É um mito que continua a persistir no mundo empresarial: o de que, para sermos levados a sério, temos de ser sérios. Mas a pesquisa na área da ciência comportamental conta uma história completamente diferente, defendendo que o humor pode ser uma das ferramentas mais poderosas que temos para realizar seriamente o nosso trabalho. São vários os estudos que demonstram que o humor nos faz parecer (e ser) mais competentes e confiantes, que solta a nossa criatividade e que aumenta a nossa resiliência em tempos mais conturbados. Adicionalmente, e num estudo realizado com executivos de topo, 98% preferem trabalhadores com sentido de humor e 84% acreditam que estes fazem melhor o seu trabalho. Vai uma risada?
POR HELENA OLIVEIRA

 

“O sentido de humor faz parte da arte da liderança, de nos darmos bem com as pessoas, de fazer as coisas que têm de ser feitas”.

[Dwight David Eisenhower, 34º Presidente dos EUA]

 

Em 2014, a reputada cientista comportamental Jennifer Aaker convidou Naomi Bagdonas para dar uma palestra como parte do curso que leccionava na Stanford Graduate School of Business intitulado “O Poder da História”. Naomi Bagdonas, para além de ser consultora de meios de comunicação e estratégia e estar, na altura, a concluir o seu MBA em Stanford, passava algumas noites e fins-de-semana a apresentar improvisos em clubes de comédia.

Embora a palestra fosse dedicada à combinação de histórias e dados, com desvios na análise de factores e neuroquímica, Aaker observou com surpresa que os seus estudantes choravam de riso ao ouvir Bagdonas contar as suas “aventuras”. Quando chegaram as avaliações do curso, Aaker descobriu igualmente que estes recordavam com muito mais clareza e detalhe a palestra dada por Bagdonas comparativamente aos muitos oradores que também tinham sido convidados para o curso em causa.

E foi assim que, em conjunto, Aaker e Bagdonas resolveram criar o curso Humor: Serious Business, um dos mais populares de Stanford e por onde já passaram e continuam a passar inúmeros aspirantes a executivos e empreendedores. O curso tem como base estudos, ideias e palestras apresentadas por cientistas comportamentais, comediantes reconhecidos e líderes de negócios inspiradores que revelam os benefícios do humor no local de trabalho e na vida em geral. E dado o sucesso extraordinário que o curso tem vindo a ter, Aaker e Bagdonas acabaram por escrever um livro, que se tornou num best-seller intitulado Humor, Seriously: Why Humor Is a Secret Weapon in Business and Life (And how anyone can harness it. Even you).

Não deixar o humor à porta do escritório

Numa entrevista à organização Future of Storytelling e quando inquiridas por que motivo uma escola de negócios tão sofisticada tinha concordado em dar luz verde a um curso sobre o humor – e apesar de ambas serem consideradas como docentes de excelência em Stanford – as autoras afirmaram ter uma convicção comum de que o humor é, na realidade, uma das ferramentas mais poderosas de que dispomos para tornar as equipas mais unidas e eficazes, para ajudar os líderes a serem mais autênticos e dignos de confiança, ao mesmo tempo que é especialmente relevante para reforçar a resiliência em tempos difíceis. Na verdade, este curso vale exactamente os mesmos créditos do que um de finanças e contabilidade, acrescentam ainda.

Adicionalmente, explicam, quando nos rimos, os nossos cérebros libertam um cocktail de hormonas, como as endorfinas, que nos fazem sentir mais calmos e menos stressados, e a oxitocina –a chamada “hormona do prazer” e que é particularmente importante para aumentar os níveis de empatia, as relações afectivas e diminuir a ansiedade. “Estas mudanças na nossa fisiologia têm benefícios muito reais para a nossa saúde. Um estudo realizado ao longo de 15 anos revelou que as pessoas com sentido de humor são 30% mais resistentes a doenças graves e vivem em média mais oito anos”, afirmam, acrescentando ainda que este cocktail tem também um conjunto de benefícios tanto na forma como nos destacamos “entre a multidão”, nos sentimos mais confiantes, mais criativos e abertos. Complementarmente, acrescentam ainda que o humor se infiltra no tipo de carisma que exalamos e tem também impacto na forma como as outras pessoas nos vêem.

Por outro lado, são vários os estudos que demonstram que o humor tem impacto na memória das pessoas. Assim, quando as pessoas se riem, estão a prestar (mais) atenção ao que lhes está a ser transmitido e é mais provável que arquivem na sua memória de longo prazo o que estão a escutar. E tudo isto, explicam, porque o humor inunda o centro de recompensa dos nossos cérebros com dopamina que é um neurotransmissor que actua em diversas regiões do cérebro e influencia positivamente, quando regulado, as nossas emoções, capacidade de aprendizagem, humor e atenção.

Um bom exemplo assenta numa pesquisa realizada pelo Pew Research Center que demonstrou que os espectadores de notícias mais bem-humoradas ou das que levam o humor para terrenos sérios – como acontece nos múltiplos shows televisivos que abundam, por exemplo, nos Estados Unidos e que podem ser comparados, por exemplo, ao programa de Ricardo Araújo Pereira – lembram-se de forma muito mais detalhada dos acontecimentos actuais do que as pessoas que consumiram essa mesma informação através de jornais, noticiários televisivos ou redes sociais. E são estes mesmos efeitos que Jennifer Aaker e Naomi Bagdonas testemunham na sala de aula. Os alunos que recebem material de estudo que seja escrito com humor retêm níveis maiores de aprendizagem e obtêm, em média uma pontuação 11% superior nos seus exames finais.

Como sublinham também, a falta de humor nas empresas resulta de uma percepção errada de que temos de ser sempre sérios, de que é necessário manter uma fachada de “esterilidade” e de profissionalismo nos nossos locais de trabalho. E, por causa disso, vamos trabalhar e deixamos o nosso sentido de humor (e muito mais de nós próprios) à porta do escritório. E isto é realmente prejudicial porque não só estamos a perder o lado positivo que o humor pode conferir, como também não nos estamos a isolar devidamente dos verdadeiros factores de tensão do mundo empresarial que este mesmo sentido de humor pode ajudar a proteger-nos.

Por outro lado e com a mudança para o trabalho remoto, são muitas as pessoas que se sentem desligadas dos colegas e das suas equipas. Como afirmam as docentes de Stanford, vivemos num momento em que precisamos, mais do que nunca, de humor. E isto é, em parte, porque o mesmo revela a nossa humanidade ao mesmo tempo que diminui a tensão que nos envolve.

Mas será que as pessoas podem ou devem realmente ser “ensinadas” a ser “engraçadas” no trabalho? Como sabemos, se uma piada tiver de ser explicada, a sua força dispersa-se. Como confessam as próprias autoras, “ o enquadramento do humor como instrumento de auto-desenvolvimento é algo perturbador, evocando a imagem de um sociopata que estuda calmamente os pontos fracos da psique humana para os explorar para proveito profissional”. Todavia, e rotulando o curso que lecciona como “o poder do humor e da liderança”, Aaker afirma veementemente que o humor é uma habilidade que é possível ensinar, sublinhando também que o mesmo é um dos bens mais subestimados no mundo laboral. Já Bagdonas, e como já acima enunciado, garante que o riso muda a química dos nossos cérebros, tornando-nos mais criativos, ligados e resilientes. Como afirma, “o humor é um elixir para a confiança e um antídoto para a arrogância, especialmente para os líderes de hoje”.

Não obstante, ambas concordam também que o humor no trabalho tem muito menos a ver com gracejos do que com momentos partilhados de “leveza” que estimulam as relações e equilibram a seriedade do trabalho. Esta leveza, dizem, acaba por estar ausente da vida de muitos adultos – as crianças até aos 4 anos riem cerca de 300 vezes ao dia, ao passo que um adulto “normal” chegará a este número num período superior a dois meses – e particularmente em ambientes profissionais. Como escrevem, um local de trabalho que abraça o riso é provavelmente aquele que também encoraja uma maior dose de criatividade, autenticidade e segurança psicológica, o que permite às pessoas darem o seu melhor. O humor é um cavalo de Tróia para a humanidade – e isso, argumentam Aaker e Bagdonas, é aquilo que une pessoas e as organizações, afirmam ainda as autoras.

Os mitos sobre o humor no trabalho

No livro Humor, Seriously, Jennifer Aaker e Naomi Bagdonas começam por desmistificar quatro ideias há muito preconcebidas no que ao humor no trabalho diz respeito..

Como descobriram, e depois de auscultarem milhares de pessoas de uma vasta gama de indústrias e com cargos diversos sobre o que as impede de usar o humor no trabalho, existem quatro mitos por excelência no que ao mesmo e no trabalho diz respeito. O primeiro é o já falado mito do “assunto sério”, que é a ideia de que a “leveza” mina a missão do trabalho, de que não é possível levar um trabalho a sério se se andar a espalhar humor nas reuniões ou nos corredores da empresa, o que, para as autoras, isto não é simplesmente verdade.

O segundo é “ter humor é inato”, o que significa que as pessoas o têm ou não têm. As autoras defendem, contudo, o seu inverso, assegurando que é uma habilidade/capacidade que na realidade tem uma ciência a seu favor, pode ser ensinada e que é muito mais fácil de aprender do que pensamos. Ou seja, funciona como um músculo que pode ser exercitado.

Existe ainda o mito do “fracasso”, ou seja, o facto de as pessoas pensarem que falharem numa tirada humorística, tal terá sérias repercussões. E é aí que as docentes ensinam aos seus alunos que o humor tem mais a ver com o cultivar da alegria e da leveza no ambiente laboral do que propriamente contar piadas.

Por último, o mito de que ter humor é ser-se “engraçado ou engraçadinho”. E, mais uma vez, contradizem as autoras, não tem mesmo a ver com aqueles que passam a vida a contar anedotas. A ideia neste caso em particular é sermos mais generosos com o nosso próprio riso, com o que nos faz rir, com o que poderá fazer rir os outros, falar de verdades que existam na nossa vida com leveza e abrir a janela da nossa humanidade.

A verdade é que, de acordo com as vastas pesquisas feitas pelas autoras, os gestores e executivos com sentido de humor são mais motivadores e admirados; os seus empregados são mais envolvidos com o trabalho e com a empresa e as suas equipas solucionam de uma forma mais fácil os desafios da criatividade. Ou, em suma. Existem muitas evidências no que respeita ao retorno do investimento (ROI) do humor. O que tem piada.

A terminar, e porque existem diversos tipos de humor, faça o quiz proposto pelas autoras para saber qual a sua tipologia humorista:

Humor Typology Quiz

https://quiz.humorseriously.com/?utm_campaign=humor_quiz_ss&utm_medium=ss&utm_source=humorseriously

Helena Oliveira

Editora Executiva

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