Quem o afirma é António Gomes Mota e Sofia Santos Albuquerque, o presidente da ISCTE Business School e a coordenadora do Sustainability Knowledge Center dessa escola, numa entrevista conjunta ao VER. A propósito do recém-criado Sustainability Knowledge Center, cujo principal objectivo é preparar uma nova geração de gestores e economistas que percepcionem a sustentabilidade como um tema directamente relacionado com os custos e receitas das empresas, os responsáveis alertam ainda para a nova política de RSC publicada pela UE e para a criação de um PIB Verde até 2020
POR HELENA OLIVEIRA

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António Gomes Mota, Presidente da ISCTE
Business School / Sofia Santos de Albuquerque,
coordenadora do Sustainability Knowledge
Center da ISCTE Business School

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Que principais motivos estão subjacentes à criação deste Sustainability Knowldege Center?
Os temas da sustentabilidade vão ter de estar presentes nas estratégias dos países, autarquias e empresas pelo menos em 2020, de forma a que se consigam dar as primeiras respostas às exigência que irão ocorrer a partir dessa data. Como escola de Gestão, é nossa função antecipar estas tendências e fornecer um conjunto de conhecimento e ferramentas aos nossos alunos e, assim, ajudarmos na criação de uma nova vaga de economistas e gestores com uma visão abrangente do ecossistema económico-social-ambiental em que se inserem. Em suma, o principal motivo prende-se com a nossa missão em promover um ensino de referência e de sermos capazes de preparar os nossos alunos para os desafios futuros.

Que tipo de actuações terá este centro de conhecimento para a sustentabilidade?
O objectivo do Sustainability Knowledge Center (SKC) é tornar-se num centro de referência ao nível do conhecimento em sustentabilidade. No entanto, para se ter um centro de conhecimento de excelência, é necessário um trabalho longo e coerente. E isso demora o seu tempo. Como tal, o SKC pretende caminhar com passos sólidos mas sem ambicionar ter uma lista de projectos extensa nos primeiros dois anos. Neste sentido, e em 2012, o SKC irá:

  • Lançar a sua newsletter mensal
  • Organizar uma conferência no último trimestre sobre as conclusões e consequências da conferência Rio + 20
  • Lançar um livro sobre Sustentabilidade que servirá de base bibliográfica às cadeiras leccionadas no ISCTE e INDEG
  • Desenvolver cursos para executivos e mestrados em Sustentabilidade
  • Desenvolver cursos à medida das necessidades dos alunos e das empresas

Actualmente, este plano de trabalho conta com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, e esperamos que outras organizações se juntem a nós, para que consigamos concretizar com elevada qualidade estes e outros projectos.

Existem já variadíssimas pós-graduações e mestrados que versam sobre a “Sustentabilidade na Gestão”. Quais os principais factores que diferenciam a oferta académica da ISCTE Business School (IBS) das demais?
Sim, existem já vários cursos em sustentabilidade e gestão e mais irão surgir. Desenhar uma pós-graduação ou um mestrado nesta área é algo muito exigente, pois o conceito de sustentabilidade tem vindo a alargar-se para outras áreas ligadas à tecnologia, inovação, criatividade, business design, entre outros. Neste sentido, e por agora, o ISCTE/IBS tem vindo a oferecer a cadeira de SESE (Sustainability: Environment, social and ethics) ao primeiro ano dos alunos do MScBA, a cadeira de Sustainable Development and Energy ao Energy MBA, e cursos executivos sobre sustentabilidade empresarial. Ou seja, oferecemos cadeiras com uma forte componente teórica para os alunos de Mestrados, e cursos de cinco dias mais pragmáticos e práticos dedicados a executivos que tenham de desenvolver os temas de sustentabilidade nas suas empresas. Potenciais pós-graduações e Mestrados são projectos mais ambiciosos que requerem uma preparação e um racional curricular diferenciador e verdadeiramente útil aos alunos. Esse será um passo seguinte.

Apesar de sabermos que esta é, finalmente, uma questão que já integra a estratégia de inúmeras empresas, existe ainda um gap entre uma oferta académica “adequada” e a operacionalização dos conceitos adquiridos nas próprias empresas. Como se convencem gestores e economistas da necessidade, e benefícios inerentes, de se gerir sustentavelmente?
Só se convencem os gestores e economistas dos benefícios da sustentabilidade, ensinando-os novos modelos de gestão e de crescimento. A grande maioria dos gestores e presidentes de empresas que hoje vigoram, nunca ouviram falar em sustentabilidade nos seus cursos. Por isso, é expectável que sejam mais cépticos e que ainda percepcionem estes temas como assuntos “românticos” e não ligados directamente com os custos e receitas da empresa. Para que isso mude, é necessário ensinar novas formas de gestão, de contabilidade e de modelos de crescimento económico. É necessário que a academia dê espaço aos novos modelos que começam já a ser desenvolvidos, e que os difunda pelos alunos, de forma a conseguirmos, todos, com uma abordagem sistémica e criativa, identificar soluções mais adequadas ao bem-estar ambiental e social em que todos queremos viver.

A crise actual pode ter evidenciado, pelo menos a nível teórico, a necessidade de a economia de mercado incorporar comportamentos, e o mais rapidamente possível, que minimizem os efeitos negativos a longo prazo. Contudo, a crise está a obrigar, cada vez mais, a que as estratégias sejam de “sobrevivência”, ou seja, de curtíssimo prazo. Que grau de optimismo é possível ter-se face a este contra-senso entre o que seria desejável e o que é urgente?
Tem razão. A actual crise económica resulta sem dúvida de uma falta de preocupação com o longo prazo e com as consequências dos actos dos agentes económicos nesse longo prazo. É verdade também que, hoje, temos a sensação de que muitas das empresas estão a actuar meramente em função do curto prazo, em vez de serem capazes de desenhar estratégias futuras. E isso vai trazer consequências negativas, sem dúvida. É expectável que nos próximos cinco anos os temas da sustentabilidade sejam colocados para segundos planos por muitas empresas. No entanto, as exigências ambientais que as empresas irão defrontar, irão sem dúvida aumentar significativamente nos próximos oito anos.

A mudança de comportamentos e, neste caso em particular, o desafiar de conhecimentos sólidos já existentes por parte de gestores e economistas, é uma tarefa árdua. Que estratégias académicas poderão ser postas em curso para dar lugar a abordagens efectivas nas empresas?

Inserir gradualmente os temas da sustentabilidade nos cursos de gestão e de economia e criar uma nova geração de gestores e economistas. Oferecer cursos específicos e dedicados a executivos, que consigam transmitir de forma muito concreta, pragmática e simples as mais-valias de se incluir a sustentabilidade nas empresas.

Transformar a sustentabilidade num “business case” pode ser a única forma de convencer os gestores a alterarem as suas estratégias corporativas. O que é mais urgente fazer nesta área?

É urgente que os gestores e economistas se consciencializem de que a União Europeia está a trabalhar na criação de um PIB Verde, que inclui os aspectos ambientais e sociais, e que se espera entrar em vigor em 2020. É necessário que se consciencializem que pelo menos até 2020, as empresas, autarquias e estados terão de saber valorizar o seu impacto na biodiversidade. Ora, isto implica a necessidade de se ter novos métodos de contabilização, novas definições de lucro e novas classificações de investimento. Pensamos que tudo isto são aspectos práticos da construção de um business case. É necessário os gestores e economistas não ignorarem o futuro, porque ele vai mesmo acontecer.

A União Europeia publicou uma nova política de RSC. Das oito áreas de intervenção, quais as que considera mais urgentes implementar numa Europa que precisa, a todo o custo, de promover a sua competitividade?

Pensamos que das oito áreas, as mais urgentes são a integração da Corporate Social Responsibility (CSR) na educação, formação e investigação; e o requisito de todos os fundos de investimento e instituições financeiras divulgarem aos vários stakeholders os seus critérios éticos, ambientais e sociais nos investimentos e empréstimos realizados. A educação catalisa novas formas de gerir com um impacto a médio-longo prazo. A pressão dos fundos financeiros e bancos em divulgarem os critérios dos seus investimentos, catalisa o desenvolvimento de práticas de CSR pelas querem assim ir ao encontro das expectativas e exigências dos accionistas institucionais.

Numa Europa actualmente centrada nos caminhos possíveis para a sua própria sobrevivência, que efeitos práticos poderá ter esta nova política sendo que, em princípio, é constituída por meras orientações e não propriamente por legislações a cumprir?
A nova política de CSR publicada aponta já caminhos muito concretos. As oito áreas de intervenção vão implicar um aumento da pressão sobre o mercado ao nível da aplicabilidade dos temas da sustentabilidade. Se, numa primeira fase, esta política não avança com a identificação de Directivas obrigatórias, pensamos que potenciais leis irão ser desenvolvidas nos próximos oito anos. E, por isso, é necessário que as empresas as antecipem.

Enquanto académico, como define a “propensão” dos alunos destas áreas para a implementação de políticas de sustentabilidade nas empresas?

Uma propensão elevada. Os alunos iniciam as aulas cépticos relativamente à sustentabilidade e às práticas das empresas. Existe uma desconfiança imensa relativamente aos motivos que levam as empresas a implementar estratégias de sustentabilidade. No entanto, e quanto mais casos de estudo analisam e mais literatura lêem, os alunos alteram os seus pré-conceitos e alguns deles decidem desenvolver as suas teses de mestrado na área. O número de teses de mestrado na área de sustentabilidade tem vindo a aumentar no ISCTE nos últimos três anos.

Qual a sua percepção da prática de estratégias sustentáveis nas empresas portuguesas?
Existem empresas que levam os temas da sustentabilidade muito a sério e são coerentes. Há outras que não conseguem levar os temas ao nível estratégico. E ainda outras que se vêm obrigadas a colocar este tema para segundo plano com a crise económica e financeira em que vivemos. Existe ainda um grande caminho a percorrer.

A nova definição de CSR dada pela União Europeia afirma que a Corporate Social Responsibility de uma empresa deve ser vista como “a responsabilidade das empresas pelo seu impacto na sociedade”. Nesse sentido é necessário que seja interiorizado ao nível do Conselho de Administração das empresas a preocupação em ser responsável  pelo impacto que a empresa gera na sociedade; esse impacto é amplo e abarca variadíssimas áreas. Ou seja, é necessário reflectirem sobre qual é o papel da empresa e para quê que ela serve. Uma reflexão fundamental para se conseguir implementar uma estratégia de gestão sustentável coerente.

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Helena Oliveira

Editora Executiva