Desde a emergência do movimento da sustentabilidade corporativa, há já cerca de duas décadas, que muito se escreveu sobre o papel crucial das empresas multinacionais na resolução dos desafios ecológicos do planeta. Todavia, muito pouco se sabe sobre as motivações psicológicas que os executivos com responsabilidades nesta área possuem. E foi esse o desafio que Steve Schein escolheu para escrever um livro sobre as causas, individuais e genuínas, de 75 líderes que, no interior das maiores empresas do mundo, estão realmente comprometidos a levar a sustentabilidade bem além dos seus limites e conflitos actuais
POR
HELENA OLIVEIRA

Os desafios da sustentabilidade são, muito possivelmente, os mais importantes que o mundo enfrenta na actualidade. Mas enquanto muitas empresas e respectivos líderes “falam” do seu papel na resolução deste tipo de desafios, todos sabemos que nem sempre as suas palavras reflectem a importância da gigantesca tarefa que têm em mãos. Por outro lado e até agora, tem vindo a ser comummente assumido que todas as empresas multinacionais – as que mais poder e recursos têm para realmente darem um contributo precioso para o presente e, mais importante ainda, para o futuro – têm a mesma visão no que respeita aos desafios da sustentabilidade. Até agora. Felizmente, existe já um número crescente de executivos seniores, com posições de liderança no interior das maiores empresas do mundo, que está realmente comprometido a levar a sustentabilidade bem além dos seus limites e conflitos actuais.

Mas e afinal o que motiva estes líderes a tentar arranjar soluções para os maiores problemas sociais e ambientais que ameaçam o nosso planeta? Foi a esta questão que, e pela primeira vez, Steve Schein, pioneiro na área da liderança para a sustentabilidade, professor e antigo auditor da Nabisco e da Ernst & Young, tentou responder no livro recentemente publicado A New Psychology for Sustainability Leadership: The Hidden Power of Ecological Worldviews . E a primeira boa notícia reza que são cada vez mais os líderes, com o pelouro da sustentabilidade, que estão a começar a compreender, e a respeitar, a relação existente entre as pessoas e o mundo natural.

Neste livro, Schein oferece um retrato promissor de um conjunto significativo (75 entrevistados pertencentes a 40 multinacionais e ONGs) de líderes globais e com enorme influência na área da sustentabilidade que afirmam sentir-se motivados por visões próprias e ecológicas do mundo, as quais foram formadas ao longo de várias experiências que tiveram ao longo da vida, não só pessoais, como também nos seus ambientes profissionais. Através de perspectivas inovadoras na área da psicologia do desenvolvimento, o autor demonstra igualmente de que forma estes executivos expressam um conceito conhecido como “visões do mundo pós-convencionais”, as quais contribuem para melhorar as formas de comunicação necessárias para se ultrapassarem as resistências e lidarem com a complexidade dos desafios ambientais e sociais.

Schein explica de que forma a sustentabilidade está a transformar estes colossos empresariais – entre elas a Hewlett-Packard, a Microsoft, a AT&T, a Motorola, a Starbucks, a Nike, a Ford, a Coca-Cola, a GE, a PricewaterhouseCoopers, entre várias outras – e a forma como conduzem os seus negócios. “Utilizando um processo conhecido como biomimetismo, os engenheiros estão a desenhar novos produtos com base numa compreensão mais profunda da forma como funciona a natureza; utilizando uma ferramenta conhecida como análise do ciclo de vida, já é possível medir a pegada ecológica completa de produtos, desde a extracção de recursos, passando por toda a cadeia de fornecimento, de distribuição, de gestão de resíduos e recuperação de custos; esforços colaborativos de grande escala entre multinacionais, organizações ambientais sem fins lucrativos, e governos estão a dar origem a novas abordagens sistémicas aos mais complexos problemas ambientais globais que envolvem os oceanos, os solos aráveis, as florestas, as bacias hidrográficas e as espécies”, afirma o autor.

Na verdade, a principal oferta deste livro reside na aplicação da psicologia do desenvolvimento à prática da liderança para a sustentabilidade, na medida em que o autor nos encoraja a pensar nesta forma de liderança inovadora, na qual o objectivo não é apenas trabalhar para o bem da empresa, mas do mundo que a envolve também.

Da sustentabilidade global para a individual

10092015_HomoSustentabilisDesde a emergência do movimento da sustentabilidade corporativa, há já cerca de duas décadas, que muito se escreveu sobre o papel crucial das empresas multinacionais na resolução dos desafios ecológicos do planeta. Todavia, e enquanto a pesquisa relativa à sustentabilidade corporativa se concentrou extensamente nos impactos ambientais, nas estratégias e nas boas práticas ao nível organizacional, a liderança para a sustentabilidade ao nível individual nunca foi levada em conta. Como resultado, muito pouco se sabe sobre as motivações psicológicas que os executivos com responsabilidades nesta área possuem, bem como a forma como as mesmas se podem relacionar com o comportamento destes agentes da mudança.

O livro de Schein introduz algumas disciplinas menos conhecidas do grande público, como a eco-psicologia, a ecologia integral e a psicologia do desenvolvimento, como suporte à sua investigação sobre as visões ecológicas do mundo manifestadas pelos “líderes globais para a sustentabilidade”.

Recordando que foi em 2004 que a primeira nomeação de um Chief Sustainability Office teve lugar (na DuPont), o cargo é agora comum, pelo menos nas multinacionais e tem vindo a ganhar importância crescente, nem que seja pela igualmente crescente importância que os desafios globais têm para as empresas e, obviamente para o planeta.

Mas de que forma é que estes líderes para a sustentabilidade podem realmente influenciar e ditar uma gestão mais consentânea com os problemas sociais e ambientais que ameaçam o nosso próprio futuro? Talvez começando por divulgar uma visão menos antropocêntrica do mundo – a qual subsiste há décadas e que reflecte a crença de que os seres humanos controlam a natureza através dos seus progressos tecnológicos e económicos. Esta visão instrumental da natureza, ainda demasiado vigente na actualidade – mesmo apesar de todas as provas científicas que demonstram os seus prejuízos – é, de acordo com Schein, uma das responsáveis por “blindar” e originar “resistências ambientais e sociais” à mudança necessária. Como afirma o professor e antigo executivo (bem) experiente, este tipo de visão tem o poder de limitar as abordagens às tecnologias com poder para mitigar os impactos negativos provocados por mão humana e afectar as políticas das multinacionais, dos governos e das ONG em todo o mundo. Assim, esta viragem nas visões dos responsáveis pela sustentabilidade nas grandes empresas tem todo o potencial para se transformar num poderoso contributo para a área da liderança para a sustentabilidade.

Adicionalmente, não foi à toa que Schein escolheu para seus entrevistados um universo de executivos com um mínimo de cinco anos de experiência em iniciativas relacionadas com sustentabilidade, habituados a lidar com um conjunto alargado de stakeholders internos e externos, e com um historial profissional em mais do que uma multinacional. E o que imediatamente saltou à vista na análise posteriormente feita por Schein às narrativas destes executivos foi o facto de todos eles terem definido as suas várias experiências pessoais e profissionais como fulcrais para a visão ecocêntrica que têm do mundo, a saber: desde a sua família de origem e as memórias de infância relacionadas com a natureza, o facto de terem tido professores ou mentores “ambientalmente conscientes”, de terem assistido – e sido profundamente marcados – a cenários de pobreza e de degradação ambiental em países em desenvolvimento, de percepcionarem o capitalismo como um bom veículo para o activismo ambiental (quase todos foram voluntários em ONGs) e, por último, por quase todos eles partilharem um sentimento de espiritualidade e sentido de serviço.

Adicionalmente, todos os entrevistados manifestaram também uma verdadeira consciência ecológica “incorporada”, a noção plena da fragilidade dos ecossistemas planetários e uma crença genuína no valor intrínseco da natureza.

O “quase tudo” que ainda falta fazer

10092015_HomoSustentabilis2Num artigo assinado pelo próprio Steve Schein a propósito desta investigação que daria lugar ao livro em causa, o professor expressa também as suas preocupações face ao muito que falta ainda fazer para despertar a consciência de mais empresas e respectivos executivos para a questão da “liderança para a sustentabilidade”.

Afirmando que, para aqueles que seguem o movimento da sustentabilidade corporativa, é notória ainda a relativamente pequena percentagem de organizações “progressistas” que estão realmente e de forma aprofundada a integrar as iniciativas de sustentabilidade nas suas empresas multinacionais, o autor chama também a atenção para a crescente necessidade de estas questões – e as novas disciplinas que as acompanham – começarem a ser integradas nos currículos escolares, de que são exemplo temáticas tão díspares quanto as relações humanas com a tecnologia ou como avaliar o capital natural em balancetes empresariais.

Mas de regresso ao universo das multinacionais, Schein chama também a atenção para o facto de, apesar de serem ainda poucas as que consideram como fulcral a temática da sustentabilidade, quando um destes gigantes corporativos faz um grande anúncio de algum “feito” ambiental importante, por trás do mesmo existe sempre uma pequena equipa de executivos que se dedica exclusivamente a iniciativas desta natureza, enfrentando, na maioria das vezes, uma forte resistência. “As suas empresas têm dezenas de milhar de empregados espalhados pelo mundo inteiro. A sua cadeia de fornecimento global afecta milhões de pessoas e os seus clientes ascendem aos milhares de milhões”, escreve. “Por um lado, é fácil – e até aceitável – culpar as empresas no seu todo pela crise ecológica. Todavia, quando consideramos o seu potencial para reduzir, radicalmente, os seus impactos, reinventar as suas fontes de energia e readaptar as suas infra-estruturas na tentativa de restaurarem os ecossistemas da Terra, o movimento da sustentabilidade corporativa poderá ser considerado como o mais importante movimento ambiental do mundo na actualidade”, acrescenta, recordando também que quando levamos em conta de que forma é que esta realidade afecta a disponibilidade de alimentos e água para as pessoas mais pobres do planeta, a mesma pode ser considerada, também, como o mais importante movimento de justiça social.

Mas Schein não é assim tão optimista quanto possa parecer. Numa entrevista que deu ao The Guardian e questionado sobre o “estado de espírito” que encontrou ao entrevistar os 75 executivos seniores para o seu líder, afirmou que estamos perante um misto de optimismo e frustração, pois se existem alguns casos que podem ser considerados de grande sucesso, as resistências e obstáculos enfrentados por estes agentes da mudança conseguem esmorecer a boa vontade de qualquer um.

Schein afirma que, nos piores momentos, todos os que apoiam este necessário movimento sentem que estão muito aquém do seu objectivo de transformarem os negócios e a sociedade. E continuam a questionar-se: “Porquê? Por que motivo é que todos os executivos seniores, apesar de todas as evidências científicas, não sentem a mesma urgência de transformarem as suas empresas em resposta às alterações climáticas? Porque é tão difícil as pessoas verem, de forma clara, as relações profundas existentes entre a forma tradicional de operar os negócios e os prejuízos dos ecossistemas dos quais dependemos para sobrevivermos? Por que razão existe tanta resistência à mudança?”.

“Apesar de dizermos a nós mesmos que é a política, o emprego, e a nossa economia dependente dos combustíveis fósseis que responde a todas estas questões, continuaremos á procura de novas respostas”.

E este é o motivo principal para que tenha escrito este livro: para oferecer um novo tipo de resposta a estas questões e um novo local para se procurar soluções.

Helena Oliveira

Editora Executiva

1 COMENTÁRIO

  1. Partilho da dificuldade que temos, no entanto com esforço no terreno, princípios de confiança e estudo organizado de respostas parece é concerteza um rumo que passa por aproveitar o que temos sejam eventualmente reduzidos os recursos.

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