Por que não aceitamos o prazer de ver os outros felizes? Porque tal implica aceitar os limites do Planeta, apostar numa economia verde que apoia aqueles que precisam de transitar da “antiga” economia para a “nova”, apostar numa fiscalidade verde, em promover competências emocionais e ligadas à sustentabilidade, num turismo cultural e sustentável, na mudança da alma do setor financeiro, na aceleração de setores nacionais que podem exportar produtos e serviços verdes e na ajuda climática e de capacitação aos países em desenvolvimento. Nada de novo mas com alma nova
POR SOFIA SANTOS

Estamos todos exaustos e o ideal seria que pudéssemos parar um mês para descansar e sem nos preocuparmos com nada: nem doenças nem emprego, nem futuro e nem dinheiro. Alguns de nós temos o privilégio de alcançar mais de 50% do que acima descrevo. Mas a grande maioria da população não tem essa possibilidade.

O Ano de 2021, que desejei que passasse depressa e que nem desse por ele, está a ser de uma velocidade e loucura imensas. E por vezes questiono se não estamos todos perante um cenário de “loucura coletiva” onde o óbvio ainda é tabu.

E o óbvio é: temos de mudar radicalmente e urgentemente as premissas do nosso modelo económico, mas parece que a coisa teima em manter-se. Algumas economistas, mulheres por coincidência, como Mariana Mazzucato e Kate Raworth são as mais conhecidas por defenderem um modelo económico no qual a sustentabilidade e inovação conseguem ser os motores de desenvolvimento. Um modelo económico assente no respeito pelos limites físicos do Planeta, pelo reconhecimento que, pelo facto de sermos mortais, não valorizamos o longo prazo, e por isso a regulação do mercado é necessária, bem como a intervenção do Estado em áreas fundamentais ao bem-estar das populações.

Defensora do Adam Smith, concordo que a economia de mercado seja o local onde os indivíduos podem criar as suas iniciativas e empresas, encontrar as melhores oportunidades, realizar as trocas que acharem fazer sentido e gerar riqueza. Só não concordo que tal seja realizado “a todo o custo” e focado na maximização do lucro a curto prazo e na maximização da utilidade do agente económico, pois considero que a função de utilidade usada do modelo está incompleta. Como Adam Smith dizia, o cidadão é um agente ético que sente prazer em ver a felicidade dos outros. Aliás Adam Smith falava muito da felicidade e de como podemos alcança-la. Por isso não compreendo porque nós, economistas, não colocamos a dita da felicidade no modelo de maximização de utilidade. Ao fazê-lo tudo mudaria nas premissas da economia de mercado e esta poderia transformar-se numa economia mais humana e menos sociopata. Ou então o Adam Smith estava errado, e a maioria de nós não querer saber da felicidade dos outros, e por isso, nem com esta variável adicional conseguiríamos mudar o business as usual.

E, na realidade, acho que estamos quase assim: sem querer saber da felicidade dos outros. Ou pelo menos aqueles que se sentam confortavelmente no poder das suas cadeiras, como o G20 parece estar ou ser assim. E isto faz dos Humanos, meros Desumanos. E isso é muito mau. Em Julho o grupo das nações mais ricas, o G20, reuniu e não conseguiram concordar na linguagem a adotar relativamente a compromissos chave relacionados com as alterações climáticas. Atingir a neutralidade carbónica não é compatível com a manutenção da exploração de combustíveis fósseis, e a China, Rússia, India, Turquia e Arábia Saudita estão relutantes em aceitar frases que indiquem o fecho desse tipo de exploração.

O Secretário-Geral das Nações Unidas tem apelado à urgência de se terminar com as explorações a carvão em 2030 pelos países ricos e, em 2040, pelos países em desenvolvimento. Apesar de alguns países do G20 estarem já a trabalhar nesta transição, há muitos que não estão, querem atrasar, querem impedir a mudança. E em prol de quê? Dinheiro para alguns e desastres ambientais para outros, noutras partes do mundo, ou na sua própria terra. Mas como “elites” que são, acreditam que esses desastres nunca os irão atingir…

Pois eu acho que esses desastres me podem atingir: a mim, ao meu filho e aos que me rodeiam. E não quero que isso aconteça, nem hoje nem daqui a 30 anos. Os recentes cenários na Alemanha, Canadá e Estados Unidos demonstram bem esta realidade.

Estamos a ir de férias. E este texto é suposto ser um texto leve. Mas não há tempo para levezas. Há tempo sim, para termos a coragem de assumir que a Covid nos deu a abertura de espírito para mudar a forma de fazer e de viver. Temos de aproveitar esta oportunidade para ganharmos força e seguir o que Adam Smith defendia: sentir prazer com a felicidade dos outros.

Um conselho de Verão: tentem focar-se no prazer que sentem quando veem alguém feliz. E foquem-se na vergonha alheia que sentem quando veem alguém pobre e infeliz na rua. Qual dos sentimentos preferem? Vai ser o do prazer. Se sentirem prazer na vergonha alheia poderão fazer parte do grupo dos sociopatas e aconselho ajuda médica urgente!

Então porque não levar isso ao extremo? O prazer de ver os outros felizes? Isso implica aceitar os limites do planeta, apostar numa economia verde que apoia aqueles que precisam de transitar da “antiga” economia para a “nova”, apostar numa fiscalidade verde, em promover competências emocionais e ligadas à sustentabilidade, num turismo cultural e sustentável, na mudança da alma do setor financeiro, na aceleração de setores nacionais que podem exportar produtos e serviços verdes e na ajuda climática e de capacitação aos países em desenvolvimento. Nada de novo mas com alma nova.

Boas Férias!