A Suécia é o líder em inovação da União Europeia. E se é verdade que o desempenho europeu nesta matéria tem vindo a melhorar, desde 2010, também é certo que o Velho Continente tem de continuar a lutar para se assumir como um concorrente à altura do Canadá, do Japão e dos Estados Unidos. E uma coisa é certa: o financiamento, por si só, não é suficiente, sendo necessária a união entre o sector público e o privado. Quem o diz é a Comissão Europeia, na sua mais recente edição do Painel Europeu da Inovação
POR MÁRIA POMBO

O desempenho europeu em matéria de inovação tem vindo a melhorar nos últimos anos, colocando o Velho Continente mais próximo dos seus principais adversários (Canadá, Japão e Estados Unidos). Todavia, para que a Europa possa ter uma presença mais forte a nível mundial, é necessário que se reúnam ainda mais forças e se colmatem algumas lacunas. Quem o diz é a própria Comissão Europeia, na mais recente edição do Painel Europeu da Inovação (PEI).

Na sua 17ª edição, o documento analisa os diferentes países da UE de acordo com as suas condições estruturais (recursos humanos, interesse dos sistemas de investigação e ambiente propício à inovação), os investimentos (investidores e apoio ao investimento), as actividades em matéria de inovação (organizações inovadoras, relação entre sectores, bens intelectuais), e impactos (essencialmente ao nível do emprego e das vendas). O documento contou com dados dos 28 Estados-membros da UE, os quais foram recolhidos no final de 2017.

Neste sentido, e comparando com os resultados apurados em edições anteriores, verifica-se uma tendência positiva na maioria dos países, sendo Malta, Espanha e os Países Baixos aqueles que, entre 2016 e 2017, conseguiram obter as melhorias mais significativas. Todavia, regista-se um declínio, em termos de inovação, em oito países, verificando-se as quedas mais acentuadas no Luxemburgo, na Eslováquia e na Lituânia. A Suécia surge como a nação líder da inovação e a Roménia assume-se como aquela que regista o pior resultado. Portugal, por seu turno, encontra-se a meio da tabela, ligeiramente abaixo da média europeia.

Em média, o desempenho da UE aumentou 5,8% face a 2010 e manteve-se igual ao que foi registado em 2016. O desempenho em matéria de inovação melhorou, nos últimos oito anos, sobretudo nos domínios da banda larga, dos recursos humanos e do interesse despertado pelos sistemas de investigação, nomeadamente devido a parcerias internacionais.


Os bons, os moderados e os fracos

O Painel da Inovação está dividido em quatro grupos, consoante o nível de inovação alcançado. O primeiro grupo é composto pelos “Líderes da Inovação” e alberga os países cuja performance foi 20% superior à da média europeia. Para além da Suécia (já referida), este grupo conta com a Dinamarca, a Finlândia, o Luxemburgo, a Holanda e o Reino Unido. A performance dos “Líderes da Inovação” tem vindo a melhorar desde 2014, apresentando este ano o valor mais elevado desde 2010. Uma nota curiosa surge relativamente ao Reino Unido que, embora seja o elemento que apresenta o nível mais baixo de inovação, é aquele que regista uma melhoria mais acentuada, desde 2013, posicionando-se este ano ao lado dos seus “parceiros de grupo”. Por seu turno, a Suécia é a nação que apresenta os melhores valores mas também é aquela onde o crescimento é mais subtil.

O segundo grupo – ou o dos “Inovadores Fortes” – inclui os Estados-membros cuja performance é a mais próxima da média europeia (entre 90% e 120% desta), contando com a Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Irlanda e Eslovénia. Entre 2010 e 2015, este grupo praticamente não evoluiu, sendo este último o ano em que deu um salto considerável em termos de inovação. Os seus membros apresentam linhas bastante irregulares, com a Alemanha a assumir a liderança mas a apresentar níveis de inovação mais baixos do que em 2010, e permitindo assim que a Irlanda, a Áustria e a Bélgica tenham condições para lutar pelo lugar cimeiro do grupo.

Por seu turno, o terceiro grupo – que envolve os “Inovadores Moderados” – alberga as nações cuja performance é de 50% a 90%, comparando com a média europeia. Este é o grupo que contém o maior número de países e dele fazem parte Portugal, Chipre, Croácia, República Checa, Estónia, Grécia, Hungria, Itália, Letónia, Lituânia, Polónia, Eslováquia e Espanha. A evolução deste grupo tem vindo a ser cíclica, melhorando em anos pares e piorando em anos ímpares. E se até 2016 as suas performances eram bastante dispersas, em 2017 verifica-se uma concentração do nível de inovação, a qual coloca as nações muito próximas umas das outras e em valores relativamente elevados.

O último grupo – constituído pelos “Inovadores Modestos” – é aquele que cujas performances não ultrapassam os 50% alcançados pela UE e inclui a Roménia (já referida) e a Bulgária. Este grupo sofreu um forte declínio entre 2010 e 2012, tendo permanecido em níveis bastante baixos desde então. Desde 2015 e até ao momento, verifica-se uma melhoria ligeira da performance dos membros que constituem este grupo, a qual é, ainda assim, bastante baixa quando comparada com os níveis apresentados pelos restantes grupos.

Uma nota interessante surge no que respeita à relação entre a localização geográfica e o nível dos resultados alcançados, concluindo-se que a performance dos países diminui à medida que aumenta a distância entre estes e os “Líderes da Inovação”.

De acordo com o documento, a inovação foi responsável por cerca de dois terços do crescimento económico registado na Europa, nas últimas décadas, sendo o Velho Continente responsável por 20% do investimento mundial em Investigação e Desenvolvimento (I&D) e detentor de uma posição de liderança em sectores como o dos produtos farmacêuticos, produtos químicos, engenharia mecânica e moda.


Inovação ou a UE na era dos mais: mais investimento, mais estímulos e mais apoio

Estes resultados vão ao encontro do que se prevê na Agenda Renovada da Investigação e da Inovação, também apresentada recentemente pela Comissão Europeia, e que dá conta das oportunidades e dos desafios que se colocam à UE para que esta possa realizar o seu máximo potencial em matéria de inovação. Uma coisa é certa: o financiamento da UE não é suficiente, sendo necessária uma união de esforços entre o sector público e o privado.

De um modo geral, e embora o desempenho europeu seja positivo, o documento realça um conjunto de aspectos que precisam de ser melhorados. O facto de as empresas europeias gastarem menos em inovação do que as organizações de outros países é o primeiro aspecto referido e que deve ser melhorado. Complementarmente, o documento salienta que a UE alberga apenas 26 start-ups com estatuto de Unicórnios (ou seja, que valem mais de mil milhões de dólares), sendo que a China detém 59 e os Estados Unidos acolhem 109. Um outro aspecto que precisa de ser melhorado é o investimento em capital de risco, no Velho Continente, tendo em conta que, por ser tão reduzido, poucas são as start-ups que se transformam em grandes empresas.

Por seu turno, o sector I&D representa apenas 1,3% do PIB europeu, situando-se bem abaixo daquilo que era desejável e sendo esta uma percentagem bastante baixa quando comparada com a dos Estados Unidos (2%), do Japão (2,6%) e da Coreia do Sul (3,3%). Por fim, o documento aponta para o facto de 40% da força de trabalho europeia necessitar de uma requalificação ao nível das competências digitais.

No que respeita ao financiamento nesta matéria, a Europa já garante o investimento público essencial à inovação, já apoia os esforços feitos pelos Estados-membros no que respeita à maximização dos seus gastos em I&D e já estimula o investimento privado (através de iniciativas como o Plano Junker ou o VenturEU). Complementarmente, o Velho Continente garante que existe regulamentação – a qual está cada vez mais simples e acessível – para que sejam criadas as melhores condições à inovação e promove a aquisição de produtos e serviços inovadores.

Porém, existem aspectos que necessitam de ser melhorados e medidas que necessitam de ser tomadas para que a UE continue a apoiar a inovação. O primeiro aspecto passa desde logo por “mudar o chip do investimento”, fazendo a transição entre o investimento de curto-prazo para o de longo-prazo. Neste sentido, a Comissão Europeia pretende que, entre 2021 e 2027, se aumente o investimento em I&D através de 100 mil milhões de euros provenientes dos programas Horizonte e Euratom. Outra medida passa por alargar o programa VentureEU de modo a estimular o investimento de capital de risco nas start-ups.

Transpor a directiva europeia sobre insolvência para o plano nacional é outra proposta, cujo objectivo é melhorar a eficiência dos Estados-membros em matéria de restruturação, insolvência e processo de quitação (ou remissão) de dívidas. Uma outra necessidade está relacionada com a simplificação de regras de apoio ao investimento, de modo a facilitar o financiamento público de projectos, tanto a nível nacional como a nível europeu. Por fim, escreve-se que é necessário reforçar as estratégias de especialização inteligentes, para que as diversas regiões possam beneficiar da inovação, recorrendo a Fundos Europeus Estruturais e de Investimento.

No que respeita à criação de mercados de inovação e ao apoio à inovação e à investigação, o documento refere que, com 13 mil milhões de euros, o Conselho Europeu de Investigação prevê, até 2020, impulsionar a investigação científica de qualidade, atraindo assim alguns dos melhores talentos para a Europa. Os próximos passos serão transformar as melhores ideias em negócios à escala mundial e apoiar as start-ups mais inovadoras a crescer.

Por fim, o documento sublinha que a Europa precisa de procurar e desenvolver metas mais ambiciosas, resolvendo problemas que realmente preocupam os cidadãos. Estas metas devem ser definidas em conjunto com os Estados-membros, os seus diversos stakeholders e os cidadãos. As mesmas devem abranger questões tão importantes como a cura para o cancro, a promoção de transportes mais amigos do ambiente e a limpeza dos oceanos, captando o interesse de investidores e estimulando a criação de sinergias entre sectores de actividade, e tanto a um nível nacional como local.

No fundo, tanto a Agenda Renovada da Investigação e da Inovação como o Painel Europeu da Inovação concluem que a Europa está no bom caminho, no que à inovação diz respeito, mas é preciso mais: mais investimento, mais sinergias, mais estímulos e mais apoio.

Mária Pombo

Jornalista