Portugal apresentou em Nova Iorque a recém-aprovada Estratégia de Longo Prazo para a Descarbonização, produto do trabalho do Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050, uma estratégia que se consubstancia, já nestes meses que correm, no maior aumento de capacidade de produção de energia renovável, aos preços mais baixos de sempre
POR PEDRO BARATA

Na voragem mediática dos últimos anos na questão das alterações climáticas, com a Marcha pelo Clima, a Greve Climática Mundial, ou as sucessivas Cimeiras Mundiais do Clima, cada uma destas reuniões magnas mundiais é sempre anunciada como “a última oportunidade” para resolver a questão das alterações climáticas. É fácil, num quadro muitas vezes alarmista, que cada expectativa gorada após a Cimeira para acabar com as Cimeiras seja entendida como a derrota inexorável, como o fim de linha da luta pela sustentabilidade.

Essa visão interessa sobretudo a quem quer desacreditar (inclusive no sentido de “deixar de acreditar”) na viabilidade de todo o processo de descarbonização e na possibilidade de aumentar a ambição climática com vista a evitar os efeitos que já se sentem e que, sabemos, irão agudizar-se.

Contudo, é importante não alinhar por esse discurso: o movimento iniciado em Paris com a assinatura do Acordo de Paris e a tomada de consciência do imperativo da neutralidade carbónica – i.e. de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa a zero até `a segunda metade do século XXI, estão vivos e de boa saúde, mesmo se o processo negocial internacional sob a égide das Nações Unidas apresenta sinais de cansaço:

– Por um lado, mesmo um país como a Rússia, grande emissor e crónico retardatário na ação climática, viu necessidade de ratificar o Acordo de Paris;

– Países como Dinamarca e Finlândia atenderam ao pedido do Secretário-Geral e apresentaram renovada ambição: atingir a neutralidade carbónica já em 2033;

– Enquanto isso, o Partido Trabalhista do Reino Unido, sério candidato a formação de novo governo, colocou no seu manifesto eleitoral o objetivo da neutralidade carbónica em 2030 – daqui a apenas 11 anos! Isto para uma economia do G7.

– Fora do processo intergovernamental, um conjunto extremamente forte de iniciativas empresariais resultam hoje num movimento de ação que toca a todos: os investidores institucionais – os maiores fundos de pensões, fundos soberanos e outros – gerindo um portefólio de mais 1,4 triliões de euros – anunciaram o fim do financiamento de projetos ligados à economia dos combustíveis fósseis.

Portugal não está desligado deste movimento, e pode mesmo dizer-se que se encontra no pelotão da frente dos compromissos com a neutralidade carbónica: o país apresentou em Nova Iorque a recém-aprovada Estratégia de Longo Prazo para a Descarbonização, produto do trabalho do Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050, uma estratégia que se consubstancia, já nestes meses que correm, no maior aumento de capacidade de produção de energia renovável, aos preços mais baixos de sempre. Portugal está, por isso, a cumprir com o estipulado no Roteiro, com o aumento acelerado da capacidade de produção renovável.

Enquanto isso, os últimos meses têm vindo a confirmar um declínio relativo da produção elétrica a partir de carvão, mercê da cada vez menor competitividade deste combustível. Esta falta de competitividade deveria levar a governação a antecipar inclusive o fecho das centrais termoelétricas a carvão (planeado para 2029, mas exequível já nos próximos quatro anos). É por isso possível ir ainda mais longe e mais depressa na descarbonização em Portugal, sem embarcar em aventureirismos irresponsáveis.

Ao mesmo tempo, os últimos meses têm demonstrado também a exequibilidade de um novo sistema de mobilidade nas nossas cidades. Embora ainda seja muito cedo para se poder confirmar como tendência de fundo, é assinalável o incremento da mobilidade partilhada em modo elétrico nas nossas cidades (Lisboa e Porto) bem como o crescimento de vendas de marcas associadas à mobilidade elétrica.

Este é um repto aos políticos do nosso país, em vésperas de eleições: um repto que deve levá-los a equacionar também as opções de fundos em projetos como o incremento da capacidade aeroportuária em Portugal.

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