Reforçar dinâmicas sociais de proximidade em articulação com instituições e redes de voluntariado é o desafio a alcançar na Casa dos Vizinhos, o novo projecto da Associação Filos que, com a ajuda dos Sentinelas de Rua, sinaliza casos de abandono e solidão no Porto, particularmente entre a população idosa, e procura respostas de auto-emprego e entreajuda. Uma rua que é de todos, e onde todos podemos partilhar experiências e afectos
POR GABRIELA COSTA

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Fazer da rua, do meio urbano, uma referência. Não de distância, mas de proximidade. Não de indiferença, mas de partilha: partilha de experiências e partilha de afectos. Fazer da rua, rua a rua, a nossa casa. É assim que a Casa do Vizinhos, iniciativa lançada em Dezembro na cidade do Porto, pela Associação Filos e pelo Movimento Comunidades de Vizinhança (MCV), quer actuar, numa lógica de Economia Solidária nascida de uma dinâmica comunitária entre voluntários e população vulnerável.

Uma filosofia de intervenção definida a partir do conceito de “cidadania participativa” que se centra no espaço urbano, onde vivem e trabalham as gentes com quem se quer “aprofundar um processo de humanização”. Falamos, claro, dos idosos em particular, entre os quais o risco de pobreza, na capital nortenha, ascende aos 26 por cento, muito acima da média nacional – dezoito por cento. São os velhos os mais acarinhados por este Movimento que se quer ver replicado da sede da Filos, na Rua de Costa Cabral, a outras ruas da cidade, e a outras cidades do país.

Ao projecto dedicado à valorização das boas relações de vizinhança associaram-se já o Instituto Superior Politécnico Gaya,  a Cooperativa Uninorte e um grupo de voluntários da Zona Oriental da cidade do Porto – os Sentinelas de Rua. Junta, esta equipa está a criar um banco de recursos para acudir às situações de maior carência, a partir de uma bolsa de necessidades, ou seja, está a implementar uma rede que identifica as carências mas também quem pode ajudar a supri-las. O Movimento Casa dos Vizinhos funciona assim como uma espécie de “família cooperativa” inspirada na Economia Solidária, que, com a participação de todos, procura oferecer várias oportunidades de auto-emprego, através da constituição de uma rede de prestadores de serviços à comunidade e da promoção do desenvolvimento sócio-local. A sua actuação valoriza a colaboração com actores sociais locais em iniciativas conjuntas que, contando com “um trabalho persistente de envolvimento das pessoas socialmente mais vulneráveis”, constituam “novas oportunidades para a sua inclusão social”, garantindo o direito de igualdade que a Constituição lhes garante.

“As pessoas têm medo de pedir ajuda”
Enquanto movimento cívico, a Casa dos Vizinhos “está dependente das dinâmicas que, em cada Rua, se vierem a revelar capazes de “mobilizar” pessoas e instituições locais”, alerta, em entrevista ao VER, o padre José Maia. O objectivo é dar-lhes primeiro a conhecer bem este movimento para que, depois, decidam voluntariar-se, dando “o seu contributo de cidadania através de iniciativas que vierem a reconhecer como necessárias e adequadas às suas motivações e capacidades”, explica, adiantando: “este processo tem-nos revelado a dificuldade que há em descobrir, em cada Rua, as situações de pessoas ou famílias com dificuldades. Perante o “pressentimento de que há pessoas a precisar de ajuda, sobretudo pessoas idosas”, vence muitas vezes “o medo ou inibição em pedir ajuda”, lamenta.

Neste contexto, e de modo a tentar replicar o projecto inicial na sede da Filos no Porto (o qual se assume como um “laboratório social” com respostas locais para a comunidade) noutros pontos da cidade e, mesmo, do país, o Sentinelas de Rua, programa de voluntariado vocacionado para concretizar a missão do MCV através da disponibilização de pessoas para o desenvolvimento de várias iniciativas solidárias, “terá de poder contar com voluntários que vão à busca discreta de pessoas em situações de vulnerabilidade social”, conclui. Esta estratégia de proximidade passa por “criar laços de confiança para, a partir destes primeiros passos, se buscarem respostas adequadas para estas pessoas”.

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Para já, os primeiros voluntários inseriram-se numa equipa de uma carrinha de serviços de saúde que, de forma habitual, percorre algumas ruas da Zona Oriental do Porto, como forma de reconhecerem e estabelecerem estes laços com pessoas que precisam de apoio social, adianta o também pároco da freguesia da Areosa.

A criação de um espaço onde as pessoas  podem passar tempo umas com as outras, criando laços de entreajuda, assume, na actual conjuntura socioeconómica, particular relevância. A proliferação de uma consciência social ao serviço da humanização das cidades, nomeadamente face aos crescentes problemas demográficos que têm vindo a envelhecer a população portuguesa, agravando cada vez mais os problemas de solidão e isolamento dos idosos, está na base do projecto Casa dos Vizinhos. Com efeito, “a filosofia do MCV está alicerçada na profunda e interiorizada consciência do valor que urge conceder, ao nível de proximidade e vizinhança, às dinâmicas locais de inter-ajuda e desenvolvimento sócio-local”, diz ao VER José Maia:  “é preocupação deste movimento fazer uma aproximação entre os “vazios urbanos” e os “vazios humanos”, como forma de humanização da cidade, reconciliando as pessoas ao nível das redes de vizinhança, fazendo-as experimentar o ‘parentesco de proximidade’”.

Note-se que, de acordo com o Diagnóstico Social do Porto realizado em 2010 pela Universidade Católica, o Porto é um concelho “que apresenta um índice de envelhecimento muito superior à média nacional”, e onde “as pessoas idosas estão entre os grupos humanos mais vulneráveis e carentes de atenção no que se refere ao acesso a condições de habitação condigna, de saúde, de segurança e de cuidados sociais”. O relatório sinaliza também um risco de pobreza entre as pessoas idosas da cidade na ordem dos 26 por cento, valor substancialmente superior à média nacional, que se cifra nos dezoito por cento.

“Condomínios sociais” contra a indiferença
As ruas já não são meros espaços físicos com casas, comércio, indústria e serviços. As ruas são hoje entendidas como “espaços privilegiados de cidadania activa”, ou como “condomínios de parentesco de proximidade”. Para o padre José Maia, presidente da Associação Filos, só construindo estes “condomínios sociais” se conseguirá fazer uma revolução transformadora das mentalidades, na qual as pessoas “se comprometam a dizer, com gestos e actos, Não à indiferença!

A Casa dos Vizinhos é uma “família cooperativa” inspirada na Economia Solidária, que oferece oportunidades de auto-emprego através de uma rede de prestadores de serviços à comunidade .
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As acções que se podem desenvolver nesse sentido têm possibilidades infinitas: identificar pessoas e famílias, (sobretudo idosos em solidão e extrema pobreza) que, em cada rua, precisem de ajuda; voluntariar-se para dinamizar na sua rua um melhor desenvolvimento humano e sócio-local, de forma a que os seus moradores e parentes de proximidade possam usufruir de uma boa qualidade de vida, do ponto de vista de realização pessoal e familiar, relacional e ambiental, de equipamentos de lazer e serviços à comunidade; motivar e mobilizar comerciantes, industriais, e outras pessoas singulares ou colectivas para uma adesão voluntária e permanente à criação e manutenção de um Banco de Bens e Serviços (BBS) com sede na Casa dos Vizinhos da sua rua, garantindo que na nossa rua “ninguém” passará ficará sem apoio a situações de carência social,  devidamente comprovadas; tentar saber quem, na sua rua, é proprietário ou procurador de algum prédio devoluto ou abandonado, que possa “emprestar” ao MCV, através de um “contrato de comodato”, para nele se instalar uma Casa dos Vizinhos; contribuir para a construção de uma “Bolsa de Procura e Oferta” de oportunidades de trabalho e serviços à comunidade, disponibilizando-se para as dar a conhecer, em primeira mão, ao MCV, contribuindo para reduzir o drama do desemprego. Tudo isto pode fazer o cidadão comum, numa lógica de voluntariado de proximidade.

O espaço âncora da casa dos Vizinhos podem e devem dinamizar uma agenda cultural que inclua cinema, espectáculos ou jogos, mas fundamental é que funcionem como um lugar com “várias respostas sociais” para os seus frequentadores, nem que seja, simplesmente, dar companhia às pessoas mais sós.

Este ponto de encontro entre pessoas, empresas e instituições que, morando no mesmo “condomínio”, desejem assumir a sua “cidadania participativa” valorizando a vizinhança como uma expressão de “parentesco de proximidade”, está aberto a quem se queira voluntariar por esta causa, aderindo automaticamente ao programa Sentinelas de Rua, e assumindo assim, com as suas acções voluntárias, o compromisso ético de combater a indiferença, a solidão e o isolamento social, bem como todas as situações de pobreza extrema, particularmente as que atingem a população idosa. A Casa dos Vizinhos é um Balcão social onde podem dirigir-se as pessoas ou famílias que se sintam sós e desejem aderir a iniciativas de convívio social, bem como as que se encontrem a viver situações de extrema pobreza e que, “apesar de todos os seus esforços, não estejam a conseguir ter acesso a bens essenciais para uma sobrevivência compatível com a sua dignidade humana”, como alojamento, alimentação cuidados de saúde ou medicamentos de primeira necessidade. Todos quanto a ele se dirigirem, passarão, automaticamente, a considerar-se inscritos na Cooperativa MCV, passando a fazer parte desta “família de parentesco de proximidade”, cuja filosofia de actuação consiste na partilha” do que se tem (em bens e serviços).

Finalmente, a Casa dos Vizinhos funciona como um pólo de desenvolvimento sócio-comunitário, porquanto extravasa em muito as funcionalidades de um edifício físico” que se pretende instalar  em cada rua ou conjunto de ruas, para funcionar como uma “lareira de humanização, na medida em que investirá também num reordenamento social do território, promovendo iniciativas e projectos que façam destas casas fontes de progresso alicerçadas na Economia Solidária e no cooperativismo. Como defende o presidente da Filos, só assim se poderá dotar as populações de uma verdadeira rede de prestadores de serviços à comunidade.

Gabriela Costa

Jornalista