Apresentado recentemente na Fundação Champalimaud, o estudo “Emprego, mobilidade, política e lazer: situações e atitudes dos jovens portugueses numa perspectiva comparada” revela que 70% dos jovens entre os 15 e os 24 anos admitem a possibilidade de vir a trabalhar no estrangeiro. Com foco na população juvenil, este documento traça um retrato do comportamento dos jovens face ao desemprego, à política, à sua relação com as novas tecnologias e à emigração
POR
MÁRIA POMBO

Encomendado pela Presidência da República e apresentado recentemente na Fundação Champalimaud, o estudo “Emprego, mobilidade, política e lazer: situações e atitudes dos jovens portugueses numa perspectiva comparada” revela que é elevada (70%) a percentagem de jovens entre os 15 e os 24 anos que se mostram disponíveis para vir a trabalhar no estrangeiro, deixando transparecer as baixas expectativas deste grupo em relação ao futuro do País. O estudo contou com 1612 entrevistas realizadas a homens e mulheres com mais de 15 anos, residentes em Portugal continental, em Março do presente ano.

Tendo como principal enfoque a população juvenil, o documento faz um retrato complexo dos comportamentos dos jovens portugueses, comparando os resultados recolhidos, quer com dados internacionais, quer com outros grupos etários, quer ainda com dados de 2007 (anteriores à crise económica). Tendo em conta que “jovem” é um conceito muito abrangente, o estudo definiu “jovens” como aqueles que têm idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos, e “jovens adultos” como os que se encontram na faixa entre os 25 e os 34 anos.

A preocupação com o desemprego juvenil é partilhada pela sociedade em geral, a qual considera (61%) que a “falta de empregabilidade” deste grupo depende da conjuntura em que Portugal se encontra, e não de factores individuais ou de uma atitude voluntária, e que “há cada vez menos empregos para quem está a entrar no mercado de trabalho”. Esta apreensão, que até há alguns anos era menos expressiva, torna-se ainda mais evidente se pensarmos que muitos jovens não conseguem sair de casa dos pais ou vêem-se obrigados a ela regressar por falta de oportunidades e formas de auto-sustento.

Apesar de as gerações mais novas serem as mais qualificadas, nem os seus níveis de escolaridade mais elevados, nem as competências que foram adquirindo ao longo do tempo têm sido suficientes para inverter a desastrosa e cruel situação de desemprego que enfrentam.

Enquanto a taxa de desemprego estimada para a população geral, em Março, era de 13,7% (ainda assim, inferior ao período homólogo de 2014), a de desemprego jovem (relativa à população entre os 15 e os 24 anos) atingia os 35% – uma das percentagens mais elevadas da zona Euro, estando apenas atrás da Grécia (que, em Dezembro de 2014, registava 51,2%), de Itália (com 42,6%) e de Espanha (que chegou aos 50,7%), segundo dados da OCDE. O estudo revela ainda que mais de metade dos “jovens adultos” encontra-se em situação de desemprego há mais de um ano.

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A escolaridade não garante mas ajuda

A população menos qualificada é aquela que, face à falta de oferta, se encontra mais vulnerável. Hoje em dia, um “canudo” não garante nada, mas o estudo indica que o mesmo confere aos jovens mais ferramentas que permitem inverter essa situação, através da criação do próprio negócio ou de estratégias menos tradicionais de procura de emprego (como as redes sociais). Na realidade, e segundo o documento, os jovens com escolaridade abaixo do 3º ciclo correm o risco de a sua situação de “desemprego de inserção” se transformar, ao longo do curso de vida, em “desemprego como condição” – o que é preocupante.

A idade e as condições socioeconómicas foram dois factores onde se registaram, igualmente, diferenças consideráveis em vários aspectos: são os grupos mais jovens e/ou com maiores rendimentos que se revelam mais optimistas em relação à possibilidade de virem a encontrar um novo emprego, estando, no entanto, consideravelmente (61%) preocupados com a possibilidade de virem a perder o emprego que têm. No extremo oposto – ou seja, no grupo dos mais pessimistas e preocupados – estão os jovens mais velhos, aqueles cujo rendimento do agregado familiar é mais baixo, e, como já foi referido, os menos qualificados.

Adicionalmente, a estabilidade e a segurança, assim como as possibilidades de realização pessoal são também factores divergentes entre os mais novos: se, por um lado, os jovens desempregados ou com uma escolaridade mais elementar optam pelos primeiros (estabilidade e segurança), o último indicador é “típico” dos jovens social e culturalmente mais favorecidos, os quais revelam ainda uma atitude mais empreendedora face ao desemprego, estando mais disponíveis para trabalhar por conta própria.

Apesar de não se registarem taxas elevadas de experiências no estrangeiro (a nível escolar, laboral ou lúdico) por parte dos “nossos” jovens, é elevada a percentagem de respondentes que considera a mobilidade internacional como forma de evitar o desemprego. São cerca de 70% os jovens que, concentrados em encontrar melhores condições de vida, pretendem ter essa experiência ou não a excluem. Um dado que merece ser realçado está relacionado com o facto de as melhores ofertas se situarem em “extremos”: a oferta de emprego é mais significativa para a população mais e menos qualificada. Apesar de os jovens filhos de pais mais escolarizados serem aqueles que se mostram mais disponíveis para sair do País, este é um factor bastante transversal, não revelando grandes oscilações entre ambos os grupos analisados.

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Mais adeptos de tecnologia do que de política

O capítulo dedicado à política é aquele que revela as maiores diferenças entre os jovens e os jovens adultos. Os primeiros sentem-se mais satisfeitos com a democracia (estando acima da média nacional), mas são também os que menos procuram notícias sobre política e os que menos participam em partidos (sendo que apenas 19% assumem algum tipo de identificação partidária) ou associações cívicas. Por seu turno, os inquiridos com idades entre os 25 e os 34 anos consomem o dobro das notícias que o grupo anterior e estão acima da média nacional no que respeita a comportamentos associativos (pertença a partidos, sindicatos, ordens profissionais, grupos desportivos e culturais, entre outros), sendo de 39,3 a percentagem que sente alguma identificação partidária – o dobro do grupo anterior.

Adicionalmente, e sem espantos, a participação social tem muito pouca expressão no grupo mais novo (até aos 24 anos); já por parte dos jovens adultos, esta está acima da média nacional em actividades como assinar uma petição ou comprar produtos por razões ambientais, ou ainda contribuir para algumas causas. Um dado curioso é o facto de a população idosa apresentar um comportamento semelhante ao dos mais jovens, revelando um menor envolvimento político, o que revela que a questão do (des)interesse dos mais novos acerca desta temática não é estrutural, estimando-se que quando estes jovens forem adultos terão uma atitude muito mais participativa e interessada, a qual diminuirá, contudo, de forma progressiva, com o avançar da idade.

Esta distância do grupo mais novo face às questões políticas, em conjunto com o momento difícil que Portugal atravessa (resultado, em parte, de decisões políticas controversas), pode revelar (ou justificar) a descrença dos jovens nos nossos governantes e a sua não identificação com as forças partidárias.

Também marcada pela idade, mas sobretudo pela condição socioeconómica, está a relação dos jovens com as novas tecnologias e com actividades de lazer. O grupo mais novo é o que revela uma prática mais regular de actividades realizadas fora de casa, desde ir ao cinema, a eventos desportivos ou a festivais de música, mas a mesma diferença não se verifica ao nível da realização de actividades no “interior”, como ler um livro, apresentando ambos valores médios, que rondam os 45%. É, no entanto, do ponto de vista socioeconómico e cultural que se verificam as maiores oscilações: os jovens ou filhos de pais com escolaridade superior e que declaram viver de forma confortável são os que mais revelam praticar ou terem praticado actividades lúdicas no último ano.

Adicionalmente, e sem surpresas, são os mais jovens ou aqueles que têm maior nível de escolaridade os que mais contacto têm com as novas tecnologias, o qual vai diminuindo com a idade e com a perda de rendimentos, sendo menor a relação entre os aparelhos electrónicos e os jovens entre os 15 e os 24 anos que vivem em situações socialmente vulneráveis ou que revelam viver muito dificilmente com os seus rendimentos.

Interessante ainda é apurar as diferentes finalidades que o uso da internet tem: por parte dos jovens, é evidente a sua utilização nos tempos livres, como forma de lazer (desde ver filmes, a jogar, a ouvir música, etc.); já os jovens adultos e/ou trabalhadores (mesmo que mais novos) empregam-na de forma mais utilitária, conjugando interesses laborais com lúdicos, como acesso à informação ou compra e venda de produtos. Adicionalmente, as questões de género permitem apurar, aqui, uma diferença curiosa: enquanto os homens optam por ver maioritariamente filmes ou séries, ou por descarregar jogos, as mulheres preferem dedicar-se à pesquisa de informação e à leitura.

O retrato traçado por este documento permite reconhecer que Portugal é um país onde a população mais “sobrevive” do que vive, (especialmente a mais nova), o que justifica o descrédito em relação aos governantes e o pessimismo face às oportunidades de emprego, sentidos por parte da maioria dos jovens entrevistados, tendo como resultado a disponibilidade destes para procurar outros países que os acolham e lhes dêem uma vida mais confortável e digna. Se o desemprego jovem deixou de ser vista como um mero acto individual, voluntário e preguiçoso, passando a ser uma preocupação sentida pela população em geral, então poderemos estar de facto perante um problema profundo, do qual será difícil sair enquanto o País continuar a viver neste clima de crise económica, cujo fim foi já anunciado mas ainda não produziu os efeitos desejados.

Apraz, por fim, salientar que o “canudo” não garante trabalho a ninguém, actualmente, mas dá aos jovens algumas ferramentas que lhes permitem sair da situação de desemprego mais cedo que aqueles que apenas frequentaram o ensino básico. Contrariamente ao grupo menos qualificado, o desemprego de longa duração tem valores “inexpressivos” nos jovens com formação superior.