Será que algo do que está a ser feito em Portugal, para corrigir a situação actual, é solução sustentável? Será que os comportamentos causadores do despesismo, e as crenças a montante, serão alterados pelo caminho traçado? Será que o Estado é um bom exemplo para a sociedade, ou apenas reflecte a característica geral da mesma, razão pela qual nada se alterará até que cada um de nós actue, por si, de acordo com a qualidade de cidadania que queremos ter e ver? A começar pelos Valores, pela Ética e pela Responsabilização por aquilo que fazemos e aquilo que acreditamos ser aceitável na sociedade
POR MIGUEL ALMEIDA

“Insanidade: continuar a fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes.”
(atribuída a) Albert Einstein

Já viu a última superprodução hollywoodesca, em exibição em todo o país? Eis a sinopse:

Peter Rabbit está em apuros, ao herdar uma dívida de jogo crescente e que não tem como pagar. Ninguém o leva a sério; até os membros da sua quadrilha lhe perdem o respeito. O seu primo, arqui-inimigo e capanga-mor da quadrilha rival, Tony Safe, jurou vingança depois de ter sido levado, no passado, a colaborar com Peter na elaborada trama com que filaram uns cobres a uns agiotas para mascarar o problema do jogo – e consequente dívida – da família. Agora, com os credores no encalço e desesperado, a única solução que Rabbit encontra é juntar a quadrilha para um assalto massivo aos cofres da família, que lhe permita saldar a dívida. Conseguirá Peter salvar a face, que Tony nunca teve? Manterá o love affair com Angie, membro do gang de agiotas? Terá Rabbit a capacidade de travar o problema de jogo, ruinoso, da família? E que impacto terá a acção na relação com o seu mentor Tough Barry, representante não oficial dos agiotas que agora tem à perna? Drama q.b. e comédia negra em doses garrafais, para os fans do género e não só. Sem interrupções, sem intervalos para publicidade e sem fim à vista. Não perca, em exibição em todo o país.

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*MIGUEL ALMEIDA é engenheiro e
gestor, desenvolvendo a sua
actividade como Interim Manager
a nivel nacional e internacional.
Além de Portugal, tem experiência
directa com: Brasil, África do Sul,
Turquia, Austrália, Suécia e
Espanha. Desenvolveu ainda
investigação na área da
produtividade e competitividade
na Europa Ocidental, no contexto
das diferenças culturais dos
respectivos países.

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Acha que esta será a mais recente produção série-B com Nicholas Cage a correr de explosão em explosão na pele de Peter Rabbit? Talvez com John Travolta no papel de Tony Safe, na interpretação da sua vida e candidato supremo ao Óscar de actor (absolutamente) secundário? Ou com a germânica Diane Kruger a concorrer ao Óscar de melhor Caracterização, adicionando 50 quilos e 50 anos para a sua transformação em Angie?!

Não. Este filme tem actores menos galardoados mas nem por isso menos identificáveis enquanto tal: meros actores, numa trama que extravasa as suas respectivas personagens. A trama – jogo financeiro e consumo compulsivo quando não se tem capacidade económica para o fazer – é bem real; é um problema dos países do Sul da Europa (latinos). E os problemas de jogo não se resolvem com o mero saldar das dívidas; são patologias comportamentais que requerem solução a montante.

Será que algo do que está a ser feito presentemente em Portugal, a nível da “correcção” da situação actual, é solução sustentável para os problemas do país? Todos os sectores, ideologias e ângulos de análise parecem ser unânimes na opinião negativa, certo? Mas será que sabem por que é que não é solução? A julgar pelos comentários e justificações diárias nos media e nas ruas, a resposta a esta última pergunta parece ser um rotundo NÃO.

Uns dizem que não é solução porque são negativamente afectados pelas medidas Estatais e, claro está, não gostam (ou seja, não é solução para eles). Outros dizem que não é solução porque lhes interessa dizê-lo para não fazerem má figura (onde se incluem alguns que contribuíram directamente no passado para chegarmos à situação actual, e que agora contam com a falta de memória – e literacia – colectiva para papaguearem demagogias políticas mascaradas de “sabedoria”). Outros ainda, dizem que não é solução… porque se toda a gente o diz é porque seguramente não o será (fazendo lembrar a velha máxima “quem sabe fazer, faz; quem não sabe, começa a tentar explicar porque é que não se pode fazer”).

A realidade é mais comezinha: simplesmente, nós temos aquilo que merecemos! Colectiva e individualmente, o que temos é um resultado do que fazemos. O que fazemos é uma consequência de como pensamos. E o nosso processo de pensamento assenta directamente nos nossos (1) sistema de crenças e (2) hierarquia de valores pessoais. A realidade vivida por cada um de nós é resultado último daquilo em que acreditamos e de como consequentemente nos comportamos. Quer a literatura de investigação (séria) sobre a mente humana, quer os textos biográficos (credíveis) sobre experiências de vida relevantes, evidenciam o nexo de causalidade Crer à Pensar à Agir à Ter. E não apenas a nível individual mas também a nível ecológico, ou seja, colectivo de toda uma população.

A situação actual Portuguesa é resultado último da Identidade Cultural Nacional, e de aquilo em que colectivamente acreditamos. Não caiu do céu (nem do inferno); fizemos por ela. E fizemo-lo não por casualidade, mas porque temos uma “personalidade colectiva” que nos empurrou nessa direcção. Se não alterarmos aquilo que acreditamos ser aceitável, jamais teremos resultados sustentáveis diferentes. É esta a razão pela qual as medidas actuais, que se aplicam a nível de comportamentos e, pior ainda, ao nível do Ter e não de sistemas de crenças, não resolverão os nossos problemas. No contexto do nexo de causalidade resumido acima, vejamos o que nos coloca na situação actual.

CRER
Portugal tem, como é óbvio e comum a todos os países, aspectos culturais positivos que ajudam ao nosso desenvolvimento, e também aspectos negativos que impedem uma maior celeridade nesse desenvolvimento. O saldo destes é, no entanto, negativo face à evidência actual, muito por culpa da predominância de um aspecto concreto que não existe em muitas culturas fora da Latina: a crença visceral na desresponsabilização como algo aceitável na sociedade.

Os países do Sul Europeu são verdadeiros campeões da desresponsabilização, técnica apurada durante décadas e elevada ao estatuto de desporto nacional (qual futebol, qual quê!). Nem anglo-saxónicos, nem germânicos nem nórdicos chegam, sequer, aos calcanhares dos latinos nesta prática. Desde logo, o equipamento necessário a este desporto é entregue a todas as crianças e jovens desde tenra idade (nas escolas, em casa, pelo exemplo da sociedade, etc) através de um sistema de crenças com a desresponsabilização como ingrediente fundamental da “receita para a vida”. Ao chegarem à idade adulta já são exímios praticantes! E, como este desporto nacional não requer instalações próprias para ser praticado, assistimos a exibições em qualquer lado: pratica-se na rua, em casa, nas empresas e demais organizações… e claro está, nos Governos e no Parlamento.

PENSAR
Para aqueles que, eventualmente, não praticam este desporto e portanto estão menos familiarizados com a técnica, fica uma dica útil de como identificar um praticante pela maneira como estrutura o seu pensamento: basta estar atento ao uso daquilo que se denomina por Ética da terceira pessoa, facilmente identificável por expressões como “faço porque o outro também faz” ou “não faço porque o outro também não faz”. Isto, claro está, além da fórmula clássica “a culpa disto tudo é dos X” (com X = governos / políticos / patrões / empregados / ricos / pobres / etc, é só escolher o epíteto que der jeito ao momento). Pensar que se tem responsabilidade própria por se chegar a uma determinada situação, isso é que não! Ética da primeira pessoa (“faço porque devo fazer” ou “não faço porque não devo fazer”), isso é para os outros!

O problema é que os “outros”, com éticas bastante mais próximas da primeira pessoa na Europa Central e do Norte (e, por cá, em quem não se revê nessa identidade latina), obtêm resultados condizentes com essa postura, e que são muito mais positivos quer do ponto de vista económico quer social. E também sabem que é simplesmente eticamente indefensável serem punidos pelo seu bom comportamento e pelas escolhas responsáveis que fazem, através de presentes dados a quem pratica o desporto da desresponsabilização.

AGIR
O Estado Português é praticante acérrimo da desresponsabilização. É, aliás, simultaneamente treinador e capitão de equipa da nossa selecção nacional neste curioso desporto. Sempre o foi e sempre continuará a sê-lo, qualquer que seja o treinador do momento e respectiva “bancada” de treinadores adjuntos, porque o conceito de “Estado” neste país assenta precisamente em desresponsabilização, por construção – ou seja, pelo entendimento que fazem do “Estado” os seus intervenientes directos e a própria população. Não tem que ser assim, mas infelizmente é-o, e pelas alternativas que vemos debatidas não tem a mínima hipótese de emenda nos tempos que correm.

Quando um Estado impõe medidas punitivas, como seja um aumento da carga fiscal, de maneira generalizada e que afectam a todos, seja-se ou não culpado da situação deficitária, está a desresponsabilizar quem originou esses problemas.

Quando um Estado invoca (ilegitimamente) conceitos de “solidariedade” para justificar punições globais, está a premiar o ‘chico espertismo’ de quem teve comportamentos impróprios e que agora se aproveita da confusão geral para contribuir com menos do que deve para resolver o problema. Solidariedade é contribuir para o bem-estar daqueles que não conseguem obter resultados apesar dos seus bons esforços; não é desresponsabilizar os culpados com atitudes “Robin dos bosques” de roubar a quem tem (só porque tem) para dar a quem não quis fazer. Uma atitude de estupro como esta é, uma vez mais, eticamente indefensável.

Vejamos o seguinte exemplo (e perdoe-me a família alargada dos “Silvas” pelo uso exemplificativo do apelido): o Silva comprou um carro de gama alta. Não tem capacidade económica para o fazer, mas como acha que andar de carro de gama alta é um símbolo de status (nota: não o é!), endividou-se e lá anda ele a passar por um estatuto que não merece, e a enganar (apenas) os que pensam como ele. Dado o panorama geral do momento, o Silva actualmente tem dificuldades para alimentar a família, já para não dizer o pagar das prestações do carro (que não vende para saldar a dívida). Porventura alguém defende que o Silva deva corrigir o seu endividamento pelo aumento da sua receita assaltando a prima Maria porque ela tem uns cêntimos debaixo do colchão? Não?! Então porque é que se acha que se a “família” for Portugal, o Estado já tem o direito de o fazer?! É porque é “espiritual” ser roubado por um Estado? Ou será antes porque a sociedade permite passivamente o estupro ideológico?

TER
Não se fazem os pobres ricos fazendo os ricos pobres. A “igualdade” não se promove através do nivelamento de resultados, e sim ao nível do acesso a oportunidades. Promove-se criando oportunidades exactamente iguais para todos, e responsabilizando cada um pelas escolhas e opções que toma face a essas oportunidades.

Não é aumentando a carga fiscal generalizada que se resolve o problema de Portugal; isso apenas serve para diminuir a capacidade de consumo e rebaixar o nível de vida de uma população inteira. E sobretudo desresponsabiliza aqueles que, não tendo condições económicas para determinado consumo, ainda assim o fazem (ou fizeram) apesar das consequências negativas (e totalmente previsíveis) que daí advêm para si próprios. Quer a nível individual quer a nível organizacional, a começar pelo sector público e a terminar em todos aqueles cujo sobreendividamento resulta de opções de consumo exagerado para concorrer com o vizinho Silva.

Não descurando a necessidade de endividamento para habitação, é relevante ainda assim fazer notar que não é “preciso” endividar-se em €300.000 para comprar uma casa; pode-se endividar em €150.000 para comprar uma casa mais barata, que também as há (nota: o valor médio do crédito à habitação andava alegadamente pelos €80.000 em Março de 2012). Ou seja, mesmo o crédito à habitação (consideremo-lo “necessário”, o que é discutível a vários níveis), ainda assim é determinado por critérios de consumo, e logo perfeitamente sujeito a análise no âmbito da responsabilização.

Só tendo poder de compra e sendo directamente responsabilizado pelo consumo que se faça com esse poder de compra é que se contribui para a responsabilização individual e colectiva de uma sociedade. Não entrando em detalhes que requerem debate alongado, na situação actual isso poderia passar por sobretaxar ao nível de IVA e não de IRS: o que bem modelado permitiria que as pessoas tivessem dinheiro na mão e fossem taxadas pelas escolhas de consumo que fizessem com o seu pecúlio. Bens de primeira necessidade com pouca sobretaxa para garantir a subsistência de todos, bens de luxo com sobretaxas mais elevadas para permitir que fossem adquiridos por quem tem capacidade económica real para o fazer… se assim o desejar. Isto adicionalmente à responsabilização daqueles que contribuíram activamente para a situação actual (não “em vez de”).

E se de facto se quisessem (mesmo) resolver os problemas do País?
Porque é que os sucessivos Estados têm tido os comportamentos que lhes conhecemos, ao longo dos tempos, num país como Portugal? Por duas razões:

(1)  Falta de visão de longo prazo para crescimento económico e social do País – a que está associado a facto de uma tal Visão não se coadunar com períodos de mandatos de quatro anos, findos os quais os novos mandatários da coisa pública revogam ou alteram a implementação da referida visão por agendas políticas (sendo notório que sempre as sobrepõem aos interesses do país);

(2)  Porque a iliteracia (vulgo analfabetismo funcional) e desresponsabilização neste país são de tal ordem que as pessoas crêem que o seu sucesso e bem-estar, individual e colectivo, é garantido pelo Estado ou por aquilo que o Estado faz. Ora, em parte alguma do mundo isto assim é (e em Portugal também não, lamento desenganar-vos). O bem-estar do país é um colectivo do bem-estar individual, e este resulta daquilo que cada um de nós fizer pelo seu bem-estar. Que por sua vez resulta da maneira de pensar e dos sistemas de crenças e Valores de cada um, e não de um cenário macroeconómico específico, qualquer que ele seja.

Já estou a ouvir os protestos da brigada do um-por-todos-e-todos-por-um ao lerem este artigo: “cá está mais um defensor do individualismo; com um egoísmo de cada-um-por-si destes não vamos longe!” Pois é, mas acontece que ao contrário do que querem fazer crer os “colectivistas”, porque lhes dá jeito para as suas agendas políticas e porque a iliteracia generalizada ajuda às suas demagogias, individualismo não é egoísmo. Individualismo é tão-só dar atenção ao cuidar de si para poder contribuir positivamente para a sociedade, em vez da atitude (colectivista) da desresponsabilização e de ser um fardo para essa sociedade, esperando que os outros paguem pelos erros que cometermos. O progresso e a inovação assentam na iniciativa individual; a alternativa medíocre do “nivelamento por baixo” e pelo “mínimo denominador comum” traduz outra característica bem Portuguesa, que sai no entanto fora do âmbito deste artigo: a inveja.

Nada do que está a ser feito pelo Estado português neste momento é solução sustentável para o problema nacional, porque nada actua ao nível das mentalidades (Valores e sistema de crenças). Está-se a actuar ao nível dos comportamentos e resultados sem endereçar as causas a montante. A correcção do défice económico não origina uma correcção no défice de atitude e de responsabilização. O que é um garante que, futuramente, os problemas irão reaparecer; assim que os défices económicos estiverem corrigidos ir-se-á, quer a nível colectivo quer individual, voltar aos comportamentos despesistas em Portugal, simplesmente porque se acredita visceralmente neste país que isso é um comportamento correcto e aceitável para uma sociedade e para um indivíduo.

Se o Estado quisesse realmente resolver os problemas do país, estaria a actuar em duas frentes onde, de todo, não está:

1) Responsabilização, para efeito imediato
As medidas económicas estariam a ser aplicadas de maneira responsabilizadora, ou seja, cobrando primeiramente a quem criou os problemas, sendo o efeito solidariedade aplicado apenas na parcela restante. A nossa factura global, em que todos teríamos que contribuir, seria bem menor do que é (e vai ser no futuro próximo) se a austeridade fosse exigida primeiramente a quem consome o que não pode e não com uma lógica de “se fez opções de poupança e consumo Ético, agora vai pagar por isso” ou “vamos fazer com que não tenha meios, para não poder consumir o que não deve” (o que não funciona). Esta atitude é uma mensagem de profunda mediocridade, passando a noção clara de que “não vale a pena ter ambição saudável e poupar para fazer um consumo de qualidade, porque o Estado vai-me sobretaxar arbitrariamente mais tarde; o melhor é “chapa ganha, chapa gasta”, e depois outros que me suportem.” É o claro caminho que levamos, infelizmente.

Muitas situações de défice pessoal ou familiar resultam de sobreendividamento indevido (pelo crédito fácil ao consumo) largamente promovido em anos recentes. As pessoas, famílias e instituições que o promoveram e usaram podem e devem ser responsabilizados por esses comportamentos. Mas não o são, optando-se em vez disso por penalizar toda a gente pelos erros óbvios de alguns.

O défice público actual tem origem no comportamento de vários Governos anteriores. A correcção desse problema faz-se, tal como no caso das famílias, através da redução da despesa pública, não pelo aumento da receita por sobre-taxação generalizada, nem a quem tem pouco, nem a quem tem muito. Um “roubo” não passa a ser ético só por ser feito ao rico em vez de ser ao pobre; é um crime em qualquer dos casos.

A economia paralela pode ser controlada e mitigada ou vastamente reduzida. O fracasso actual resulta unicamente da incompetência do Estado para o efeito. Se não o sabem fazer, podem aprender com quem o faz bem noutros países da Europa.

2) Educação, para efeito (de investimento no) futuro
O Sistema Educativo em Portugal é incorrecto. É um lugar comum dizê-lo, mas não o oiço dizer pelas razões que considero reais: a escola falha clamorosamente na preparação das crianças e dos jovens para o mundo real em que se vão inserir no final do período escolar. Salvo excepções, naturalmente, bem como algumas iniciativas sobretudo privadas em algumas das áreas abaixo.

Em particular falha por não incluir como disciplina fundamental em todo o currículo escolar (todos os anos lectivos e todas as escolas, garantindo igual oportunidade a todas as crianças e jovens) ensinamentos que são reconhecidamente factores críticos de sucesso pessoal – e logo contribuidores para o sucesso colectivo – tais como, a saber:

  • Ética, Cidadania e Justiça – é preciso entender que é a Ética da primeira pessoa que torna uma sociedade desenvolvida e não a Ética da terceira pessoa; a “Justiça” tal como hoje a temos (i.e. a Lei) é um conjunto de regras para arbitrar disputas, não é garante algum de funcionamento realmente Justo de uma sociedade. Nem tudo o que é Ético é legal; nem tudo o que é legal é Ético
  • Diferença entre (ser uma) Autoridade e (ter um) Poder – é preciso entender que o facto de se ter Poder instituído para algo não legitima agir de qualquer maneira. Ser reconhecido como Autoridade requer respeito atribuído pelos outros. A maioria dos cidadãos em Portugal acha que quem tem Poder é uma Autoridade; na realidade, muito poucos “poderosos” são Autoridade
  • Nexos de Causalidade, Pensamento Crítico e Tomada de Decisão – é preciso entender a relação Crer à Pensar à Agir à Ter na vida diária; aquilo que temos tem origem naquilo que tomamos como Verdade (“Suprema”). É imperativo prevenir o analfabetismo funcional que permite que (entre outras) as agendas políticas e mediáticas originem entendimentos errados das causas das coisas dada a falta de capacidade generalizada da população para pensar criticamente sobre aquilo que ouve ou lê
  • Resiliência e Determinação – é preciso entender as agruras da vida, em particular aquelas que nos são criadas ou impostas pelos outros, como experiências que enriquecem a nossa capacidade de tomar melhores decisões para o futuro… se fizermos com que assim o sejam
  • Automotivação e Auto-estima – é preciso entender que cada um de nós é de per si uma Autoridade, com desejos próprios e legítimos, e que o nosso bem estar não pode estar sujeito aos humores de terceiros, nem de organizações e instituições a seu belo prazer; muito menos da coisa pública. Todos somos automotivados, não somos motivados por outrem. Podemos sim, ser inspirados por outrem a usar a nossa automotivação ao serviço de determinados objectivos… o que não é a mesma coisa que depender de outros para se ser motivado
  • Saúde e Nutrição – é preciso entender que hábitos e comportamentos saudáveis têm óbvias vantagens futuras para o próprio e para a saúde pública. Usando um exemplo ilustrativo actual: não se resolvem problemas dentários das crianças com cheques-dentista para tratamentos de cáries, resolvem-se prevenindo os hábitos que levam ao aparecimento de cáries; isso faz-se ao nível de crenças e Valores saudáveis
  • Risco e Finanças Pessoais – é preciso entender que a imprevisibilidade da vida nos leva a correr repetidamente riscos (consciente e subconscientemente), e saber lidar com essa inevitabilidade sem culpar o mundo por este ser imprevisível. Consumir mais (e mais caro) tem que ser antecedido por merecidamente receber mais; sinais exteriores de riqueza não são status absolutamente algum, já que não traduzem nivel económico e apenas uma opção de consumo. Poupança e investimento são duas vertentes de remuneração passiva que permitem aumentar o consumo mais tarde e com menor risco (ou seja, entender o conceito de “delayed gratification”)
  • Ambientes de Criação de Valor (empresarial, criativo, etc) – é preciso entender que há muitos ambientes alternativos de criação de valor na sociedade, desde o empreendedorismo e a actividade por conta própria até à área cultural, passando naturalmente pelo emprego por conta de outrem. O essencial é que cada um seja produtivo fazendo (bem) aquilo que realmente gosta, e não que seja indoutrinado como consumidor cego de onde advenha uma necessidade patológica por um emprego como (pseudo) direito adquirido para financiar o seu consumismo
  • Responsabilização – finalmente, é preciso entender que por todos os pontos anteriores, cada pessoa tem aquilo que merece e aquilo que faz por ter… e tem que ser responsabilizada directamente pelas escolhas e opções que faz, sendo esse o verdadeiro papel que o Estado deve ter na sociedade: ser regulador e responsabilizador, servindo a protecção social para garantia de apoio a quem necessita e não para ser abusada pelo “chico espertismo” e pelo “consumismo de (falso) status”, nem pela máquina Estatal em si mesma

Só numa sociedade sem analfabetismo funcional é que o processo democrático leva à eleição de órgãos Estatais condizentes com os melhores interesses do país. Só um sistema educativo que previne essa iliteracia forma uma sociedade avançada. Portugal tem um défice enorme neste aspecto (muito maior do que o défice económico, que é uma consequência do primeiro), resultando nos Estados e Governos que tivemos até à data e onde, tal como nos indivíduos e nas famílias, identificamos repetidos comportamentos impunes de destruição sucessiva do Valor criado pelas empresas e demais agentes económicos. O crescimento económico que Portugal tem tido na sua História recente deve-se aos esforços de cada cidadão dadas as regras a que está sujeito, apesar do Estado e definitivamente não por causa deste.

O sistema educativo deve fazer aquilo que hoje largamente não faz: ensinar as crianças e os jovens a pensar, preparando-os para serem responsáveis e agirem de maneira Ética na sua contribuição para a sociedade, não só profissionalmente mas pelo comportamento diário em todas as áreas sociais, independentemente das escolhas que façam sobre o rumo concreto da sua vida (portanto, não confundir com dizer-lhes o que pensar, que não é de todo o meu ponto). Inclusivamente, é necessário em muitos casos defender as crianças e os jovens dos exemplos familiares que têm, já que são estes exemplos que desfazem algum (ou muito) do valor criado pela educação escolar. Com raras excepções, as escolas não estão sequer preparadas para introduzir estas matérias curriculares, até porque grande parte dos profissionais do sistema educativo não são a solução de nada e sim parte integrante do problema, já que se comportam eles próprios de maneira exemplarmente reprovável, alimentada por um sistema de crenças e Valores desresponsabilizador, tão desajustado ao êxito como o de qualquer outro profissional. Só um enfoque sério nesta matéria permitirá que, a prazo, a sociedade Portuguesa adopte progressivamente atitudes e comportamentos mais de acordo com os melhores interesses de progresso do País, quer a nível económico quer a nível social.

Integração europeia? Really?!
Outras sociedades europeias, como or exemplo, as nórdicas, estão bastante mais avançadas nas matérias da responsabilização e do sistema educativo. São campeões nos jogos inversos aos dos latinos. E os germânicos e saxónicos ficam pouco atrás dos nórdicos (e muito à frente dos latinos) nesta matéria. Razões pelas quais a situação global actual na Europa é não apenas explicável mas totalmente previsível – e só por si impeditiva de uma eventual maior integração que alguns gostariam de ver. É naturalíssimo que p.e. os Nórdicos não estejam de acordo com as ajudas aos países do Sul da Europa, porque simplesmente entendem, correctamente, que é uma punição feita ao seu (Ético) comportamento social terem que compensar com o seu esforço o comportamento abusivo dos outros.

Só o vírus mental da desresponsabilização Latina faz crer o contrário. Várias opiniões demagógicas têm vindo a lume ultimamente sobre a “legitimidade dos povos do Sul se endividarem à custa do resto da Europa para se desenvolverem.” É curioso o entendimento deturpado de “desenvolvimento” destas pessoas; e como só se acham com direitos; não têm deveres! Não acham que devam ser responsáveis por aquilo que fazem com os fundos que recebem para esse desenvolvimento. Não acham que devam investir esse endividamento na criação de medidas estruturantes – a começar pelo sistema educativo, base da sociedade futura – para garantir a desnecessidade de endividamento futuro. Não acham vergonhoso que o mau uso dos fundos postos à sua disposição não seja sancionado. Não acham indecente que eles próprios, quando responsáveis directos pelo mau uso dos fundos, não sejam directamente responsabilizados por isso. Preferem “justificar” a situação pela economia paralela e “impossibilidade de a controlar”. Ou seja, acham que a incompetência de um Estado para evitar abusos deva ser liminarmente desconsiderada e, em vez disso, se devam deixar de honrar compromissos assumidos com quem lhe empreste dinheiro. Estas pessoas são, na realidade, parte integrante do problema e não solução alguma para o país.

Atitude Pessoal
Não faltará quem apregoe as iniciativas Estatais, actuais e anteriores, como criadoras de Valor na sociedade ao estabelecerem um conjunto de regras que permitem aos agentes económicos criar por sua vez Valor no país. Se assim fosse, todas as iniciativas empresariais tinham sucesso, ou todas tinham fracasso (não estão todas sujeitas ao mesmo conjunto de regras?!). Evidentemente, tal não é o caso, porque não é o cenário macroeconómico que gera sucesso (ou falta dele), e sim a atitude de cada agente perante o conjunto de regras a que está sujeito, quaisquer que sejam essas regras. Quem tem sucesso actualmente continuará a tê-lo se as iniciativas governamentais se alterarem; e quem não tem continuará a não o ter na mesma hipótese de alteração. Esta é uma verdade que os Governos não gostam que as pessoas saibam (estraga-lhes a dança política com que entretêm as populações).

O único factor explicativo do sucesso (lato sensu: financeiro, económico, pessoal, profissional, social, familiar, etc) é a atitude pessoal. Não é o cenário macroeconómico, nem são as regras impostas pelo Estado; é a maneira como cada um de nós “navega” por essas regras com vista a resultados positivos para si próprio, e daí colectivamente ao nível familiar, organizacional e do país. Recuperando o nexo de causalidade: os nossos Valores são determinantes na nossa maneira de pensar, e daí no agir e no obter de resultados. Sem mudar as nossas crenças não vamos ter outros resultados! Quem apregoa o contrário sofre de insanidade e precisa de ajuda médica especializada – é aliás uma patologia conhecida pelo menos desde os tempos de Einstein.

Não precisamos de nos tornar nórdicos para ser responsáveis, não precisamos de deixar de ser Latinos para ser responsabilizados por aquilo que fazemos. É simplesmente uma evidência Ética, e esta não é apanágio de uma qualquer Identidade Cultural, é transversal às sociedades modernas. Enquanto continuarmos a formar cidadãos em que a Ética da primeira pessoa não seja central na sua personalidade, continuaremos a fazer divergir as sociedades Europeias (porque as Culturas do Centro e Norte da Europa fazem-no). Enquanto continuarmos a desresponsabilizar (maus) comportamentos, e a punir (boas) opções de consumo e de poupança, continuaremos a hipotecar (ainda mais) o futuro de Portugal.

Conclusão
Estamos presentemente a centrar-nos excessivamente no cenário macroeconómico para resolver os problemas de Portugal, quando o necessário é centrarmo-nos na nossa atitude pessoal, apesar e independentemente do que os Governos fizerem sobre o assunto. Porque nenhum Governo que seja vai fazer o realmente necessário para resolver os problemas do país: responsabilizar os cidadãos desde já e preparar a sociedade futura para ser, ela própria, Ética e Responsável. Optam pela punição generalizada ao património e, não tendo o mecanismo de desvalorização da moeda, desvalorizam toda uma sociedade.

A eliminação do défice público económico como objectivo último por si mesmo nem sequer tem o valor de dar um peixe a quem tem fome (está-se a retirar precisamente os meios da mais elementar subsistência a muita gente). Quanto mais o aproveitar da situação actual para ensinar as pessoas a pescar!

Portugal tem um problema de jogo grave. Quer a nível público quer a nível privado, o dinheiro é gasto em consumo (e frequentemente em consumismo) e não aplicado em poupança ou em investimento. Isto constitui um comportamento de alto risco, desconsiderando a incerteza inerente quer ao funcionamento da sociedade actual quer ao facto de sermos interdependentes com outros países e pessoas, com comportamentos sobre os quais não temos controlo e vice-versa. Esta “aposta cega” (i.e. jogo) em como o futuro será um jardim de rosas independentemente do comportamento no presente não é optimismo, é meter a cabeça na areia numa atitude de “quem vier atrás, que feche a porta” (como se as rosas não tivessem espinhos).

Tal como em qualquer outra fantasy land dada a produções hollywoodescas, em Portugal quando ocorrem problemas de dívidas é mais fácil montar um assalto “a onde está o dinheiro” do que resolver os problemas a montante, que originam as dívidas. E com os Estados cinéfilos que temos, que baseiam o seu entendimento da sociedade naquilo que viram num qualquer filme, é mais fácil punir quem ganha, quem poupa e quem investe do que assumir as responsabilidades e culpabilizar quem esbanja.

É assustadora, gritante, aviltante e vergonhosa a falta de responsabilização que vemos quer a nível individual quer consequentemente a nível colectivo em Portugal. Só com iniciativa e atitude pessoal de cada um de nós assente em Valores, Ética, Responsabilidade e Responsabilização, a começar pela auto-responsabilização da Ética da primeira pessoa, poderemos não só obter bons resultados e bem-estar apesar dos Governos – porque estes não o promovem – mas ainda poder ter a ambição de convergir com a Europa da “primeira velocidade”.

Até lá, ainda muito caminho há a percorrer para conseguir algo na sociedade Portuguesa e que ainda falta neste país, quase 40 anos depois de uma revolução: entender que ter a Liberdade para fazer algo não é o mesmo que ter uma justificação para o fazer.

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