Migrei em 2005 de Lisboa para Trancoso, onde conheci o Alexandre Ferraz e a Ana Linhares. O Despovoamento apresentava-se como problema, mas também como desafio. Calçamos as sapatilhas e inscrevemo-nos para correr esta maratona. Iniciámos nessa data o projecto Novos Povoadores
POR FREDERICO LUCAS*

Uma maratona corresponde a 42 quilómetros.
Quando o locutor comenta a passagem do pelotão da frente pelo quilómetro 10, está apenas a relatar o andamento, muito antes da existência de vencedores.

É o exercício que estou a fazer por desafio do portal VER.

Migrei em 2005 de Lisboa para Trancoso, onde conheci o Alexandre Ferraz e a Ana Linhares. O Despovoamento apresentava-se como problema, mas também como desafio. Calçamos as sapatilhas e inscrevemo-nos para correr esta maratona. Iniciámos nessa data o projecto Novos Povoadores.

Os territórios rurais são espaços de livre iniciativa.

Os nossos avós não precisaram de Fundos Comunitários ou emprego público para ganhar a sua vida. Instalaram a sua agricultura ou comércio, longe das directivas públicas ou patronais. Foi assim a norte do Tejo.

Mais tarde, os territórios rurais ganharam fábricas, muitas delas poluentes e mal organizadas. Subsistiram por favor à Lei do Condicionamento Industrial.

Abril trouxe a abertura ao Exterior, denunciou a fragilidade do tecido produtivo, e plantou emprego público nas ruas e vielas.

A ausência de resposta válida e sustentável pela Indústria, ditou o fim do equilíbrio económico destes territórios. Sem economia não há emprego, e sem este não existirá população.

É aqui que estamos: o nosso quilómetro 10!

A Indústria deste século exige mão-de-obra qualificada, produtos e serviços com elevada integração de valor. Precisamos de transformar o mármore e o granito em estatuetas, as cerejas em bombons, os resíduos em utensílios e as serras em espaço de aventura e lazer. São exemplos ilustrativos dos 32 quilómetros que ainda nos faltam percorrer.

Neste momento, migraram 113 famílias sob o desafio de instalar o seu negócio em território rural, que acrescentam valor aos recursos locais. Dessas, 12 desistiram e as restantes 101 famílias instalaram 103 empresas e criaram 136 novos postos de trabalho. Cinco milhões de euros de valor acrescentado.

Estes números são tímidos, mas reveladores de um novo caminho para a competitividade do mundo rural, porque instalaram recursos humanos qualificados que geram três vezes mais valor que a média per capita das suas regiões.

Há 1408 famílias que aguardam por um projecto de negócio que corresponda às suas áreas de competência e experiência, isto é, empreendedores que pretendem sair das cidades para instalar negócios “urbanos” no campo. Um trabalho longo, mas que estamos preparados para percorrer.

Acreditamos no futuro dos territórios rurais, se forem capazes de substituir o Estado por empresas competitivas à escala global. Não precisam de ser grandes empresas. Apenas criativas e com elevada incorporação de valor para gerar emprego sustentável.