Por serem países particularmente afectados pela crise, Portugal, Grécia, Itália, Espanha, Eslovénia e Irlanda criaram, em conjunto, o projecto “Desafiar a Crise – Promover a justiça global e o envolvimento dos cidadãos em tempos de incerteza”. Esta iniciativa é composta por jovens que pretendem fazer a diferença e encontrar alternativas aos modelos económicos comuns, apostando na Economia Social e Solidária como forma de combater a crise. Uma opção viável que elege as pessoas em detrimento do lucro
POR
MÁRIA POMBO

A intensificação das desigualdades sociais foi uma das principais consequências da crise económica mundial, iniciada em 2008 e cujo fim foi há muito “prometido”. Só na União Europeia são mais de 120 milhões as pessoas que vivem na pobreza ou em risco de exclusão social. Num relatório emitido em Março de 2015, o Eurostat comprova, mais uma vez, que os jovens até aos 25 anos são um dos grupos mais afectados e no qual se reflectem as mais elevadas taxas de desemprego. Nada de novo, portanto.

Adicionalmente, e de acordo com as últimas estatísticas do Banco Mundial (BM), mais de 2 mil milhões de pessoas em todo o mundo vivem com menos de dois dólares por dia. Neste documento, emitido em Outubro de 2015, o BM refere que têm sido feitos progressos no que respeita à redução dos níveis de pobreza, comparativamente ao que se verificou nas últimas décadas; no entanto, esta mesma entidade sublinha que o número de vítimas deste flagelo continua a ser preocupantemente elevado. O direito à educação, cuidados de saúde, electricidade e água potável continua a ser uma miragem para muitos, cujo acesso é, muitas vezes, determinado por questões socioculturais, geográficas, étnicas e também de género.

Para aqueles que conseguem ultrapassar esta situação e alcançar melhores condições de vida, o caminho é muitas vezes sinuoso e o progresso revela-se limitado e temporário, obrigando muitos cidadãos a voltar à sua anterior condição. No sentido de inverter esta situação, o BM refere que é necessário encontrar mecanismos que permitam lidar e acabar com a pobreza e as desigualdades sociais, conduzindo ao verdadeiro progresso socioeconómico.

Sem surpresas, muitas vozes reclamam a urgência de um modelo económico que valorize o meio ambiente, bem como as necessidades e capacidades das pessoas, e não só o capital, o lucro e os mercados. Esse modelo existe e são diversas as formas de o apelidar, explicar e definir. Neste artigo, pela sua abrangência e de acordo com a Resolução do Parlamento Europeu, de 19 de Fevereiro de 2009, sobre economia social, o VER opta por utilizar a designação “Economia Social e Solidária (ESS)”. Esta alternativa à economia “comum” defende uma sociedade mais equitativa e justa, promovendo a inclusão social, assim como a co-produção e difusão de bens, conhecimentos e serviços.

Segundo o mesmo diploma, “ao aliar rentabilidade e solidariedade, [a ESS] desempenha um papel essencial na economia europeia, criando empregos de elevada qualidade, reforçando a coesão social, económica e regional, gerando capital social, promovendo a cidadania activa, a solidariedade e um tipo de economia com valores democráticos que põe as pessoas em primeiro lugar, para além de apoiar o desenvolvimento sustentável e a inovação social, ambiental e tecnológica”. Por todos estes motivos, e apesar de esta ser “ainda pouco conhecida, sendo frequentemente alvo de críticas resultantes de abordagens técnicas inadequadas”, o documento acrescenta que “há que valorizar os modelos da economia social para atingir os objectivos de crescimento económico, empregabilidade, formação e serviços pessoais que caracterizam todas as políticas europeias”.

Estimular a participação democrática nas decisões económicas, promover a existência de sistemas de gestão participativos e transparentes, e possibilitar o acesso a recursos por parte de todas as pessoas são alguns dos principais objectivos da ESS e podem ser aplicados, quer nas nações mais desenvolvidas, quer nos países em desenvolvimento. A mesma pretende ainda influenciar a adopção de critérios de responsabilidade social e ambiental e, também, alcançar a igualdade na distribuição da riqueza (em termos de género, a nível geracional e independentemente do background financeiro de cada cidadão).

03032016_EstaEconomia
Unidos contra a incerteza

Foi com o objectivo de contribuir para um mundo mais justo e sustentável que surgiu, há três anos, o projecto “Desafiar a Crise – Promover a justiça global e o envolvimento dos cidadãos em tempos de incerteza”. Este é um programa de Educação para a Cidadania Global que está a ser liderado pela Irish Development Education Association (IDEA), na Irlanda, e conta com a participação de jovens de Portugal, Grécia, Itália, Espanha e Eslovénia, escolhidos por pertencerem a nações altamente endividadas da Europa, de acordo com um relatório de 2014 concebido pela mesma organização.

O projecto é financiado pela União Europeia e tem a decorrer, a nível europeu e até ao dia 31 de Março deste ano, a campanha “Muda a Economia, Pensa Social!” através da qual pretende promover um ano europeu para a Economia Social e Solidária em 2018, apelando aos decisores políticos para que coloquem a ESS na agenda política e económica.

No nosso País, esta iniciativa está a ser desenvolvida pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e apoiada pelo Instituto Camões. A técnica do projecto em Portugal, Ana Teresa Santos, explica que o IMVF assume a “responsabilidade de implementar todas as actividades previstas por esta iniciativa a nível nacional, desde a coordenação do grupo de 15 Jovens Embaixadores da Justiça Social Global à organização de seminários e à edição de publicações e outros materiais de visibilidade em português”. A responsável salienta, no entanto, que este “tem sido um trabalho em conjunto, muito reflectido e discutido com as outras organizações que implementam o projecto nos outros cinco países e em que todos procuram sempre respeitar as especificidades inerentes a cada organização, país e jovens participantes”.

Sensibilizar os cidadãos europeus para a questão das políticas internacionais de desenvolvimento sustentável, demonstrando o seu poder de decisão e a forma como as suas escolhas são importantes para a economia, nomeadamente através do tipo e origem de produtos que compram, é uma das principais mudanças que esta iniciativa pretende ver concretizada. No fundo, e crentes de que a ESS é um modelo que ajuda os países europeus a ultrapassar a crise financeira, estes jovens propõem uma alternativa económica com base nos direitos humanos, democracia, inclusão, diversidade, igualdade, solidariedade, equidade, justiça e desenvolvimento sustentável, por oposição aos valores de individualismo, competição, exclusão económica e exploração laboral que, segundo afirmam os mesmos, imperam na sociedade actual.

Entre as organizações que pertencem à economia social e solidária, os promotores do projecto “Desafiar a Crise” dão como exemplo as organizações de comércio justo, bancos éticos, moedas sociais e grupos de microcrédito, os quais têm objectivos económicos, sociais e ambientais, praticam formas democráticas de trabalho e autogestão, e estabelecem variadas relações de cooperação e solidariedade entre trabalhadores, produtores e consumidores, dando, assim, origem a uma sociedade e a uma economia mais inclusivas e cooperativas, e menos competitivas.

Os promotores deste projecto acreditam que os jovens estão, actualmente, empenhados em inverter os níveis de pobreza e desemprego elevados, tanto na sua comunidade, como no seu país e também a nível mundial.

03032016_EstaEconomia2
Jovens minimamente activos e extremamente optimistas

Possivelmente por sentirem os efeitos da crise económica, através por exemplo do desemprego, um relatório sobre a juventude conduzido pelos diversos parceiros do projecto “Desafiar a Crise”, a nível internacional, indica que os jovens, em geral, revelam ter interesse em temas como solidariedade e justiça global. Uma grande percentagem destes (80%) confessa-se preocupada com o facto de muitas pessoas dos países em desenvolvimento viverem em clima de pobreza, desigualdade e injustiça, e uma percentagem igualmente elevada considera inaceitáveis as diferenças, do ponto de vista da riqueza, entre o “norte rico” e o “sul pobre”.

Neste inquérito, que foi apresentado em Dezembro de 2015 e no qual participaram 2033 pessoas (das quais, 296 eram portuguesas) entre os 15 e os 34 anos, residentes em Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, Espanha e Eslovénia, é perceptível que a corrupção e a má governação, as desigualdades sociais, as guerras e os pagamentos da dívida constituem as principais causas da pobreza apontadas. Adicionalmente, os inquiridos, que são na sua maioria licenciados ou estudantes a tempo inteiro, revelam familiaridade relativamente a conceitos como instituições financeiras internacionais, dívida pública, desenvolvimento global e justiça social.

No que respeita ao montante adjudicado à ajuda ao desenvolvimento, 38% dos inquiridos em Portugal consideram que o País deve aumentar o apoio prestado, 5% entendem que este valor deve diminuir e 24% defendem que deve manter-se, sendo estas percentagens semelhantes às médias apuradas a nível europeu.

O envolvimento activo e permanente destes jovens em organizações não-governamentais, associações juvenis ou também em movimentos locais é ainda bastante reduzido, quer em Portugal, quer a nível europeu, não ultrapassando os 27% em nenhum dos casos. No entanto, cerca de 80% dos inquiridos revelam ter-se envolvido, pelo menos uma vez, em projectos de solidariedade social através da doação de dinheiro ou bens, ou participando em campanhas de angariação de fundos.

Adicionalmente, e indo ao encontro dos objectivos do projecto e da própria ESS, mas contrariando os níveis de activismo acima referidos, este inquérito revela que uma grande percentagem de jovens, quer a nível nacional quer a nível europeu, acredita que tem poder para influenciar uma mudança positiva em prol da justiça global na sua comunidade, país e a nível global, não só em termos individuais, como em grupo. Resta saber se estamos perante meras boas intenções de quem apenas já doou uns cêntimos em campanhas de solidariedade social e fez um like numa publicação do Facebook, achando-se bastante activo e até “especial” só por isso, ou se de facto estes jovens estão mesmo empenhados e comprometidos em alcançar a tão aclamada mudança rumo a um mundo francamente melhor e mais justo.