A confiança na economia nacional está em alta, mas os CEOs exigem a adopção de medidas estruturais para reduzir o défice, uma questão prioritária em 2018 face à baixa dos impostos, de acordo com a mais recente edição do barómetro económico Kaizen. Apesar do crescimento da produtividade e das exportações, os gestores portugueses enfrentam grandes desafios, nomeadamente ao nível dos investimentos necessários para acompanharem as tendências do mercado global: apenas 31% dos gestores afirmam ter uma estratégia de forte investimento na economia digital
POR GABRIELA COSTA

O grau de confiança dos administradores e CEOs das médias e grandes empresas na economia nacional mantém-se em crescimento contínuo desde Fevereiro de 2016. O tecido empresarial em Portugal revela-se cada vez mais optimista, a avaliar pelos resultados da 14ª edição do barómetro económico do Kaizen Institute Portugal, que regista um aumento da confiança e do optimismo dos empresários para um nível de 13,1 valores (numa escala de 20). Trata-se da melhor classificação desde que este barómetro começou a ser realizado, em 2013, acima dos 12,6 valores registados seis meses antes e do anterior melhor resultado (também acima dos 12 valores), em Julho de 2015.

Outra das principais conclusões do estudo económico realizado com o objectivo de sentir o pulso do tecido empresarial português relativamente a temas fulcrais para o desafio e crescimento das empresas e da economia é a prioridade que o Governo deverá dar, em 2018 à adopção de medidas estruturais para reduzir o défice – opção escolhida por 37% dos gestores. Já 21% dos inquiridos defendem que a prioridade do Executivo deverá ser reduzir a carga fiscal; 19% dizem que o mais importante é atrair investimento directo estrangeiro; e outros 19% consideram que a acção governamental deverá concentrar-se, antes de mais, na diminuição da dívida pública. Apenas 1% dos empresários considera que a digitalização da economia deve ser uma prioridade do Governo.

Ou seja, apesar de os níveis de confiança na economia terem atingido um novo máximo, os inquiridos no barómetro Kaizen prevêem a necessidade de mais medidas estruturais por parte do Governo, preferindo cortes no défice à baixa dos impostos em 2018.

Crescimento económico assente em fragilidades

Desenvolvido no âmbito do Barómetro Económico, que reúne actualmente 197 responsáveis de empresas públicas e privadas que representam mais de 30% do PIB nacional e actuam no mercado português em sectores como a indústria, os serviços, a saúde, a logística ou o retalho, esta 14ª edição do inquérito do Kaizen Institute – multinacional japonesa de consultoria e formação que tem origem no sistema de gestão do grupo Toyota e que está em Portugal desde 1999, com escritórios no Porto e em Lisboa – contou com uma amostra de 153 respostas.

[quote_center]Dois terços dos gestores consideram que o crescimento económico se deve a uma melhoria da conjuntura económica internacional, mas poderá divergir da média europeia[/quote_center]

Nos inquéritos, respondidos entre 19 e 23 de Fevereiro pelos administradores e presidentes executivos destas empresas, ressalta que o tecido empresarial tem dúvidas – corroboradas por António Costa, senior partner do Kaizen Institute Western Europe -, relativamente à robustez dos resultados económicos que levaram a Comissão Europeia a rever em alta a previsão para o crescimento do PIB português para 2,7% no conjunto do ano passado; e a antecipar que a economia portuguesa cresça 2,2% em 2018.

E a verdade é que dois terços dos gestores (71%) consideram que o crescimento económico a que o País assiste se deve a uma melhoria da conjuntura económica internacional, mas poderá divergir da média europeia nos próximos tempos. E outros 39% defendem que o mesmo é temporário e assenta em fragilidades, questionando, portanto, a sua sustentabilidade. Somente 9% dos empresários afirmam que esta evolução vai continuar de forma sustentada, e apenas uma minoria de 3% acredita que o crescimento económico em Portugal vai mesmo registar uma aceleração.

Nas palavras de António Costa, que conduz não só as operações do Kaizen Institute em Portugal mas também em Espanha, Reino Unido e França, “as grandes medidas estruturais de ajustamento de défice ainda não foram tomadas. Se forem adoptadas podem deixar o crescimento económico mais robusto para evitar que futuros cenários de crise globais deixem tanta mossa como o último, que nos obrigou a ser intervencionados por externos”. O responsável defende ainda que a captação de capitais provenientes de investimento directo estrangeiro poderá “robustecer o tecido industrial” português e contrariar futuros prejuízos de proveniência externa.

Ainda a nível do crescimento económico, mais de metade (54%) dos responsáveis pelas organizações inquiridas considera que o orçamento de Estado 2018 é neutro a este respeito, face à previsão de 2,2%, em 2018. Uma parcela de 25% considera o OE negativo e outra de 21% considera-o positivo, ao nível do crescimento económico.


Maiores desafios são rentabilidade, modernização, crescimento e competitividade

No que respeita já não à conjuntura externa mas ao desempenho interno das organizações, os empresários que participam no Barómetro Kaizen revelam que a produtividade do trabalho – factor cujo “fraco crescimento” foi apontado pelo Banco de Portugal como uma “preocupação” – evoluiu positivamente. Pelo menos em 50% das empresas incluídas nesta amostra. Em 44% dos casos a produtividade manteve-se inalterada e só em 6% dos casos diminuiu.

Mas há outro factor crítico para o crescimento económico – as exportações – que teve igualmente um desempenho favorável: 57% dos gestores prevê que o nível de exportações em 2018 seja superior ao de 2017; 42% afirma que se manterá no mesmo nível do ano passado; e só 1% espera que diminuam, comprovando as expectativas do Banco de Portugal de que as exportações mantenham um crescimento robusto nos próximos anos.

[quote_center]O maior desafio empresarial para este ano é o aumento da rentabilidade[/quote_center]

Relativamente à tendência do EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization) na respectiva empresa, 51% dos inquiridos afirmam que é crescente, e para 40% estes lucros das actividades operacionais sem considerar impostos e outros efeitos financeiros mantém-se estáveis. Este indicador é, ainda assim, decrescente em 9% dos casos, entre o universo de 153 empresários consultados.

Em geral, o maior desafio empresarial para este ano destacado pelos gestores é o aumento da rentabilidade da empresa (33%). Mas outros grandes reptos são, igualmente, a modernização e a optimização dos produtos e/ou serviços (21%), o crescimento do volume de negócios (20%) e o aumento da competitividade (20%). Para 3% dos respondentes a internacionalização da actividade constitui também um desafio para 2018.

No que respeita à inevitável revolução digital, e apesar de o Conselho Estratégico para a Economia Digital defender que Portugal deve encarar a digitalização da economia como uma inevitabilidade, apenas 31% dos gestores afirmam ter uma estratégia de forte investimento nesta temática. Já 62% dos inquiridos indicam que a estratégia da sua empresa para a economia digital passa pelo investimento moderado, e 7% assumem que não está prevista qualquer estratégia a este nível.

[quote_center]Uns surpreendentes 25% dos empresários portugueses vão começar a investir em Inteligência Artificial já este ano[/quote_center]

Em relação à adaptação dos trabalhadores à revolução tecnológica, 38% dos inquiridos revelam que este tópico não está ainda definido, ao mesmo tempo que 37% afirmam que irão investir no tema nos próximos cinco anos. Ainda assim, uns surpreendentes 25% dos empresários portugueses que participam neste Barómetro adiantam que o seu panorama é começar a investir em Inteligência Artificial já em 2018.

De referir que um estudo apresentado em Davos conclui que as empresas que invistam em Inteligência Artificial e em sistemas que permitam uma colaboração mais eficiente entre o homem e a máquina vão poder potenciar as suas receitas em 38% e aumentar a sua taxa de emprego em 10%. De acordo com o relatório, só 3% dos empresários, a nível global, pretende investir mais na adaptação dos trabalhadores à revolução tecnológica.

Ainda no âmbito desta revolução, o Barómetro que ausculta a economia nacional conclui que apenas um minoria de 27% das empresas se encontram, neste momento, a desenvolver ou a produzir soluções na área das smart cities (ao nível de governação, mobilidade e energia, entre outra áreas), contra 73% de gestores que negam estar a desenvolver soluções nesta área.

A confiança do tecido empresarial no crescimento da economia, que apesar das melhorias registadas precisa de medidas estruturais capazes de garantir a sua sustentabilidade futura, como conclui o estudo económico do Kaizen Institute Portugal, deve, pois, ser acompanhada ao nível da gestão por transformações e investimentos estratégicos decisivos para que as empresas portuguesas consigam responder às tendências do mercado global na era da digitalização da economia.

Gabriela Costa

Jornalista