Há uma problemática comum em Espanha e em Portugal: se, por um lado, cresce o número de pessoas interessadas em utilizar a lógica de mercado para transformar realidades sociais, por outro lado, ainda não existe a estrutura jurídica de “empresa social”, nem uma cultura que atribua facilmente vocação social a uma PME. A experiência da Itinerarium, empresa com missão social dedicada à convergência tecnológica, demonstra que o desafio para as PME é criar sinergias entre as suas actividades sociais e económicas para que estas se reforcem mutuamente
POR SOPHIE ROBIN*

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© SSC
*Founding Partner da Stone Soup
Consulting
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A Itinerarium é uma empresa de tecnologia com uma história atípica: foi criada há três anos por um empreendedor visionário, Narcis Vives, que acreditava que o futuro iria passar por uma convergência cada vez mais intensa entre o mundo virtual e o mundo real, utilizando a tecnologia móvel como espaço de facilitação do encontro entre estes mundos.

Com os olhos nos mercados asiáticos, Narcis viu, antes de muitos em Espanha, o potencial que ofereciam, neste sentido, os sistemas e aplicações como a geo-referenciação e a realidade aumentada.

Mas este não é um empreendedor tecnológico como outros. Para além da tecnologia, tem como paixão a educação. Narcis acredita que, com o desenvolvimento de uma nova geração de jovens que “respira” a tecnologia, os sistemas educativos têm que mudar: não só os formatos, mas também a forma de criar os conteúdos pedagógicos. Segundo ele, a tecnologia deve ser considerada pelo mundo educativo como uma aliada estratégica para apoiar todo o processo formativo.

De facto, em anos anteriores, Narcis tinha desenvolvido um projecto educativo baseado nas Novas Tecnologias da Informação e no conceito de rede, chamado “Atlas da Diversidade”, projecto que lhe levou a ser seleccionado, em 2008, como fellow da rede mundial de empreendedores sociais Ashoka, em Espanha.

E é neste contexto que se desenvolve esta pequena empresa familiar, Itinerarium, que propõe desenvolver todo o tipo de projectos de convergência entre realidade virtual e tecnologia móvel.

Comunicar com identidade
Em 2009, a empresa cresce graças ao desenvolvimento de um misto de projectos puramente tecnológicos, com outros que misturam componentes tecnológicos com fins culturais e educativos. Um contrato com uma Fundação empresarial para a implementação de uma plataforma tecnológica de educação em vários países de América Latina transforma a realidade da empresa. Este projecto, de grande envergadura, é uma oportunidade para desenvolver a credibilidade da Itinerarium como agente de transformação educativo. A experiência positiva com a Fundação reforça os componentes sociais da empresa, com colaboradores que fervem com novas ideias para puxar o tema da “nova educação” e transformar o mundo educativo… Não obstante, face a um cartão-de-visita de “empresa”, o mundo educativo fecha-se.

Por outro lado, a empresa encontra-se limitada por não ter acedido a determinadas oportunidades financeiras. Narcis tentou valorizar os componentes sociais da sua PME, mas num mundo em que apenas uma percentagem ínfima das PME aderem aos princípios de Responsabilidade Social Corporativa (RSC) – Em Espanha, em Outubro de 2010, umas mil PME tinham efectuado relatórios de Responsabilidade Social graças ao apoio de entidades como a Caixa Navarra e a OCI. Por outro lado 450 PME aderiram ao Global Compact (de um total de 1250 empresas), para um universo de mais de três milhões de PME (99% do tecido empresarial no país) – e onde o estatuto de “empresa social” ainda não existe, ao contrário de outros países como a Grã Bretanha, ninguém acredita que uma empresa possa ter uma vocação social. As oportunidades crescem, mas as desconfianças persistem.

Ao mesmo tempo, o mercado espanhol começa a abrir-se ao tipo de tecnologias que a Itinerarium comercializa: empresas de transporte, de publicidade ou grandes marcas interessam-se cada vez mais pelos sistemas de geo-localização e realidade aumentada, tanto para melhorar os seus processos logísticos como para abrir uma nova porta ao mundo da publicidade.

Assim, o discurso de Itinerarium não era claro: afinal, era uma empresa tecnológica que vendia aplicações susceptíveis de serem utilizadas para fins puramente comerciais, ou tratava-se de uma entidade social que utilizava a tecnologia para promover o desenvolvimento educativo?

É neste momento chave que a Itinerarium contacta a Stone Soup Consulting para ajudar a empresa a estruturar a sua identidade social, de forma a facilitar o desenvolvimento de novas oportunidades, quer no mundo dos negócios, quer no mundo social. O processo de reflexão estratégica de Itinerarium, depois de dois anos de funcionamento, tinha como pergunta principal: como podemos trabalhar as questões sociais e as questões tecnológicas de forma simultânea, sem despertar as desconfianças de potenciais clientes, no sector social e no sector empresarial?

PME com vocação social
Clarificar o discurso implicou viajar até ao coração da empresa: a sua identidade. No início da viagem, tudo era possível:

  • Transformar a empresa em empresa social modificando os estatutos para incluir a componente “sem fins lucrativos” como parte dos estatutos de uma empresa que funcionaria de facto, como empresa social (pois os benefícios estariam sempre reinvestidos no projecto social), ou
  • Transformar a empresa em Fundação, e desenvolver projectos de carácter social utilizando as ferramentas tecnológicas, mas deixando a outros o trabalho de comercializar aplicações tecnológicas de última geração para fins meramente comerciais, ou
  • Criar um departamento de Responsabilidade Social na empresa, que se encarregaria de desenvolver os projectos mais sociais, enquanto a empresa se focalizaria no desenvolvimento dos componentes mais comerciais, ou ainda
  • Desenvolver uma estrutura dupla: uma empresa e uma Fundação empresarial, para separar de forma mais clara os projectos sociais e educativos dos projectos comerciais e tecnológicos.

O próprio processo colocou à luz as expectativas diferenciadas dos diferentes colaboradores de Itinerarium face ao futuro da empresa: enquanto Narcis queria focalizar a intervenção em projectos educativos, outros na empresa familiar queriam apostar mais na comercialização ou distribuição pura das aplicações tecnológicas. Depois de um processo intenso de diálogo interno e de sessões de reflexão conjuntas, a última opção apareceu como a mais viável.

É assim que, no final do ano 2010, depois de seis meses de trabalho num processo de redefinição, nasce a Fundação Itinerarium, que “recupera” os projectos sociais que até agora a empresa encetava e desenvolve novos, como é o caso do Sport Ethical Seal, um projecto de educação em valores através do desporto. Esta dupla entidade pretende ultrapassar a tensão entre o todo social e o todo comercial, criando sinergias entre os projectos desenvolvidos em ambas as estruturas, permitindo um maior aproveitamento dos recursos existentes, tanto na Fundação como na empresa.

2011, o ano de implementação do projecto da Fundação será estratégico para criar as bases dessas sinergias enquanto se comunica claramente aos públicos os objectos diferenciados das duas entidades.
A experiência de Itinerarium ilustra uma problemática comum em Espanha e em Portugal: se, por um lado, cresce o número de pessoas interessadas em utilizar a lógica de mercado para transformar determinadas realidades sociais, por outro lado, ainda não existe a estrutura jurídica de “empresa social”, nem uma cultura que entende facilmente que uma PME possa ter vocação social. Não obstante, esta experiência também demonstra que a Responsabilidade Social não é só uma questão para grandes empresas; na prática, existe uma grande variedade de opções para que as PME possam ser, também, socialmente responsáveis. Dados os recursos limitados de uma PME, ser responsável não pode implicar duplicar esforços ou criar estruturas independentes. Para a Itinerarium, como para outros, o desafio é criar suficientes sinergias entre as suas actividades sociais e económicas para que estas se reforcem mutuamente, aumentando assim o seu impacto económico, ao mesmo tempo que o social.