Quem o afirmou foi João Talone, no mais recente almoço-debate da ACEGE, no qual teceu duras críticas ao comportamento dos políticos e à falta de ambição do Executivo, afirmando igualmente que “faz sentido sair da primeira linha e dar lugar a gestores com 35 a 40 anos, porque são esses que vão fazer o país”
POR VITOR NORINHA

João Talone defende o imediato lançamento de um plano mobilizador para as famílias e empresas. O Governo tem a obrigação de lançar ideias e trilhar rumos. O gestor afirmou, durante a mais recente conferência da ACEGE, que o país tem de ser mais forte, ter mais ambição ao nível de contas públicas e deixar de ter a veleidade de ir de “peito feito” junto de Bruxelas para exigir o que for. O nível de endividamento do país é muito grande e é preciso gerir esse “bolo”, tendo consciência de que a fraca profundidade do mercado da dívida portuguesa faz com que as boas “yields” do momento rapidamente desapareçam se os mercados se apercebem que não estamos no rumo certo.

Muito crítico e a rever a matéria dada há meia dúzia de anos, Talone lançou indirectas aos que pensam saber tudo e aos que na pele de cordeiros actuam como lobos maus. O gestor disparou à direita e à esquerda e sempre com um refinado sentido de humor. A falta de competitividade do país é da responsabilidade de quem gere.

Sobre o futuro, está confiante. Afirma que os quadros com 30 e 40 anos sabem bastante mais do que os da sua geração, ao apresentarem um nível de globalização completamente diferente. Diz não se auto-excluir da gestão, mas reserva-se para trabalhos de fundo.

Sobre as pessoas diz que existe uma “dicotomia no país. Há os que estão motivados e os que estão desmotivados, porque têm problemas financeiros e não têm idade para refazer a vida, e há os desempregados. No entanto, os que estão na vida activa, estão motivados”. O gestor está preocupado com os acordos intergeracionais e enfatiza as declarações permanentes dos reformados a afirmarem que não se deveria mexer nas respectivas reformas, porque trabalharam para atingir aquele objectivo, apesar de Talone considerar que isso não corresponde à verdade. Com efeito, afirma que os descontos dos pensionistas do regime geral correspondem a cerca de 50% do que vão receber, no caso da Caixa Geral de Aposentações corresponde a 30% e, no caso dos juízes dos TC, os descontos correspondem a 16% do que vão receber de reforma. O problema global diz, “está na descida de rendimentos”.

Os mais jovens, por seu lado, já sabem que não irão ter reforma e estão a pagar impostos brutais, diz o gestor, que avisa: “os mais jovens têm a arma de se irem embora e ainda reduzirem mais os contributos líquidos”, afirmando que pensionistas e cativos vão ter de partilhar essa diferença (entre o que contribuíram, aquilo a que têm direito e aquilo que precisam de cortar).

João Talone referiu igualmente que “há muita gente a falar de mais e muita gente a falar do que não sabe e de entre os que falam há muitos lobos maus”. Há cinco anos e meio afirmava, no mesmo evento da ACEGE, que as elites são altamente destruidoras da coesão e da família. No actual momento, a actuação do Governo e da oposição tem sido destrutiva e não está à altura do momento. “Dito isto, estamos hoje melhor do que há cinco anos e melhor como país e como pessoas. Temos uma nova geração, mais bem preparada do que a minha e mais global. Pessoalmente, quero criar alguns laços especiais para ter alguma intervenção cívica. Para tentar forçar as plataformas necessárias para o país se desenvolver, mas não é fácil”, afirmou.

O capital que temos, diz, “está em não aparecer em público a fazer comentários, sobretudo perante pessoas que se confundem com os lobos e andam a fazer de cordeiros, repito”. A nível político e dentro daquilo que é essencial,” concluo que são absolutamente coincidentes [as posições] entre quem está no Governo e os que estão na oposição. Os políticos tendem a criar condições para a divisão e não para os consensos. Independentemente da situação, Portugal é um país totalmente marginal na economia europeia, com um PIB a valer menos de 2%”, frisa.

Para Talone, não vale a pena ir de peito feito falar da mutualização para Bruxelas, algo que até pode ser contraproducente. “Como país pequeno, somos os primeiros a ser atingidos com as yields,  porque o mercado da dívida portuguesa não tem profundidade”. A yield de 3,43% (média desta semana) desaparece rapidamente.

Temos o handicap de sermos pequenos e, por isso, a nossa obrigação é ir mais longe para estarmos fortes, porque somos mais vulneráveis, “mas esta mensagem não passa”, frisa Talone.

Em termos europeus, houve uma evolução nestes últimos anos, mas o modelo de governação europeu continua a não funcionar, diz. “Recordo que, na altura do grande alargamento, houve dois pratos na balança. Dentro das várias instituições da União, o BCE é a mais eficiente, em boa parte porque é independente. Portugal tem de jogar com a situação, exercer influência pelo mérito, de uma forma positiva e nunca vir de peito feito dizendo que vamos colocar a União Europeia na ordem”.

E acrescentou: “será uma frustração que não se aproveite o momento para corrigir as situações estruturais, tendo em conta o esforço que foi feito, com a população a passar dificuldades e sem que se criasse a tão falada ruptura social. Diferentes foram as situações vividas em Barcelona, Madrid, na Grécia ou em Itália. Fizeram-se reformas que não foram as óptimas, mas foram feitas, como é o caso da reforma do direito de trabalho e que, em conjunto com a mudança de atitude dos trabalhadores, permitiu um enquadramento muito mais competitivo para o país”.

“A geração que interessa para o país não é a minha”
Qual a solução, questiona o gestor. “Se fosse líder, avançaria com um pacote de novas exigências viradas para o desenvolvimento do país. Daria aos ministros 15 dias para apresentarem medidas e um mês para começar a implementá-las e apareceria com um plano mobilizador”, declarou.

O gestor frisou que “deveria criar-se uma onda positiva no país, tanto mais que há um conjunto de projectos que irão projectar o país para o futuro”. Diz que “é preciso ter comunicação que passe estas mensagens, e isso não acontece hoje”.

Ao nível das empresas, houve uma grande evolução porque foram obrigadas a dialogar. Houve muitas empresas que não exportavam e passaram a exportar. Para que houvesse mais exportações, bastaria que se identificasse as 1000 maiores e ter-se-ia a noção de quem quereria investir mais. As empresas têm de ser maiores e mais ambiciosas.

A falta de competitividade do país é da responsabilidade da gestão. Talone afirma que “faz sentido sair da primeira linha e dar lugar a gestores com 35 a 40 anos, porque são esses que vão fazer o país”. E é peremptório ao afirmar que não lhe cria qualquer pudor o facto de os técnicos saírem para o exterior, porque regressam enriquecidos.

Os actuais gestores, afirma, têm um papel nuclear. Têm de evitar que os mais novos cometam os erros que eles já cometeram. Os mais velhos não têm de sair de cena, mas “a geração que interessa para o país não é a minha”, diz.

Sobre a situação política criada dentro do partido socialista, o gestor disse apenas que se está perante uma situação anómala, porque o Governo não tem ninguém com quem dialogar. O conflito irá durar até Setembro/Outubro e “isso é mau, porque é muito importante que a oposição participe no futuro OE de 2015”.

Sobre o sistema financeiro, diz que há hoje uma oferta de crédito que não havia, mas a avaliação de risco tem de existir e que os spreads estão a começar a baixar. “O que há é falta de capitais permanentes nas empresas. Há uma falta de capitais próprios, e em Espanha acontece o mesmo. Temos ainda as holdings dos accionistas que estão descapitalizadas, o que o levou a parafrasear o adágio de que com “a maré baixa, as rochas vêm ao de cima”.

Ainda no evento da ACEGE, Talone afirmou ser inevitável uma nova vaga de consolidação na banca. “Não estão (os bancos) a ganhar dinheiro com a mortalidade da carteira e com os riscos do lado activo”.

Perfil
João Talone, como é conhecido, é um engenheiro e gestor português com um dos mais impressionantes currículos profissionais no país.

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Licenciado em Engenharia Civil pelo IST, com frequências de diversas grandes escolas de gestão internacionais, entre as quais se destaca a Harvard Business School, onde fez o AMP (Advanced Management Program), é hoje presidente do Conselho de Administração da Magnum Capital e da Iberwind e integra, ainda, os órgãos dirigentes dos grupos Vendap e Generis.

Ao longo da sua carreira, exerceu funções como presidente do Conselho de Administração e da Comissão Executiva do BCP Seguros, tendo sido igualmente administrador do BCP Investimentos e do BCP (agora Millennium BCP), presidente do Conselho de Administração e da Comissão Executiva da Eureko (para aqueles que não se recordam, esta era a maior holding de seguros da Europa) e do Conselho de Administração da Foreign & Colonial, e também vice-presidente do Conselho de Administração da Lusotur, CEO da EDP e vice-presidente da Hidrocantábrica.

No sector público, foi-lhe confiada a tarefa de extinção do Instituto de Participações do Estado (IPE), sociedade estatal de Investimentos e Participações Empresariais e liderou um projecto de restruturação da estratégia nacional de energia.

Exerceu ainda funções como vice-presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Seguros e presidente da Direcção do Instituto Português de Corporate Governance.

Artigo originalmente publicado no jornal OJE de 27 de Junho de 2014. Republicado com permissão