O VER pediu a uma dezena de empresas, todas elas certificadas como entidades familiarmente responsáveis e ao abrigo do programa efr promovido pela ACEGE, para partilharem o que estão a fazer para ajudar os refugiados ucranianos chegados a Portugal, bem como outras iniciativas que transcendem as nossas fronteiras. Porque são organizações de pequena, média e grande dimensão, operando em sectores distintos, são igualmente distintas as suas formas de ajuda, sendo que é preciso não esquecer que a solidariedade não pretende ser mensurável, mas sim eficaz
POR HELENA OLIVEIRA

De acordo com a última actualização feita pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), Portugal concedeu, e desde o início do conflito iniciado pela Rússia em território ucraniano, mais de 24 mil pedidos de protecção temporária por parte de cidadãos ucranianos e estrangeiros residentes no país em guerra. Destes, 8650 são menores e representam 35% do total de refugiados que escolheram Portugal como país de acolhimento. Neste ataque condenado pela generalidade da comunidade internacional, estima-se que os confrontos bélicos tenham provocado a fuga de mais de 10 milhões de pessoas, com cerca de 3,8 milhões a refugiarem-se em países vizinhos a juntar aos quase 6,5 milhões de deslocados internos. Adicionalmente, estimativas da ONU apontam para que cerca de 13 milhões de pessoas necessitem, com urgência, de ajuda humanitária. Todavia, se em muitos casos pouco ou nada se pode fazer por estas pessoas, a situação na Ucrânia gerou, em simultâneo, uma onda de solidariedade global, sendo variadas as respostas por parte de governos, organizações sem fins lucrativos, associações de solidariedade social, empresas, entre outras.

Em Portugal, para além da ajuda governamental e de muitas entidades de solidariedade social, também as empresas têm estado a encetar esforços para, e na medida em que lhes é possível, ajudar à integração destes novos refugiados ou simplesmente prestando-lhes auxílio, seja através da angariação de bens de primeira necessidade e de donativos, mas também já com medidas especificamente pensadas para dar resposta a esta emergência humanitária.

Apesar de, e felizmente, serem muitas as organizações que se juntaram a esta causa, o VER pediu a 10 empresas, todas elas certificadas como entidades familiarmente responsáveis e ao abrigo do programa efr promovido pela ACEGE, para partilharem o que estão a fazer neste âmbito, na medida em que as mesmas não só estão mais despertas e dispostas a lutar pelo bem-estar dos seus colaboradores, como também pelo bem dos que lhes são “externos”. Porque são empresas de pequena, média e grande dimensão, operando em sectores distintos, são igualmente distintas as suas formas de ajuda, sendo que é preciso não esquecer que a solidariedade não é mensurável. Vejamos então algumas das iniciativas que estas 10 empresas estão a realizar e que servem, esperamos nós, para gerar um movimento de “contágio solidário” extensível ao maior número possível das suas congéneres.

Do apoio jurídico pro bono à ajuda a diferentes organizações na linha da frente do conflito, sem esquecer a possível empregabilidade dos que ficaram sem nada

A sociedade de advogados Morais Leitão optou, e desde o início do conflito, por ter uma resposta firma e respeitadora da dignidade dos direitos humanos, manifestando total solidariedade com os povos ucraniano e russo que, e como sublinha, não se confunde com o respectivo e tirânico líder. Assim, e na medida em que a sua exposição a clientes russos é limitada, não foi necessário mais do que um exercício de compliance interno para sossegar os seus responsáveis, apesar da assessoria jurídica e estratégica que continua a oferecer aos seus clientes nesta matéria e na medida em que se assume como particularmente ciente das suas responsabilidades legais e deontológicas, sociais e corporativas. Adicionalmente, foi criada uma task force para tornar mais eficientes os esforços humanitários que decidiram adoptar, tendo em conta a profusão de pedidos e iniciativas existentes. A sociedade de advogados criou igualmente um fundo destinado a apoiar determinados projectos, tendo já disponibilizado apoio financeiro e material para algumas situações concretas.

Colocando-se à disposição do JRS (Serviço Jesuíta aos Refugiados) e da PAR (Plataforma de Apoio aos Refugiados), a Morais Leitão tem estado a trabalhar em estreita colaboração com a Casafari, para facilitar o match entre ofertas e necessidades, e para prestar o apoio jurídico pro bono que se revele necessário. Complementarmente, e através das redes de sociedades de advogados a que pertencem, a par da sua própria rede com outras pessoas e entidades, tem igualmente conseguido ajudar directamente famílias ucranianas, permitindo o seu acolhimento e integração em Portugal. A Morais Leitão tem estado igualmente atenta à possibilidade de apoiar cidadãos que cheguem da Ucrânia também na vertente profissional, sendo que neste momento existe já a oportunidade de recorrer a serviços prestados pelos mesmos, bem como de lhes disponibilizar espaço para exercício de actividade profissional, mediante uma política específica a acordar nos casos concretos. Acreditando que a guerra em curso não se esgotará nos tempos mais próximos, a sociedade de advogados sublinha que a ajuda que pretende continuar a prestar não pode ser uma tarefa com data marcada, estando já a preparar outros documentos e a estruturar formas de ajuda, para a integração pessoal e profissional de vítimas deste contexto, procurando dar um contributo efectivo e concreto ao qual são chamados.

Já a EDP tem em curso várias medidas e iniciativas para responder à emergência humanitária, envolvendo as suas próprias equipas de voluntários a partir de diferentes geografias, estando já a colaborar directamente com diferentes organizações que se encontram na linha da frente de apoio às vítimas e em particular com a Cruz Vermelha e com os Médicos do Mundo, tendo começado pela entrega de bens de primeira necessidade e de donativos financeiros directos. Por outro lado e devido à sua presença em países como a Polónia, a Roménia e a Hungria, tem mantido contactos regulares com as entidades locais no sentido de avançar com os apoios necessários a localidades junto da fronteira com a Ucrânia, cujo objectivo é responder às dificuldades mais prementes vividas pelos refugiados, através da compra de alimentos, medicamentos e estruturas de suporte.

Adicionalmente, estas iniciativas estão a ser complementadas por ações internas lançadas pelos voluntários da EDP, articulando colaboradores, clientes e parceiros, nos vários países em que a empresa está presente, para a entrega de bens essenciais necessários, dando uma resposta concertada às principais carências identificadas por quem está no terreno.

Em Portugal, está a promover uma frente de apoio a refugiados, o mesmo acontecendo em outros países onde está presente, a qual envolve alojamentos temporários para refugiados ucranianos e o fornecimento de energia a centros de acolhimento. Está igualmente prevista a criação de oportunidades de emprego e o ensino de línguas locais a refugiados em diferentes pontos da Europa onde sejam recebidos, através de parcerias do seu Programa de Voluntariado.

Com o desejo de envolver outras áreas da sociedade no apoio à população ucraniana, está prevista a organização de um fim-de-semana solidário no MAAT, em Lisboa, e também um leilão de arte, promovido pela Fundação EDP, com contributos de artistas parceiros e cujas receitas, em ambos os casos, reverterão para o apoio aos refugiados.

Por seu turno, a CUF Saúde e tendo em conta os valores que lhe estão subjacentes, tem igualmente vindo a acompanhar não só a escalada de tensões em território ucraniano, bem como a situação dos refugiados que chegam a Portugal, estudando iniciativas que possam ser implementadas em prol do seu bem-estar. Para além de ter estabelecido contacto imediato com os seus cerca de 20 colaboradores de nacionalidade ucraniana, que todos os dias trabalham nas suas unidades, apresentando a sua total disponibilidade para os apoiar bem como às sua famílias e da forma que considerarem mais útil e necessária, os esforços desenvolvidos têm sido no sentido de identificar, junto das entidades oficiais e das instituições da sociedade civil, as iniciativas que estão em curso e às quais a CUF se pode associar. Neste âmbito, apresentou a sua disponibilidade ao Instituto de Emprego e Formação Profissional – que, por via da iniciativa Portugal for Ukraine, se encontra a mapear as ofertas de trabalho para refugiados ucranianos – para contribuir para a empregabilidade dos cidadãos ucranianos que estão a deslocar-se para Portugal.

Paralelamente, e no que respeita às instituições da sociedade civil, a CUF encontra-se em colaboração estreita com a Associação GRACE – Empresas Responsáveis, que integra a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) e com a Associação de Solidariedade Anjos de Misericórdia – associação da comunidade ucraniana em Portugal – através da qual a CUF irá doar bens clínicos prioritários que serão enviados para a Ucrânia.

Dos donativos e parcerias às pequenas grandes iniciativas

Apesar de o conflito durar há mais de um mês, são ainda várias as empresas que se encontram a analisar quais as formas mais eficazes de ajudarem os refugiados que chegam a Portugal. Por exemplo, a Aveleda, produtora de vinhos internacionalmente reconhecidos e premiados decidiu, em primeiro lugar, não tomar qualquer posição no que respeita às sanções económicas impostas à Rússia, por acreditar que esta é uma decisão política e não de gestão comercial. Todavia, cedo iniciou uma recolha de donativos junto dos seus colaboradores, tendo igualmente estabelecido um apoio directo às câmaras municipais que estão a acolher refugiados e que pertencem às autarquias nas quais a empresa de vinhos está presente como é o caso de Penafiel, Santo Tirso e S.J. da Pesqueira. Para além do apoio proveniente de bens recolhidos, alimentares, materiais e de mobiliário comprometeu-se igualmente com a ajuda directa (em alguns casos monetária) no recheio das casas de acolhimento dos que fugiram do conflito em curso nas localidades acima enunciadas. Por fim, mas não menos importante, a Aveleda comprometeu-se, via IEFP, a criar 10 vagas para os refugiados ucranianos.

Num sector completamente distinto, a Nippon Gases Portugal, em conjunto com os seus colaboradores, foi rápida na angariação de bens variados que, entretanto, já foram entregues na Polónia. Entre estes bens, de sublinhar a angariação de dispositivos médicos – nomeadamente oxímetros – a par de medicamentos e de outros produtos médicos (compressas, soro  fisiológico, água destilada, e outros), produtos de higiene pessoal e mantas/sacos cama/cobertores.

Para além das iniciativas desenvolvidas em Portugal, o Grupo Nippon Gases (Espanha e Portugal) associou-se também à Cruz Vermelha, propondo-se a angariar dez mil euros entre todos os seus colaboradores, aos quais juntará um contributo de mais 20 mil euros, logo que o primeiro objectivo seja cumprido.

Já a José de Mello Capital optou por fazer uma campanha de angariação de bens alimentares, de higiene pessoal e de roupa, os quais foram entregues na Junta de Freguesia da Estrela, a qual tem tudo organizado para que sejam entregues na Polónia. Adicionalmente, foi igualmente realizada uma doação monetária à JRS – Serviço Jesuíta aos Refugiados, que será utilizada no acompanhamento das famílias ucranianas que cheguem a Portugal sem qualquer rede de apoio ou suporte financeiro., mantendo-se ainda atenta a novos pedidos de ajuda que podem gerar outras iniciativas.

Também a Terra dos Sonhos, organização portuguesa sem fins lucrativos que tem como objectivo promover, de forma continuada, o bem-estar de crianças, jovens e adultos através de programas distintos, disponibilizou o seu espaço para aulas/explicações de português aos refugiados entretanto chegados a Portugal, para além de, e em parceria com o projecto SOUMA, estar a organizar algumas actividades para as crianças e famílias provenientes da Ucrânia.

Apoios seguros

O Grupo Fidelidade, com o apoio do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS Portugal), anunciou a disponibilização de uma linha telefónica de apoio à população ucraniana refugiada em Portugal e forçada a fugir do seu país. O  atendimento será exclusivamente em ucraniano e a linha telefónica da Fidelidade Assistance (214 238 426) irá funcionar todos os dias úteis, entre as 08h e as 20h, com o objectivo de dar assistência no imediato e orientar a população ucraniana que chega a Portugal, ajudando-a na sua língua de origem e encaminhando-a de acordo com as suas necessidades para o Serviço Jesuíta aos Refugiados.

Adicionalmente e com o Serviço Jesuíta aos Refugiados, o Grupo Fidelidade está também a prestar apoio humanitário aos cidadãos ucranianos refugiados, em termos de assistência, acolhimento e integração, disponibilizando também um seguro de saúde Multicare para a cobertura do valor das despesas de apoio médico e hospitalar, preferencialmente nas unidades do Grupo Luz Saúde. Foi ainda criado um seguro de fiança, exclusivamente para esta população, em que o beneficiário figura como tomador, com o objectivo de superar obstáculos de acesso pelos cidadãos ucranianos ao mercado de arrendamento privado em Portugal.

Juntamente com a Cruz Vermelha Internacional, o Grupo Fidelidade está ainda a promover a angariação de fundos para apoiar no imediato a população da Ucrânia, tendo desafiado todos os colaboradores das empresas do Grupo a mobilizarem-se para ajudar as famílias sobreviventes dos bombardeamentos no território da Ucrânia. Por cada euro doado por um colaborador do Grupo Fidelidade, a Companhia doará o dobro ao Comité Internacional da Cruz Vermelha, para que, juntamente com a Cruz Vermelha Ucraniana que está no terreno, possa ser dada a melhor resposta às necessidades humanitárias das pessoas e das suas famílias, inclusive aos feridos dos bombardeamentos no território da Ucrânia.

Já a CESCE S.A, – sucursal em Portugal assim como a CESCE S.A em Espanha  – grupo de empresas que oferece soluções integrais para a gestão do crédito comercial e a emissão de seguros e garantias – está a trabalhar internamente e o mais rapidamente possível para que seja desbloqueada a autorização do envio de donativos à Cruz Vermelha em Espanha e à Unicef Portugal nomeadamente para as crianças na Ucrânia – Urgência Crianças Ucrânia.


O VER pediu igualmente ao BPI e ao Santander que partilhassem as suas formas de apoio, bem como as parcerias que já estabeleceram na ajuda aos refugiados ucranianos. Seguem-se as variadas acções em curso.

BPI

BPI VOLUNTARIADO em coordenação com a Protecção Civil de Lisboa

  • Em curso desde 7/3: Recolha de bens essenciais junto de colaboradores, reformados, familiares e amigos para entrega nos edifícios centrais de Lisboa e Porto até 30/3 (renovável se necessário).
  • Em curso desde 11/3: Voluntários para apoio às equipas de triagem e acondicionamento de bens em Lisboa. Participação de 30 voluntários.

Em coordenação com a ENTRAJUDA

  • Em curso: Apoio na construção da plataforma wehelpukraine através do apoio técnico informático fornecido pela Outsystems. Esta plataforma permite juntar quem precisa com quem pode ajudar, numa colaboração que junta a ENTRAJUDA, a Cruz Vermelha Portuguesa, a Federação Portuguesa de Bancos Alimentares, o Serviço Jesuíta aos Refugiados e a Bolsa de Voluntariado.
  • A iniciar a 21 de Março: centralização de apoios de voluntariado na plataforma wehelpukraine: divulgação de inquérito para match entre disponibilidade e necessidades existentes.

Outras iniciativas sociais BPI

  • Em curso: apoio à récita solidária “La Bohème” no Teatro Nacional de São Carlos: atribuídos €20 mil à UNICEF Portugal e Cruz Vermelha Portuguesa para ajudar os refugiados que chegam a Portugal.
  • Em curso: Contacto com os dois colaboradores de origem ucraniana e um outro de origem russa pelos responsáveis das suas equipas e pelo Diretor Executivo de Pessoas e Organização para demonstração de disponibilidade de apoio.

Iniciativas dirigidas a clientes

  • Em curso: Isenção de comissões de transferência para a Ucrânia desde 04.03
  • Contacto estabelecido com a Câmara de Comércio Portugal Ucrânia e apoio solicitado dirigido para a Iniciativa Social Descentralizada.

Iniciativas Fundação ‘la Caixa’

  • Cooperação internacional: apoio de €1 milhão à ACNUR para ajudar às pessoas afectadas pela guerra.
  • Espanha: apoio de €1,5 milhões à Cruz Vermelha destinado a ajudar os refugiados que chegam a Espanha.

SANTANDER

  • Isenção de comissões para transferências internacionais de e para a Ucrânia, em qualquer moeda, de 24 de Fevereiro até o final de 2022;
  • Isenção de comissões da conta básica (serviços mínimos) por 12 meses, para cidadãos ucranianos hospedados em Portugal e que abram conta no Santander Portugal até final de 2022;
  • Atendimento ao cliente – linha de apoio em ucraniano – para que todos os ucranianos possam comunicar com o Banco e explicar suas necessidades.
  • O Santander Portugal e a Cruz Vermelha Portuguesa disponibilizam ainda uma conta bancária para angariação de fundos para apoio humanitário à Ucrânia, permitindo que clientes e não clientes contribuam com doaçõe e com a oferta de assistência humanitária a refugiados ucranianos que buscam acomodações de emergência e forneçam primeiros socorros, alimentos, água, aquecimento e electricidade a pessoas vulneráveis e à população afectada pelo conflito.
  • Um Fundo, através do qual todos os colaboradores podem contribuir com o seu donativo. O Banco dobrará o valor doado, ou seja, por cada doação feita pelos colaboradores, o Santander fará uma doação de igual valor. De acordo com o Santander, nunca foi conseguido um donativo tão elevado por parte dos colaboradores.
  • O Santander Portugal está a limitar ao mínimo a documentação e os procedimentos necessários para a abertura de contas bancárias para refugiados da Ucrânia, agilizando os processos.

Helena Oliveira

Editora Executiva