A situação das mulheres nos países que compõem o G20 foi objecto de estudo da Thomson Reuters Foundation. E, em pleno século XXI, há “tradições” que não mudam. Nem as mais horrendas, que incluem a escravatura ou o infanticídio no feminino, nem as mais “suaves”, como a persistente desigualdade de salários face aos pares masculinos. Todavia e como seria de esperar, há países em que realmente faz sentido afirmar “má sorte ter nascido mulher”
POR HELENA OLIVEIRA

A Thomson Reuters Foundation, o braço filantrópico da maior agência noticiosa do mundo, publicou, a 13 de Junho último, um estudo que visava identificar a posição das mulheres nos países do G20. Com o Canadá a ser considerado como o melhor país do mundo para se ser mulher, a Índia está na cauda do ranking: infanticídio, casamento infantil e até escravatura fazem deste enorme país o pior sítio (entre os membros do G20) para se nascer mulher. O VER apresenta os principais dados desta lista que comprova que, no meio das inúmeras desigualdades que pautam o planeta, nascer-se menino ou menina pode fazer toda a diferença.

19. ÍNDIA ou o país onde 52% das mulheres consideram justificável serem agredidas pelos maridos
De acordo com Gulshun Rehman, conselheiro do programa de desenvolvimento para a saúde, da ONG britânica Save the Children, “na Índia, as mulheres e as raparigas continuam a ser vendidas como objectos, a serem obrigadas a casar-se, em muitos casos, com apenas 10 anos, a serem queimadas vivas devido a disputas relacionadas com o seu dote e, no que respeita às mais jovens, a serem abusadas como escravas do trabalho doméstico. E tudo isto apesar dos enormes progressos alcançados pela Lei contra a Violência Doméstica, em vigor desde 2005 e que proíbe qualquer tipo de violência contra mulheres e raparigas”.

Dados de 2010, fornecidos pelo International Center for Research on Women, estimam que 44,5% das raparigas contraem matrimónio antes dos 18 anos, ao passo que a UNICEF afirma que, relativamente a 2012, mais de 50 por cento das mulheres consideram “normal” que os seus maridos lhes batam. Já a UN Population Fund regista, por ano,  56 mil mulheres vítimas de morte materna.

© DR

18. ARÁBIA SAUDITA e as mulheres cidadãs de segunda classe
“Tanto ao nível legal como social, as mulheres são cidadãs de segunda classe. Proibidas de conduzir, o que consiste num símbolo de enorme restrição no que respeita à mobilidade das mulheres, não existe qualquer lei que as proteja da violência doméstica e, em tribunal, o testemunho de um homem vale pelo de duas mulheres”, afirma Lyric Thompson, advogado na Amnesty USA and International Center for Research on Women.

Zero é o número de mulheres com permissão para conduzir e 2011 o ano que ficará na história pelo seu direito ao voto. De acordo com dados fornecidos pelo Banco Mundial, em 2007, 64,6% das mulheres com estudos superiores estavam desempregadas.

17. INDONÉSIA, a recordista em assédio sexual no trabalho
A especialista independente em questões de género, Sunila Singh, citando a National Commission on Violence against Women, afirma que “as mulheres indonésias sofrem actos de violência sexual todos os dias, sendo a violação a forma mais frequente dessa violência. Outras formas incluem o tráfico, o assédio e a exploração sexual, em conjunto com a tortura.

Do volume total de rendimentos auferidos, a quota para as mulheres não ultrapassa os 38%, afirma o Banco Mundial. Já dados veiculados pelo UN Population Fund referem que uma mulher morre por hora a dar à luz na Arábia Saudita, ao passo que a OCDE divulga a percentagem de mulheres que afirmam já terem sido molestadas sexualmente no trabalho: 90%.

16. ÁFRICA DO SUL e a epidemia de HIV
“Apesar dos progressos inegáveis para as mulheres no que respeita a leis e participação política desde o final do apartheid, a África do Sul possui ainda uma das mais elevadas taxas de violência sexual com base no género do mundo – uma epidemia horrenda que contribui para a disseminação do vírus HIV”, afirma Kathy Selvaggio, conselheira de género no USAID Africa Bureau. Por cada homem, existem duas mulheres que contraíram SIDA e os serviços de polícia sul-africanas reportaram, no período 2010-2011, 66,196 ofensas sexuais.

Uma notícia mais animadora é o facto de 43,3% dos lugares existentes na Câmara Baixa do Parlamento serem ocupados por mulheres.

15. MÉXICO, o país que inventou o termo “machismo”
Nas palavras de Blanca Rico, directora executiva da Sociedad Mexicana Pro Derechos de la Mujer, “o México inventou o termo ‘machismo’ e, entre as populações rurais em particular, o papel da mulher é ficar em casa. Algumas comunidades vivem em piores condições comparativamente às mais marginalizadas sociedades da África e da Ásia no que respeita à saúde pública e a outro tipo de desigualdades. As taxas de violência contra as mulheres são extremamente elevadas, sendo esta de natureza doméstica, sexual e relacionada com drogas”. A corroborar as acusações de Blanca Rico são os números divulgados, em 2008, pela Amnistia Internacional, que afirma que um quarto das mulheres mexicanas sofre abusos sexuais por parte do seu parceiro.

De acordo com a Amnesty USA, 300 mulheres foram mortas na Ciudad Juarez, em 2011, com uma quase total impunidade.

Já no que respeita à participação política, 26,2% dos assentos existentes na Câmara Baixa do Parlamento são ocupados por mulheres.

© DR

14. CHINA, o gigante das mulheres “desaparecidas”
“A China possui um dos mais elevados rácios de masculinidade à nascença [quociente entre os nados-vivos do sexo masculino e os nados-vivos do sexo feminino]. Este rácio desigual tem vindo a resultar em milhões de “mulheres e raparigas perdidas” em conjunto com níveis de discriminação de género extraordinariamente elevados. A preferência pelo ‘filho-homem’ tem igualmente sérias consequências no desenvolvimento social e económico do país, bem como no que respeita à sua estabilidade”. A declaração é de Alana Livesey, responsável pela campanha “Because I am a Girl” e ilustra os dados divulgados pelo Banco Mundial, que remontam a 2008 e que dão como mortas ou “desaparecidas” 1,09 milhões de raparigas no seguimento das práticas de infanticídio só no ano referido.

O Relatório das Nações Unidas sobre o Progresso das Mulheres no Mundo (2011-2012) concluiu que 25% das mulheres chinesas consideram justificável, tal como as suas congéneres indianas, serem agredidas pelos maridos. Todavia, a participação feminina na política está a começar a aumentar, com 21,3% a terem assento parlamentar.

13. RÚSSIA e o tráfico de mulheres
Daria Ukhova é uma activista feminina que afirma que “a violência doméstica é uma prática disseminada na Rússia, país onde não existem leis de protecção para a mesma, sendo que não existe qualquer tipo de justiça para as vítimas. A prostituição não tem estatuto – não é legal nem ilegal – e as ‘profissionais da área’ são frequentemente agredidas pela polícia. O tráfico [de seres humanos] é igualmente uma questão preocupante”. Afirmações secundadas por dados do Comité das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Contra as Mulheres, que declara que morrem, anualmente, cerca de 14 mil mulheres russas devido a violência doméstica, a juntar a mais de 57,750 que, todos os anos, são vítimas de tráfico (Programa de Desenvolvimento das Nações unidas, 2006).

Apenas 13.6% dos lugares existentes no Parlamento são ocupados por mulheres.

12. TURQUIA e os crimes de honra
“As mulheres e as raparigas continuam a ser mortas em nome da honra ou da castidade, a serem forçadas a casamentos precoces ou a escravatura doméstica, sendo sujeitas a todos os tipos de violência. As mulheres são extremamente sub-representadas na força de trabalho e nos órgãos de decisão, ao mesmo tempo que o conservadorismo se torna cada vez mais usual na política, restringindo a liberdade das mulheres e reforçando os papéis de género tradicionais”, diz Selen Lermioglu Yilmaz, membro do conselho de administração da Women for Women’s Human Rights.

A OCDE reporta ainda que 74% das mulheres em idade activa estão no desemprego e a ONG Human Right Watch afirma que 3,8 milhões de mulheres turcas são analfabetas.

O Instituto de Estatística da Turquia revelou ainda que, em 2012, 26% das noivas tinham entre 16 e 19 anos.

11. BRASIL e as persistentes desigualdades
Segundo Daniela Pinto, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Institucional da UN Women em terras brasileiras, “o Brasil é ainda muito marcado por elevadas desigualdades sociais e económicas directamente relacionadas a um acesso desigual às oportunidades e à discriminação de género. As mulheres são desproporcionalmente afectadas pela pobreza extrema, pelas falhas no sistema de saúde e pela violência, com particular enfoque para o sofrimento maior das mulheres indígenas, rurais e afro-descendentes”.

Dados divulgados pelo Departamento de Estado norte-americano em 2011 apontam para a existência de cerca de 250 mil crianças envolvidas em prostituição.

Apenas 8,6% das mulheres têm assento parlamentar. As mulheres brasileiras têm direito a um subsídio de maternidade de 120 dias e pago na totalidade.

© DR

10. COREIA DO SUL e o peso do sistema patriarcal
“O sistema patriarcal e hierárquico extremamente rígido da Coreia Sul significa que os casos de assédio sexual são raramente reportados. Existe igualmente um gigantesco fosso salarial entre os géneros e um telhado de vidro absolutamente inquebrável tanto no sector público, como no privado. Uma licença de maternidade insuficiente e a ausência de tempo para cuidar dos filhos significa que as vidas das mães trabalhadoras são extremamente complicadas e exigentes”, diz Christal Phillips, professor convidado na Yonsei University.

No que respeita a números, e de acordo com o Pew Global Attitudes Survey (2010),seis em cada 10 pessoas afirmam que os homens têm mais direito a trabalhar do que as mulheres em épocas de escassez de emprego, sendo que a OCDE aponta para 38,9% o fosso existente nos ordenados para homens e mulheres que têm a mesma actividade.

O Banco Mundial alerta, por seu turno, para o facto de 4 em cada mil bebés serem de mães adolescentes.

9. ARGENTINA e meio milhão de abortos clandestinos por ano
“A imagem que o mundo tem de Buenos Aires não reflecte a realidade da maioria das comunidades marginalizadas que habitam a cidade, bem como as províncias, onde os maiores problemas para as mulheres passam pela saúde, pela mortalidade materna, pela educação sexual e reprodutiva, a falta de acesso ao aborto legal e aos contraceptivos, sem esquecer problemas de segurança no trabalho e violência”, assegura a directora executiva da Equipo Latinoamericano de Justicia y Genero, Natália Gherardi.

As mulheres argentinas ocupam 37,4% dos assentos parlamentares e gozam de 90 dias de licença de maternidade remunerada na totalidade.

De acordo com o Centro para o Desenvolvimento da OCDE, o número de abortos clandestinos anual é superior a 500 mil.

8. ITÁLIA, o país onde o número de homicídios de mulheres está a aumentar
A directora da Associazione Italiana Donne per lo Sviluppo (AIDOS), Daniela Colombo,  sublinha que “apesar dos enormes progressos dos últimos 40 anos, as mulheres italianas enfrentam ainda uma significativa discriminação no mercado de trabalho – desemprego mais elevado, salários mais baixos do que os pares masculinos e escasso acesso a posições de chefia ou gestão. As mulheres sofrem igualmente de violência de género e tem-se assistido a um crescimento do femicídio [homicídio de mulheres]”.

De acordo com dados veiculados pelo Instituto nacional de Estatísticas, para 2008-2009, 1,2 milhões de mulheres foram vítimas de assédio sexual no trabalho.

As mulheres italianas despendem mais três horas em tarefas domésticas do que os homens (OCDE) mas, do total dos inscritos no ensino superior, 57,7% são do sexo feminino.

7. JAPÃO e a luta no feminino
“As mulheres japonesas continuam a lutar contra a cultura patriarcal enraizada. A muitas é ensinado que o seu contributo para o sector laboral termina quando casam ou quando têm filhos, sendo sub-representadas ao nível politico. Todavia, o Japão possui um movimento saudável e forte de mulheres que está a lutar para alterar estas questões”, diz Mara Patessio, especialista em estudos japoneses na Universidade de Manchester.

A participação política feminina não ultrapassa os 11% e 28.3% é a diferença em termos salariais comparativamente ao dos homens. Já em termos de longevidade, a Divisão de Estatísticas das Nações Unidas aponta para uma esperança de vida das mulheres japonesas que ascende aos 87 anos.

6. ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA com políticas insuficientes de saúde no feminino
“Os nossos direitos civis, as leis contra a violência doméstica, uma aceitação crescente da mulher no mercado laboral, as nossa liberdades fundamentais de movimento e expressão e o estreitamento do fosso salarial significam que os Estados Unidos devem ter uma boa nota no que respeita aos direitos das mulheres. Todavia, muitos dos ganhos dos últimos 100 anos encontram-se sob ataque e o mais aberto e o mais violento recai sobre os direitos reprodutivos. As mulheres também sofrem, de forma desproporcional, da ausência de um sistema de saúde acessível”, afirma Marsha Freeman, directora da International Women’s Rights Action Watch

Dados do Departamento da Educação norte-americano indicam que 60% dos graus de mestrado atribuídos no ano lectivo de 2008-2009 foram para mulheres. Já os Censos registaram 22,9 milhões de mulheres sem seguro de saúde.

5. FRANÇA ouve as mulheres
“As mulheres ainda são, no mercado de trabalho, sub-representadas, apesar de condições de vida favoráveis – 30% da força laboral em part-time é desempenhada por mulheres e apenas 5% por homens. No entanto, é positivo ser-se mulher em França pois, aqui, as mulheres são ouvidas, mesmo com rasgos persistentes de machismo e de preconceitos culturais”, afirma  Nadège Chell, presidente da  RESO-Femmes.

De acordo com dados da Comissão Europeia relativamente a 2011, 22% dos membros de conselhos de administração das maiores empresas cotadas são mulheres, as recém-mamãs recebem 16 semanas de licença de maternidade, mas o fosso salarial entre géneros ainda é de *16.5% (OCDE 2009).

4. AUSTRÁLIA e a legislação sem grande aplicação prática
“Foram atingidos progressos significativos, particularmente no que respeita à legislação e a políticas de igualdade de direitos, mas essas leis não são aplicadas na prática. Ainda temos elevadas taxas de violência contra mulheres – 1 em cada 3 mulheres sofre de violência física e 1 em cada 5 de violência sexual – e um enorme fosso salarial por género continua a existir, não tendo mudado muito nos últimos 20 anos”, afirma Julie McKay, directora executiva do Australian National Committee for UN Women.

De acordo com um estudo sobre liderança no feminino, que remonta a 2010, nas 200 maiores empresas australianas, apenas cinco têm mulheres como CEO. O Gabinete do Governo Australiano para as Mulheres divulgou que, em 2010, 19,1% das mulheres foram vítimas de actos de violência sexual antes dos 15 anos. A participação política ronda os 36%.

© DR

3. REINO UNIDO e a aparente igualdade de géneros
“Enquanto a maior parte das mulheres no Reino Unido beneficia de acesso livre a cuidados de saúde e de oportunidades nos negócios e na política, os cortes nos gastos governamentais tiveram um impacto desproporcional nas mulheres. Paralelamente, a violência contra mulheres continua a ser um problema sério. Estas duas realidades dão origem à crença numa mentira que leva à aparente igualdade entre os dois géneros”, desabafa Vivienne Hayes, responsável pelo Women’s Resource Centre.

Da totalidade de juízes existentes no Reino Unido, 22,3% são mulheres e 17% dos cargos políticos em ministérios são igualmente ocupados por estas. A diferença nas remunerações é ainda de 18,6%.
 
2. ALEMANHA com Merkel a servir de exemplo
“Temos uma mulher a liderar o país, o que demonstra que as mulheres têm oportunidade para avançar na esfera pública. Todavia, apenas 12,5% dos lugares de topo nas empresas cotadas são ocupados por mulheres. Entretanto, uma nova lei, a efectivar-se em 2013 – que confere o direito de frequência ao pré-escolar a qualquer criança abaixo dos 3 anos – não é viável por falta de espaços, o que terá impactos negativos na capacidade de trabalho das mulheres”, afirma  Ingrid Lebherz, CEO da AWO International.

De acordo com a Divisão de Estatísticas das Nações Unidas (2010-2015), a esperança média de vida das mulheres alemãs é de 83 anos.

No que respeita às desigualdades na remuneração, a diferença entre salários é ainda elevada: 21.6%.

1. CANADÁ com um terço de mulheres juízas
“Enquanto existe ainda muito a fazer, as mulheres têm acesso a cuidados médicos, procuramos a excelência na educação, o que é o primeiro passo em direcção à independência económica, e a legislação protege as raparigas casamento face ao casamento precoce. No entanto, ainda temos um longo caminho a percorrer em termos de igualdade nas remunerações”, garante Farah Mohamed, presidente e CEO do G(irls)20 Summit.

62% dos licenciados em universidades são mulheres e um terço dos juízes também. Dados das Nações Unidas referem que 75% das mulheres entre os 15 e os 49 anos usam métodos contraceptivos.

Fonte: http://www.trust.org/trustlaw/news/special-coverage/g20women/

Nota: G20 (19 maiores economias do mundo mais a União Europeia)