Mais de um terço das empresas portuguesas vai utilizar Inteligência Artificial em menos de um ano. Machine Learning e Chat Bots são as soluções de Inteligência Artificial que estão a ser mais implementadas. De acordo com um estudo recente que ausculta o impacto desta tecnologia nas organizações portuguesas, a AI poderá ter um impacto líquido positivo superior a 15% na empregabilidade portuguesa. Mas, “enquanto não se conseguir formar talento em AI, será difícil que a taxa de desemprego desça significativamente”
POR GABRIELA COSTA

Mais de um terço das empresas portuguesas vai utilizar Inteligência Artificial (AI, na sigla em inglês) em menos de um ano. Esta é a principal conclusão de um estudo recente da CIONET – a maior comunidade de executivos de TI na Europa, com mais de 7500 decisores tecnológicos, e uma rede de 500 membrosem Portugal -, que revela ainda que a AI poderá ter um impacto líquido positivo de 15,1% na empregabilidade portuguesa.

Apresentado em Setembro num evento realizado em Lisboa, na presença dos decisores tecnológicos portugueses, o relatório “O Impacto da Inteligência Artificial nas Organizações Portuguesas”, foi elaborado a partir dos resultados de um inquérito realizado a mais de cem executivos, junto da comunidade de CIO, CTO e IT Directors nacionais.

Para além de avaliar o impacto que a Inteligência Artificial tem nas empresas e em vários sectores de actividade portugueses, este estudo analisou também quais as soluções que já estão a ser mais utilizadas dentro das empresas, e qual o grau de adopção de AI nas organizações portuguesas, nos diferentes sectores – Alimentar e Retalho, Consultoria e Recursos Humanos, Financeiro, Indústria, Sector Público, Tecnologia, Telecomunicações ou Saúde, entre outros. Estas tendências são comparadas com informações de outros estudos e pesquisas portuguesas e internacionais sobre esta matéria, nomeadamente do Fórum Económico Mundial, da CB Insights, da HfS Research e do McKinsey Global Institute.

O inquérito nacional projecta que 34,6% dos inquiridos estarão a utilizar uma solução de AI daqui a um ano (ou menos), ainda que quaseumquartodosexecutivos (24,6%) acreditequeasuaempresalevarámais de umanoa adoptar uma solução de AI.Somente 14,4% das empresas inquiridas afirmam que irão utilizar AI nas suas operações nos próximos seis meses; e 20,3% deverão ter Inteligência Artificial a funcionar num período de seis a doze meses.

Certo é, segundo a CIONET, que actualmente 39% das organizações já estão a utilizar algum tipo de ferramenta de Inteligência Artificial nas suas operações diárias, tendo em consideração o que afirmam os inquiridos.

[quote_center]39% das organizações já estão a utilizar algum tipo de ferramenta de Inteligência Artificial nas suas operações diárias[/quote_center]

De referir que esta realidade se passa um contexto em que, desde 2012, já foram feitas mais de 200 aquisições de empresas e start-ups especializadas em Inteligência Artificial, e no primeiro trimestre de 2017 realizaram-se mais de 30 negócios de fusões e aquisições. De acordo com a HfS Research, o crescimento anual deste segmento é superior a 100%. A CB Insights estima que o financiamento anual em 2016 em AI foi de 4,1 mil milhões de euros, comparativamente aos apenas 482 milhões de euros investidos quatro anos antes, em 2012.

Machine Learning e Chat Bots revolucionam gestão

Os executivos da comunidade CIONET Portugal que participam no inquérito afirmam que Machine Learning e Chat Bots serão as soluções de Inteligência Artificial que a sua organização irá implementar de forma mais recorrente.

Machine Learning (método de análise de dados que automatiza a construção de modelos analíticos a partir da identificação de padrões, dando aos computadores a habilidade de aprender sem serem explicitamente programados) é “claramente a ferramenta de AI mais reconhecida pelas empresas portuguesas”, diz a CIONET, com 94% das organizações a referirem que irão aplicar este tipo de solução com mais regularidade, num futuro próximo. Grande parte dos sectores analisados, com excepção do Alimentar e Retalho, Educação, Imobiliário e Indústria, diz mesmo “que é impossível não utilizar Machine Learning” nas suas actividades diárias.

As empresas portuguesas referem também que os Chat Botsserão uma das ferramentas mais utilizadas, com 78% dos inquiridos a perspectivar implementar estes serviços (que, segundo o Fórum Económico Mundial, “têm o potencial para alterar por completo o modo como, hoje em dia, o comércio é feito”) na sua actividade empresarial. O “comércio de conversação”, onde são utilizados Chat Bots, “promete levar o consumidor a um diálogo com o vendedor” e, se actualmente, estas conversas têm lugar em aplicações de conversação, como serviços de mensagens de redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter, etc.), no futuro o comércio será, segundo a mesma organização, “integrado de uma maneira mais transparente nos serviços de conversação, também denominados de ‘social buying’.


Por outro lado, e segundo o relatório “O Impacto da Inteligência Artificial nas Organizações Portuguesas”, os Assistentes Pessoais terão impacto nas organizações mundiais e, particularmente, nas portuguesas. Perto de 70% dos inquiridos pela CIONET Portugal afirmam que irão utilizar de algum modo estes assistentes, para facilitar as suas operações e melhorar o desempenho da sua empresa. Paralelamente, a Narrow AI, Inteligência Artificial que está especializada numa determinada tarefa, terá uma taxa de implementação de 61,9% nas organizações portuguesas, ainda que o impacto deva ser baixo (entre 1% e 25%), conclui o estudo.

Já a General AI, isto é, a Inteligência Artificial que mais se aproxima ao ser humano, já que pode perceber e compreender o ambiente que o rodeia, deverá também ser bastante utilizada, atingindo uma taxa de utilização na ordem dos 64,4%.

Simultaneamente às vantagens destas soluções, os inquiridos afirmam que a Inteligência Artificial poderá ter outro tipo de impacto nas suas organizações, como automatização de infra-estruturas, AI ligada a Internet of Things (IoT) ou mesmo no apoio ao diagnóstico num hospital, por exemplo.

AI com crescimento anual de 100%

Como é sabido, o crescimento exponencial da Inteligência Artificial tem vindo a lançar muitas incertezas relativamente ao aumento do desemprego. Mas nas contas da CIONET, que calcula a diferença entre o incremento dos actuais postos de trabalho previsto com a criação de novas funções e a perda de trabalhadores em resultado deste novo paradigma, a Inteligência Artificial poderá ter um impacto líquido positivo de 15,1% na empregabilidade portuguesa, a que equivalem cerca de 788 mil postos de trabalho.

[quote_center]A AI poderá ter um impacto positivo de 15,1% na empregabilidade portuguesa, a que equivalem cerca de 788 mil postos de trabalho[/quote_center]

Este dado é corroborado pelo McKinsey Global Institute (MGI), que estima que apenas cerca de 5% das actividades poderão ser totalmente automatizadas pelas tecnologias disponíveis actualmente. Num estudo internacional sobre esta matéria o MGI prevê, contudo, que até 2030 cerca de 15% da força de trabalho (ou seja, perto de 400 milhões de trabalhadores) “resultante das tendências de maior impacto” poderá ser substituída pela automação. Mas entre esta força de trabalho irá existir uma procura de trabalho adicional entre 21% e 33% (isto é, 555 milhões a 890 milhões de empregos), que vai ultrapassar o número de empregos perdidos em, pelo menos, 6% – cerca de 155 milhões de empregos, conclui a organização.

Numa análise por sectores, e começando pelo único em Portugal que tem uma taxa de adopção de Inteligência Artificial de 100% – o das Telecomunicações -, o estudo da CIONET conclui que, ainda que a Inteligência Artificial “esteja em constante evolução”, e mesmo contando com os postos de trabalho que vão deixar de existir dentro das empresas nacionais, “é visível” que a empregabilidade no sector deverá crescer 31,6%. Actualmente as ferramentas de AI mais utilizadas nas Telecomunicações são os Chat Bots, Narrow AI, Machine Learning e AI “Off-The-Shelf” (pronta a ser usada).


A Tecnologia é o segundo sector onde as empresas mais afirmam que já estão a utilizar AI nas suas operações diárias (com uma taxa de adopção de 78,6%), destacando-se a utilização de Machine Learning. Tratando-se de um dos sectores mais avançados no nosso País, as suas empresas defendem, neste estudo, que os postos de trabalho que existem hoje nas organizações deverão diminuir em cerca de 37,4%, ao mesmo tempo que determinadas funções deverão crescer 14,3%. Por outro lado, os inquiridos da Tecnologia afirmam que a Inteligência Artificial tem potencial para criar 39,6% de novos postos de trabalho, o que resulta num ganho líquido para o sector, em termos de empregabilidade, de 16,5%.

Já as áreas de Consultoria e Recursos Humanos representam o terceiro sector que mais utiliza algum tipo de Inteligência Artificial em Portugal (44,4%). As empresas deste sector a operar em Portugal acreditam que a AI pode reduzir cerca de 17,8% dos postos de trabalho existentes, mas tem um potencial de 11,1% para aumentar os postos de trabalho que já existem, e de 39,7% para criar novos empregos, com funções que hoje ainda não existem. Contas feitas, a Inteligência Artificial deverá ter um impacto positivo de 32,9% na empregabilidade no sector da Consultoria e dos Recursos Humanos.

Converter baixa empregabilidade em valor intelectual

No extremo oposto ao dos sectores que mais implementam soluções de Inteligência Artificial está a Indústria: nenhuma das empresas inquiridas admite estar a utilizar AI nas suas operações. No entanto 30% dos inquiridos no estudo “O Impacto da Inteligência Artificial nas Organizações Portuguesas” perspectiva vir a adoptar estas tecnologias nos próximos seis meses, ou em menos tempo ainda.

Neste sector, a perspectiva de emprego é menos favorável: os resultados deste inquérito indicam que a AI vai fazer com que a empregabilidade no sector desça cerca de 3%, mesmo contando com o crescimento nos postos existentes e com a criação de novas posições dentro das empresas. Simultaneamente, os inquiridos do sector da Indústria acreditam que “todos os postos de trabalho vão, de alguma forma, ser transformados” pela Inteligência Artificial.

Também na área da Saúde se acredita que a Inteligência Artificial irá, certamente, transformar os postos de trabalho existentes. Mas por enquanto a utilização de AI está limitada a 12,5%, dentro deste sector, com Chat Bots, Machine Learning e AI “Off-The-Shelf” a serem as soluções mais utilizadas. Mais de um terço dos inquiridos (37,5%) admite que a Inteligência Artificial só deverá ser implementada na sua empresa em 12 meses ou mais. Neste sector, o impacto na criação ou perda de postos de trabalho deverá rondar os 20,6% positivos.

[quote_center]O sector das Telecomunicações é o único em Portugal que tem uma taxa de adopção de Inteligência Artificial de 100%[/quote_center]

Já a Educação é o sector que reclama que mais postos de trabalho irá perder. Os inquiridos referem que este sector deverá perder 20,7% dos empregos, mesmo contando com aqueles que serão criados graças à Inteligência Artificial.

Por último, o sector de Serviços Financeiros espera que a Inteligência Artificial crie perto de 8% de novos postos de trabalho na área, mesmo que a perda dos empregos actuais seja de 36,9%. Segundo os dados recolhidos no estudo da CIONET, este sector é um dos que mais tipos de AI irá utilizar, focando-se em Chat Bots e Machine Learning, mas utilizando também outros tipos de Inteligência Artificial, como Assistentes Pessoais, AI “Off-The-Shelf” e General AI. As empresas de Serviços Financeiros também serão das que terão uma taxa de adopção mais rápida, conclui o relatório: enquanto 33,3% das empresas inquiridas já utilizam Inteligência Artificial, 55,5% levarão menos de um ano a investir nesta tecnologia para melhorar os seus negócios.

Para o Managing Partner da CIONET Portugal, Rui Serapicos, “é apenas uma questão de tempo até que a Inteligência Artificial seja comummente utilizada pelas empresas portuguesas nas suas operações diárias”.

Como conclui o estudo realizado pela comunidade de executivos de TI, com o objectivo de perceber quais são os verdadeiros impactos da AI nas organizações portuguesas, “o grande desafio neste contexto passa por converter as profissões de baixa empregabilidade em novos empregos na área de Inteligência Artificial” (leia-se profissões de elevado valor intelectual). E “enquanto não se conseguir formar talento em AI, será difícil que a taxa de desemprego desça significativamente”.

Certo é que, de acordo com estes resultados auscultados entre cem decisores tecnológicos portugueses, a Inteligência Artificial tem um potencial de criação líquida de postos de trabalho que deverá incrementar não só a produtividade como também a empregabilidade. Na perspectiva da CIONET Portugal, “numa economia eficiente, sem atritos de empregabilidade e com incentivos à conversão dos postos de trabalho, a Inteligência Artificial tem o potencial para terminar com o desemprego em Portugal”, tendo em conta que deverá criar cerca de 788 mil postos de trabalho, já contando com aqueles que irão desaparecer.


Preparar o futuro

O Governo Português assinou, em Junho de 2018, um novo acordo de cooperação com o  Instituto de Tecnologia de Massachusetts  (MIT) com o objectivo de apostar em Inteligência Artificial até 2030. Através de um investimento de 120 milhões de euros (dos quais 60 milhões serão aplicados no MIT e os outros 60 milhões em Portugal), o programa visa dotar os estudantes portugueses das ferramentas necessárias para que adquiram conhecimento de excelência nesta área.

A prazo, a expectativa é que estes jovens possam vir a trabalhar nas empresas portuguesas, melhorando a competitividade das mesmas. Na altura em que foi assinado este acordo de cooperação, foi anunciado.


Gabriela Costa

Jornalista