A pandemia global que contagiou o mundo continua a ter um impacto significativo na vida de famílias, comunidades e organizações em todos os continentes. No meio de toda esta agitação, as empresas e os governos são confrontados com novas e significativas decisões que colocam difíceis dilemas éticos que irão afectar a sua viabilidade e sucesso futuros, aos quais, e mediante um escrutínio crescente, tem de ser dada uma resposta célere
POR HELENA OLIVEIRA

Em geral, procuramos três características numa pessoa: inteligência, energia e integridade. Mas se a última não existir, não vale sequer a pena preocuparmo-nos com a primeira.
Warren Buffet

Desde os retalhistas decidirem a melhor forma de proteger os seus empregados e clientes enquanto fornecem bens essenciais às comunidades, até aos conselhos de administração das empresas avaliarem se devem continuar a pagar dividendos aos accionistas ao mesmo tempo que se candidatam a auxílios governamentais, parece que nunca foi tão difícil fazer o que está certo. Adicionalmente, e se o nível de escrutínio das empresas por parte da sociedade já era significativo, com a pandemia intensificou-se sobremaneira, com as decisões tomadas pelas empresas e governos em modo de crise  e no auge da pandemia a serem certamente julgadas ao longo dos próximos meses e anos. Agir com integridade é agora mais importante do que nunca.

A EY conduziu uma pesquisa com líderes empresariais a propósito dos desafios éticos enfrentados pelas suas organizações em dois momentos: entre Janeiro e Fevereiro inquiriu três mil empregados de 33 países e, em Abril, e já em plena pandemia, mais 600, com o mesmo perfil e em seis países significativamente afectados pela Covid-19. A vasta maioria dos inquiridos no Global Integrity Report 2020 em Abril acredita que a Covid-19 representa um risco acrescido para a conduta ética das suas organizações. Na verdade, um número significativo dos empregados respondentes continua disposto a agir de forma pouco ética em prol de ganhos financeiros pessoais e a pandemia global só está a exacerbar esta situação aumentando os incentivos e abrindo-lhes novas vias para o fazerem.

O estudo realizado pelo EY mostra também uma disparidade relativa às percepções do comportamento ético nos diferentes níveis de antiguidade dos trabalhadores. A maioria dos funcionários mais novos entrevistados afirma que nem sempre confia na integridade dos seus líderes, enquanto a maioria dos membros da direcção acredita que joga de acordo com as regras.

A boa notícia é que quase todos os inquiridos reconhecem o valor de agir com integridade. Os inquiridos dizem que estão a olhar para além dos impactos financeiros a curto prazo, evitando multas e penalizações, privilegiando os valores a longo prazo, tais como reforçar a reputação, atrair novos clientes e reter os melhores talentos.

O verdadeiro carácter revela-se em tempo de crise

A velocidade e escala da pandemia da COVID-19 estão a obrigar as empresas a enfrentar uma combinação de ameaças mais desafiante do que qualquer outra coisa vivida nos tempos modernos. E a forma como estas respondem às mesmas pode revelar-se como um teste decisivo para a integridade empresarial.

Mesmo antes de a pandemia global se ter instalado, as empresas enfrentavam pressões significativas. Guerras comerciais, sanções e controlos de exportação, fraudes e convulsões políticas pesaram fortemente sobre as organizações. Conforme publicado pela revista The Economist, as consequências económicas da Covid-19 irão provavelmente criar uma tempestade perfeita para a má conduta, exacerbando os esquemas de fraude empresarial que ocorreram na última década e dando origem a outros (novos) actos de má conduta ética.

Adicionalmente, as opiniões da sociedade mudaram drasticamente desde a crise financeira global de 2007-08, colocando as organizações sob uma enorme pressão para” fazer o bem” às pessoas e ao planeta, através de iniciativas ambientais, sociais e de governação (ESG). Esta mudança societária deu origem a um escrutínio crescente tanto das organizações como da conduta dos membros que as integram. Por outro lado e como sabemos, a ascensão dos media sociais abriu caminho para a discussão das questões de integridade de uma forma muito mais aberta – e os consumidores estão a tomar nota, evitando activamente as organizações que fiquem aquém dos seus padrões. A pandemia tem aumentado o nível de escrutínio e as organizações estão a ser responsabilizadas em tempo real pelas suas acções.

Como é que as organizações estão a tratar os seus trabalhadores? Estão a fazer o que é certo no que respeita a clientes e fornecedores? Já pensaram cuidadosamente sobre como irão utilizar os fundos obtidos junto do governo? Este e outro tipo de questões estão a ser regularmente perscrutadas: a título de exemplo, o Financial Times está a publicar uma lista de “santos e pecadores” nos negócios desde o início da COVID-19, actualizando-a e dando destaque aos que se comportam com integridade e aos que ficam aquém das expectativas da sociedade.

E, num mundo pós-pandemia (para quando?), as organizações terão de trabalhar arduamente para enquadrar os seus negócios e lidar não só com as ameaças já existentes, como também com outras que, entretanto, irão surgir.

Três acções imperativas para garantir a integridade empresarial em tempos de turbulência

De acordo com a análise feita pelo EY, parece indubitável o facto de a Covid-19 ter aumentado o risco existente em áreas críticas de negócios, o que colocará o comportamento empresarial debaixo de um alargado microscópio. E, com base na investigação realizada, os responsáveis pelo estudo acreditam que existem pelo menos três acções que são críticas para as organizações abordarem a fim de preservarem a sua integridade enquanto navegam na crise e para além dela.

A primeira assenta na incorporação da integridade como forma de defesa contra a conduta não ética. No inquérito, quase um terço (30%) dos inquiridos respondeu que estaria disposto a comportar-se de forma pouco ética a fim de melhorar a sua própria progressão na carreira ou pacote remuneratório. O relatório demonstra que este tipo de comportamento continua a prevalecer e pode mesmo tornar-se mais generalizado como resultado da pandemia, uma vez que os empregados temem pelos seus empregos e salários. Os inquiridos acreditam também que a redução da remuneração dos empregados (24%) e o aumento do risco de despedimentos (22%) estão entre os riscos mais elevados para a conduta ética nos negócios como resultado da COVID-19.

Adicionalmente, 35% dos inquiridos acreditam que o comportamento antiético na sua organização é frequentemente tolerado quando as pessoas envolvidas são mais velhas ou indivíduos de “elevada performance”, sendo que o valor aumenta para 41% quando os respondentes são os gestores seniores. Por outro lado, 46% dos inquiridos acreditam que a sua organização alberga gestores que sacrificariam a sua integridade por ganhos financeiros a curto prazo. A pesquisa demonstra ainda que quanto mais sénior é um empregado, maiores probabilidades existem de este agir de forma não ética e que são estes os mais dispostos a justificar comportamentos inadequados tais como a conduta não ética da sua equipa, enganar auditores ou reguladores e oferecer ou aceitar um suborno. Na medida em que são os mais velhos a definir e a influenciar as normas de comportamento no interior das organizações – a denominada liderança pelo exemplo – este resultado assume-se como particularmente preocupante.

O estudo do EY revela ainda que mais de metade dos respondentes (59%) está consciente de que manter os seus padrões de integridade em períodos de mudança súbita ou de condições de mercado complexas é um desafio crescente para as organizações em que trabalham. Esta percentagem sobe para 63% para os que se encontram nos mercados emergentes

Assim, é preciso não esquecer que agir com integridade é mais do que uma declaração de missão ou de políticas escritas. É uma qualidade pessoal que todos numa organização devem desenvolver, desde o CEO e o conselho de administração até aos funcionários mais novos, parceiros comerciais e outras partes interessadas. Cada uma destas partes é um embaixador da sua organização, sendo que o seu comportamento reflecte os verdadeiros valores de uma empresa.

A segunda acção consiste em promover parcerias de confiança com partes terceiras baseadas na integridade.

A COVID-19 causou uma significativa ruptura nas redes de abastecimento, com 94% das organizações da Fortune 1000 a reportarem alterações nas mesmas desde o início da crise pandémica, ao mesmo tempo que têm sido forçadas a procurar novos parceiros e, em muitos casos, em áreas geográficas distintas das que estavam habituados.

Neste caso em particular, apenas 34% dos inquiridos estão muito confiantes de que as entidades terceiras com que trabalham demonstram integridade no trabalho que realizam. É que como as empresas estão a fazer tudo o que é possível para satisfazer as necessidades comerciais a curto prazo, podem ser contratados novos parceiros, de alto risco, que não partilhem a mesma cultura de integridade. A investigação faz eco desta preocupação com 28% dos inquiridos a afirmarem que a perturbação das cadeias de fornecimento é um dos maiores riscos para a conduta empresarial ética enquanto resultado da pandemia.

Uma outra preocupação está relacionada mais com o futuro. Ou seja, e à medida que as empresas iniciarem a sua “regeneração”, saindo da pandemia mas entrando num clima económico que será indubitavelmente mais duro, teme-se que venham a demonstrar uma inclinação maior para fazer “vista grossa” no que respeita a acções não éticas praticadas por estas entidades terceiras de forma a garantir a sua própria sobrevivência. Todavia, o valor a pagar por estes desvios poderá vir a ser demasiado elevado.

Por último, o EY sublinha a necessidade de se salvaguardar os dados através da incorporação da gestão ética dos mesmos.

De acordo com a pesquisa, 35% dos inquiridos acreditam que as leis actuais de protecção de dados constituem uma barreira ao sucesso dos negócios, enquanto 74% esperam um reforço de aplicação destas mesmas leis no futuro.

Numa economia em rápida evolução com requisitos regulamentares e escrutínio crescente, as organizações terão de ser mais cautelosas na forma como recolhem, mantêm e utilizam os dados para assegurar a sua conformidade sem comprometer as operações comerciais críticas. É também imperativo que as organizações estejam conscientes de potenciais soluções de trabalho ou atalhos operacionais que os empregados podem implementar para superar a percepção de barreiras desnecessárias.

Todas as organizações enfrentam ataques cada vez mais sofisticados por parte de ciber-criminosos que procuram roubar dados para expor falhas de segurança, lucrar com a sua venda de dados ou ainda encriptá-los para “pedir um resgate”. E uma violação de dados pode paralisar operações ou mesmo colocar empresas mais pequenas fora do negócio. Ao longo da última década, as empresas que não conseguiram salvaguardar a informação dos seus clientes corroeram a confiança pública e sofreram enormes prejuízos resultantes de multas regulamentares, litígios, perda de reputação e diminuição de receitas.

Adicionalmente, e de acordo com a pesquisa, 59% das organizações não dão formação aos funcionários sobre os regulamentos aplicáveis à privacidade de dados, tais como o RGPD. A COVID-19 aumentou os riscos relacionado com a segurança dos dados, uma vez que a rápida mudança para o trabalho remoto proporcionou amplas oportunidades para os ciber-criminosos “atacarem” trabalhadores que não estão preparados para lidar de forma segura com dados sensíveis. Adicionalmente e no que a esta temática em particular diz respeito, 33% dos inquiridos acreditam que a perturbação dos padrões tradicionais de trabalho, como resultado da COVID-19, aumenta o risco de conduta antiética. Apesar dos avanços nas novas tecnologias optimizarem as operações e ajudarem as organizações a aceder a novos conhecimentos a partir das quantidades cada vez maiores de dados que detêm, a adopção destas ferramentas requer uma avaliação adequada dos riscos e uma implementação apropriada (incluindo formação) para assegurar que as novas tecnologias não coloquem questões éticas ou legais à organização.

O fracasso na formação de trabalhadores no que respeita à protecção de dados é surpreendente, principalmente tendo em conta que os inquiridos apontaram os ciberataques como o maior risco para o sucesso a longo prazo das suas organizações. A realidade é que as organizações deveriam fazer mais para salvaguardar os dados – 2019 foi um ano recorde de violações, com mais de 15 mil milhões de registos sensíveis expostos.

Desta forma, as empresas devem avaliar cuidadosamente os riscos éticos da adopção de novas tecnologias e tomar medidas proporcionais para os mitigar, posicionando-as para a necessária conformidade com quaisquer regulamentos futuros e/ou alterações súbitas nas condições de trabalho.

Em suma, e como conclui o relatório, para manter uma conduta o mais ética possível nas organizações, é imperativo que se abordem os quatro elementos centrais da agenda da integridade: cultura, governação, segurança dos dados e controlos internos que permitam alinhar as acções de um indivíduo com os objectivos de uma organização.

E ter em particular atenção que a integridade empresarial permite que as organizações de sucesso se mantenham fiéis às suas missões, cumpram as suas promessas, respeitem as leis e normas éticas, fomentem a confiança pública e aumentem a resistência em tempos de crise. Este comportamento, por sua vez, permitir-lhes-á construir capital – tanto financeiro como reputacional.

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