Em particular ao longo da última década, o empreendedorismo tem vindo a afirmar-se como uma forma eficaz para solucionar problemas sociais complexos, substituindo-se aos governos que falham em resolver questões tão diversas como a educação, os cuidados de saúde ou a pobreza. Em Portugal, o ecossistema de empreendedorismo social – que não mede o sucesso do projecto apenas em termos de lucro, mas também pelo impacto social que este gera na sociedade – está em franco crescimento, e para isso contribui o Fundo Bem Comum, já com uma história longa, mas com uma renovação dos seus objectivos iniciais, privilegiando actualmente projectos sustentáveis e com um forte impacto social
POR PEDRO PINTO GONÇALVES

Empreendedorismo Social é fazer algo de novo, é transformar uma problemática actual numa nova realidade, mais “rica”, mais sustentável, mais justa. Os objectivos deste empreendedorismo podem ter muitas facetas e muitas motivações, sendo que as que mais se destacam são aquelas que criam mudança social com significado e com impacto. Impacto nas pessoas, no ambiente, na natureza e na sustentabilidade, não visando só o lucro, mas tendo uma forte componente de ajuda e de melhoria das comunidades.

Estamos perante um conjunto de pessoas, altamente voluntariosas e com vontade de colaborar na constituição de um mundo melhor e com vista a atingir o bem comum.

A nossa sociedade, principalmente as gerações mais novas e que agora se começam a lançar no mercado de trabalho e a ter noção das necessidades reais e das desigualdades que caracterizam diversas comunidades, está muito sensível ao desenvolvimento sustentável, à inovação e à tecnologia. Estamos, assim, perante uma geração muito empenhada em fazer parte activa desta mudança, mas que não é caso único. Quadros e colaboradores de empresas de grande prestígio e sucesso, abandonam também as suas zonas de conforto, desinstalando-se, arriscando e dedicando-se a lançar projectos novos.

Esta forma de “fazer de novo” reveste-se de moldes distintos. Enquanto alguns seguem a via da constituição de associações sem fins lucrativos – o que até pode ser benéfico em termos de ajudas públicas -, outros enveredam pela constituição de empresas que, além de terem como finalidade a sustentabilidade económica e financeira, com mercados próprios e objectivos operacionais concretos, movem-se pelo impacto que pretendem causar em comunidades particulares.

Seja qual for a opção escolhida, é certo que o que estimula estes empreendedores são as causas sociais e a preocupação relativamente ao contributo que desejam dar em prol da sociedade.

É certo também que, e no contexto actual, os planos de responsabilidade social estão na ordem do dia nas empresas, os quais servem, supostamente, não só para acautelar o bem-estar de todos os colaboradores, fornecedores e demais stakeholders, como também fazer o bem junto dos mais vulneráveis, de uma forma gratuita, mas com um enorme retorno social, ajudando assim à identificação de muito mais situações desfavoráveis nas comunidades.

Mas, e também como sabemos, nestas iniciativas de responsabilidade social, são várias as empresas que as lançam não com o intuito genuíno de promover o bem, mas apenas para “assinalar” aquilo que é o politicamente correcto, fazendo-o muitas vezes às custas dos seus próprios trabalhadores e sendo elas a arrecadar os louros dessas actividades.

Muito haveria a dizer e a melhorar nesta área, não menosprezando, contudo, quaisquer acções que possam dar ânimo àqueles que mais precisam, ajudando-os, a eles próprios, a construírem o seu caminho e com a dignidade que merecem.

Tendo como objectivo apoiar os que se encontravam em situações mais vulneráveis, nasceu o Fundo Bem Comum (FBC), fruto de uma iniciativa da ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores), para ajudar os quadros das empresas, com idade superior a 40 anos que, e devido à crise de 2011, foram dispensados das suas empresas e viram-se sem oportunidades de reconstruírem as suas vidas profissionais.

Assim, e no seu período inicial, o Fundo Bem Comum centrou-se na ajuda à promoção de ideias de negócio que pudessem ser dinamizadas por estes quadros, assente na criação de novas empresas e projectos que pudessem beneficiar das suas qualificações, experiência profissional e espírito empreendedor.

Apesar de várias dificuldades, nomeadamente relacionadas com a ausência de qualidade de muitas das propostas enviadas, foram efectuados alguns investimentos, nomeadamente nos seguintes projectos:

  • MESA BOARD GAMES
  • SHARE YOUR WORLD (SPEAK)
  • NOZOMI
  • MOLHA PÃO
  • Code 4 All
  • PRESENTE AJUSTE

A verdade é que a maioria dos projectos, salvo algumas excepções, apresentados ao FBC, não apresentava as características empresariais desejadas, pelo que, em 2018, os objectivos principais do Fundo foram alterados em Assembleia de Participantes, privilegiando projectos sustentáveis, com capacidade de retorno e com um forte impacto social.

Nasceu assim em Portugal o primeiro Fundo dedicado ao empreendedorismo social, seguido por outros e com um forte contributo para dinamizar todo este ecossistema.

Genericamente, o Fundo Bem Comum, e enquanto fundo de capital de risco, subscreve o capital das empresas detentoras de projectos, financiando-os e ajudando à promoção dos investimentos necessários ao seu desenvolvimento. E, ao manter-se ligado aos seus órgãos de gestão, não só contribui de forma activa com a sua experiência e know-how, como também acompanha regularmente as iniciativas em curso, garantindo um controlo mais eficaz da actividade em causa.

Ao fim de alguns anos e de acordo com o projecto individual, mas já em situação de alguma maturidade, prevê-se o retorno desse investimento com a recompra do capital pelos promotores, com o retorno contratualizado ou por venda do projecto a terceiros.

Ao longo destes últimos anos, a dinamização do sector da economia social tem revelado projectos muito interessantes, de grande qualidade e de forte impacto junto das comunidades, o que resultou em seis novos investimentos nos quais o Fundo Bem Comum apostou.

Já em 2019, o FBC e também fruto desta dinamização do sector, decidiu colaborar com o Fundo para a Inovação Social (FIS) no co-financiamento destes projectos. Com este co-financiamento, os projectos usufruem de uma capitalização superior, com o FIS, enquanto entidade pública, a entrar com 70%, e o FBC, enquanto entidade privada, a contribuir com os restantes 30%.

De considerar que nenhum destes capitais entregues às empresas para desenvolver os seus negócios é a fundo perdido, pelo que, e apesar de se desejar obter resultados concretos nas comunidades, estas têm de pensar no capital de risco como um financiamento e com retorno para o investidor.

Segue-se a carteira de investimentos já efectuada:

Mesaboard Games

2011

33,3%

jogos de tabuleiro
Presente Ajuste, unipessoal, Lda

2014

28,0%

Residencias senior
PumpkinOcean – Agricultura, Lda

2014

33,3%

Agricultura biológica
Nozomi

2016

33,3%

Sistemas de alerta
Book in Loop Lda

2017

25,0%

Economia circular nos livros escolares
Share your World Lda

2017

25,0%

Integração de refugiados e migrantes
Code for All, Lda

2018

5,01%

Formação código
Wchrs

2020

1,85%

FIS/ Regenerative Investment/Boma Plataforma de coesão Fundraising
Loop Circular

2020

10,0%

FIS

Reutilização produtos
My Eyes

2020

6,20%

FIS

Sistema de alerta para invisuais
Color Add

2021

6,90%

FIS / Core Angels

Código de cores
Ubbu

2021

Formação código Escolar

PROJECTOS COM INTERVENÇÃO DO FBC
Para além dos projectos “Pumpkins Ocean (Molha Pão)”e “Presente Ajuste”, que ainda não foram fechados e cujos investimentos são mais antigos, os projectos mais recentes que aqui destacamos inserem-se numa nova política de investimentos delineada em 2018.

ColorADD
Este projecto, vencedor de vários prémios e que tem já alguns anos de implementação – e que continua a necessitar de financiamento para se relançar, desenvolveu um código gráfico que permite que os daltónicos possam identificar as cores sem engano. O projecto foi realizado no 1º trimestre de 2021 também em parceria e co-financiamento com o FIS, bem como com a Core Angels.

Loop Circular
A Loop Circular actua no sector da economia circular (reciclagem de bens não usados pelos seus compradores e sua revenda) e relançou a sua actividade na área da puericultura. Todavia, o objectivo é agora o de desenvolver também produtos para as áreas ortopédicas e todas aquelas em que seja possível a reciclagem e o reaproveitamento de materiais e equipamentos. O projecto conta ainda com uma app que facilita todo o processo de comunicação, face à logística, compra ou venda de materiais.

É um projecto baseado em parcerias estratégicas efectuadas, até ao momento, com empresas da grande distribuição e com bastante procura nas suas soluções.

myEyes
A myEyes consiste em desenvolver e comercializar aplicações para invisuais, complementando assim a informação em tempo real da informação que pode ser recebida pelas “bengalas”. Consiste em mapear determinados locais com dispositivos Bluetooth e Wi-Fi, os quais disponibilizam informações precisas dos lugares onde os invisuais se encontram. Tem sido também um projecto mediático, tendo ganho alguns prémios na área da inclusão.

Existem já mapeados bastantes lugares, sendo os mais importantes o Santuário de Fátima, a marina de Vilamoura, entre outros, e com a interacção das entidades governamentais locais e nacionais.

Share Your World (Speak)
Destinado ao acolhimento e desenvolvimento de acções com migrantes, a SPEAK continua, desde o seu início, a ser uma referência nos projectos de impacto social, com um enorme reconhecimento através de vários prémios recebidos pelas suas iniciativas junto das comunidades a posicionarem-na na vanguarda deste sector.

Com um modelo de negócio tradicional, em 2020 e para fazer face à pandemia, houve necessidade de o reformular, tornando-o mais digital nos encontros que promove, aumentando o número de pessoas com acesso aos seus programas e alargando assim o seu leque de actuação.

A relação existente entre a Speak e o FBC é excelente, havendo colaboração de parte a parte na resolução dos problemas existentes.

WeChangers
A WeChangers foi o primeiro projecto em que o Fundo entrou como co-investidor em conjunto com o FIS (Fundo para a Inovação Social).

Este projecto, oriundo do Porto, faz a interligação entre entidades do sector social que necessitam de financiamento e as entidades que querem ajudar com os seus recursos, de que são exemplo as ONG, fundações, filantropos, etc..

O investimento agora feito, e tal como anteriormente já referido, em parceria com o FIS, conta também com outros co-financiamentos, internacionais, através da Regenerative Investments LLC e a Boma Investments LLC.

UBBU
Derivado de um spin off do Code4All , no qual o FBC investiu até 2019, voltámos, com a UBBU, a ser parceiros de investimentos num novo projecto de impacto.

Este projecto, com investimento programado para o fim do primeiro semestre de 2021 tem como objectivo o ensino fácil de programação informática a estudantes, alunos e professores. De uma forma muito intuitiva, visa criar competências na área da programação, bem como estimular a apetência para as ciências informáticas no geral. Este projecto será efectuado apenas com o investimento do Fundo do Bem Comum, que conhece bem os seus gestores e a sua forma de trabalho.

Neste momento, o FBC atingiu o fim do seu período de investimento, devendo as participações ser vendidas até ao fim da vida do fundo, que ocorrerá em 2024. Desta forma, é por isso chegada a hora de iniciar esforços no sentido de levantar um segundo fundo, dando continuidade à nossa actuação neste espaço do Empreendedorismo Social.

Estima-se que, cada vez mais, as empresas e os projectos de empreendedorismo social e de impacto tenham um papel crescentemente activo na construção de soluções que melhorem as condições de vida das comunidades. O nosso papel, enquanto investidores, é o de estar atentos às necessidades destes projectos, avaliar o impacto que os mesmos possam alcançar, a par da sua sustentabilidade, acompanhando as suas actividades e ajudando na construção de um mundo mais justo, contribuindo assim para um Bem Comum.

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