Tempo de descanso, tempo de leituras. Várias temáticas, novas reflexões. Como qualquer outra selecção, também a escolha do VER de dez livros para incluir na sua bagagem de férias é subjectiva, mas variada. Talvez com um toque de alerta para o período da rentrée, apostámos em autores que exortam ao trabalho, a novas formas de liderança, ao sempre complexo desafio da mudança. Mas também a interpretações de temas que nos são caros e aos quais não podemos fechar os olhos… Mergulhe no mar, sem deixar de mergulhar nestas páginas
POR HELENA OLIVEIRA

Do the Work
Steven Pressfield

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“A procrastinação é o maior ladrão do tempo”. A afirmação é de Martin Luther King Jr. e assenta na perfeição aos propósitos do novo livro de Steven Pressfield, Do the Work. O autor do aclamado War of Art aborda algo que em linguagem corrente poderá significar “preguiça”, mas que na presente obra é apresentado como o conceito de “resistência”, ou seja, aquilo que nos impede de iniciar e terminar um projecto, um negócio ou até a escrita de um livro. Com o primeiro conselho que diz “não se prepare, mas comece”, Pressfield escreve que “existe em nós um inimigo. Existe uma força maligna, activa e inteligente que trabalha contra nós. E o primeiro passo para a vencer é reconhecer a sua existência”. Para o autor, ser criativo é uma guerra e o inimigo é uma manifestação malévola de resistência que, de forma activa, nos tenta derrubar. Naquilo que pode ser considerado um breve manifesto, Pressfield apresenta não só uma análise dramática daquilo que cada um de nós enfrenta quando se propõe dar início a qualquer coisa, mas também um guia prático do inferno que todos temos que ultrapassar, povoado de dúvidas, de momentos de derrota e de muitas alturas em que apenas nos apetece desistir. Banir a “resistência inimiga” liberta-nos destes tentáculos e permite-nos chegar ao fim com a inspiradora sensação de “missão cumprida”. Sim, neste guia de livros para férias, uma obra essencial para encarar a rentrée com uma nova perspectiva.

All the Devils Are Here: The Hidden History of the Financial Crisis
Bethany McLean & Joe Nocera

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Sim, a crise financeira deu origem a uma quantidade astronómica de títulos que, de uma forma ou outra, tentam explicar as raízes da Grande Recessão do século XXI que continua a fazer estragos globais. Mas naquele que foi considerado o melhor livro de negócios de 2010, os autores – Joe Nacera e Bethany McLean – conseguem, realmente, contar uma boa história (pena que não seja ficcional). É que o feito dos autores foi terem conseguido voltar 30 anos atrás no tempo e chegarem às raízes da crise. Para os críticos, mais do que o título do livro “All the devils are here”, é o seu subtítulo – Tthe hidden history of the financial crisis” – que melhor justifica as páginas que o compõem. Na extensa literatura sobre a temática, houve quem tenha privilegiado a estreita relação da crise financeira com Wall Street e Washington. Outros optaram por colocar as culpas nos consumidores ambiciosos e mal informados, nos traders e brokers sem escrúpulos ou naqueles que perderam o controlo e o discernimento e emprestaram sem pensar nas consequências de longo prazo. O mérito de McLean e Nocera foi o de conseguir reunir todos estes “diabos” no mesmo inferno. “As empresas estavam demasiado preocupadas com os seus lucros imediatos, com reguladores marionetas e com os amigos de Washington, pode ler-se numa crítica à obra. Por outro lado, a ganância levou à estupidez em todos os níveis, fossem eles brokers juniores que rapidamente faziam negócios de seis dígitos ou as investidas irresponsáveis de empresas de Wall Street como a AIG ou a Goldman Sachs. A história vai sendo igualmente narrada à medida que são apresentados os “diabos” que nela tiveram principal protagonismo, a par das respectivas diabruras. Um livro que consegue captar as raízes da crise e que oferece uma perspectiva para possíveis novos desenvolvimentos, tão ou mais diabólicos quanto os que o mundo já conheceu.

The Social Animal: The Hidden Sources of Love, Character, and Achievement
David Brooks

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O autor deste livro, David Brooks, é um dos mais famosos colunistas do The New York Times. E, narrando a vida de um casal desde a sua infância até à sua vida adulta, Brooks oferece uma inovadora perspectiva sobre a natureza humana. Como base de partida a significativa revolução científica que teve lugar nos últimos anos – aprendemos mais sobre o cérebro humano nos últimos 30 anos do que nos últimos três mil – e o facto da nossa mente inconsciente (que ocupa a maior parte do cérebro) já não ser considerada como algo vegetativo e negro, mas antes um local criativo e encantado, no qual a maior parte da actividade cerebral tem lugar, este livro abre caminho para a ampla esfera das emoções, intuições, preconceitos, predisposições genéticas, tratos de personalidade e normas sociais. Ou seja, o domínio por excelência no qual o nosso carácter é formado e onde são tomadas as mais importantes decisões das nossas vidas. Este é um livro sobre o habitat natural onde vive o animal social. Ou seja, todos nós. Com base numa pesquisa interdisciplinar e seguindo a vida do casal protagonista da história, Brooks não só nos oferece uma viagem através da nossa mente como expõe os preconceitos existentes na cultura moderna que sobrestimam o racionalismo, o individualismo e até o QI. E, com o passar das páginas, consegue demolir definições convencionais no que respeita ao sucesso, ao mesmo tempo que privilegia uma cultura baseada na confiança e na humildade. Uma aventura intelectual, que poderá mudar a forma como nos vemos a nós próprios e ao mundo que nos rodeia.

SWITCH: How to Change Things When Change Is Hard
Chip & Dan Heath

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É um dos mais complexos desafios da gestão: uma eficaz mudança organizacional. Mas este livro diferencia-se dos inúmeros que já trataram esta temática, uma das mais populares na literatura de gestão dos últimos tempos. Por um lado, toma como ponto de partida a complexa mente humana e os motivos que nos levam a nós, comuns dos mortais, a resistir teimosamente à mudança. Por outro, explora as múltiplas perspectivas daquilo que se entende por “mudança”, seja por parte de consultores, dos especialistas em livros de auto-ajuda ou até dos activistas que a encaram numa forma mais global e abrangente. E, por isso, aborda as muitas mudanças que se atravessam nas nossas vidas, sejam elas pessoais, sociais ou organizacionais. O livro derruba igualmente alguns mitos há muito instalados sobre a tão difícil gestão da mudança, mas parte de uma premissa comum: a de que qualquer mudança, independentemente do nível que lhe estiver subjacente, começa com uma pessoa, em determinada altura, que decide tomar as rédeas de algum processo. A dupla Chip e Dan Heath, os autores do bestseller Made to Stick, elegem três fases por excelência para se levar a cabo as verdadeiras mudanças organizacionais: 1) Motivar o elefante. Que personifica o nosso lado emocional e instintivo, que é preguiçoso e que procura, sempre, uma recompensa rápida em detrimento de uma outra de longo prazo, e que constitui a primeira causa para o fracasso da mudança. É que esta envolve o sacrifício de curto prazo na perseguição de objectivos de longo termo e é este elefante preguiçoso que temos de dominar para começar a seguir o caminho da mudança. 2) Direccionar o condutor. O condutor, que se senta em cima do elefante, é o nosso lado racional. E presumimos que é este que tem as rédeas na mão e que escolhe o caminho em frente. Contudo, para os autores, o controlo do condutor é precário, pois ele é ínfimo quando comparado à dimensão do elefante. E sempre que ambos discordam sobre o melhor caminho a seguir é o elefante que ganha. O que, na maioria dos casos, não é mais do que uma simples falta de clarividência. É necessário ensinar o condutor a fintar o elefante e a escolher a estrada certa a seguir. 3) Por último, há que desbravar o caminho. A mudança falha, na maioria das vezes, pois o condutor não consegue manter o elefante na estrada o tempo suficiente para que ambos atinjam o seu destino. A fome do elefante pela gratificação imediata joga contra a força do condutor, que consiste na capacidade deste último para divisar a floresta e não as árvores, para além de ter de planear para além do momento. E quanto mais conseguir divisar e retirar obstáculos do caminho traçado, mais fácil é diminuir os conflitos entre ambos e fazer progressos. Com inúmeros casos ilustrativos e escrito com uma clareza admirável, Switch é um dos mais bem-sucedidos livros na temática da mudança organizacional.

Digital Impact: The Two Secrets to Online Marketing Success
Vipin Mayar & Geoff Ramsey

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Não existe, na actualidade, nenhuma empresa que se preze e que não exija aos seus departamentos de marketing o retorno do investimento dos milhões gastos em publicidade e marketing online. E esta exigência não provém apenas dos gigantes empresariais (os únicos que têm milhões para gastar, na verdade), mas também das pequenas empresas, nas quais cada euro gasto tem de ser milimetricamente explicado. Para florescer – ou melhor, para sobreviver – no meio da feroz concorrência, os marketers precisam de criar mensagens que sejam ouvidas no interior da enorme desordem que grassa no mundo digital, ao mesmo tempo que são obrigados a apresentar um método, comprovado, para racionalizar a avaliação e as métricas em todos os canais digitais. Com este livro, que funciona como um guia orientador para os marketers modernos, Vipin Mayar do McCann Worldgroup e Geoff Ramsey da eMarketerevidenciam os seus 25 anos combinados de experiência no mundo digital, oferecendo um conjunto completo de dicas para o domínio de dois conceitos cruciais: a avaliação da perfomance e os conteúdos magnéticos. Para o primeiro, apresentam as sete mais importantes métricas e aplicam-nas em todos os canais digitais, desde ao marketing de procura, ao email, aos media sociais, aos vídeos online, aos dispositivos móveis e à publicidade em modo de “display”. No que respeita aos conteúdos magnéticos, abordam a criatividade obrigatória nas mensagens de marketing que, de forma natural, consigam atrair os consumidores. Em Digital Impact, são respondidas muitas das questões que preocupam os marketers da actualidade que lidam todos os dias com consumidores repletos de poder, com ciclos de atenção cada vez mais curtos, rodeados de uma panóplia de escolhas jamais vista e que resistem arduamente às mensagens de publicidade. Um livro prático e muito eficaz para quem faz marketing online. Ou seja, virtualmente para todas as empresas.

Nothing to Lose, Everything to Gain: How I Went from Gang Member to Multimillionaire Entrepreneur
Ryan Blair & Don Yaeger

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Poderia ser um bom argumento para um filme, mas é a história verídica do empreendedor em série, Ryan Blair que, na sua juventude, pertenceu a um gang de rua. Numa viagem autobiográfica, o autor conta a história da sua família cuja vida calma foi, de forma abrupta, destruída quando o seu pai se viciou em drogas e abandonou a família.

O então jovem Blair envolveu-se com um gang, conheceu muitas noites na prisão, até ser “salvo” pelo padrasto que haveria de ser o seu primeiro mentor. De acordo com as suas próprias palavras, os instintos de sobrevivência que coleccionou ao longo de uma adolescência conturbada constituíram os seus melhores activos para, aos 21 anos, fundar a sua primeira empresa, a 24/7 Tech.

Desde então, torna-se difícil enumerar todas as empresas que criou e que vendeu por largos milhares de milhões de dólares. Os seus fracassos e sucessos, narrados nestas páginas, em conjunto com a ajuda de vários gurus que o foram inspirando ao longo da vida, resultam num livro inspirador e optimista que reforça a premissa de que”quando não há nada a perder, existe tudo a ganhar”.

Mother Teresa, CEO: Unexpected Principles for Practical Leadership
Ruma Bose & Lou Faust

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Qual é a empresa, qual é ela, fundada em 1948, por um empreendedor apaixonado e 12 membros leais de uma equipa que cresceu ao ponto de se transformar num dos maiores empreendimentos do mundo? Com operações em mais de 100 países na actualidade, inclui mais de um milhão de membros, já aplicou milhares de milhões de dólares de capital e é uma das mais reconhecidas marcas na História. Não, não estamos a falar nem da HP, da Coca-Cola ou da Microsoft. Mas sim das Missionárias da Caridade, a ordem criada pela madre Teresa de Calcutá.

“Os grandes líderes organizacionais, como a madre Teresa de Calcutá, começam com a simples visão de que conseguem fazer uma evangelização interna e externa. A simplicidade e força da sua mensagem são essenciais. Esta visão tem de ser estabelecida de forma prematura, mesmo antes de se iniciar a empresa. A Madre Teresa teve a visão de servir os pobres antes de fundar a ordem Missionárias da Caridade. E a sua visão pessoal transformou-se na visão organização que criou”. Este é um excerto do livro Mother Teresa, CEO cuja tese se baseia no facto do trabalho desta, junto das Missionários da Caridade, constituir um dos maiores feitos “empresariais” da história da humanidade e de como os líderes de negócios podem, nos dias que correm, aprender muitíssimo com ela.

São muitas as pessoas que argumentam que os líderes religiosos que conseguiram construir grandes Ordens e que deram origem a instituições múltiplas tiveram de ter algumas competências de gestão. Todavia e na maioria dos casos, são geralmente recordados apenas pela sua fé e pelos actos de bem que praticaram. E esta talvez seja a maior força deste livro: a análise das competências de liderança de Madre Teresa, feita pelos autores, justifica o seu sucesso e uma transferência adequada dos seus predicados para as empresas modernas.

The Next Convergence:The Future of Economic Growth in a Multispeed World
Michael Spence

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Distinguido com um Nobel da Economia em 2001 [em conjunto com George Akerlof e Joseph Stiglitz], o autor Michael Spence explora, nesta sua mais recente obra, a convergência existente entre “duas revoluções paralelas e que interactuam entre si: a continuação da Revolução Industrial nos países desenvolvidos e o súbito e dramático padrão  de crescimento no mundo em desenvolvimento”.

Em The Next Convergence: The Future of Economic Growth in a Multispeed World, Spence explica de que forma é que a economia global atingiu o seu estado corrente, examina o crescimento elevado e a redução da pobreza nos países em desenvolvimento, analisa os efeitos de curto e longo prazo das crise económica e financeira de 2008 e termina com as forças e tendências que vislumbra para a sustentabilidade da economia futura.

Na sua investigação do conhecimento da economia do desenvolvimento, Spence aborda o papel da ajuda estrangeira, da liberalização do comércio, dos recursos naturais e da dificuldade que os países demonstram quando começam a evoluir de nações “médias” para economias mais avançadas. Um livro de economia “pura e dura” especialmente recomendado para os especialistas na área.

Your Brain and Business: The Neuroscience of Great Leaders
Srini Pillay

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“Acorda, cérebro! Estás a ser requisitado para uma nova função!”. De uma forma muito simplista, esta é a premissa de Srini Pillay expressa no seu mais recente livro e dedicada a uma nova área: a do coaching cerebral. O médico e investigador de Harvard pretende retirar a neurociência do domínio teórico e colocá-la ao serviço das empresas, como forma de ajudar os executivos a melhorarem as suas variáveis sociais, a par dos lucros, nas organizações que dirigem. Pillay pertence a um clube, ainda jovem, de investigadores que defendem a compreensão e a implementação da neurociência na formação de líderes da actualidade. Estes líderes são chamados a desenvolver a competência crucial do coaching (aqui definido como a arte e ciência de facilitar a mudança positiva no interior das organizações), pois já não é suficiente, no mundo empresarial moderno, possuir apenas as velhas competências de supervisão e gestão.

Começando por explicar aos leitores o que é a ciência que estuda o cérebro, a história termina, oito capítulos mais tarde, com processos cerebrais de coaching e com algumas questões e assuntos surpreendentes pelo meio: de que forma é que o pensamento positivo afecta o cérebro; por que motivo devem os lideres ser optimistas; o que é a psicologia da compaixão; como funciona a neurociência da empatia; porque motivo é tão difícil ao cérebro lidar com a mudança, entre muitos outros, interessantes o suficiente para manter o cérebro do leitor bem desperto até ao final das suas páginas. Pillay defende, veementemente, que é absolutamente indispensável perceber e aplicar o novo papel de gestor/líder/coacher para ultrapassar os diferentes desafios da liderança, maximizar a produtividade e gozar de um novo sentimento de satisfação no trabalho que prestam. Para quem quer utilizar (ainda) mais os neurónios!

Futebol, Facebook e FMI: O país dos três F’s. Livro em branco
Centro Atlântico

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Se nenhum dos livros anteriormente recomendado despertou a atenção do leitor, talvez esteja na altura de se transformar num autor.

E este é o convite deixado por este novo “livro em branco” que o desafia a preencher as suas páginas, totalmente branquinhas, com as suas próprias ideias, observações, críticas, dicas, reflexões e tudo o mais que nele quiser escrever.

Tendo como ponto de partida os três F’s que dominam o actual imaginário português – Futebol (sempre), Facebook e FMI – o leitor, ou melhor, o autor, pode dar largas à sua imaginação e, de caneta em riste, escrever o livro da sua vida.

E, quem sabe, despertar uma paixão escondida pela escrita. Atreva-se!