Com base num estudo de várias sociedades, tão díspares como a sueca, a norte-americana, a britânica ou a chinesa, Gregory Clark, professor de história económica, conclui que os níveis de mobilidade social permanecem quase inalteráveis ao longo de muitas gerações, não variam entre povos diferentes e são resistentes a políticas sociais, por mais bem-intencionadas que estas sejam. Deitando por terra o sonho da igualdade de oportunidades, a obra promete dar que falar
POR HELENA OLIVEIRA

No concurso televisivo “Quem quer ser milionário”, produzido em Portugal desde o ano 2000, o prémio máximo foi angariado pela 5ª vez. O jovem José Maria Souto Moura levou para casa 100 mil euros.

José Maria é filho do ex-procurador-geral da República José Souto Moura e sobrinho do famoso arquitecto Eduardo Souto Moura. O nome de família (o qual, por acaso, não utilizou quando se apresentou no programa) cedo suscitou matéria para falatório, quando foram reveladas as suas raízes familiares, e a mesquinhice nacional uniu-se para “dar a entender” que, decerto, tinha havido ali “marosca”, e que “grande coincidência” não foi o facto de um miúdo filho de “famílias importantes” ter conseguido responder a 15 perguntas dificílimas e ter levado 100 mil euros para casa (“como se precisasse”, pôde ler-se em muitos comentários online).

A crise financeira e económica global veio alargar ainda mais o fosso entre ricos e pobres e, em muitos países, a escada da igualdade de oportunidades tornou-se muito mais difícil de trepar.

À parte o facto de este tipo de estupidez nacional dar pano para mangas – o que não é objecto do texto que se segue – o que têm estas duas afirmações uma a ver com a outra? À primeira vista, nada. Mas, no final do texto, talvez mudemos de opinião.

O artigo que se segue versa sobre um estudo, que será publicado em livro no final do mês, intitulado “The Son Also Rises: Surnames and the History of Social Mobility, escrito por Gregory Clark, professor de economia na Universidade da Califórnia e cronista da revista The Atlantic (entre outras). O autor, cuja área de especialidade é a história económica, consegue provar que o movimento ascendente na “escadaria social” pouco mudou ao longo de oito séculos.

Utilizando uma técnica comum na literatura de romance, Clark “seguiu” os nomes de família, ao longo de várias gerações, para avaliar a mobilidade social em vários países e ao longo de vários períodos – acabando por concluir que as taxas de mobilidade são mais baixas do que as estimativas convencionais, que não variam entre sociedades diferentes e que são resistentes a políticas sociais, por mais bem-intencionadas que estas sejam. O autor examina e compara apelidos – e o status social correspondente – em casos tão distintos como a Suécia moderna, a Inglaterra do século XIV ou a Dinastia Qing chinesa, entre outros. E com esta “caça ao apelido” demonstra de que forma o destino é determinado pelos nossos ancestrais (com as devidas excepções, é claro) e que todas as sociedades – sejam a norte-americana da actualidade, a da China comunista ou a do Japão moderno – possuem níveis baixos de mobilidade social muito similares.

As notícias são ainda piores quando Gregory Clark assegura que são necessárias entre 10 a 15 gerações para que uma “família de elite” desça de classe, e que o mesmo acontece ao contrário, ou seja, quem nasce pobre, pobre permanecerá ao longo de centenas de anos. Pior que as piores notícias é o facto de o autor afirmar também que não há (quase) nada que a sociedade possa fazer para alterar este destino. O que é uma conclusão muito difícil de aceitar.

Como não poderia deixar de ser, o estudo em causa está a gerar polémica, apesar de o autor afirmar estar imune às críticas, pois apenas se limitou a realizar um trabalho. Mas, e de qualquer das formas, o material recolhido e as conclusões a que chega Gregory Clark merecem reflexão, nomeadamente no que diz respeito à eleição do enfoque na melhoria da desigualdade de rendimentos e não em termos de mobilidade social.

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Um murro no sonho americano e nos habituais indicadores sobre mobilidade social
No seu discurso sobre o estado da nação – que marca a “abertura” oficial do ano político nos Estados Unidos – Barack Obama elegeu a desigualdade social como um dos temas fortes para o ano de 2014. Dando como exemplo o actual presidente da Câmara dos Representantes, John Boehner, oriundo de uma família muito modesta, e o seu próprio exemplo, enquanto representante da minoria afro-americana, Obama afirmou que “o sonho americano continua intacto”.

Com um pedido especial ao Congresso para que aprove o aumento do salário mínimo em conjunto com outras medidas que fortaleçam as oportunidades de ascensão social, a ideia do presidente norte-americano é, em suma, a de alargar o “sonho americano” a um número crescente de americanos, para que a mobilidade social seja uma realidade. “Aqui, na América, o nosso sucesso não depende de um acidente de nascimento, mas da força da ética do trabalho e da dimensão dos nossos sonhos. É assim que o filho de um dono de um bar conseguiu chegar a Speaker of the House e o filho de uma mãe solteira ascendeu ao cargo de presidente da nação mais poderosa da Terra”, afirmou Obama, ao que se seguiu uma ovação de pé.

Ora, os dois casos referidos são, de acordo com o estudo de Clark, uma verdadeira excepção à regra. E, mais ainda, o autor assegura que a vasta maioria de outros estudos e pesquisas sobre a questão da mobilidade social estão completamente errados. “Os estudos convencionais sugerem que vivemos em sociedades extremamente móveis e que no espaço de duas ou três gerações a ascendência familiar deixa de produzir qualquer efeito””, afirma o autor, numa entrevista que concedeu à Mother Jones.

Todavia, e de acordo com os dados compilados por Clark, “existe uma enorme correlação entre a ‘herança’ de status social ao longo de várias gerações”, sendo que estes mesmos dados sugerem que “mais de metade do status que possuímos ao longo de toda a vida é previsível de acordo com a altura em que somos concebidos”. Acresce que esta estimativa é tão verdadeira na moderna Suécia como na Inglaterra medieval. Na verdade, Clark assegura que apesar das melhorias nos rendimentos, da educação para todos e do livre acesso às oportunidades que caracterizam a maioria das sociedades modernas, a taxa de mobilidade social não sofreu qualquer alteração face à era pré-industrial.

Mas, em termos práticos, como é que Clark chega a estas conclusões? O autor explica que considerou diferentes medidas de avaliação de status social para diferentes sociedades, apesar de, no geral, estas terem pontos em comum. Por exemplo, nos Estados Unidos, basta procurar quem era rico na década de 1920 e ostentava apelidos raros – como Guggenheim ou Roosevelt – e seguir o status social desses nomes ao longo de 80 ou 90 anos. Todavia, o exemplo de Inglaterra (Clark é escocês) é o que melhores dados oferece. Com base nas pessoas que frequentaram as universidades elitistas de Oxford e de Cambridge desde o ano de 1200, é possível seguir a sua descendência – e respectivo status social – ao longo de 800 anos. De seguida “basta analisar os apelidos que sobressaem nessa mesma elite e saber o quão persistente é a sua exposição no interior desta”, explica.

Mas e mais uma vez, por que motivo diferem tanto estes dados dos estudos convencionais?

Numa outra entrevista publicada pela The New Republic, Gregory Cark explica melhor esta inadequação de pontos de vista. Os demais estudos existentes olham, na esmagadora maioria das vezes, para a mobilidade social a partir de um único indicador, seja o nível de rendimentos, a riqueza, a educação ou a ocupação. E quando se encara este tipo de mobilidade – os aspectos individuais do status – a tendência é para que existam flutuações aleatórias, algo que não acontece quando a vida e o status de determinada pessoa são vistos de uma forma mais equilibrada e abrangente.

Geralmente, nas pesquisas que se fazem sobre mobilidade social, a tendência é olhar-se para os rendimentos dos filhos comparativamente aos dos pais [em Portugal, todos sabemos que a definição de sucesso é ‘dar um futuro melhor ao meu filho do que aquele que eu tive’ – sendo que o factor educação é o mais privilegiado nesta equação], indicador que revela apenas um dos aspectos do status social.

O autor dá o exemplo de um amigo que tem em São Francisco, com um bacharelato feito na Universidade de Northwestern e uma licenciatura em Direito tirada na prestigiada universidade de Stanford. O seu rendimento é perto do zero, pois passa a maior parte da sua vida como voluntário em campanhas políticas e a praticar budismo. Assim, se se considerar só o rendimento, é possível afirmar que, face ao seu pai, existe um declínio dramático em termos de status social; todavia, se o nível académico for o indicador avaliado, continua na mesma dimensão social face ao progenitor. Ou seja, se tomarmos o status social como um todo, avaliando não só o rendimento, mas também a educação, a riqueza, a saúde, a longevidade, conclui-se que as mudanças são extremamente lentas.

Uma outra conclusão a que chega o professor de história económica prende-se com o facto de o acesso à riqueza ou à educação não serem, para a manutenção do status, aspectos tão determinantes como julgaríamos. E dá o exemplo da Inglaterra do século XIX e das duas únicas universidades existentes na altura, Cambridge e Oxford. Para nelas ser admitido, existia um padrão elitista que continua a persistir, mesmo que, na actualidade, ambas as instituições tenham tentado alterar as suas regras de frequência apostando mais na democracia e na meritocracia, admitindo estudantes com base na performance que tiveram nos exames nacionais, em conjunto com a existência de financiamento público de bolsas. Mas e mesmo assim, a conclusão é que as famílias de elite persistem tanto em Oxford como em Cambridge ao mesmo nível do que acontecia no século XIX. Ou seja, estas duas universidades não souberam gerir qualquer mudança em termos de mobilidade social.

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O peso do determinismo genético
Uma das conclusões mais surpreendentes – e também mais polémica – relacionada com o trabalho de Gregory Clark – e que mais tem a ver com a questão de vivermos num mundo cada vez mais desigual – prende-se com a ideia de os esforços para democratizar a educação e eliminar a discriminação, essencialmente ao longo dos últimos 100 anos, parecerem não ter tido qualquer efeito visível na mobilidade, o que leva o autor a afirmar que esta está profundamente ligada a um “traço herdado” ao qual não é possível escapar.

Para o autor, apenas os casamentos que se fazem entre pessoas que são mais prósperas e educadas com outras menos afortunadas poderá diluir os recursos genéticos das famílias “ricas”, empurrando-as, lentamente, para uma “classe mais próxima da média” e impedindo a ascensão de uma “classe alta permanente”.

Ora esta tese conduz-nos a conclusões politicamente incorrectas. Como escreve a revista Economist, numa crítica crua ao livro, o “trabalho de Clark não pode ser considerado racista, mas anda muito perto do determinismo genético”. Apesar de não afirmar que os americanos negros são pobres porque são negros, o seu trabalho implica, contudo, que os negros americanos pobres assim permanecem porque descendem de pessoas com “competências sociais baixas”. O Economist acusa o autor de se esquecer do impressionante trabalho que tem vindo a ser feito no que respeita aos efeitos positivos de programas de apoio à pobreza que, a seu ver, fazem a diferença.

Relegar estes esforços para segundo plano é o mesmo que negar o pressuposto de que é possível produzir uma sociedade mais justa na qual os talentosos e os mais enérgicos conseguem ascender ao topo, ou seja, que tenha como base a meritocracia. Mais uma vez, o exemplo da Suécia vem a propósito. Como escreve: “em todas as sociedades, o que mais parece importar é saber de quem é que se é filho. E, num ponto extremo, vemos que a moderna Suécia, com um sistema extenso e bem-sucedido de educação pública e apoio social, em termos de mobilidade social não é, de todo, diferente da Suécia pré-industrial ou da Inglaterra medieval, onde obviamente não existiam este tipo de políticas governamentais”. Um outro exemplo vem da China pós-revolucionária: apesar de Mao ter tentado, radicalmente, refazer a sociedade chinesa transformando-a num sistema igualitário, comunista, matando pessoas pertencentes às classes altas, a verdade é que os apelidos aristocráticos – provenientes da China imperial ou republicana – se mantêm no topo, incluindo, obviamente, os dos membros do Partido Comunista, demonstrando mais uma vez que “Darwin bate Marx”.

Ainda relativamente à questão da prevalência das elites em Oxford e Cambridge, a The New Republic questionou o autor se esta manutenção elitista significava que apenas as famílias ricas se “poderiam dar ao luxo” de providenciar o necessário para que os seus filhos fossem aceites em tão ilustres instituições. Clark responde também com um exemplo: o das crianças provenientes de meios desfavorecidos que são adoptadas por famílias de status social superior. De acordo com a sua pesquisa, o autor afirma que apesar de a família que adopta poder ter alguma influência no percurso de vida destas crianças, a maioria dos “resultados”  (na vida dos adoptados) está intimamente relacionada com a família de origem. Significa isto que o factor genético é mais importante que o cultural? Pese embora o facto de não ter dados suficientes para o afirmar, Clark defende que se os factores culturais também têm o seu peso, a natureza da “herança” observada é sempre mais consistente em termos genéticos do que culturais.

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O enfoque na redistribuição e não na procura da igualdade
Apesar de o próprio presidente Obama ter agora o cuidado de falar mais em “igualdade de oportunidades” do que em “desigualdade de rendimentos” – um termo mais associado ao conflito entre classes – a verdade é que depois de analisados os resultados deste estudo, qualquer tentativa de aspirarmos a um mundo justo e igualitário parece votada ao insucesso.

Se o facto de se ganhar uma bolsa para Oxford, ou para Harvard, em nada contribui para uma ascensão de classe, se as políticas que defendem que a mobilidade social deverá ser promovida através da expansão do estado social, com programas de apoio à pobreza ou à educação, não servem para nada, se tomarmos como certa esta ideia de que é o determinismo do berço que dita o futuro dos cidadãos, o que acontece ao sonho americano – e aos demais sonhadores de todo o mundo?

Gregory Clark reafirma que apesar das intervenções sociais em massa, no que respeita à provisão de saúde e educação, não serem capazes de alterar a mobilidade social, a “solução” poderá residir na redistribuição da riqueza por toda a sociedade. E é neste ponto que a Suécia aparece destacada na corrida quando é comparada, por exemplo, aos Estados Unidos. Apesar de as suas taxas de mobilidade social não registarem diferenças face às das demais sociedades analisadas, os seus esforços interventivos sociais acabam por beneficiar os menos afortunados, na medida em que estes são receptores das suas políticas de redistribuição bem-sucedidas.

Se a nível individual é até possível passar-se de Gata Borralheira a Cinderela, tudo se complica quando se fala em termos de ascensão social. E apesar de se poder descer ou subir um degrau nesta escada, há que ter em consideração, segundo o autor, que este é um processo que leva muito, muito tempo. “Concluímos que 90% das elites numa determinada sociedade mantêm o seu status ao longo de várias gerações e que apenas uma percentagem ínfima das mesmas ‘cai’ do seu pedestal de riqueza”, afirma à Mother Jones.

De resto, acrescenta, “o discurso de que toda a gente tem direito à igualdade de oportunidades é bonito para constar em capas de revistas ou em discursos presidenciais, mas a sua frequência na vida social real é muito, muito rara”. “As diferenças actuais de status irão persistir ao longo de centenas de anos, não existirá igualdade de oportunidades [na América] para latinos e negros nem nesta geração, nem nas seguintes”, garante. “O que aconteceu na Inglaterra é que a elite medieval está, agora, a aproximar-se da média. Mas esse processo levou mais do que 400 anos a ser concluído”, sublinha ainda.

Se as conclusões de Gregory Clark estiverem correctas, parece que a única hipótese em termos de apoios sociais que beneficiem os que não nasceram em berço de ouro será uma espécie de solução à Robin Hood: tirar dinheiro aos muito ricos e redistribui-lo pelos pobres. O que, por todos os motivos, nos faz desejar negar que a premissa do professor de história económica esteja certa.

E poderá o leitor perguntar, “o que tem tudo isto a ver com o facto de um jovem de “boas famílias” ter ganho 100 mil euros num concurso? A priori, nada. Mas a verdade é que a percepção por parte dos “pobres” de que os ricos têm o caminho facilitado, mesmo que injusta neste caso em particular, faria sentido na cabeça de Gregory Clark. Enquanto isso, a desigualdade e o fosso entre ricos e pobres não pára de aumentar.