Este é apenas um dos resultados de um recém-publicado relatório sobre 1,030 empresas sociais, a operar em nove países, Portugal incluído, no âmbito do SEFORIS, um programa de investigação multidisciplinar, financiado pela Comissão Europeia. Em primeira mão, três das suas principais investigadoras revelam, na Stanford Social Innovation Review, as principais conclusões daquele que é, até agora, o mais extenso estudo realizado sobre esta ainda inovadora e emergente temática
© Stanford Social Innovation Review
Adaptado por 
HELENA OLIVEIRA

São ainda muitas as pessoas que consideram que uma empresa social (ou negócio ou empreendimento) é uma pequena organização que depende, na sua maior parte, de donativos para operar. Mas a verdade é que as empresas sociais têm, na maioria das vezes, uma dimensão e uma orientação para o mercado muito maior do que aquilo que se pensa. Para além disso, desempenham também um papel significativo nas economias dos muitos países em que operam, de acordo com um dos mais extensos estudos sobre empresas sociais até hoje publicado.

No passado, muitas empresas sociais dependiam de donativos para financiar a maior parte das suas operações. Mas isso é, realmente, passado. Hoje em dia, as vendas de produtos e serviços constituem a mais importante fonte de rendimento para as empresas sociais, representando mais de metade dos seus orçamentos. Esta é uma das principais conclusões de um estudo, realizado no âmbito do denominado SEFORIS Project – financiado pela União Europeia (v. Caixa), e tema do artigo que segue, originalmente publicado na Stanford Social innovation Review, assinado por três das autoras do relatório e que o VER traduziu e adaptou.

E, de acordo com as responsáveis, todas as empresas sociais inquiridas testemunharam que estas receitas não comprometem, de todo, a parte “social” que consta da sua nomenclatura, assegurando, ao invés, que todas elas estão profundamente comprometidas com a missão social que elegeram.

E, mais uma vez ao contrário do pensamento ainda vigente, estas empresas sociais são, na verdade, empresas, e não apenas negócios de reduzida dimensão. Em 2014, as 1,030 empresas sociais que fizeram parte da amostra deste estudo geraram mais de 6,06 mil milhões de euros, em receitas, serviram 871 milhões de beneficiários, empregaram cerca de meio milhão de pessoas e ajudaram muitas mais – cerca de 5,5 milhões – a encontrar um trabalho, a promover uma maior igualdade no mercado laboral e a assegurar a inclusão social de pessoas com incapacidades ou com um “histórico de migrações”.

Estes são apenas alguns dos resultados do recente estudo que inquiriu os responsáveis/directores de 1,030 empresas sociais sedeadas na China, Rússia, Alemanha, Hungria, Portugal, Roménia, Espanha, Suécia e Reino Unido. O inquérito, produzido no âmbito do consórcio SEFORIS, a sigla, em inglês, para “Social Entrepreneurship as a Force for More Inclusive and Innovative Societies”, foi conduzido entre Abril e Dezembro de 2015 e é um dos mais vastos alguma vez realizados sobre a temática das empresas sociais.

As autoras afirmam ainda que a cooperação de todas estas empresas sociais, em conjunto com o apoio financeiro da União Europeia, permitiu-lhes construir também a mais robusta e mais completa base de dados sobre este ainda inovador modelo que cruza a filantropia com a inovação social [a ideia subjacente aos negócios sociais é garantir a sua sustentabilidade através da geração de receita própria numa lógica de mercado – isto é, colocando produtos e/ou serviços em mercados concorrenciais, nos quais vendem não por caridade, mas porque os clientes neles reconhecem, de facto, utilidade, e qualidade, e segundo modelos em que a própria geração de receita está intimamente ligada ao impacto social que se pretende atingir].

E, acrescentam, o relatório em causa é igualmente “sem precedentes no que respeita à sua profundidade”, dado que, em média, os directores das empresas sociais inquiridas investiram duas horas do seu tempo a responder às questões colocadas.

Neste artigo, as investigadoras oferecem uma “espreitadela” preliminar dos resultados do estudo, apesar de ser possível aceder ao mesmo de forma detalhada, consultando os dados comparados dos nove países auscultados e ainda ao “estado de arte”das empresas sociais em cada um dos países analisados.

As empresas sociais SÃO negócios

Para 70 por cento das empresas sociais inquiridas, a venda de produtos e serviços representa o seu modelo operacional principal. Em todos os nove países analisados, a geração de receitas através das vendas foi a sua mais importante fonte de liquidez, sendo que as empresas sociais em causa financiaram, em média, 57% das suas actividades a partir deste meio. Todavia, existem diferenças entre os países: na Roménia, por exemplo, o financiamento através de subsídios/donativos é quase tão importante quanto o das vendas.

Adicionalmente e também na maioria dos países, grande parte das suas receitas são provenientes da venda ao mercado privado, e não ao governo. As excepções são a Suécia e a Hungria. Na Suécia, o sector público não só é o mais importante “comprador” dos produtos e serviços das empresas sociais, como é também responsável pela parte de leão do financiamento subvencionado disponível para as mesmas. Na Hungria, as vendas para o mercado andam mais ou menos a par do que as que são feitas para o sector público.

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Todavia e também em todos os países, os subsídios representam a segunda mais importante fonte de liquidez, contabilizando uma média de 27 por cento do financiamento total. Por contraste, o capital de investimento parece ter apenas um papel minoritário em todos os países auscultados. Uma notável excepção é a China, onde este representa 21 por cento do financiamento total das organizações analisadas.

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As empresas sociais perseguem uma missão … social

O facto de as empresas sociais analisadas neste estudo estarem firmemente ancoradas ao mercado em nada coloca em causa as suas missões sociais. Pelo contrário, em todos os países, é claro o alinhamento do seu impacto social com actividades de geração de rendimentos nas suas operações diárias. Todas elas declararam também que o propósito das suas organizações é clara e predominantemente social.

Complementarmente, a maioria destas empresas sociais procura, de forma sistemática, avaliar a sua performance no que respeita aos seus objectivos sociais. Cerca de 65% das empresas auscultadas afirmam monitorizar a sua performance social, com Portugal a ser quem mais o faz – 97 por cento – e Espanha a ocupar o lugar mais baixo, com 48 por cento. E, comum a todos os países, é também o facto de todas elas preferirem avaliar a sua performance social contabilizando o número de beneficiários ou clientes servidos. A única excepção é a Suécia, onde o indicador mais prevalecente no que respeita à performance social consiste na satisfação dos beneficiários ou clientes servidos.

No que respeita à natureza das questões sociais abordadas, a pesquisa em causa indica que existem alguns domínios em particular que são mais atractivos para estas empresas em todos os países analisados. Por exemplo, tendem a ser activas em termos de “emprego e formação” e em “desenvolvimento social e económico das comunidades” em todos os países, com excepção para a Rússia. De forma similar, as empresas sociais são igualmente activas em “educação e investigação” em todos os países, com excepção para a Hungria.

Por outro lado, existem alguns domínios que não são assim tão populares tendo em conta os nove países auscultados. As empresas sociais da Hungria, Portugal, Roménia, Rússia e Reino Unido são particularmente activas em “serviço social”; a saúde é uma das áreas preferenciais na Alemanha e na Suécia e as “questões ambientais” são particularmente abordadas na Rússia e em Espanha. Uma característica distintiva nas empresas sociais que operam na China reside no facto de as suas actividades serem particularmente dedicadas a promover o “voluntariado”.

As empresas sociais não concorrem com os governos

Para surpresa das autoras, nenhum dos directores das empresas sociais indicou que o sector público era o player dominante nos mercados em que actuam. O que sugere que as empresas sociais não estão a competir com os governos nacionais, mas sim a complementá-los. Adicionalmente, são muitas as que parecem estar a fornecer serviços em áreas das quais os governos se retiraram, como é o caso de muitos países europeus em que foram implementados orçamentos de austeridade como resposta à crise financeira de 2008.

Quando questionados se existiam outras organizações que fornecessem serviços e produtos similares às suas ofertas, os directores das empresas sociais identificaram empresas “normais” (na China, Rússia, e no Reino Unido), organizações sem fins lucrativos (na Alemanha, Hungria, Portugal, Roménia e Suécia) e outras empresas sociais (em Espanha) como a concorrência mais dominante. Vinte por cento das empresas sociais auscultadas indicaram não enfrentar qualquer tipo de concorrência. Todavia e no geral, este número acaba por “mascarar” diferenças substanciais entre os vários países, com a Hungria a representar a mais baixa percentagem – 4% – e a Rússia a mais elevada, 30%.

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Uma parte relativamente elevada de empresas sociais da Rússia e da China asseguram não ter qualquer tipo de concorrência. De acordo com as autoras, tal deve-se ao facto de o sector das empresas sociais nestes dois países ser ainda, e comparativamente aos demais países, “emergente”, mas em mudança acelerada, em particular na China, onde 65% das empresas sociais foram fundadas nos últimos quatro anos. Para além da diferença de “antiguidade” no que respeita às empresas sociais nestes dois países, também a idade dos seus directores é manifestamente distinta, sendo estes muito mais jovens na China e na Rússia, face aos seus demais congéneres. A média de idades dos directores das empresas sociais nestes dois países ronda os 30 anos, sendo que na Alemanha, Espanha, Hungria, Portugal, Roménia e Suécia a idade média é de 40 anos. Apenas o Reino Unido evidencia ter directores mais velhos, com mais de 50 anos.

Desigualdade de género ainda persiste

Na China, Alemanha, Roménia, Espanha e Reino Unido, grande parte das empresas sociais são geridas por homens (55%, 55%, 59%, 70% e 55%, respectivamente), ao passo que na Hungria, Suécia e Rússia o cenário é o oposto: 61%, 65% e 62% dos responsáveis pelas empresas sociais, respectivamente, são mulheres. Estes dados representam um forte contraste comparativamente às empresas “comerciais”, nas quais a quota de directores do sexo masculino (67%) em todos os nove países é mais elevada do que as das “mulheres directoras” (37%). As autoras consideram igualmente ser interessante observar a forma como estas empresas sociais são governadas, na medida em que os dados disponíveis apontam para um nível relativamente elevado de inclusão de género. Das 86% de empresas que têm conselhos de administração, só 10% são apenas constituídos por homens.

A fechar este artigo, as responsáveis pelo estudo afirmam que os dados reunidos surgem numa altura crucial para as empresas sociais, na medida em que revelam importantes tendências convergentes em geografias variadas, mas também diferenças “intrigantes” entre os países auscultados. E, acrescentam, a sua ambição é a de oferecer um conjunto de evidências que ajude a uma tomada de decisão mais informada por parte dos governos, e que sirva para apoiar as organizações, mas também os investidores. E, mais importante que tudo, sublinham, é a sua vontade de fornecerem um recurso útil para que as empresas sociais possam comparar as suas actividades com as dos demais países e fazer ouvir mais alto a sua voz.

Adaptado, com permissão, de Market-Oriented and Mission-Focused: Social Enterprises Around the Globe. © Stanford Social Innovation Review 2016.


Sobre o SEFORIS:

O “Social Entrepreneurship as a Force for more Inclusive and Innovative Societies” (SEFORIS, na sigla em ingles), é um programa de investigação multidisciplinar, financiado pela Comissão Europeia, que investiga o potencial das empresas sociais na União Europeia, mas não só, com o objectivo de aumentar a inclusão das sociedades através de um envolvimento mais forte de todos o stakeholders, de promover o capitalismo cívico e mudanças na prestação dos serviços sociais no geral. O SEFORIS combina ainda os conhecimentos dos decisores políticos com a prática dos empreendedores sociais, em conjunto com investigação académica inovadora, para construir dados robustos e essenciais no que respeita ao empreendedorismo social. Desenvolve ainda bases teóricas para a inclusão e processos de inovação em determinados contextos, experiências inovadoras com empresas sociais, apostando em bases de dados internacionais de casos de estudo aprofundados, testando e validando ainda as suas conclusões criteriosamente.

Sobre as autoras:

Marieke Huysentruyt é professora na Stockolhm School of Economics e membro da Society and Organizations Research Center na HEC de Paris. É também co-fundadora do Oksigen Lab e uma das principais investigadoras do SEFORIS. 

Johanna Mair é professora na Hertie School of Governance em Berlim. É igualmente membro do Stanford Center on Philanthropy and Civil Society, investigadora sénior na Harvard Kennedy School e também uma das investigadoras principais da SEFORIS. É ainda uma das editoras académicas da Stanford Social Innovation Review.

Ute Stephans é professora na Aston Business School e directora do Aston Center for Research into International Entrepreneurship and Business (ACRIEB). É também editora-chefe da revista internacional Applied Psychology, e uma das principais investigadoras do SEFORIS.