação tecnológica e os avanços nesta área, a caminho de um futuro comandado por drones, pegadas digitais e inteligência artificial.

A TVI, media partner do evento, vai emitir a 18 de Novembro um debate para antecipar o dia do encontro. Também presente na apresentação do Mês da Ciência, o jornalista José Alberto Carvalho defendeu que “o sonho e a ciência são os grandes motores da sociedade”.

Ciência e tecnologia “resolvem tudo” mas não a vida dos portugueses

Para além deste Encontro Nacional da FFMS, o Mês da Ciência integra a conferência “Matemática, Cultura e Criação”, que trará a Coimbra, no próximo dia 11, o célebre matemático Cédric Villani; o lançamento, a 23 de Novembro, do estudo “Cultura científica em Portugal: Ferramentas para perceber o mundo e para aprender a mudá-lo”, coordenado por António Granado e José Vítor Malheiros; e a exposição “Pordata Viva: O Poder dos Dados”, que o Centro Ciência Viva de Coimbra acolhe, a partir de 24 de Novembro.

O responsável pela área do conhecimento da Fundação, Carlos Fiolhais, justifica a escolha do tema em reflexão ao longo de todo um mês com o objectivo – premente – de “inscrever a ciência na sociedade.” E, para tanto, há que avaliar antes a percepção que a segunda tem da primeira, nomeadamente no que concerne a importância que a ciência assume, na vida das pessoas.

Numa análise prévia aos programas previstos em Braga, Coimbra e Lisboa, a FFMS compilou um conjunto de dados sobre a ciência na sociedade; mas também sobre investimento e recursos humanos na ciência e desempenho do sistema científico, a partir, respectivamente, de dados do Eurobarómetro de 2014 e 2010, e dados da Pordata de 2015, entre outros.

No que ao estudo desta disciplina diz respeito, seja na escolaridade obrigatória, na universidade ou em qualquer outra circunstância, 53% dos portugueses afirmam que estudaram temas de ciência e tecnologia no seu percurso escolar ou fora dele, percentagem que fica pouco abaixo da média europeia (56%).

[pull_quote_left]O estudo Cultura Científica em Portugal procura avaliar o que espera e exige a sociedade da ciência e da tecnologia[/pull_quote_left]

Quanto ao grau de interesse e de confiança em novas descobertas científicas e inovações tecnológicas, em 2010 apenas 14% dos portugueses se afirmavam muito interessados nestas matérias (menos de metade da média da EU-27, de 30%, e o terceiro valor mais baixo do total de países), e uma franca minoria de 3% – a mais baixa dos 27 países europeus – se considerava muito informada sobre o tema (11% na UE-27).

Outo dado revelador dita que 44% dos portugueses concordam com a frase “na minha vida quotidiana não é importante ter conhecimentos sobre ciência”. Trata-se de uma das percentagens mais elevadas da Europa, cuja média, no mesmo ano, foi de 33%. Contudo, um total de 28% dos portugueses concorda com a afirmação “a ciência e a tecnologia podem resolver qualquer problema”, percentagem acima da média europeia (22%).

Sobre investimento público e privado na ciência, a Pordata revela, já este ano, que o crescimento da percentagem do PIB investida em ciência e tecnologia, “quase constante até 2009”, tem vindo a sofrer um decréscimo, diminuindo de 1,6%, nesse ano, para 1,3% em 2013. Assim, o investimento nesta área em percentagem do PIB no ano de 2013 coloca Portugal no 14º lugar entre os 27 países da União Europeia, sendo a Finlândia quem apresenta maior investimento (3,3%) e a Roménia menor (0,4%). De sublinhar que em relação ao meio empresarial, o nosso país ocupa o 17º lugar no ranking europeu, com um investimento de 0,7% em ciência e tecnologia.

O número de investigadores em I&D em Portugal também fica a meio da tabela da UE-27, numa proporção de 8 investigadores por cada 1000 activos, em 2013: ressaltando que existem várias definições de investigador nos países europeus, a Pordata regista um 12º lugar para o País neste ranking, entre as médias finlandesa (14,6) e romena (1,9).

Já o número de novos doutoramentos tem crescido de forma consolidada, desde 1970, registando inclusivamente um crescimento exponencial desde o deflagrar da crise económica – de 1500 doutoramentos, em 2008, para 2700, em 2012. Nesse mesmo ano, Portugal situa-se no 17º lugar do ranking europeu, neste aspecto. De referir, curiosamente, que a Eslováquia conquista o topo da lista, ultrapassando a Alemanha e o Reino Unido. Paradoxalmente, e por efeito da conjuntura económica, as bolsas de doutoramento atribuídas pela Fundação Ciência e Tecnologia (FCT) caíram abruptamente em 2011, de perto de 9 mil para pouco mais de 7 mil, em 2013.

“10 predictions for 2015” © Hey Monkey Riot / NESTA
“10 predictions for 2015” © Hey Monkey Riot / NESTA

Por último, e no que respeita o desempenho do sistema científico, a Pordata revela que o número de publicações científicas por 100 mil habitantes tem crescido a bom ritmo, desde 1981, ano que regista um valor residual, até 2013 (com 170 publicações); e que a balança de pagamentos tecnológica, isto é, o saldo de entradas e saídas de serviços tecnológicos, tem mantido um saldo positivo desde 2007, após mais de uma década de défice.

Já o mapa de inovação da UE (Innovation Union Scoreboard) de 2010 confere a Portugal um “lugar muito modesto” nos gráficos que indicam o número de patentes e mais ainda nos que traduzem a receita baseada em patentes; e coloca-nos entre os países moderadamente inovadores: “claramente abaixo da média europeia mas com um bom crescimento médio anual”, acima dos 5%, divulga a FFMS.

Aprofundar o consenso em torno da cultura científica

A análise destes dados está reflectida no estudo “Cultura científica em Portugal: ferramentas para perceber o mundo e para aprender a mudá-lo”, que a FFMS lança no âmbito do Mês da Ciência, a 23 de Novembro, no Museu da Ciência, em Lisboa, com entrada livre mediante pré-inscrição. O estudo será apresentado por António Firmino da Costa e Carlos Fiolhais, na presença dos seus coordenadores, António Granado e José Vítor Malheiros.

Partindo de um contexto em que a promoção da cultura científica e tecnológica “cresceu extraordinariamente” nos últimos 20 anos em Portugal, graças ao investimento em investigação, mas o progresso nesta área foi travado, nos últimos cinco anos, e em parte devido à crise financeira, pela contracção do investimento e pela interrupção de estratégias de longo prazo e de iniciativas académicas e da sociedade civil, este estudo tem por objectivo mapear actividades de promoção da cultura científica e tecnológica realizadas nas últimas duas décadas em Portugal. Mas não só: criando “uma primeira abordagem panorâmica a este tema que está longe de ser exaustiva”, o documento procura definir o que espera e exige a sociedade da ciência e da tecnologia e o que está a comunidade científica empenhada em fazer, para “aprofundar o consenso em torno da cultura científica”.

[pull_quote_left]O célebre matemático Cédric Villani vem a Portugal explorar os caminhos entre o seu universo e o das artes[/pull_quote_left]

Ainda antes da apresentação deste estudo, será possível assistir, em Coimbra, à intervenção de Cédric Villani, matemático premiado com a Medalha Fields, em 2010, director do Instituto Henri Pointcaré, e professor na Universidade de Lyon, na 1ª Conferência do Mês da Ciência, intitulada “Matemática, Cultura e Criação”, agendada para 11 de Novembro e cujas inscrições estão também a decorrer.

A partir da ideia de que “ninguém pode ser matemático se não tiver a alma de um poeta”, defendida pela matemática russa do século XIX Sonia Kovalevskaya, Cédric Villani vai explorar os caminhos entre o universo da matemática e o das artes. A reflexão deverá contrariar a ideia – errada – de que “a lógica matemática dificilmente parece deixar lugar à intuição, ao génio criativo, à beleza”, explica a Fundação, consciente de que os próprios matemáticos se consideram “muitas vezes como artistas”.

Por último, o Mês da Ciência da FFMS leva também à cidade dos estudantes, mais concretamente ao Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a exposição “Pordata Viva: O Poder dos Dados”. A mostra, que traduz o espírito do projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, o qual defende que “as estatísticas são estimulantes” e podem ser apresentadas “de forma atraente e estimulante”, como afirma Maria João Valente Rosa, coordenadora da Pordata, integra dez módulos interactivos dirigidos a crianças e adultos.

[pull_quote_left]A exposição Pordata: O Poder dos Dados integra dez módulos interactivos dirigidos a crianças e adultos[/pull_quote_left]

Tendo acolhido mais de 110 mil visitantes no Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva, em Lisboa, esta exposição será agora inaugurada em Coimbra a 24 de Novembro, Dia Nacional da Cultura Científica e data do 20º aniversário do Centro da Ciência Viva da cidade, aí ficando patente durante um ano.

A exibição inclui uma instalação de grandes dimensões que enaltece “a beleza dos dados estatísticos” através de experiências sensoriais como jogos multimédia, gráficos que contam com a interacção do público ou um ‘desmistificador’, onde o público coloca “os mitos à prova dos factos”.

A “Pordata Viva: O Poder dos Dados” promete ser um dos momentos chave do Mês da Ciência para aproximar os cidadãos desta área fundamental do conhecimento e inscrevê-la, de facto, na sociedade, como é desígnio da próxima grande iniciativa da FFMS. Em Novembro, ergam-se então os panos, e que a ciência suba ao palco e entre em cena, num espectáculo que se quer alargado a toda a sociedade.

Gabriela Costa

Jornalista