As reacções não se fizeram esperar. De louvores entusiastas a críticas enfadonhas, parece que ninguém ficou indiferente à primeira encíclica ambiental da história da humanidade divulgada pelo Vaticano a 18 de Junho último. Apesar das divergências no que respeita à mensagem central que Francisco quis transmitir – sejam as alterações climáticas, o lado negro do modelo económico vigente ou a reconciliação entre ciência e religião – a questão que mais debate e unanimidade gera é inequívoca: afinal em que mundo queremos (e podemos) viver?
POR
HELENA OLIVEIRA

“Não peço conselhos políticos nem aos meus bispos, nem ao meu cardeal nem ao meu Papa”
Jeb Bush, candidato republicano à presidência norte-americana

“A Igreja já errou muitas vezes no que à ciência diz respeito” e “(…) não concordo com a filosofia do Papa no que respeita ao aquecimento global (…) visto que as alterações climáticas são uma crença e não um facto científico”.
Senador James Inhofe, republicano, presidente do Comité Ambiental do Senado norte-americano

“O Papa devia limitar-se a fazer o seu trabalho, que nós sabemos fazer o nosso” e “é melhor deixar a ciência para os cientistas e concentrarmo-nos no que somos bons, que é a teologia e a moralidade”.
Rick Santorum, candidato republicano à presidência norte-americana [e apesar de o Papa ter recorrido ao conhecimento de muitos cientistas e respectivos estudos para escrever esta encíclica]

“Esta nova encíclica está a ser interpretada como um documento ‘anti-carvão’” (…) “e, no Vaticano, são muitas as vozes que se ergueram para definir esta encíclica como anti-Polónia”
Escreve o jornal polaco e conservador Rzeczpospolita [sendo a Polónia, uma das nações “mais católicas” da Europa, mas extremamente dependente da indústria do carvão].

O rol de críticas poderia continuar, tantos foram os políticos, empresários e “negacionistas” das alterações climáticas que se insurgiram com a recentemente divulgada encíclica do Papa Francisco “Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum”. O título, que significa “Louvado Sejas”, remete ao “Cântico das Criaturas”, de São Francisco de Assis, religioso que inspirou o Pontífice na escolha do seu nome e que é, também, mundialmente conhecido como o santo patrono do ambiente e defensor dos pobres. E, apesar de ter partes especificamente dedicadas aos crentes católicos – os quais, de acordo com o Papa, têm responsabilidades acrescidas no que respeita à interpretação – errada – de uma passagem na Bíblia, a qual faz referência ao “domínio” dos seres humanos sobre a Terra – e que tal não significa que aos humanos foi dada licença para “saquear” os seus recursos sem respeito pelos demais organismos vivos – é um apelo lançado a toda a humanidade que partilha esta “casa comum”.

Apesar de não ser o primeiro papa a alertar para questões ecológicas ou relacionadas com questões globais que a todos interessam – Francisco socorre-se de vários dos seus antecessores, desde João XXIII, Paulo VI, João Paulo II ou Bento XVI – é a primeira vez que uma encíclica é completamente dedicada ao “bem-estar do planeta”, apesar de a linha de pensamento expressa neste documento estar em absoluta consonância com as temáticas que mais tem defendido ao longo do seu ainda curto, mas “rico” percurso enquanto Sumo Pontífice: as desigualdades sociais e a pobreza.

A irritação que tem suscitado em variados contextos e respectivas elites não está apenas relacionada com o facto de ter escrito – e sustentado – que “numerosos estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das décadas mais recentes deve-se às elevadas concentrações de emissões de gases de estufa emitidas, sobretudo, pela actividade humana”, mas também pela crítica aberta que faz aos países ricos e desenvolvidos, os quais, com a sua cultura de consumo, exploram os países pobres. As ferozes críticas ao sistema económico que exacerba as desigualdades e causa a degradação ambiental é uma das mensagens mais fortes que consta na primeira encíclica ambientalista da história, a qual tem unido líderes religiosos de vários credos e que tem sido alvo de uma cobertura mediática mais significativa do que os inúmeros alertas que, desde há décadas, cientistas de todo o mundo têm vindo a divulgar na tentativa, até agora inglória, de convencer os decisores globais a tomarem verdadeiras medidas para estancar a crise que coloca em causa o futuro do planeta. Com religião e ciência de mãos dadas, é unânime a ideia de que “pode ser desta” que a crise climática e seus “sucedâneos” possam ser levados (mais) a sério.

O timing para a divulgação da segunda encíclica de Francisco [a primeira foi Lumen fidei] foi também bem escolhido (ou não, de acordo com as perspectivas). De acordo com notícias divulgadas pelo Vaticano, Francisco visitará os Estados Unidos em Setembro de 2015 e, espera-se, discursará na reunião especial que terá lugar na sede das Nações Unidas, com vista à adopção da nova agenda para o desenvolvimento e como preparação para a cimeira que terá lugar em Paris, em Dezembro, na qual se espera que, finalmente, um compromisso universal sobre o clima seja firmado.

A excepção à regra é personificada pela maioria dos republicanos no Congresso norte-americano, a qual continua a negar a existência das alterações climáticas e se opõe a qualquer regulação que implique cortes nas emissões de gases com efeito de estufa. Por exemplo e entre o ultra-conservador Tea Party, o cepticismo ou negacionismo atinge proporções epidémicas – cerca de 80% de acordo com dados do Pew Research Centre – a juntar às afirmações hilariantes – se não fossem tão graves – da indústria dos combustíveis fósseis. Por exemplo, o grupo lobista do Instituto Americano do Petróleo e a Peabody Coal garantem que os combustíveis fósseis constituem o caminho para o fim da pobreza no mundo em desenvolvimento e o think tank Heartland Institute, o qual foi fundado pela indústria do petróleo, declarou, a propósito da nova encíclica e numa mensagem dedicada ao Papa que este “pretende sacrificar vidas humanas através de gestos sem significado que visam alterar o clima nos próximos 100 anos a partir de agora (…), o que, francamente, nada tem de moral”.

Mas deixemos as críticas, que pouco valem, e atentemos na mensagem ecológica do Papa que, decerto, ficará não só na história da Igreja, mas também na história da “casa comum” que é o planeta em que vivemos.

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As questões que causam inquietação e que “já não se podem esconder debaixo do tapete”

A forma como a encíclica está organizada casa, na perfeição, os argumentos da actual crise ecológica – com base nas mais recentes pesquisas científicas – com as questões éticas e espirituais. Sem esquecer as argumentações que derivam da tradição judaico-cristã – como forma de dar coerência ao compromisso da humanidade com o meio ambiente – Francisco elenca as raízes, “sintomas” e as causas mais profundas desta crise, propondo uma nova ecologia, multidimensional, com vista a integrar “o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o rodeia”.

Todos os grandes “temas” que pertencem à crise ambiental estão presentes na encíclica: poluição e alterações climáticas; a questão da água; a perda de biodiversidade; as questões energéticas; os resíduos; a tecnologia; a deterioração da qualidade de vida humana e a degradação social; as grandes desigualdades planetárias, sem esquecer as “fraquezas” das reacções políticas internacionais e as diferentes perspectivas de linhas de pensamento que apenas inibem quaisquer tipos de resoluções eficazes.

Todavia, a sua força adicional reside no facto de todas as temáticas elencadas estarem transversal e intimamente ligadas com as “cruzadas” eleitas pelo Papa e que ficarão, decerto, na história do seu pontificado. Desde a relação estreita entre a pobreza e a fragilidade do planeta, à convicção de que tudo está intimamente interligado, com a urgência de um novo paradigma no que respeita aos actuais modelos de desenvolvimento socioeconómicos – com uma referência explicita a uma “ecologia integral” – mas também de um novo paradigma na própria ciência, a qual, na visão de Francisco, precisa de “ultrapassar” os silos e o enfoque meramente tecnológico, para se tornar numa ciência de colaboração interdisciplinar, com a sociedade e os decisores a co-desenvolverem o conhecimento e as ferramentas exigidas para “um novo diálogo sobre como moldar o futuro do nosso planeta”.

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Um apelo à protecção da nossa “casa comum”

Ao longo de cerca de 180 páginas, a encíclica articula, de forma marcante, a complexidade e profundidade da Terra, neste apelo para proteger “ a nossa casa comum”. Explorando com grande detalhe o conhecimento científico actual sobre a biosfera terrestre – a camada de vida na Terra composta pelos milhões de espécies de animais, plantas, microorganismos e os seus ecossistemas – o Papa não se limita a sublinhar a tragédia da sua deterioração, em conjunto com os dilemas morais e éticos que lhe estão subjacentes, mas também os “custos extremamente elevados” destas perdas para a humanidade, tanto no presente como no futuro. “Já não é suficiente falar apenas da integridade dos ecossistemas. Temos, sim, de ousar falar da integridade da vida humana, da necessidade de promover e unificar todos os grandes valores”.

A encíclica sumariza também os estudos científicos recentes sobre as consequências da deterioração da biosfera na nossa qualidade de vida – explorando não só os impactos materiais nas sociedades e economias – uma área que está, crescentemente, a ganhar espaço nas agendas científicas, empresariais e governamentais – mas também os impactos destas alterações nas dimensões espirituais e culturais no que respeita à comunhão humana com a natureza. Pesquisas recentes já comprovaram de que forma o declínio das interacções humanas com a natureza, decorrentes dos nossos estilos de vida urbanos e consumistas, têm consequências para a nossa educação, bem-estar psicológico, saúde, felicidade, direitos e coesão social. Como escreve Francisco, “não fomos feitos para sermos inundados por cimento, asfalto, metal e vidro e privados do nosso contacto físico com a natureza”. E, acrescenta, “ se não conseguirmos falar a linguagem da fraternidade e da beleza no nosso relacionamento com o mundo, a nossa atitude será a de ‘senhores’, consumidores, exploradores implacáveis, incapazes de estabelecer limites nas suas necessidades imediatas”.

Recordando que também o clima é um bem comum, que a todos pertence e que a todos importa e que, ao nível global é um sistema complexo responsável por muitas das condições essenciais à vida, o Papa sublinha novamente “os fundamentos científicos sólidos” que provam estarmos a testemunhar o aquecimento desse mesmo sistema climático (…). Nesse sentido, o apelo que faz à humanidade é que esta reconheça, e tome consciência, da necessidade urgente de mudar o seu estilo de vida, de produção e consumo, “para o combate a este aquecimento ou às causas humanas que o provocam e agravam”, com referências directas aos combustíveis fósseis. “(…) um olhar atento ao nosso mundo mostra que o grau de intervenção humana, na maioria das vezes ao serviço dos interesses empresariais e do consumismo, está a tornar a nossa terra menos rica e menos bela, antes mais limitada e cinzenta, mesmo com os avanços tecnológicos e os bens de consumo a abundar de forma ilimitada. Na verdade, parece que pensamos ser possível substituir uma beleza insubstituível e irremediável com algo que foi criado por nós mesmos”. Para Francisco, o problema das alterações climáticas é global e tem implicações graves ao nível ambiental, social, económico, distributivo e político, constituindo o “ principal desafio da humanidade”.

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“Negação, indiferença, resignação acomodada e confiança cega nas soluções técnicas”

É desta forma que Francisco resume as atitudes dos que ainda não se deram ao trabalho de levar a sério uma realidade que está à vista de todos nós – mesmo sem as inúmeras provas científicas que a sustentam – ou, mais precisamente, dos que não estão dispostos a abdicar dos seus interesses particulares, com “o interesse económico a prevalecer sobre o bem comum” em conjunto com “a manipulação da informação para não verem afectados os seus projectos”. Referindo que “os poderes económicos continuam a justificar o sistema mundial actual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente”, o Papa fala também da “cultura do descarte” – com os “hábitos nocivos de consumo que não parecem diminuir – antes expandem-se e desenvolvem-se” – pese embora o crescimento da “sensibilidade ecológica das populações”, apesar de manifestamente insuficiente.

Com inúmeros outros temas que, forçosamente, têm de ficar de fora neste artigo – a leitura da encíclica é fortemente aconselhada pela clareza, impacto e beleza que a caracterizam – uma última chamada de atenção, também ela relacionada com uma das grandes cruzadas deste papa e que, de forma crescente, está na ordem do dia: não só o facto de os principais impactos das alterações climáticas recaírem sobre os países em desenvolvimento, com “muitos pobres a viverem em lugares particularmente afectados por fenómenos relacionados com o aquecimento” e os seus meios de subsistência dependerem fortemente “das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema, como a agricultura, a pesca e os recursos florestais”, mas também o “trágico aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa”.

Nota: a versão portuguesa da encíclica papal pode ser lida aqui.