Que pretende Francisco quando, a 4 de outubro de 2020, publica a encíclica Fratelli Tutti sobre “a Fraternidade e a Amizade Social”? O elemento decisivo é, sem dúvida a tempestade que o Papa sente ameaçar crescentemente a humanidade nos nossos dias
POR JOÃO CÉSAR DAS NEVES

Quando se aborda um documento papal, o primeiro passo é compreender a sua envolvente e motivação. Uma encíclica é sempre uma interpelação histórica. Existe um enviesamento comum de tratar os textos do Magistério da Igreja como se fossem oráculos abstratos e atemporais, destilando uma sabedoria transcendente de forma definitiva. É exigido, como crentes, ver neles a tradução viva da Palavra de Deus, mas nunca podemos esquecer que essa Palavra «fez-se carne e habitou entre nós» (Jo 1, 14). Por isso cada encíclica encarna num momento particular e fala para a humanidade na sua circunstância. Claro que os ensinamentos são sempre perenes e imutáveis, mas a sua expressão é concreta e particular. Assim, cada Papa tem de ir publicando os seus textos, reapresentando o ensinamento de sempre, como «o doutor da Lei instruído acerca do Reino do Céu é semelhante a um pai de família, que tira coisas novas e velhas do seu tesouro.» (Mt 13, 52).

Se isto é verdade para todos os Papas, no caso de Francisco este aspecto ganha novos cambiantes. Quando muitos dos seus antecessores tinham um estilo magistral e modelar, lavrando sentenças brilhantes e lapidares, o actual Papa fala com uma imediatez e proximidade que choca alguns, mas fascina o mundo. Ele também apresenta muitas sentenças brilhantes e lapidares, mas sempre de forma interpelante, provocadora, incendiária até.

Que pretende então Francisco quando, a 4 de outubro de 2020, publica a encíclica Fratelli Tutti sobre “a Fraternidade e a Amizade Social”? O elemento decisivo é, sem dúvida a tempestade que o Papa sente ameaçar crescentemente a humanidade nos nossos dias. O quadro traçado no capítulo I, intitulado «As sombras dum mundo fechado», dificilmente podia ser mais alarmante: «Reacendem-se conflitos anacrónicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos (…) novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais.» (11). «Usa-se hoje, em muitos países, o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar.» (15). «As guerras, os atentados, as perseguições por motivos raciais ou religiosos e tantas afrontas contra a dignidade humana (…), a ponto de assumir os contornos daquela que se poderia chamar uma “terceira guerra mundial por pedaços”» (25).

Não é difícil identificar aquilo de que o Papa está a falar. Os nossos telejornais estão cheios disto, e vemo-lo justificado em campanhas eleitorais, manifestos políticos, plataformas ideológicas. Por outro lado, esta orientação fica mais clara ao notar-se que o texto está explicitamente colocado, desde o princípio (5), debaixo da inspiração do encontro que o Papa teve a 4 de fevereiro de 2019 com o Grande Imã de al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb em Abu Dhabi, e do Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum que então assinaram.

Note-se ainda que o diagnóstico não depende diretamente da pandemia que agora nos assola, como o Papa admite: «Além disso, quando estava a redigir esta carta, irrompeu de forma inesperada a pandemia do Covid-19 que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças.» (7). O vírus é apenas um fator adicional que reforça algo que já vinha de trás; o problema é muito mais vasto que a crise pontual de 2020. Adiante chega mesmo a repetir a terrível condenação: «vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade» (113), que originalmente fizera na Laudato Si’ de 2015 (229).

Que aconteceu então para chegarmos a este extremo? O Papa explica esta evolução dizendo que «durante décadas, pareceu que o mundo tinha aprendido com tantas guerras e fracassos (…) mas a história dá sinais de regressão» (10-11). Regressão para onde? Aqui surge outra pista essencial, ao identificar-se a encíclica irmã desta, a Pacem in Terris que S. João XXIII publicou a 11 de abril de 1963, a menos de dois meses de falecer. Há 57 anos o mundo estava mesmo à beira da terceira guerra mundial, com a crise dos mísseis de Cuba em 16 a 28 de outubro de 1962; e o Vigário de Cristo fazia um apelo pungente à serenidade, à sensatez, através da fraternidade. Exatamente aquilo que Francisco hoje faz. Em plena «guerra fria», o santo Papa Roncalli tinha como única resposta: «Sob a inspiração da Sua graça, tornem-se todos os povos irmãos e floresça neles e reine para sempre essa tão suspirada paz.» (170). Passadas todas estas décadas temos de novo um Papa profético, o diagnóstico é semelhante e a terapêutica não podia ser outra: «Irmãos todos».

Isto significa que hoje, como então, não estamos perante uma encíclica social normal, de análise dos problemas do momento, como todas as outras, incluindo a Mater et Magistra, primeira encíclica social de S. João XXIII de 1961, e a Laudato Si’, primeira encíclica social de Francisco de 2015. Em 2020, como em 1963, a urgência e o dramatismo são de novo radicais. Este texto do Papa volta a ser um apelo pungente à serenidade, à sensatez, através da fraternidade.

O documento está dividido em oito capítulos, tendo como chave de leitura o segundo, «Um Estranho No Caminho», que desenvolve a parábola do Bom Samaritano. Assim são analisadas cuidadosamente, na linha e com as tonalidades a que o Papa já nos habituou, as formas como a fraternidade evangélica se tem de manifestar nas várias dimensões da situação atual, com destaque para a política (capítulo V, A Política Melhor) e o diálogo (capítulo VI, Diálogo e Amizade Social).

O artigo já vai longo e não é este o lugar para elaborar os múltiplos temas de um documento que é três vezes maior que a Pacem in Terris e a segunda mais longa encíclica de todos os tempos (depois da Evangelium Vitae de 1995). Talvez valha a pena apenas ensaiar, neste local, a resposta a uma pergunta simples: que tem a encíclica a dizer a um gestor e empresário atual?

Existe uma resposta tonta, que é ficar melindrado com os habituais ataques que o Papa faz ao mercado (12, 33, 109, 122, 168), ao consumismo (13, 35, 36, 44, 125, 222), ao lucro (22, 168, 284, 285), etc., etc. Essas frases, a que aliás o Pontífice há muito nos habituou, não têm o significado ideológico que tantos teimam em lhe atribuir. O Papa não é socialista; é cristão. Sobre a substância desses temas, Francisco segue o que a Doutrina Social da Igreja ensina, como não se cansa de repetir. A razão por que os invoca aqui não é para mudar o ensinamento sobre eles, mas para denunciar o papel que tantas vezes desempenham na tal tempestade crescente que ameaça a humanidade. Como diz, a propósito do homem espancado no caminho de Jerusalém para Jericó, «já não há distinção entre habitante da Judeia e habitante da Samaria, não há sacerdote nem comerciante; existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo» (70). Aquilo que a encíclica quer dizer aos empresários é que coloquem a mão na consciência e vejam de que modo a sua atividade se relaciona com o estranho caído à beira da estrada. No meio da crise de 2020, não faltam moribundos a quem deitar óleo e vinho nas feridas.

Nos anos a seguir à Pacem in Terris, a graça de Deus que o Papa invocava salvou o mundo de nova catástrofe, a terceira do século, e a guerra manteve-se fria. Quatro anos depois, em 1967, S. Paulo VI, na Populorom Progressio podia dizer que «desenvolvimento é o novo nome da paz» (67), envolvendo os empresários no cerne da questão, porque o quadro militar internacional estava bastante mais distendido.

Agora, perante uma situação que de novo assusta o Vigário de Cristo, só podemos confiar na mesma solução, rezando como Francisco nos ensina: «Senhor e Pai da humanidade, que criastes todos os seres humanos com a mesma dignidade, infundi nos nossos corações um espírito fraterno.» (287).

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