Maior justiça nas decisões, preocupação com os funcionários e as suas vidas fora da empresa, conhecimento das dificuldades de cada um e empenho na tentativa de melhorar continuamente são características que os empresários católicos que fazem parte da ACEGE partilham. E se essa visão mais humanista da gestão é sempre relevante, no momento de pandemia e crise económica que vivemos a sua atuação ganha ainda mais relevância
POR JOANA PETIZ

João Pedro Tavares, que lidera os empresários cristãos, defende que é positivo levar valores não económicos ao mundo do trabalho e à economia. Em entrevista ao Dinheiro Vivo [que aqui republicamos*], o presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores – que inclui banqueiros, grandes empresários e líderes portugueses – explica como funciona a ACEGE e porque os seus membros têm uma forma diferente de gerir.

De que forma ser católico e membro da ACEGE influencia a gestão diária de uma empresa?

Naturalmente que influencia. E ainda bem que influencia. Tudo o que somos e em que acreditamos influencia a forma como gerimos e isso é importante porque traz diversidade às organizações. Mas de que forma? Cada gestor é uma pessoa e deve gerir com os seus valores, princípios, as suas características e talentos, e em unidade de vida, isto é ser na empresa aquilo que é na sua vida pessoal. Desta forma é possível dar mais confiança a todos os que connosco trabalham. Viver nesta autenticidade é muito importante, porque muitas vezes assistimos a gestores com duplicidade de vidas e máscaras consoante as circunstâncias e os contextos.

É o que distingue os membros da ACEGE?

É por isso que a ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores) tem um papel muito importante, tendo como missão e propósito “Inspirar os líderes empresariais a viver o Amor e a Verdade como critérios de gestão e com isso transformar as empresas e influenciar a sociedade”. Repare que promovemos a introdução de valores não económicos (Amor e Verdade) no mundo do trabalho e da economia.

Não é uma perspetiva pacífica…

Claro que com isto se cria maior tensão. Recordo-me do dia em que, enquanto líder , o transmiti no trabalho como um compromisso às pessoas que comigo trabalhavam: “Comprometo-me a viver estes valores e, com toda a certeza, irei falhar, irei precisar de ajuda e por isso o que vos peço é que me ajudem a viver aquilo a que me comprometi. Sintam-se à vontade para me chamar a atenção ou corrigir”. Quando explicitamos aquilo a que nos comprometemos e abrimos à participação de todos, o compromisso é coletivo, do grupo. Por outro lado, a introdução destes valores dá maior unidade à vida das pessoas. Não somos autómatos, nem recursos humanos – no meio de outros recursos de que a empresa dispõe – somos pessoas.

Depois da surpresa, há efeitos positivos?

No final do dia, garanto que o resultado é enormemente positivo, em comprometimento, em felicidade no trabalho, em maior produtividade, em menores “custos de reposição”. Balanceia-se o curto-prazo com o médio e longo-prazo. A vida pessoal com a carreira. Os resultados económicos com as pessoas. Um líder não deve ser alguém que dirige, mas sobretudo alguém que inspira, que serve, que dá o exemplo, que não busca o benefício próprio, mas o de todos. Inclusive, que se sacrifica por tudo isso. Temos muitos exemplos de membros da ACEGE que ao longo das suas carreiras e vidas profissionais têm adotado estes princípios e que seria bom serem tornados públicos, pois acreditamos que o exemplo é inspirador e transformador.

Existem requisitos particulares para pertencer à ACEGE?

Não existem requisitos particulares numa associação que conta com mais de 1200 associados, de múltiplas gerações, origens geográficas, percursos de vida, líderes empresariais, empresários, gestores, mas também advogados, engenheiros, economistas e, tantos outros nos seus percursos de trabalho (e que podem passar também por situações de desemprego). Não nos guiamos pelos cargos que ocupamos, que são efémeros, mas pela consciência de que nos é dada uma vocação para servir pela liderança (que é o assumir da responsabilidade pessoal em colocarmos os nossos talentos e capacidades, mobilizando-nos e aos outros para transformar o mundo, a partir do contexto do trabalho). O requisito é o compromisso pessoal com a matriz cristã, alicerçado em Cristo, num caminho de busca e de crescimento, pessoal e comunitário. Por isso todos são bem-vindos para viver a ACEGE e para transformar a realidade onde vivemos.

E tem havido mais adesões neste momento difícil do país e da economia mundial?

Apesar do confinamento tem havido uma enorme adesão às múltiplas iniciativas que temos promovido, a nível nacional, nos núcleos de cada região ou nos grupos de reflexão. Apesar do confinamento, a proximidade ficou mais reforçada, em torno desta necessidade de “Construir a Esperança a partir da crise”. [Veja mais abaixo informação sobre o ciclo de conferências que arrancou quarta-feira] É muito relevante ver como os associados, e muitos líderes, têm aderido às diferentes propostas que fazemos, nomeadamente no desenvolvimento das “Empresas familiarmente Responsáveis”, mas também no “Compromisso Pagamento Pontual” ou nos grupos de reflexão que desenvolvemos entre associados dos 14 núcleos regionais.

Há uma sensação de pertença que ajuda, é isso?

Os líderes empresariais precisam de partilhar, encontrar espaços de diálogo verdadeiro, onde possam aprender com os outros, nas suas boas e más decisões. O ato de liderança, é por natureza um ato solidário e, no final, depois de todo o trabalho de equipa, é preciso decidir. Por isso muitas vezes é angustiante e difícil, e toda esta dinâmica que a ACEGE propõe ajuda a uma reflexão mais profunda, com outros e com Deus.

Neste contexto particularíssimo que vivemos, em que é preciso tomar decisões diárias nomeadamente visando a sobrevivência das empresas (e em consequência de postos de trabalho), como se equilibra o lado mais humano, que respeita a vida de pessoas e suas famílias, com lay-offs e cortes de salários ou pessoal?

De facto, o ideal seria que esse tipo de preocupações fizesse, desde sempre, parte da preocupação dos líderes empresariais. Em todas as circunstâncias, a defesa da dignidade das pessoas e das suas famílias, a gestão de todos os intervenientes, a criação e distribuição de valor económico, social e ecológico são aspectos fundamentais a ter em consideração. Se não era assim no passado que o seja agora. Este é o mais virtuoso modelo e não a aplicação de outros orientados exclusivamente ao lucro com vícios de curto-prazo que comprometem o futuro. Mas, sem ilusões diga-se que a situação é para lá de importante e de enorme urgência. As empresas são de enormíssimo valor para a consecução destes objetivos e seria uma enorme perda para todos a destruição deste tecido empresarial pois leva consigo a um aumento da pobreza nas famílias e este será um dos maiores estigmas desta crise.

As empresas têm o dever de proteger o emprego?

Como afirmámos na recente tomada de posição sobre o tempo de crise em que convidávamos a “Construir a esperança na crise”, é muito importante que os gestores coloquem a par da racionalidade económica, sempre necessária, a preocupação com a pessoa humana, o respeito pela dignidade de cada um, o respeito pelas suas famílias. E quando refiro o respeito pela pessoa, são aspetos concretos, como seja preocuparmo-nos com os colaboradores, mas também com os fornecedores, pagando na hora acordada e dessa forma trazendo liquidez para enfrentar a crise. Ainda na última semana a ACEGE, com a CIP, Apifarma e CGD lançou um desafio ao Estado para liquidar as suas divididas e pediu, a todos os que o possam fazer, para não retardar pagamentos.

Houve na sua gestão algum caso particular, ou de outro membro da ACEGE de que tenha conhecimento, em que a doutrina social católica tenha influenciado decisões?

Muitos dos líderes empresariais da ACEGE debatem-se com esse desafio todos os dias, com essa tensão dos valores, dos princípios económicos, sociais, pessoais, familiares, ecológicos e os exemplos são múltiplos. Desde logo pessoas que prescindiram do que recebiam em maior valor e em prol da sua equipa e dos seus colaboradores mais afetados. Aliás, nenhum líder se deveria colocar numa situação mais folgada do que a dos seus colaboradores. Ou ainda, empresas que procuraram reduzir o ruído da incerteza junto dos seus colaboradores, antecipando para os próximos meses uma parte das remunerações indexadas à atividade e, com isso, contribuírem para uma maior estabilidade familiar. Qualquer solução que não conduza ao desemprego e à eliminação do posto de trabalho é melhor, mas nem sempre possível. Um líder empresarial, ao decidir sobre postos de trabalho deve tomar em consideração o contexto familiar dos seus colaboradores. Despedir um colaborador cuja família não tenha outras alternativas de subsistência ou pertença a uma família mais numerosa será um foco de potencial pobreza. Por isso, por detrás de qualquer critério empresarial estão sempre critérios pessoais que podem ser mais amplos e humanos. Antes de despedir deve avaliar todas as alternativas possíveis, em que se inclui o lay-off. Mas houve empresas que ao optarem pelo lay-off compensaram os seus colaboradores nos valores remanescentes de modo a diminuir drasticamente o impacto nos orçamentos familiares.

E têm medidas planeadas para fazer face a estes tempos?

Pretendemos implementar ferramentas de combate à pobreza, como a utilização de semáforos, a partir das empresas, não numa vertente estritamente assistencial, mas de formação, de capacitação e de maior responsabilização das famílias. Acreditamos enormemente no papel das famílias na sociedade e na noção de família como fonte de assistência, de crescimento, de valor comunitário, de realização pessoal e coletivo. Outro instrumento que a ACEGE promove e que muitas empresas já o utilizam (envolvendo mais de 19 mil colaboradores) é o programa de “Empresas Familiarmente Responsáveis”. É um programa que possibilita às empresas, desenvolverem medidas e políticas, definidas anualmente e avaliadas externamente, que colocam o foco na família dos seus colaboradores, na unidade de vida do colaborador que, como referi no princípio desta entrevista, é essencial para os líderes e que também é para os colaboradores.

Os patrões continuam a ser vistos como uma força que se opõe aos trabalhadores, porque permanece essa ideia?

Muitas dessas imagens estão ainda muito presentes – e se existem é porque houve razões para isso ou foram alimentadas por outros agentes sociais – mas que me parecem atualmente em franca mudança nesta perceção. Reconheço muitos, imensos, líderes empresariais muito competentes e humanos na forma como lidam com os seus negócios e com as suas pessoas em particular (e propositadamente não uso a expressão “recurso humano”), promovendo, uma cultura de respeito mútuo e de serviço entre todos, com enorme criação de valor e de maior felicidade no trabalho, com exemplos práticos de distribuição justa de valor. Mais do que salários dignos é importante um trabalho digno (em que o salário é uma importante componente, entre outras, como a harmonia pessoal e familiar, por exemplo). Mas também, temos de reconhecer que a nossa economia cresceu muito à custa de salários relativamente baixos sendo necessário crescer mais na cadeia de valor para, com isso, trazer mais valor para a economia. Esta não é uma responsabilidade individual, mas coletiva de todos os líderes. A mais longo-prazo tem de existir uma aposta mais estratégica num rumo para o país, na aposta na educação e não um caminho às guinadas com mudanças sucessivas de políticas. Mas, a mais curto-prazo, aliás, no imediato, será necessário reposicionar muitos negócios e empresas, requalificar muitas pessoas pois na saída desta crise os desafios económicos, as novas oportunidades e o mapa do trabalho irão mudar muito significativamente. E neste particular, se há grupos que me preocupam enormemente são os jovens sem acesso a oportunidades para as quais se qualificaram ou os desempregados. Se há momento para mudar, para transformar, é este. Porque, por detrás de uma crise estão sempre inúmeras oportunidades.

 


ACEGE PROMOVE WEBINARS PARA DEBATER O MOMENTO

A organização conta com líderes das mais diversas áreas, incluindo na sua direção nomes como João Pedro Tavares (presidente), Pedro Rocha e Melo (vice-presidente), António Pinto Leite (presidente do Conselho Estratégico), António Monteiro (da Fundação MillenniumBcp), José Roquette, João Talone, D. Manuel Clemente, Paulo Macedo (CGD), Pedro Castro e Almeida (Santander) ou os irmãos Salvador e Vasco de Mello (MS e Brisa). Já nesta quarta-feira, D. Manuel Clemente esteve em destaque na primeira de um ciclo de conferências/webinars promovido pela ACEGE para Construir a Esperança, que nos próximos meses irão dar diferentes visões de um tema que está a afetar milhões de portugueses, estando já confirmadas contribuições relevantes onde se incluem as da ministra do Trabalho e Solidariedade, Ana Mendes Godinho, do gestor Pedro Castro Almeida (presidente do Santander) e do professor e economista João César das Neves. O ciclo será encerrado pelo próprio Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Republicado, com permissão, de Dinheiro Vivo


1 COMENTÁRIO

  1. Caros Senhores,

    Desde já, agradeço a partilha.

    Informo que terei interesse e gosto, em estar presente nas conferências/webinars.

    Atenciosamente,

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