Para assinalar a formalização da adesão do Grupo Delta Cafés ao GRACE, que conta já com 80 empresas associadas, Campo Maior foi o local escolhido para se discutir a temática do empreendedorismo local. Tendo como anfitrião o Comendador Rui Nabeiro, o debate comprovou que “grão a grão” se pode ir muito longe. E ajudar, de perto, aqueles que nos rodeiam
POR HELENA OLIVEIRA

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© GRACE
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Na passada semana e no IX Encontro Temático do Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial (GRACE), o homem que está prestes a comemorar 80 anos afirmou que sempre sonhou, em criança, adolescente e já como pessoa crescida, em empreender em Campo Maior. E, acrescenta, “mas ainda hoje me sinto criança e adolescente, porque continuo a sonhar com o amanhã”. As palavras são, como se pode adivinhar, de Rui Nabeiro, ou mais precisamente, do “mayor” da Delta e de Campo Maior e que, desde sempre foi convidado a deslocalizar a sua empresa. Valeu-lhe a resistência, na medida em que o Grupo Delta Cafés não só é um exemplo de excelência na promoção do emprego local, desenvolvimento e sustentabilidade, como ainda é exportadora para mais de duas dezenas de países.

Subordinado ao tema “Empreendedorismo Local”, o GRACE juntou, nas instalações da Adega Mayor e para além de Rui Nabeiro, o empresário espanhol Manuel Ligioiz Gerez – um exemplo vindo da vizinha Badajoz, e Henrique Pinto, director da Cais. Em discussão, a importância estratégica para as empresas proveniente do investimento nas comunidades em que estão inseridas. Mas não só: em foco estiveram também as  características intrínsecas aos empreendedores apaixonados e como é possível, através desta actividade, passar de uma situação de exclusão a uma de inclusão social, ilustrada pelo testemunho de António Pina, um outrora sem-abrigo que, actualmente, tem o seu próprio negócio de engraxar sapatos, tendo ganho uma nova vida.

Moderado por Gonçalo Cavalheiro, membro da direcção do GRACE em representação da recém-criada CAOS e com o encerramento da sessão a cargo de Conceição Zagalo, presidente do Grupo de Reflexão, o encontro extravasou, no melhor dos sentidos, a temática que o sustentava.

“Nunca digo eu, digo sempre nós”
A história de Rui Nabeiro é, muito possivelmente, o maior e mais antigo exemplo de responsabilidade social em Portugal. Como recordou Gonçalo Cavalheiro, na sua introdução à sessão, “carinho e exigência” sempre pautaram o trabalho do patrão da Delta. E é por isso que ninguém coloca em questão quando Rui Nabeiro afirma que “eu estou sempre ao serviço de todos”. Assim foi e assim continua a ser, 50 anos passados sobre a criação da sua empresa que, neste caso, é igualmente equivalente ao desenvolvimento de toda uma região que tem a sua marca.

Rui Nabeiro afirma que a tónica principal do empreendedorismo local é o facto de este “dever ser para todos”. E é com o mesmo orgulho que fala nas crianças que frequentam o Centro Educativo Alice Nabeiro – “que já fazem empreendedorismo com um sorriso nos olhos” – ou dos idosos que constituem, neste momento, o segmento populacional que a Delta resolveu privilegiar no seu programa “Tempo para Dar”.

Para o empresário, empreender localmente significa “construir o meu mundo e, de seguida, partilhá-lo com os outros” e é o que tem sido feito nas 20 cidades em que a Delta está implantada em Portugal Continental e em mais duas cidades das ilhas. “Temos ‘casas’ em mais de 20 cidades e, em todas elas, existe empreendedorismo local”, afirmou.

Entre variadíssimas acções, a Delta iniciou, em 2009, o projecto Tempo para Dar, que visa essencialmente diminuir o isolamento e lutar contra a solidão dos idosos. Com uma fortíssima componente de voluntariado, o projecto está a ser desenvolvido em todo o país – neste momento, 46,1% dos colaboradores da Delta aderiram já a este repto com a devida ressalva do Comendador que afirma que quer “que sejam muito mais a fazê-lo”. A ideia é, localmente, visitar casas de idosos e não só levar na bagagem uma boa dose de sorrisos e carinhos, mas também fazer um levantamento das suas carências e tentar provê-las, seja a mera construção de um corrimão ou a compra de uma cadeira de rodas.

Este voluntariado de proximidade faz jus à declaração de Rui Nabeiro que afirma que “estamos a viver o tempo da aproximação” e que é tempo não só para pensar, como para actuar. A distribuição no país de pulseiras electrónicas a idosos que vivem sozinhos e que permite ajudá-los em situações de emergência é já um resultado deste programa. Integrado no mesmo, foi agora lançada a iniciativa “Mealheiro Solidário”, do qual e com humor o Comendador afirma ser o “maior contribuidor”, que visa minimizar as necessidades dos “nossos mayores”, através do fornecimento de bens necessários, sinalizados pelos parceiros das várias cidades em que a Delta tem presença e em parceria com organizações que já fazem voluntariado de proximidade e conhecem bem o terreno.

E, tal como afirma o responsável da Delta, literalmente “grão a grão, fizemos o que temos hoje”, ou seja, a diferença.

“Sou um obcecado pelo impossível”
É talvez uma característica comum aos empreendedores, mas a citação acima transcrita foi pronunciada por Henrique Pinto, director da Associação Cais e que há 17 anos luta para oferecer segurança e oportunidades à população de sem-abrigo.

Afirmando que “é o bem que se faz no mundo que o sustenta”, Henrique Pinto alertou para o facto de conceitos como empreendedorismo, solidariedade e sustentabilidade serem chavões que fazem agora parte do nosso vocabulário, mas que existem desde sempre. “Existe uma valorização destes temas mas, na verdade, eles são tão velhos quanto velhos nós somos”, declarou.

Para o responsável da Cais, que diz trabalhar na “loucura em Portugal de tornar a pobreza ilegal”, não se pode dizer que exista uma falta de empreendedores mas, sim, um défice de empreendedorismo. E é devido a estes motivos que Henrique Pinto define empreendedorismo como a oferta de segurança e oportunidades a todos aqueles que, ao longo dos últimos 17 anos, procuraram abrigo na CAIS. Sublinhando que a associação que dirige sempre deu a cana e não o peixe, Henrique Pinto coloca ênfase em duas acções que definem o seu trabalho: capacitar e autonomizar.

E dá como exemplo um projecto que faz parte do programa “Capacitar Hoje”, recentemente lançado, como o Serviço de Lavagem Manual de Carros, essencialmente dirigido a clientes que possuam um parque automóvel sob gestão própria ou disponham de uma garagem para os automóveis dos seus colaboradores e funcionários. Cada tarefeiro ganha 60% do total facturado. Este programa segue, em termos de distribuição de lucros, a mesma lógica que deu origem à “imagem de marca” da CAIS e que são as suas famosas revistas. Em 16 anos e com números “por baixo”, com a venda de revistas, foram angariados cerca de sete milhões de euros, dos quais 70% foram directamente para os vendedores, e os restantes 30% equitativamente divididos entre a associação e a distribuidora.

Nesta lógica de criação de necessidades para que a CAIS possa desenvolver o seu empreendedorismo – dotando os seus utentes de capacidade e autonomia – insere-se igualmente um outro projecto que visa revitalizar a profissão de engraxador em Lisboa. E foi nessa qualidade que António Pina, um outrora sem-abrigo, deu o seu testemunho (v.caixa) neste IX Encontro do GRACE.

Para aqueles que ainda acreditam que os sem-abrigo estão nas ruas porque simplesmente não querem trabalhar ou lutar contra as adversidades, uma chamada de atenção para as palavras de quem convive com esta população há tanto tempo: se existe um “motivo principal” para as pessoas irem viver para a rua, este reside, na esmagadora maioria das vezes, numa ruptura dos afectos, ou seja, “deixaram de ser amados e deixaram de se amar a si mesmos”. E para quem passa na rua e finge que estas pessoas não são visíveis, Henrique Pinto deixa também uma frase digna de reflexão: “iluda-se aquele que pensa que pode ignorar o outro e ser feliz”.

E, em Campo Maior, não se ignora ninguém. E talvez seja por isso que, quando Rui Nabeiro diz “bem-vindos à nossa, vossa casa” nos sentimos, verdadeiramente, em casa.

“Gosto muito do que faço”
© GRACE

Chama-se António Pina, tem 51 anos e repete, sem cessar que “tem de fazer bem, para se sentir bem”. Um ex-empregado da indústria hoteleira – trabalhou no Hotel Ritz, em Lisboa – António mudou-se para Vila Viçosa onde exerceu funções de manutenção numa escola local. Com uma retinopatia que se foi agravando e que o impedia de “ter as condições necessárias para exercer as suas funções” volta a Lisboa onde “passa por maus bocados”. Com o divórcio e o agravamento da sua doença, António vê-se em situação de sem-abrigo e, como afirma “completamente à nora”. Valeu-lhe, na altura, a Cais e a possibilidade de vender a sua revista, algo que fez durante 11 anos. Conta que, nos piores momentos, o mais difícil foi sentir-se “um inútil”. Mas não cruzou os braços e, se no Inverno era vendedor da Cais, no Verão ia até às praias da Linha e vendia gelados na areia. Foi quando participou num projecto da mesma associação, que visava um serviço de engraxamento no Lagoas Parque, que a sua vida se volta a transformar. O projecto não vingou mas António viu no fracasso uma oportunidade.

Tal como qualquer empreendedor que se preze, António comprou uma caixa de engraxador, fez uma prospecção de mercado e instalou-se na zona do Rato, no seu “um metro e meio quadrado de espaço, onde não incomodo ninguém”. Já passaram quatro anos e hoje António Pina é completamente autónomo, vive num quarto alugado e sonha “com uma casita”. Pelo seu trato fácil e atenção que devota ao acto de engraxar sapatos – “tenho um cliente, cirurgião, que sempre me diz que eu engraxo sapatos com carinho e, a quem respondo que basta imaginar que estou a engraxar os sapatos do meu pai” – tem já um acordo com uma empresa da zona que lhe toma todas as manhãs de segunda-feira. No Natal passado e apenas seis meses depois de ter iniciado este trabalho, António recebeu um cartão de boas-festas, assinado por todos os colaboradores da mesma, em conjunto com uma soma de dinheiro. “A atitude – excluindo a questão monetária – dá a entender o interesse e carinho que têm por mim e eu por eles”, afirma com orgulho.

Para o futuro próximo, um novo projecto: integrado no projecto da Cais para a revitalização da profissão de engraxador, António será um dos formadores. “Aquilo que eu faço tem de sair bem feito, não pode haver uma falha no trabalho, empenho-me e é isso que quero transmitir aos demais engraxadores”, garante. E acrescenta: “gosto muito de mim, sabe? Olho-me ao espelho e digo: gosto de ti, António”, diz. “Experimente, menina, olhe que vale a pena, porque resulta. Olhar e não ver é que não”. Sem dúvida.

Helena Oliveira

Editora Executiva