Foi no Dia do Trabalhador, no passado dia 1 de Maio, que o Papa Francisco endereçou um convite aos jovens economistas e empreendedores de todo o mundo. O motivo? Um evento, a ter lugar de 26 a 28 de Março de 2020, na cidade de Assis, que lhe permitirá encontrar-se com jovens interessados num tipo diferente de economia: “uma que traga vida e não morte, que seja inclusiva e não exclusiva, humana e não desumanizadora, que se preocupe com o ambiente em vez de o espoliar”
POR HELENA OLIVEIRA

Esta iniciativa foi em grande medida impulsionada pelo economista Luigino Bruni, um dos mais importantes representantes da denominada “economia da comunhão”, o qual a apresentou ao Papa por altura do Sínodo dos Jovens, em Junho de 2018, sendo que “a ideia de enfrentar os desafios da economia mobilizando os jovens foi entusiasticamente recebida pelo Santo Padre”, como fez saber o professor de economia numa conferência de imprensa convocada esta semana pelo Vaticano para a apresentação oficial do evento.

Na carta-convite dirigida aos jovens, Francisco afirma esperar poder criar uma “aliança” que seja capaz de “mudar a economia de hoje e dar alma à economia do amanhã”.

A escolha da cidade de Assis para a realização do evento tem também um significado especial. Por um lado, porque “ao longo de séculos simbolizou um humanismo de fraternidade”, por outro porque João Paulo II a nomeou como “ícone de uma cultura de paz” e, adicionalmente, porque a decisão de São Francisco de Assis de “abraçar a pobreza deu igualmente origem a uma visão da economia que permanece actual”, uma visão que pode “conferir esperança para o nosso futuro e beneficiar não só os mais pobres dos pobres, mas a família humana na sua totalidade”. Daí o evento chamar-se “ Economia de Francisco”.

O Monsenhor Domenico Sorrentino, igualmente presente na conferência de imprensa já citada, definiu a “Economia de Francisco” como um evento de estudo, de encontro e de pesquisa, entre jovens académicos e representantes do mundo económico, afirmando que a escolha de Assis para a sua realização tem como principal objectivo recordar o fundador da Ordem dos Franciscanos, mas aludindo também aos ensinamentos sociais e económicos do próprio Papa. Com efeito, diz, “a inspiração para este evento tem tudo a ver com os ensinamentos do Papa”, recordando a publicação de duas das suas encíclicas, a Evangelii gaudium  e, mais tarde, a Laudato si’ , nas quais “denuncia vigorosamente o estado patológico de uma grande parte da economia global, referindo-se à mesma como uma ‘economia que mata’, e demonstrando que ao matar tanto as pessoas como o ambiente, está também a matar o futuro”. Mas e por outro lado, o facto de o evento ter lugar na cidade natal de São Francisco – e por ter como objectivo a criação de uma “economia alternativa” – responde também ao trabalho feito, ao longo de vários anos, pelas entidades franciscanas, as quais “têm vindo a conduzir uma reflexão sobre a dimensão, também económica, da espiritualidade da renúncia, estando a fazê-la juntando a economia e a ecologia”, acrescentou ainda o Monsenhor.

A urgência deste encontro e o convite em particular aos jovens, “não só aos crentes, mas a todos os homens e mulheres de boa vontade, para além dos credos e nacionalidades” ou a todos os que se sintam “inspirados por um ideal de fraternidade”, tem essencialmente a ver com o seu desejo de um futuro melhor e mais feliz, que “aponte para uma economia atenta à pessoa e ao ambiente”. Recordando o apelo que fez também na sua mais recente exortação apostólica, Christus Vivit, também ela dedicada aos mais novos, Francisco pede a estes que “não deixem ser os outros os protagonistas da mudança” mas sim que sejam, eles mesmos, “os protagonistas da transformação”.

Workshops de esperança

Nesta carta aos jovens, o Papa recorda que enfatizou, na Laudato Si’, que hoje e mais do que nunca, “tudo está profundamente interligado e que a salvaguarda do ambiente não se pode divorciar do assegurar da justiça para os pobres nem do encontrar de respostas para os problemas estruturais da economia global”. Por outro lado, há que corrigir “os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito pelo ambiente, a abertura à vida, a preocupação com a família, a igualdade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das gerações futuras”, escreve também, lamentando que sejam poucos os que reconhecem a gravidade do(s)problema(s) e, mais grave ainda, que não exista um esforço para se estabelecer um novo modelo económico, que seja “fruto de uma cultura de comunhão baseada na fraternidade e na igualdade”.

Ainda sobre o simbolismo do local escolhido para o evento, o Papa recorda que, quando orava na Capela de São Damião, em 1206, Francisco [de Assis] ouviu um chamamento de Cristo que lhe dizia “Vai, Francisco, restaura a minha casa, a qual, como vês, está a cair em ruínas”. “O restauro dessa causa diz respeito a todos nós”, escreve, “à Igreja, à sociedade e ao coração de cada individuo”. E, acrescenta, de forma crescente, diz respeito ao ambiente, o qual necessita urgentemente “de uma economia saudável e de um desenvolvimento sustentável que possa curar as suas feridas e a assegurar, a todos nós, um futuro digno”.

Dirigindo-se aos “queridos jovens”, o Papa afirma saber que estes ouvem, no seu coração, “a súplica da Terra e dos seus pobres, dos que gritam por ajuda e por responsabilidade, a pessoas que respondam e que não virem as costas”, assegurando que serão estes os que terão coragem para fazer parte de uma nova e corajosa cultura, não tendo medo dos riscos e trabalhando em prol de uma nova sociedade.

E é por isso que o convite é particularmente endereçado aos jovens economistas e empreendedores. “As vossas universidades, os vossos negócios e as vossas organizações são workshops de esperança para a criação de novas formas de compreensão da economia e do progresso, para combater a cultura do desperdício, para dar voz aos que não a têm e para a proposta de novos estilos de vida”, escreve ainda.

O Papa apela “a alguns dos nossos melhores economistas e empreendedores que estão já a trabalhar, ao nível global, para criar uma economia consistente com estes ideais”, estando confiante que estes respondam ao seu apelo.

Já a Santa Sé afirma não estar fechada a qualquer sugestão, vinda de onde vier, afirmando que o que interessa “e utilizando uma terminologia que é querida do Papa, e acreditando que esta possa ser interpretada, que este [evento]não será de celebração, mas sim um desencadear de um processo”.