Estamos a viver um novo capítulo na história da humanidade, no qual coexistem dois paradigmas: o de uma gestão que se continua a reger pelas velhas regras do consumo desenfreado e do lucro de curto prazo; e um emergente, que leva em consideração os desafios ambientais, sociais, económicos e globais, através de uma filosofia inovadora que conjuga e cumpre os objectivos empresariais com a melhoria da sociedade, ao mesmo tempo que pratica uma liderança de serviço. E há que decidir em que lado da barricada pretende ficar

POR HELENA OLIVEIRA

 

“A função da gestão é manter um equilíbrio equitativo e contínuo entre as reivindicações dos variados grupos de interesse directamente relacionados com a empresa em causa: accionistas, empregados, clientes e o público em geral”. Se o leitor pensa que esta declaração foi enunciada na “era da responsabilidade social”, desengane-se. Foi Frank Abrams, presidente da Standard Oil em New Jersey, quem a proferiu, corria o ano de 1951.Depois do debate duradouro em torno da máxima defendida por Milton Friedman, que colocava a maximização do lucro e a responsabilidade para com os accionistas em primeiro lugar, da retórica que “obrigou” as empresas a declararem-se como socialmente responsáveis, das inúmeras boas práticas anunciadas pelas marcas e dos incontáveis relatórios de sustentabilidade que passaram a fazer parte da prestação de contas das organizações, muita água correu debaixo da ponte.

Ao longo dos últimos sete anos, o VER tem vindo a acompanhar as várias alterações que, por inúmeros motivos, de ordem económica, comportamental e/ou global, estão a forçar as empresas a adoptar uma nova narrativa que melhor se coadune com o ambiente em que operam. O mesmo se passa com a redefinição do conceito de capitalismo e, em última análise, da própria economia, movida por novas forças e requisitos.E, neste contexto, não é difícil imaginar por que motivo a gestão e, consequentemente, a liderança, atravessam um período particular de transformação profunda.

O ambiente envolvente onde se movem empresas e trabalhadores está em mutação contínua. Esta mudança está igualmente patente nas actuais preocupações das pessoas e, adicionalmente, nas expectativas que têm relativamente ao que pretendem do mundo empresarial – enquanto cidadãos, membros de equipas, consumidores, fornecedores, investidores ou como “habitantes” de uma comunidade em particular. Com um acesso generalizado e ilimitado à informação, munida de níveis académicos mais elevados, e com uma ligação facilitada e imediata aos quatro cantos do mundo, a sociedade actual é mais exigente, menos manipulável e muito mais atenta ao que se passa em seu redor.

Paralelamente, e devido à conjugação de forças emergentes e globais – as denominadas megatendências – assiste-se a um novo ritmo da inovação, à criação e morte de novas indústrias, em particular “graças” às novas tecnologias e às redes de comunicação disseminadas e omnipresentes. Aos líderes da actualidade já não se exige somente que saibam lidar com as crises internas, mas também que tenham a capacidade de adaptar a sua estratégia face a eventos externos e imprevisíveis. Ou seja, a volatilidade económica e o impacto de eventos naturais obrigam a uma reacção o mais rápida possível.Infelizmente, a maioria das empresas não evoluiu ao ponto de conseguir acompanhar o ritmo de todas estas mutações e continua a operar os seus negócios com o mesmo esquema mental e com as mesmas práticas que conduziram a gestão nas últimas décadas. E está na altura de fazer algo diferente. O “business as usual” já não funciona e é necessária uma nova filosofia para trabalhar e liderar.09102014_GestorBomGestorMau

Um novo paradigma para a gestão

Na verdade, a ideia “chave” que começa a nortear gestão da actualidade não é, de todo, inovadora. Com a pretensão de se criar uma empresa que realmente motive os seus trabalhadores, é necessário que exista um sentido de propósito, um verdadeiro significado, que tenha algum impacto no mundo e nas relações que a mesma mantém com os seus vários constituintes e stakeholders: uma ideia que reflicta uma maior consciência sobre os motivos de existência dos negócios e de que forma é que estes conseguirão não só criar mais valor, como também mais valores.

Este propósito – que é actualmente traduzido através de variados termos – consiste numa espécie de “chamada espiritual e moral para a acção”, significando igualmente o motivo devido ao qual a organização existe. E quando este propósito é genuíno, o mesmo confere aos trabalhadores (e demais stakeholders) um verdadeiro sentido de orientação, ajudando-os a estabelecer prioridades e inspirando-os a percorrer a “extra mile” – o que, seguindo o mesmo raciocínio, é igualmente positivo para o lucro.

Este “chamamento” transcende, pela sua própria natureza, o mero acto de fazer dinheiro. Está, ao invés, relacionado com o facto de as pessoas se unirem para fazerem algo em que acreditam, permitindo em simultâneo que o lucro “se siga”, não como um fim em si mesmo, mas como uma consequência.

Todavia, todos sabemos também que esta realidade encerra um enorme paradoxo: é muito difícil, se não mesmo impossível, atingir “propósitos ou boas intenções” na ausência de rentabilidade financeira. Mas é também sabido que as organizações movidas por este “espírito de missão”não podem depender de donativos ou da simples boa vontade de benfeitores para obterem o duplo retorno de uma gestão “boa” e lucrativa. Assim, a única hipótese é auto financiarem-se através dos seus próprios lucros. E são já muitos os esforços, traduzidos em acção por parte de inúmeros líderes, empresas e movimentos, que estão a tentar dar resposta a uma gestão mais humana, mais preocupada com o próximo, que leve a sério os desafios ambientais, sociais, económicos e globais, através de uma filosofia inovadora que conjugue e cumpra os objectivos empresariais com a melhoria da sociedade.

Encontramo-nos, assim, no meio de uma transição histórica, na qual se torna crescentemente claro que o velho paradigma já não funciona e que as mentes das pessoas estão abertas a novas possibilidades. Ao contrário dos “profetas da desgraça”, que estão reunidos, tacitamente, numa espécie de movimento denominado “TINA – There Is No Alternative”, a presente era está recheada de grandes desafios e de excelentes oportunidades, que exigem, contudo, um pensamento visionário e uma ousadia na acção.

A resistência à mudança pode estar a enfraquecer, mas e obviamente, continua a existir. E a experiência também demonstra que os paradigmas dominantes são difíceis de eliminar. Quando um novo paradigma, por mais atractivo ou convincente que seja, começa a ser formulado e exposto, encontra sempre resistência por parte dos que têm pontos de vista profundamente enraizados e que muito investiram no status quo vigente. E, à medida que o apoio lógico e empírico do novo paradigma vai crescendo, os seus oponentes atacam-no, muitas vezes violentamente. A fase seguinte caracteriza-se, normalmente, por uma coexistência nada pacífica entre os dois paradigmas. E é nesta fase que muitas empresas e respectivos líderes se encontram já na actualidade, com uma “mão adicional” dada pela denominada geração millenial, que está a dominar a força de trabalho e que, criada em companhia da revolução digital, em muito está a contribuir para esta mudança.

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Redefinir o capitalismo, a economia e a gestão

Um pouco por todo o mundo, há novas bandeiras que se agitam para oferecer novas alternativas à economia “exploradora”, a qual se move exclusivamente pelo consumo desenfreado e pelo lucro de curto prazo. Sob inúmeros “cognomes”, ouvimos falar da nova economia, da economia regeneradora, da economia da solidariedade, da economia da partilha e outros epítetos afins. O mesmo acontece com o capitalismo, que ganhou adjectivações novas como o “capitalismo consciente”, “reimaginado” ou “capitalismo para os stakeholders”, com “coração” ou com “valor”. Quanto à gestão, desde o “2.O” a “os empregados primeiro” ou à gestão “radical” ou “transformadora”, são também os vários “chapéus” sob os quais este novo paradigma repousa.

Independentemente dos rótulos, o que interessa sublinhar é o facto de esta nova gestão emergente diferir radicalmente da mentalidade que tem orientado os negócios ao longo das últimas décadas, bem como das práticas normalmente defendidas pelas grandes consultoras e das matérias ensinadas pelas escolas de negócios.

Como já foi anteriormente referido, neste (re)lançamento do VER, e sem deixarmos de ser fiéis às causas que defendemos há sete anos, este novo paradigma emergente da gestão constituirá uma das nossas principais prioridades, motivo pelo qual recuperámos, para figurar na nossa homepage, o espírito de alguns movimentos e iniciativas que, de forma crescente, estão a mudar o rosto da gestão, a apostar numa liderança de serviço e a redefinir a forma como se gerem negócios.

De sublinhar igualmente que as empresas que com maior facilidade estão a aderir a este emergente paradigma da gestão são as que deixaram de competir para serem as melhores do mundo, passando a fazê-lo para serem as melhores para o mundo. E são também aquelas que melhores resultados em termos de performance financeira estão a atingir.

Será, assim, compromisso do VER dar a conhecer as vozes, as iniciativas e os movimentos que estão a liderar esta revolução, com o objectivo de a fazer chegar e vingar também às empresas, líderes e trabalhadores nacionais. E contamos consigo para participar nesta vi(r)agem.

Helena Oliveira

Editora Executiva