Talvez eu esteja bem diferente – estarei com certeza – mas talvez estejamos todos diferentes: com mais respeito pelos outros, com maior capacidade de aceitar o tempo que as coisas precisam de ter, e com mais amor para transmitir a quem nos rodeia, incluindo no trabalho
POR SOFIA SANTOS

Este último ano foi um ano de mudanças profundas para muitos de nós. Para mim foi. E, quando tudo começou, nunca pensei que a mudança pudesse ser tanta.

Em 2020 terminou um plano de vida, a exaustão apoderou-se de mim, o desgaste foi imenso e entrei em 2021 a desejar que 2022 chegasse depressa. Se a nível pessoal 2020 foi um mar agreste de emoções, 2021 iniciou-se a saber que mais perdas estariam próximas, uma delas concretizou-se com a partida de um mentor e amigo do coração, cuja viagem só tomei conhecimento pelas noticias, e três dias após o seu falecimento. Ainda não digeri a morte dele e, na realidade, acho que a qualquer momento irei tomar o nosso pequeno-almoço mensal usual ou que me cruzarei com ele algures. Talvez me cruze, daqui a algum tempo. Espero que sim…

Nesta maré intensa de emoções, o trabalho foi aumentando, e a equipa crescendo. Sem dúvida que o tema da sustentabilidade é hoje um tema chave das empresas e organizações. Em Novembro de 2019 a minha empresa era eu. Em Maio de 2021 somos 5 pessoas com contratos de trabalho dignos. Em plena pandemia o trabalho surgia, e por isso, criar postos de trabalho era não só uma necessidade mas, acima de tudo, um dever. Se, quando parecia que o mundo estava a acabar, e eu tinha a sorte de ter trabalho em abundância, então tinha o dever de, à minha medida, devolver o que o universo me estava a proporcionar. Crescer não era o que eu tinha planeado, mas nunca planeei nada na vida, e não era agora o momento para o fazer. Consigo gerir bem no meio do caos – aliás esse é o meu padrão – e quando aprendi a seguir o instinto, essa dinâmica tornou-se ainda mais simples.

As horas intermináveis ao computador, em zooms e teams, que nos deixam apenas a noite para escrever o que tem de ser escrito, foi pesando em mim, e em toda a equipa… Assumi as minhas limitações e os meus atrasos, e recebi de volta compreensão, apoio e reforço pelo apoio prestado. Recebi compreensão e esforço redobrado da equipa. Recebi gratidão, compreensão, companheirismo dos “clientes” que são mais do que “clientes”, sendo antes parceiros nesta aventura de tentarmos ter organizações mais equilibradas e justas social e ambientalmente. E nunca tinha sentido isto.

Talvez eu esteja bem diferente – estarei com certeza – mas talvez estejamos todos diferentes: com mais respeito pelos outros, com maior capacidade de aceitar o tempo que as coisas precisam de ter e com mais amor para transmitir a quem nos rodeia, incluindo no trabalho.

No meio disto tudo, sou uma europeia, que vive com conforto no centro da capital de um país em que as vacinas já chegaram, e mais coisa menos coisa, a vacinação vai atingir o seu objetivo. Mais de metade do mundo não vive no conforto, não tem hospitais dignos, nem escolas, e as vacinas estão longe de lá chegar. Assumir e reconhecer que, com todos os problemas “ocidentais” que eu possa ter, sou uma privilegiada, é um passo importante. Esse reconhecimento implica um sentido de dever e obrigação voluntária em querer fazer parte da solução, ou pelo menos, para contribuir para ela. E assumir essa dever voluntário é bom, e traz-nos paz na alma.

“Ir abaixo” vamos todos. É humano e normal neste contexto. Recuperar pode ser bem mais difícil para alguns do que para outros. Depende do nosso histórico e do contexto atual. Eu tive o privilégio de ter amigos maravilhosos que estiveram sempre presentes para me socorrer na tempestade, e de ter parceiros de negócios que demonstraram respeito e compreensão pelas minhas fraquezas, e me deram espaço para recuperar.

Cabe aos mais resilientes ajudar e “empatizar” com quem tem mais dificuldade em se reerguer.

Da minha parte sinto-me Grata, por todo o respeito, humanismo e simpatia que tenho recebido ao longo desta fase. Espero estar à altura para retribuir. E se conseguíssemos pensar mais desta forma, talvez a vida se tornasse mais leve e feliz.