Especialistas humanos versus sistemas inteligentes. Numa era em que as máquinas poderão suplantar os humanos na execução da maioria das tarefas, quais são as perspectivas que se desenham para o emprego, quem deverá deter e controlar o conhecimento especializado online e que funções deverão ser reservadas exclusivamente para as pessoas? Naquele que é considerado o primeiro livro a debruçar-se verdadeiramente sobre o futuro das profissões, os autores argumentam que não iremos precisar de médicos, professores, arquitectos, padres, advogados, consultores e muitos outros a trabalharem como o fazem na actualidade
POR HELENA OLIVEIRA

Muito provavelmente, e num futuro não muito longínquo, quando perguntarmos às crianças o que querem elas ser quando forem “grandes”, as respostas serão bem diferentes daquelas que estamos habituados a escutar.

Médicos, juristas, professores, contabilistas, consultores fiscais, consultores de gestão, arquitectos, jornalistas, padres, entre outros, poderão deixar de estar no centro do seu palco profissional para passarem a estar nas “laterais” operando ou ajudando as máquinas a fazerem o que, até agora, era da sua exclusiva competência. Esta é a tese mais “suave” do livro “O futuro das profissões: como a tecnologia transformará o trabalho dos especialistas humanos”, o qual foi o “Livro do Ano do Financial Times” e publicado agora em português pela editora Gradiva.

O livro foi escrito por Richard e Daniel Susskind, pai e filho, sendo o primeiro conselheiro do governo britânico e professor visitante no Oxford Internet Institute e o segundo professor na Universidade de Oxford. E ambos estão plenamente preparados para a controvérsia que o livro tem vindo a gerar e que, decerto, continuará a ser uma fonte de batalha para os cépticos que não admitem que a indispensabilidade destes profissionais especializados irá desaparecer – ou alterar-se significativamente – ou para os que não acreditam no papel central que a tecnologia está já a representar no presente e como evoluirá, de uma forma sem precedentes, no futuro.

“Os estudantes devem planear competir com as máquinas ou construir as máquinas”

Apresentando, inicialmente, uma evolução histórica das profissões, os autores salientam que estas emergiram para dar resposta a várias necessidades. Ou seja, confrontadas com questões legais, necessidades educacionais, complexidades financeiras e com a construção do ambiente que as envolve, as pessoas não poderiam saber quais os requisitos adequados para tomarem uma decisão informada. E todas estas profissões colmatam este tipo de necessidades. Todavia, e à medida que evoluímos para uma sociedade de internet baseada na tecnologia, os autores não só estão convencidos que este tipo de profissões especializadas irá sofrer alterações radicais, como poderão mesmo vir a desaparecer. E acreditam não só que tal vai acontecer, como deve mesmo acontecer.

“É perturbante que os sistemas educativos actuais de todo o mundo continuem concentrados em ensinar os nossos estudantes a realizarem tarefas que podem ser agora melhor executadas por máquinas”

No prefácio do livro, os autores começam por aconselhar os actuais estudantes a seguirem uma de duas estratégias possíveis de carreira. A primeira é que procurem empregos que possam favorecer as capacidades humanas em detrimento da inteligência artificial, ou seja, aqueles que dependam menos da posse de grandes conhecimentos técnicos, mas antes da criatividade e de aptidões interpessoais, como e por exemplo, a tão falada empatia. O segundo conselho está relacionado com o envolvimento directo no desenvolvimento e implementação dos sistemas inteligentes – aqueles que substituirão os humanos nas suas tarefas mais “nobres – seja enquanto engenheiros de sistemas, engenheiros de conhecimento, cientistas de dados e até “criadores de empatia”. Para os Susskind, “os estudantes devem planear competir com as máquinas ou construir as máquinas”. E, nesse contexto, afirmam-se extremamente preocupados com o ensino actual, que continua a formar profissionais do século XX e não diplomados adequadamente equipados para as realidades do novo milénio. A seu ver – e este é um debate actualmente muito aceso – “é perturbante que os sistemas educativos actuais de todo o mundo continuem concentrados em ensinar os nossos estudantes a realizarem tarefas que podem ser agora melhor executadas por máquinas”.

“É difícil evitar a conclusão de que haverá um declínio acentuado da necessidade dos profissionais tradicionais de carne e osso”

Como todos sabemos, as máquinas estão a tornar-se cada vez mais capazes e a assumir tarefas que, anteriormente, eram do domínio exclusivo dos profissionais humanos. E, apesar de, tal como aconteceu em revoluções anteriores, ser muito natural que surjam, no futuro, novas tarefas que serão executadas pelos humanos, é igualmente provável que mesmo estas possam vir a ser executadas pelas máquinas. Para já, dizem os autores, estas alterações graduais não significarão desemprego, mas sim requalificação e reafectação. Todavia, e num futuro não muito longínquo – apesar de os Susskind não se atreverem a antecipar datas – “é difícil evitar a conclusão de que haverá um declínio acentuado da necessidade dos profissionais tradicionais de carne e osso”.

Dois cenários possíveis

O livro dos Susskind não é de fácil leitura nem de argumentos simplistas. E não trata apenas das profissões, mas também das organizações em que se trabalha, das instituições que regulam a conduta e dos sistemas inteligentes que as substituirão. E defende que ao estarmos a entrar num período de inegável e irreversível mudança, a forma como o saber destes especialistas está á disposição da sociedade irá alterar-se radicalmente. Mais ainda, os autores acreditam que, a longo prazo, não precisaremos nem desejaremos que os profissionais trabalhem como têm feito até agora, um dos motivos que explica o cepticismo proveniente de alguns quadrantes da sociedade face à “ousadia deste discurso”.

Por exemplo, e num evento dedicado a promover o livro que teve lugar na University College, em Londres, foram vários os profissionais na audiência que negaram veementemente a sua futura indispensabilidade para a sociedade. Michael Briggs, um juiz do Tribunal de Recurso de Inglaterra e Gales, deu as “boas-vindas” à eficiência que as máquinas podem trazer à profissão jurídica, mas salientou que os clientes nunca escolheriam um programa de computador, por mais inteligente que este fosse, em detrimento de um advogado com princípios morais e um “coração”. Por outro lado, David Lomas, que lidera a Escola de Medicina e Ciências da Vida da mesma universidade, afirmou com igual confiança que as máquinas nunca serão capazes de equivaler a relação de confiança que os pacientes exigem de um médico. Mas as muitas estatísticas que animam o livro respondem, de alguma forma, a estes dois profissionais. Como escrevem, 92% dos problemas legais nos Estados Unidos ficam sem resolução porque as pessoas não têm dinheiro para contratar serviços jurídicos” e “os médicos, em média, interrompem os seus doentes 18 segundos após estes terem começado a falar”. E com três mil milhões de utilizadores online e dois mil milhões proprietários de smartphones, argumentam que os serviços online podem e poderão cada vez mais fazer melhor do que os profissionais. Adicionalmente e no que a este argumento diz respeito, os autores sublinham a ideia de que o saber é, e será, mais acessível e mais barato do que nunca, o que constituirá um benefício sem preço para a sociedade.

Na actual “sociedade de internet baseada na tecnologia”, as máquinas serão cada vez mais capazes, operando sozinhas ou com utilizadores não especialistas, assumindo assim muitas das tarefas que têm sido a reserva histórica das profissões

Uma outra questão que é transversal ao livro diz respeito, exactamente, à forma como partilhamos o saber na sociedade. Naquela que os autores denominam como a “sociedade industrial baseada na imprensa”, as profissões desempenharam papel central na partilha do saber, tendo sido o principal canal através do qual as pessoas e as organizações obtiveram acesso a certos tipos de conhecimento e de experiência. No entanto, e na actual “sociedade de internet baseada na tecnologia”, o que os autores prevêem é que as máquinas sejam cada vez mais capazes, operando sozinhas ou com utilizadores não especialistas, assumindo assim muitas das tarefas que têm sido a reserva histórica das profissões.

Os autores antevêem assim uma “transformação incremental” no modo como se produz e distribui o saber na sociedade o que, por consequência, levará ao desaparecimento das profissões tradicionais. Ou e em suma, “os sistemas cada vez mais capazes irão provocar transformações no trabalho que se assemelharão ao impacto da industrialização nos ofícios tradicionais”. Aceitando a premissa de que, na actualidade, os profissionais desempenham um papel tão fulcral nas nossas vidas que não conseguimos imaginar diferentes formas de lidar com os problemas que os mesmos nos resolvem, os autores defendem, contudo, que as profissões não são imutáveis, e que com as mudanças e progressos tecnológicos, deixarão de ser a melhor resposta para essas necessidades. E porque nem todos podem pagá-las, porque o saber é desfrutado apenas por poucos e porque o seu funcionamento carece, muitas vezes, de transparência, os Susskind acreditam que as profissões actuais devem ser e serão substituídas por alternativas mais viáveis.

“A tecnologia não irá apenas agilizar e optimizar as formas de se trabalhar, mas sim ‘desalojar’ activamente o trabalho dos profissionais tradicionais”

Seja como for, os autores antevêem dois cenários futuros possíveis, ambos assentes na tecnologia. O primeiro é uma espécie de versão mais eficiente da que temos agora, com os profissionais a utilizarem a tecnologia para agilizar e optimizar a forma como trabalham actualmente. O segundo assenta numa proposição completamente diferente. Como escrevem, “a tecnologia não irá apenas agilizar e optimizar as formas de se trabalhar, mas sim ‘desalojar’ activamente o trabalho dos profissionais tradicionais”. E, neste contexto, os profissionais terão também de rever a sua relação com as tecnologias. Como sublinham os Susskind, “insistir que as máquinas devem conhecer o seu lugar, nomeadamente, na retaguarda e não na linha da frente, é ignorar os sinais da mudança”. Em vez disso, acrescentam, é necessário desenvolver duas novas formas de relações, que requerem novas aptidões e mente aberta.

A primeira é a ideia de que as máquinas e os sistemas trabalharão como parceiros ao lado dos profissionais do futuro, com o desafio de lhes serem atribuídas tarefas em função das suas capacidades relativas. Sendo que, ao trabalharem juntos, humanos e máquinas terão um desempenho superior relativamente ao dos especialistas humanos “não assistidos”. A segunda relação é, obviamente, mais complexa e difícil de admitir, baseando-se no reconhecimento de que, em breve, alguns sistemas serão manifestamente superiores a realizar trabalho que é hoje feito por pessoas ou, por outras palavras, que as máquinas substituirão os humanos. Mas e neste ponto em particular, os autores apresentam também uma salvaguarda relativa à denominada “falácia da Inteligência Artificial”: trata-se do pressuposto, errado, de que a única maneira de desenvolver sistemas que podem realizar tarefas ao nível dos especialistas é reproduzir os processos de pensamento dos especialistas humanos. Para os autores, esta visão antropocêntrica dos sistemas inteligentes é limitadora, pois encoraja os cépticos a saltarem da observação de que os computadores não podem “pensar” para a conclusão injustificada de que os sistemas não podem realizar tarefas a um nível superior ao dos seres humanos.

Os sistemas actuais estão a ultrapassar cada vez mais os especialistas humanos, não copiando as pessoas de alto desempenho, mas explorando as capacidades distintas das novas tecnologias

O livro está repleto de exemplos que suportam argumentos contrários. E o que os autores concluem é que os sistemas actuais estão a ultrapassar cada vez mais os especialistas humanos, não copiando as pessoas de alto desempenho, mas explorando as capacidades distintas das novas tecnologias, como a capacidade maciça de armazenamento e o processamento gigantesco de dados. Assim, ao invés da ideia de que as máquinas não conseguem replicar o pensamento humano e, por isso mesmo, os empregos estão a salvo, é defendido que existem inúmeras formas de suplantar os humanos em certas tarefas, mas não necessariamente executando-as da mesma maneira que um humano.

As questões morais e o desemprego tecnológico

Num livro que é denso e complexo, é difícil escolher quais os pontos que maior importância têm para o debate em causa. Mas, e como não poderia deixar de ser, as questões éticas e o futuro posicionamento dos humanos no mundo do trabalho têm também lugar cativo no mesmo.

Em relação aos próprios humanos, uma nota prévia: não será preciso compreender e reproduzir a maneira como os especialistas humanos trabalham, nem será preciso desenvolver máquinas pensantes para substituir grande parte do trabalho actualmente realizado pelos profissionais humanos. Ou seja, o argumento é, sim, que daqui a um número significativo de anos e dependendo como evoluir a tecnologia, as máquinas de alto desempenho e não-pensantes superarão os melhores especialistas humanos, fazendo isso de maneira pouco humana. Assim, e num mundo povoado de sistemas cada vez mais capazes, que papel desempenharão os profissionais humanos? Para esta questão, os autores optam por duas vias. A primeira é se os sistemas futuros poderão realizar todas as tarefas a um nível superior ao dos melhores especialistas humanos e a segunda é se haverá algumas tarefas que consideremos que deverão ser sempre realizadas por humanos, mesmo que possam ser feitas a um nível superior por máquinas autónomas. No entanto, ambas se entrecruzam.

A primeira questão é abordada considerando-se quatro capacidades que os profissionais, na generalidade, aplicam no seu trabalho quotidiano. A capacidade cognitiva (pensar, analisar, resolver problemas, reflectir), a capacidade afectiva (ter sentimentos e emoções, tanto em termos introspectivos como em relação ao outro), a capacidade manual (física e psicomotora) e, por fim, a capacidade moral (ser capaz de distinguir o certo do errado, o bem do mal, o justo do injusto) e a de assumir a responsabilidade pelas escolhas, decisões, orientações e acções. E destas, e apesar do espaço merecido no que respeita à capacidade afectiva, na medida em que o tema desperta discussões acesas, optámos por escolher para este artigo a questão da faculdade moral.

É difícil lidar com a ideia de que uma máquina possa ser tida como responsável por decisões morais importantes como desligar um suporte de vida, conceder a custódia de uma criança num divórcio, decidir uma pena de prisão perpétua ou não discriminar um candidato de uma minoria a um emprego

De acordo com os autores, é totalmente possível que os sistemas futuros (modelados, por exemplo, nos sistemas tradicionais baseados em regras) possam articular e ponderar argumentos morais, em conjunto com a identificação de conclusões que, de forma válida, podem ser retiradas de um conjunto de premissas. Estes sistemas seriam uma espécie de filósofos morais, capazes de um raciocínio claro e estruturado sobre questões éticas. No entanto, escrevem os autores, é mais difícil lidar com a ideia de que uma máquina possa ser tida como responsável por decisões morais importantes como desligar um suporte de vida, conceder a custódia de uma criança num divórcio, decidir uma pena de prisão perpétua ou não discriminar um candidato de uma minoria a um emprego. Assim, e seguindo o seu raciocínio, é do interesse de toda a humanidade que sejam os humanos, e não as máquinas, a decidir nestes e noutros casos que incluam dilemas éticos.

A segunda questão está obviamente relacionada com o desemprego tecnológico. Apesar de ser impossível, neste espaço, explicitar toda a pesquisa e argumentos utilizados pelos autores num livro de quase 500 páginas, a sua conclusão é a de que serão os melhores profissionais e os mais brilhantes que irão perdurar – e tendo em conta um cenário de médio a longo prazo – ou seja, aqueles que podem realizar tarefas que não podem ou não devem (devido às questões morais e, em alguns casos, às que estão relacionadas com as capacidades afectivas) ser substituídas pelas máquinas, tarefas que preferimos deixar nas mãos dos humanos. No entanto, alertam, e mesmo que uma das tendências prevista seja a decomposição de algumas profissões em várias tarefas, estas não serão suficientes para manter no emprego exércitos de profissionais. Os autores enfatizam, contudo, que não estão a prever que as profissões desapareçam nos próximos anos, mas sim a olhar para as décadas vindouras e a prever um transformação gradual – e não uma revolução de um dia para o outro.

“Será a especialização prática um recurso partilhado online, gratuitamente acessível e mantido num espírito colaborativo, estejamos a falar da medicina, do aconselhamento jurídico ou da educação?”

Por fim, Richard e Daniel Susskind dedicam ainda um capítulo “ao futuro que queremos” e debruçam-se sobre o que acontecerá na sociedade pós-profissional, prevendo que a especialização prática esteja disponível online.

Depois do desmantelamento das profissões tradicionais, com a maioria dos profissionais a ser substituída por pessoas menos especialistas e por sistemas de alto desempenho, e também depois do aparecimento de novos papéis ou tarefas cuja duração é impossível de prever, pois também estes poderão ser substituídos pelas máquinas, os autores defendem veementemente o acesso ao fornecimento do conhecimento e experiência colectivos. E também para esta questão antevêem duas vias. Uma que conduzirá a uma sociedade na qual a especialização prática é um recurso partilhado online, gratuitamente acessível e mantido num espírito colaborativo, estejamos a falar da medicina, do aconselhamento jurídico ou da educação (entre muitos outros exemplos) e outra que conduz a uma sociedade em que este conhecimento e experiência podem estar disponíveis online, mas são detidos e controlados por fornecedores, de forma a que os destinatários tenham de pagar para terem acesso a estes mesmos recursos.

Claro que a primeira via é a desejável, pois seria indubitavelmente melhor viver numa sociedade em que a ajuda médica, a orientação espiritual, o conselho jurídico, as últimas notícias, o apoio empresarial, a assistência na contabilidade e os conhecimentos arquitectónicos estivessem amplamente disponíveis, a um custo baixo ou sem custos. Mas, e até lá, muito irá ainda acontecer para que este desejo se torne uma realidade. Se é que algum dia será possível.

Nota: O livro contém um capítulo exclusivamente dedicado à mudança que se espera em todas as profissões inicialmente elencadas neste artigo, o qual vale a pena ler.

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