As implicações sociais e comportamentais de um mundo crescentemente interconectado continuam a ser tão interessantes quanto inquietantes. Principalmente nesta era digital em que não se vislumbra que sejam muitos os que ousarão trocar a conveniência de estar sempre “on” por maior segurança ou privacidade. A ascensão da IoT, que muda(rá), outra vez, o mundo tal como o conhecemos, é o tema debatido por um extenso conjunto de analistas que nem sempre se mostrou de acordo face ao que o futuro nos reserva. A leitura é obrigatória porque todos estamos ligados e porque não imaginamos já a nossa vida de outra forma. Mas as ameaças existem e não são propriamente descartáveis
POR HELENA OLIVEIRA

No seu recente e extenso relatório publicado a 6 de Junho último, intitulado The Internet of Things Conectivity Binge: Whar Are the Implications?”, o Pew Research Center identificou sete grandes temas sobre o futuro da Internet das Coisas e da vida interconectada (numa perspectiva a 10 anos). Num artigo desta mesma edição, o VER deu a conhecer o estado-de-arte desta evolução tecnológica que, de certa forma, está a passar desapercebida ao grande público, mesmo que sejam muitos os que já têm relógios inteligentes que medem o ritmo cardíaco, frigoríficos que avisam que o leite está a acabar e pais que estão descansados nos seus quartos, pois os filhos estão a ser devidamente monitorizados por este tipo de dispositivos, em conjunto com entidades várias, como empresas, hospitais, aeroportos, centrais eléctricas e um sem número de outras tantas que já utilizam a denominada Internet das Coisas (ou IoT, na sigla em inglês)no seu quotidiano.

Mas a verdade é que nos bastidores desta aparente banalidade, muito está a acontecer, e depressa e, mais uma vez, há que acautelar progressos de grande envergadura, nomeadamente os que podem colocar em risco não só a nossa vida digital, como a nossa própria vida “física”. E este é o caso.

O VER resume assim as principais temáticas consideradas por cerca de 1200 especialistas como as mais importantes em termos de divulgação para o comum dos mortais – não as podendo enunciar todas – e alerta para a necessidade de que governos e empresas do sector tecnológico assegurem que as vulnerabilidades que lhes estão inerentes sejam devidamente acauteladas e não “inebriadas” pelas também excelentes oportunidades que integram a era da Internet das Coisas.

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  • A magia e o vício da conectividade

Relacionarmo-nos com os outros é uma capacidade e necessidade absolutamente humana. É algo que no faz feliz e que pode, em principio, ser considerado como um “vício saudável”. Por outro lado, e à medida que a vida vai ganhando contornos de complexidade crescente, a conveniência é também o “estado por defeito” para a esmagadora maioria das pessoas, principalmente para a denominada geração “sempre-online” que não se consegue imaginar sem a conectividade que liga e interliga as suas vidas com as dos seus pares.

Por tudo isto e por muito mais, e de acordo com a maioria dos inquiridos para este relatório realizado pelo Pew Research Center, não se prevê qualquer hipótese de esta tendência – transformada já numa banalidade quotidiana – poder vir a sofrer algum retrocesso.

Os especialistas entrevistados pelo Pew concordam, assim, que a Internet das Coisas continuará a expandir-se, tanto em dimensão como em influência, ao longo da próxima década. Por outro lado, estão igualmente convencidos que as empresas esperam, e muito bem, magistrais dividendos deste progresso acelerado na medida em que as pessoas são naturalmente atraídas e seduzidas para se conectarem com outras pessoas, informação e serviços.

[quote_center]Os comportamentos mágicos oferecidos por estes novos dispositivos são demasiado fortes para as pessoas lhes conseguirem resistir[/quote_center]

Adicionalmente, argumentam ainda que a própria sociedade só tem a ganhar com as infra-estruturas e objectos conectados – desde os transportes, às comunicações, aos sistemas empresariais e industriais – sem esquecer os produtos e serviços individuais igualmente originários da IoT. A ajudar a este optimismo, está também o facto de a vida moderna estar cada vez mais complicada, ou complexa, e o facto de a conveniência ter de vencer o caos. Curiosos por natureza, os humanos adoram também experimentar e ostentar “ferramentas mágicas” inovadoras e muitas vezes o desejo por novos gadgets é muito mais forte do que algum potencial risco que estes possam integrar. Como confirma Robert Bell, co-fundador do Intelligent Community Forum, “porque a vida conectada oferece tantas oportunidades em termos de poupança de custos, entretenimento, notícias e participação pública, as pessoas continuarão a usufruir destas ofertas”. Ou, como acrescenta, “os comportamentos mágicos oferecidos por estes novos dispositivos são demasiado fortes para as pessoas lhes conseguirem resistir”.

Opinião similar tem David Clark, investigador sénior do MIT que garante que “a não ser que exista um desastre que faça despoletar uma mudança radical na sua utilização, a conveniência e os benefícios da conectividade continuarão a atrair utilizadores”. E acrescenta que as evidências sugerem que as pessoas valorizam a “conveniência de hoje” em detrimento de possíveis “riscos do amanhã”. Jim Warren partilha da mesma opinião. Empreendedor na área das tecnologias e activista, afirma que “desde o início de qualquer tipo de conectividade entre os humanos – seja ela biológica ou corporativa e desde o “primeiro homem” ao presente – sempre favorecemos e perseguimos uma conectividade crescente. Essa é a essência da sociedade, da cultura, da produtividade, da melhoria da vida e dos estilos de vida e assim continuará a ser”.

Mas talvez o melhor argumento seja o de Paul Jons, director da Universidade da Carolina do Norte que prevê com optimismo: “A Lei do Menor Esforço aplica-se muito bem à Internet das Coisas. Se não existirem mudanças sociais e políticas radicais, seremos cada vez mais conectados, mais interligados e mais felizes do que somos agora”. E quanto à geração “sempre-online” , para qualquer miúdo [ao longo da próxima década] imaginar o que seria ter um relógio que não monitorize a sua saúde, “basta penar nos que têm hoje 20 anos e tentam perceber o que raio é uma cassete”, afirma ainda Jan Schaffer, directora do J-Lab: The Istitute for Interactive Journalism.

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  • “Desligar” é quase impossível hoje, quanto mais em 2026

A resistência é inútil: as empresas iriam penalizar quem não estivesse ligado; os processos sociais recompensam cada vez mais os que estão conectados e viver “fora da rede” é já extremamente difícil, ou mesmo impossível. Por outro lado, e porque em muitos casos a IoT opera “fora da vista” das pessoas, estas, mesmo que quisessem, não se conseguiriam desligar

Muitos inquiridos apresentaram o argumento de que a desconexão conduziria as pessoas a um isolamento relativo e até a algum nível de privação. Como se expressou um inquirido anónimo, “está a tornar-se crescentemente difícil desligarmo-nos, mesmo em ambiente de ameaças e desconfianças. Para se ser um membro activo e participativo na sociedade, é quase impossível viver completamente ‘desligado’”. Já um CEO de uma organização não-governamental também não identificado assegura que “nos tornarmos cada vez mais conectados sem sequer nos apercebermos desta inegável e crescente dependência”.

Já no que respeita às empresas que operam no mercado dos dispositivos não-conectados, o qual irá encolher consideravelmente no futuro, tal contribuirá para que os consumidores não terem outra opção se não a de aceitarem a presença da IoT nas sua vidas”. Os respondentes alertaram, e mais uma vez, que mesmo agora são muitas as pessoas que usam dispositivos, ferramentas ou serviços sem terem a noção de que os mesmos têm conectividade. Se são cada vez mais os aspectos da vida quotidiana que se encontram no estado “ligado”, desligar irá exigir um nível de compromisso ‘religioso’, afirma também um especialista não identificado.

[quote_center]A Lei do Menor Esforço aplica-se muito bem à Internet das Coisas[/quote_center]

Um número significativo de inquiridos observou também que a utilidade e “aderência” das plataformas e serviços de IoT, em conjunto com o imperativo empresarial de lutar por lucros crescentes e constantes, irá também ajudar na tomada de decisão dos próprios negócios, fazendo com que as empresas operem de forma a que seja cada vez mais difícil, se não mesmo impossível, que as pessoas tomem a opção de “saírem” e continuarem, offline, a ter acesso a determinados serviços e funções. Ou seja, e mais uma vez, não existe qualquer possibilidade de escolha, porque quem manda é o capital.

Andrew Walls, vice-presidente na Gartner, assegura que “os benefícios da IoT para os vendedores de produtos e serviços irão esmagar por completo os poucos consumidores que se preocupam com questões de segurança”, acrescentando ainda que os modelos de pricing irão penalizar os que se tentarem desconectar e recompensar os que se querem manter “ligados”. Opinião similar tem Joseph Turow, professor de comunicações na Universidade da Pensilvânia que acredita que “apesar dos ataques à segurança e à privacidade, as pessoas sentem necessidade de se manter conectadas, em parte porque as empresas as recompensam por isso (ou dificultam-lhes a vida caso não o façam)”. Adicionalmente, diz, “as pessoas terão de se resignar a navegar num ambiente onde os dados representam a mais importante moeda de troca”.

Michael Whitaker, vice-presidente de soluções emergentes na ICF International apresenta dois argumentos de peso para a inevitabilidade de um mundo cada vez mais conectado: o primeiro deve-se ao facto da emergência crescente de tecnologia que vem conectada “por defeito” sendo que a responsabilidade recairá nos ombros dos utilizadores que se quiserem desconectar (e não ao contrário), ou seja, a maioria dos consumidores, mesmo que se sintam ameaçados por determinadas vulnerabilidades, não serão proactivos no sentido de se desconectarem; e, o segundo prende-se com a evidência de que a percepção geral do público relacionada com a vulnerabilidade dos dispositivos conectado permanecerá baixa.

[quote_center]A privacidade e a liberdade serão, cada vez mais, propriedade dos que têm meios económicos[/quote_center]

Naomi Baron, professora de linguística na Universidade Americana apresenta uma outra perspectiva interessante: “a questão prende-se menos com as escolhas que os indivíduos desejem fazer e mais com as escolhas que as instituições e outros indivíduos farão por eles próprios. Se o meu banco apenas permitir que eu aceda à minha conta online, se a minha empresa de telecomunicações me obrigar a fazer negócios online, se o meu médico só me enviar os resultados dos meus exames online, então desligar-me da internet significaria desligar-me dos indivíduos, das instituições e dos serviços de que necessito para viver a minha vida”.

Outros especialistas estão igualmente preocupados com o facto de existirem certos segmentos da sociedade que sejam incapazes de fazer qualquer escolha, seja ela radical, ou parcial. A maioria das pessoas – os pobres, os vulneráveis, os dependentes – não terão sequer os meios para se desconectarem, afirma um especialista não identificado, acrescentado que os sistemas sociais e políticos – como a educação, o emprego, os serviços do Estado – irão exigir que se mantenham ligados. “Aqueles que são ‘educados’, independentes e privilegiados o suficiente para darem prioridade aos seus direitos e liberdades em detrimento dos sistemas públicos poderão vir a desconectar-se se assim o entenderem ou a gerirem o seu nível de conexão”. Ou, como sumariza, “ a privacidade e a liberdade serão, cada vez mais, propriedade dos que têm meios económicos”.

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  • O risco faz parte da vida e o mal só acontece aos outros

É assim que funciona a mente humana. A Internet das Coisas será facilmente aceite, apesar dos seus perigos, porque a maioria das pessoas acredita que os piores cenários nunca serão “seus”.

Muitos dos especialistas entrevistados apontam para a tendência natural de optimismo dos humanos no que respeita à percepção de que um risco potencial não os irá afectar. Muitas vezes, e inconscientemente, quando se auto questionam se os benefícios suplantam as ameaças, a resposta é geralmente positiva. Na verdade, concordam, a segurança online é uma ilusão, mas todos nós escolhemos viver nessa ilusão em conjunto.

Daniel Berleant, autor de “The Human Race and the Future”, diz: “Toda a mudança traz riscos. Ninguém se afasta de um carro porque estes pode ser perigoso. Os perigos de se utilizar as tecnologias digitais são menores quando comparados com os que potencialmente podem advir dos automóveis e apesar de constituírem uma preocupação, não irão travar, de modo algum, a tendência da digitalização”. Uma outra analogia mais original foi utilizada por um programador que recorda que a expansão dos carteiristas não impediu as pessoas de usarem carteiras”. “A não ser que exista um ataque de magnitude extraordinária, que afecte milhares de milhões de pessoas, a tendência é a de crescer o número de pessoas conectadas. E à medida que esse número aumenta, os ciberataques e as fraudes, muito possivelmente, aumentarão também. Todavia, mais ataques não se traduzirão em menor conectividade”, assegura.

[quote_center]As pessoas terão de se resignar a navegar num ambiente onde os dados representam a mais importante moeda de troca[/quote_center]

Stephen Downes, investigador no National Research Council Canada, oferece uma perspectiva diferente: “é verdade que os ataques, os vírus maliciosos, entre outras ameaças, são importantes, mas o seu maior impacto está relacionado com a forma como ‘nos deleitamos com a tecnologia moderna. Se uma pessoa escolher desconectar-se da tecnologia moderna sofrerá o mesmo destino da pessoa que foi afectada por um hacker: ou seja, perde o prazer de dela usufruir. Assim, as pessoas não tentarão afastar-se da tecnologia, mas antes procurarão melhores formas de se protegerem de possíveis ameaças – um bom exemplo é demonstrado pelo facto de, actualmente, as pessoas terem finalmente optado por escolher passwords que não sejam “simplesmente ‘123456’ – ou seja, estão dispostas a sacrificar uma certa quantidade de segurança por uma equivalente quantidade de conveniência”.

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  • Crescerá o número de conectados, mas também o de desconectados

Se por um lado a tendência é para um número crescente de pessoas se render aos encantos do “estar sempre ligado”, alguns segmentos optarão também ou por colocarem regras na sua conectividade ou por desistirem da mesma

Esta é a opinião de um grupo, minoritário, de inquiridos para este relatório. Apesar de ser impossível negar que o número de pessoas online irá aumentar e desejar maiores níveis de conectividade, também é muito provável que um número significativo de pessoas opte por cortar “os cabos de ligação”. O mesmo grupo de especialista antevê também um cenário em que as pessoas tentarão gerir com maior parcimónia ao seu estado de conectividade, optando por estar on e off em doses similares.

O investigador Adrian Schofield pertence a este grupo. Considerando que ambas as possibilidades se aplicam, refere que “milhões irão escolher a conectividade porque sentem que o risco é pequeno e a conveniência elevada, ao mesmo tempo que milhares se desconectarão ou porque se transformaram em alvos [de ataque] ou porque temem que tal lhes possa acontecer”. Já Wendy M. Grossman, uma editora independente sedeada em Londres, afirma que “à medida que nos tornarmos mais sofisticados a utilizar e a adaptarmo-nos a estas novas tecnologias, escolheremos melhorias – pelo menos assim se espera – no que respeita à tomada de decisão sobre quais as formas de conectividade que queremos usar e manter”, diz. Mas, acrescenta, “à medida que vou acompanhando a forma como as TI – e a IoT – se estão a desenvolver, com mais dúvidas fico sobre o quão longe quero ir em termos da sua adopção – sem esquecer a concomitante exposição à vigilância online – e da sua ‘intrusão’ na minha vida pessoal”.

[quote_center]A segurança online é uma ilusão, mas todos nós escolhemos viver nessa mesma ilusão[/quote_center]

Por outro lado, são muitas as pessoas que não estão a par dos progressos da IoT e que não se dão sequer ao trabalho de saber e, muito menos, de se preocuparem com ela. Em simultâneo, um segmento dos respondentes expressou também um nível baixo de confiança no que respeita aos avanços da IoT e da segurança das redes ao longo da próxima década. Estes mesmos respondentes acreditam que, em particular, as aplicações orientadas para o consumidores de que são exemplo as “casas inteligentes” não valerão o esforço de se arriscar a troca da conveniência pela da segurança ou privacidade. Ou seja, não acreditam no grande sucesso da IoT, mas no geral esquecem-se também de sistemas mais robustos nos quais a IoT está a dar grandes passos, como no sector dos transportes, e nos serviços ambientais e financeiros.

Grant Blank, sociólogo e investigador no Oxford Internet Institute, expõe o seu ponto de vista da seguinte forma: “a questão parece presumir que a maior parte das pessoas possui dispositivos que são parte da Internet das Coisas. O que é actualmente falso. E as pessoas manter-se-ão afastadas”, acredita. E isto por duas razões enunciadas: “a segurança está a ser muito mal tratada n Internet das Coisas, sendo que não existem previsões que este cenário se irá alterar a curto prazo; e as empresas estão a comportar-se mediante formas que desencorajam a participação. Mas não nos podemos esquecer que o problema reside no facto de a IoT ser muito mais vantajosa para as empresas do que para as pessoas”.

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  • Independentemente de mais ou menos conectividade, os perigos são reais e as questões de segurança e privacidade serão ampliadas pelo rápido crescimento da IoT

Estima-se que as ameaças se transformem em ataques, cada vez mais violentos, sendo que a ascensão da IoT e das preocupações de segurança irão ampliar também os perigos e ameaças às liberdades civis

A maioria dos especialistas inquiridos não tem dúvidas de que os perigos da Internet das Coisas são reais e que representam um desafio complexo. Estão também convictos que no futuro os ataques perpetrados serão mais devastadores na medida em que existirão milhares de milhões de dispositivos conectados, um número sempre crescente de conectados, o que implicará uma maior complexidade dos sistemas e da sua gestão. Muitos são também aqueles que demonstram profunda preocupação sobre a protecção das liberdades civis num mundo em que conjuntos cada vez mais extensos de “dados granulares” são continuamente recolhidos e armazenados em bases de dados.

Um engenheiro da Cisco, pessimista e que não se identificou, afirma que “será inevitável o aumento das pessoas que se irão conectar, mas que não é esperado que a segurança, que é um jogo de ‘gato e rato’, melhore significativamente relativamente ao número de coisas que serão conectadas”, afirma, não deixando de alertar que “existirão muitas pessoas que ‘perderão’ as suas vidas devido a explorações criminosas das suas vulnerabilidades.

[quote_center]Milhões de pessoas irão escolher a conectividade porque sentem que o risco é pequeno e a conveniência elevada[/quote_center]

Um também anónimo programador e analista de dados acrescenta: “a maioria das pessoas não tem qualquer consciência de quão frágil e ‘perfurada’ é a natureza da internet e da total ausência de protecção da sua informação médica ou financeira. E continuarão a não querer saber ou tentar compreender estas questões, mergulhando cada vez mais fundo na conectividade. Os ataques a infra-estruturas eléctricas, a veículos autónomos, a aviões ou a abastecimentos de alimentos são uma consequência muito grave da IoT”, afiança.

O fundador da REX, Jerry Michalsky, acredita que “para além das alterações climáticas e da existência de palhaços que têm o poder de desencadear um ataque nuclear, a Internet das Coisas é uma das maiores ameaças que enfrentamos”. Para este especialista, qualquer dispositivo que tenha estado “ligado” ao longo dos últimos anos enfrenta uma enorme probabilidade de ter sido p0wn3d [calão utilizado nos jogos online e que significa ‘agredido’ ou ‘violentado’] na darknet. Tudo isto deveria levar a que eu considerasse que muitas pessoas iriam optar por se desligar, mas na verdade e ao longo da próxima década, as pessoas ‘saltarão’ alegremente para o mundo da conectividade, na medida em que estamos ainda no início de uma nova tecnologia e as grandes falhas não se manifestarão propriamente tão cedo. Bom seria, contudo, que repensássemos por completo as estruturas tão badaladas da Internet das Coisas”.

[quote_center]Não nos podemos esquecer que o problema reside no facto de a IoT ser muito mais vantajosa para as empresas do que para as pessoas[/quote_center]

Vários especialistas esperam também que devido ao facto de os riscos associados à IoT serem elevados, tal irá obrigar a uma vigilância “aumentada” por parte dos governos.

As ferramentas avançadas de inteligência artificial serão capazes de analisar, monitorizar e “julgar” quase todos os aspectos da vida privada através dos dados recolhidos pela IoT. A análise de sentimentos poderá ser aplicada com vista à criação de perfis de carácter e intenções dos indivíduos. Um número significativo destes especialistas teme que aqueles que venham a controlar os algoritmos comecem a explorar ainda mais profundamente os comportamentos e emoções que são monitorizados e até preverem e/ou manipularem a forma como as pessoas se comportarão.

Marti Hearst, professor na Universidade da Califórnia, afirma que tal como “a disseminação dos telemóveis forçou a quase extinção das cabines telefones públicas, será impossível as pessoas ‘desistirem’ do mundo crescentemente interconectado. Os carros, as casas, as empresas e até as roupas das pessoas serão monitorizados, tal como todos os passos que derem e, possivelmente até os seus próprios pensamentos. É um pesadelo tornado realidade”, assegura. Adicionalmente “as cidades conectadas irão rastrear onde e quando as pessoas falam, inicialmente para ‘iluminar’ o seu caminho, mas eventualmente para monitorizar o que fazem e dizem. As paredes das empresas terão sensores minúsculos embutidos, inicialmente para monitorizarem a presença de toxinas ou a aproximação de terramotos, podendo também fazer o mesmo com intrusos e partilhar segredos empresariais. As pessoas já colam aos seus corpos monitores que contam os seus passos e, possivelmente, todos os fluidos que existem nos nossos corpos serão também monitorizados e gravados. Assim, ‘sair do modo online’ será considerado uma aberração e um enorme inconveniente, tal como acontece com os poucos que actualmente optam por não ter telemóvel ou um cartão de passagem nas portagens”.

[quote_center]Sair do modo ‘online’ será considerado uma aberração e um enorme inconveniente[/quote_center]

Mary Chayko partilha do pessimismo de Hearst. A professora de informação e comunicação na Universidade de Rutgers, afirma que “apesar da cibersegurança constituir um desafio sério para os governos, a segurança psicológica – o sentimento de segurança e pertença – tornar-se-á, muito provavelmente o grande desafio para os indivíduos. À medida que vemos os nossos dispositivos e o mundo em geral cada vez mais interconectado, começamos a reconhecer as vulnerabilidades inerentes à segurança, o que nos torna também mais emocional e psicologicamente vulneráveis”.

A esperança de Chayko vai no sentido de se abordarem, seriamente, todas estas questões que caracterizam a era digital da actualidade, em comunhão uns com os outros e tentando compreender melhor as necessidades e fraquezas humanas de forma a se desenvolverem sistemas e ‘egos’ mais fortes.

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