Não sabemos o que vai ser o futuro, onde vamos estar, o que vamos fazer. A vida traz-nos, sempre, muitas surpresas e a ética, na prática será sempre, como afirmava Gilles Deleuze, “estar à altura do que nos acontece”. Para isso é importante reflectir, sobre o mundo e sobre si próprio, conhecer os seus ideais e, acredito, escrevê-los
POR ANA ROQUE

Se dúvidas houvesse de que ética e sustentabilidade estão profundamente ligadas e que jamais existirá sustentabilidade sem ética, essas dúvidas ficaram dissipadas no recente escândalo da Volkswagen (e de muitas outras marcas, na medida em que a Volkswagen é apenas a ponta do iceberg que nos permite seguir o fio da meada): há uma lei difícil de cumprir, há objectivos ambiciosos, há uma outra empresa, a Bosch, que diz ter afirmado, em 2007, que a manipulação era ilegal e há os engenheiros da Volkswagen que afirmam saber o que se passava desde 2008, mas que tinham receio de falar com o CEO.

Era meu costume falar disso com os meus alunos de engenharia, antes de falarmos de uma outra questão problemática para os engenheiros, a obsolescência programada. É uma questão que tem provocado muita discussão nas associações de engenheiros de todo o mundo: “desde 1950, que a obsolescência programada se tornou rotina e é uma questão ética para os engenheiros desenhar deliberadamente produtos de qualidade inferior” (Sharon Beder, 1988).

Também conversávamos sobre a dívida ambiental que nós, Europa e Estados Unidos, temos com os países do Sul, sobre a qual, e tal como refere o Papa Francisco na Carta Encíclica Laudato Si, falamos muito menos do que devíamos: “A dívida externa dos países pobres transformou-se num instrumento de controlo, mas não se passa o mesmo com a dívida ecológica”. Olhávamos as imagens daqueles “campos” de lixo informático e tecnológico, sementes de uma terra estéril, não como algo distante, mas como parte de uma cadeia do valor que alguém, provavelmente um engenheiro, tinha desenhado.

Estamos habituados a um jogo, o “jogo do mais”, que tem determinadas regras e que jogamos há demasiado tempo, sendo muito difícil fazer a passagem que preconiza Annie Leonard para “o jogo do melhor” – melhor saúde, melhor educação, melhores produtos, melhores serviços. Ainda não descobrimos como é que se faz, sem perdermos o fundamental daquilo que queremos ter.

A solução pode passar, por exemplo, por uma abordagem mais abrangente da eficiência. Geralmente considera-se que “quanto maior produção em relação às entradas maior a eficiência” (Robertson, 2007, p. 31), mas o conceito pode ter em conta outros aspectos como: “os rácios entre o valor calorífico dos alimentos produzidos e os materiais usados para os produzir, ou entre a quantidade de alimentos produzidos e a superfície da terra ocupada” (Robertson, 2007, p. 31). Ou seja, calcular, ter em conta todo o ciclo de vida de um produto.

São questões complexas, questões em que não é fácil argumentar e para as quais um professor não tem, nem pode ter, a verdade toda, até porque, como refere Martha Nussbaum, e eu estou inteiramente de acordo com ela, nós não queremos criar “servos confiáveis” seja de que ideologia for, mesmo de uma boa, mesmo do desenvolvimento sustentável. O que nós queremos, o que o desenvolvimento sustentável precisa é de pessoas que saibam pensar e de pessoas responsáveis.

Isso é especialmente verdade no caso dos engenheiros. A engenharia é, desde sempre, considerada uma “profession of trust”. Os engenheiros são profissionais em que temos de confiar, porque o seu trabalho se reveste de uma tal complexidade, que só pode ser avaliado pelos próprios ou por pares e a sua acção pode ter actualmente um impacto capaz de pôr em causa futuro da humanidade (não quer dizer que antes não houvesse engenheiros que pudessem fazer isso, mas hoje são muitos mais).

É aliás essa a razão porque, no século passado, Hans Jonas defende o Principio da Responsabilidade, um novo imperativo categórico, segundo o qual o homem deve “actuar de forma a que os efeitos de suas acções sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana genuína”. Esse é um desafio para os engenheiros e é missão dos professores, parece-me, e de todos os que participam na sua educação, mesmo já em contexto laboral, não permitir que o Homo faber que está em nós se sobreponha ao Homo sapiens onde reside toda a nossa esperança.

É uma corrida contra o tempo. “O homem moderno não foi educado para o recto uso do poder, porque o imenso crescimento tecnológico não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano, quanto à responsabilidade e aos valores da consciência. (…) Neste sentido ele está nu e exposto frente ao seu próprio poder que continua a crescer, sem ter os instrumentos para o controlar (…) carece de uma ética sólida, de uma cultura e de uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro de um lúcido domínio de si” (Papa Francisco, 2015, p. 98).

E, neste contexto, qual é a missão do professor? Em meu entender é como dizia Agostinho da Silva, é a de suscitar dúvida nos alunos: “suscite perguntas e inquietações pelo conhecimento”. Ninguém ensina ninguém.” A missão de um professor é, assim, a de ajudar a abrir os olhos e aumentar o alcance da visão, as variáveis em que o aluno está predisposto a pensar, o raciocínio critico, porque depois é com cada um deles – “O homem vê, atende e opta; eis o momento ético” (Coimbra, 2006, p. 276).

No último teste das minhas aulas pedi aos alunos que imaginassem que aquele seria o seu último dia antes de saírem da universidade e que deveriam escrever um compromisso perante a escola, os professores, os colegas e a sociedade. Deveria ser um compromisso pessoal, que estivessem dispostos a ler perante todos.

Saí do teste com 60 folhas de compromissos e li-as de seguida ao chegar a casa. Havia compromissos espantosos. Apetecia-me fazer cartazes com eles. No final do ano escrevi uma carta aos alunos a perguntar se os podia publicar, alguns disseram que sim. Um deles, que agora está na Argentina, escreveu o seguinte compromisso:

  • As a professional engineer I have a commitment to make my best behavior with all the values I have been taught through these years not only in school and university but also by my parents. (…) I will be representing myself firstly as an individual and secondly representing the company’s culture and community. Loyalty to myself and to my believes and loyalty to the company. I will not work for any company which I don’t believe has a good ethical reputation (…)
  • I will try to promote sustainable consumption and development for the future generations. The world is not conscious that we are dealing with scarce natural resources and it is our duty to make a change in this.
  • My professional life should be a mirror of my personal life and as so it should follow the same ethical pillars and standards.

Não sabemos o que vai ser o futuro, onde vamos estar, o que vamos fazer. A vida traz-nos, sempre, muitas surpresas e a ética, na prática será sempre, como afirmava Gilles Deleuze, “estar à altura do que nos acontece”. Para isso é importante reflectir, sobre o mundo e sobre si próprio, conhecer os seus ideais e, acredito, escrevê-los.

Depois, é com cada um de nós. Como dizia muitas vezes aos alunos: I hope you dare to be great.

Nota: A opinante optou por não traduzir os “compromissos” dos seus alunos, visto que as aulas são ministradas em inglês.

Bibliografia
Coimbra, L. (2006). A Luta pela Imortalidade. In L. Coimbra, Obras Completas III (1916-1918) (p. 236). Lisboa: Imprensa Nacional- Casa da Moeda.

Leonard, A. (05 de Julho de 2016). The Story of Solutions. Obtido de The Story of Stuff: http://storyofstuff.org/movies/the-story-of-solutions/

Papa Francisco. (2015). Carta Encíclica Laudato Si. Braga: Editorial A.O.

Robertson, J. (2007). Transformar a Economia – desafio para o Terceiro Milénio. Águas Santas: Edições Sempre-em-pé – Cadernos Shumacher para a sustentabilidade

Sharon Beder, ,. N. (Novembro de 1988). Is planned obsolescence socially responsible? Engineers Australia, p. 52.